Paris em Abril / April in Paris

Nota: ★½☆☆

April in Paris, musical da Warner Bros. feito para Doris Day brilhar, tem dois pontos em comum com Cantando na Chuva, da MGM. Os dois filmes foram lançados no mesmo ano, 1952. E ambos levam o título de uma canção que foi criada muito antes deles.

“Singin’ in the rain”, letra de Arthur Freed, música de Nacio Herb Brown, teve sua partitura publicada em 1929 – exatamente a época em que se passa a ação do filme, a transição do cinema mudo para o sonoro, que se deu a partir de 1927.

“April in Paris”, letra de E.Y.Harburg, música de Vernon Duke, é de 1932; foi escrita para um musical da Broadway, Walk a Little Faster.

As duas canções fizeram imenso sucesso, e tiveram dezenas e dezenas de gravações com os mais variados artistas.

As semelhanças entre April in Paris e Singin’ in the Rain, os filmes, terminam por aí. Não poderia haver dois musicais mais diferentes um do outro. O com Gene Kelly, Debbie Reynolds e Donald O’Connor é simplesmente o melhor musical que já foi feito na História do cinema.

Este aqui com Doris Day é seguramente um dos mais bobos de todos os tempos.

Sequer belas paisagens de Paris o filme apresenta

É bobo a não mais poder. O fiapo de história que Jack Rose e Melville Shavelson inventaram para servir de guia condutor entre um número musical e outro é de deixar o espectador roxo de vergonha.

Doris Day é sempre um encanto, seja num thriller (A Teia de Renda Negra, 1960), numa aventura de Alfred Hitchcock (O Homem Que Sabia Demais, 1956), numa comedinha romântica deliciosa (Confidências à Meia-Noite, 1959), numa comedinha romântica boboca (A Espiã de Calcinhas de Renda, 1966), seja em dramas baseados em vidas reais (Ama-me ou Esquece-me, 1955, Êxito Fugaz, 1950).

Doris Day sem dúvida é sempre um encanto – mesmo cercada de atores hoje pouco conhecidos, alguns sem muito talento. Os dois outros atores com papéis importantes no filme, Ray Bolger e Claude Dauphin, me pareceram bastante fracos – embora o primeiro demonstre que sabe dançar e seja muito bom de sapateado.

Poderia haver, como consolo, algumas belas paisagens de Paris no início dos anos 50, poucos anos após o fim da ocupação nazista. Que nada. Há poucas tomadas gerais da cidade – rápidas, nada marcantes. O que vemos é uma tentativa quase patética de recriação de prédios franceses nos estúdios do Warner em Burbank, Norte de Hollywood.

No começo, uma tentativa de ironizar o gigantismo da máquina do Estado

Doris Day, a razão de o filme existir, só aparece depois de uns 10 minutos de ação.

April em Paris começa em Washington, D.C. – três ou quatro tomadas de monumentos e prédios que qualquer pessoa identifica de imediato como sendo a capital federal dos Estados Unidos da América.

Uma placa na porta de uma repartição pública nos informa quem é um dos protagonistas da história: S. Winthrop Putnan, “secretário assistente do assistente do subsecretário de Estado”.

É o papel de Ray Bolger, ator de que eu não me lembrava de forma alguma. Ray Bolger é daquele tipo de ator (pelo menos neste filme aqui) que atua fazendo imensas caretas – como se estivesse não diante de uma câmara que capta todas as suas feições, e sim no meio do picadeiro de um circo, e precisasse portanto exagerar para ser compreendido por quem está nas últimas longínquas fileiras.

Apesar de ser apenas secretário assistente do assistente do vice-ministro de Relações Exteriores, S. Winthrop Putnan namora a filha do próprio secretário de Estado – o secretário, Robert Sherman, é interpretado por Paul Harvey, e sua filha, Maria, por Eve Miller.

E, apesar de ser apenas secretário assistente do assistente do subsecretário de Estado, chega a ter sonhos malucos de talvez quem sabe chegar mesmo à Presidência da República.

Há aí, nos minutos iniciais do filme – ou no mínimo parece haver –, uma tentativa de ironizar o gigantismo da máquina estatal, a imensa burocracia criada na capital federal.

O rapaz do Departamento de Estado comete um erro e convida uma corista

E aí vem o ponto central, fulcral, da trama, o coração da história. S. Winthrop Putnan, o burocrata de terceiro escalão, comete um erro.

Ele está, em nome do Departamento de Estado, preparando a delegação americana que irá participar, em Paris, de um Festival Internacional de Artes. Na delegação vão estar ele mesmo, o secretário de Estado, seu futuro sogro, um grande novelista, um grande dramaturgo e um grande compositor erudito. E, para coroar a equipe, a grande dama do teatrão americano, Ethel Barrymore.

Mas S. Winthrop Putnan comete um erro – e, em vez de enviar o convite para Ethel Barrymore, envia para Ethel S. Jackson, uma corista de shows populares da Broadway, mais conhecida pelo apelido de Dynamite Jackson.

O papel, é claro, de Doris Day, então com 30 aninhos de idade, sucesso como cantora da Grande Música Americana desde que tinha 17 e tornou-se a vocalista da big band de Les Brown. (As gravações da garotinha Doris Day com a orquestra Les Brown são ouro em pó.)

Este April em Paris foi o 14º filme da jovem cantora que se transformou em atriz em 1948. Sim, 14 filmes, entre 1948 e 1952 – e em todos eles com papéis importantes. Ao contrário, por exemplo, para citar apenas um nome, de Marilyn Monroe, que fez pequeninos papéis em diversos filmes até ganhar oportunidades melhores, Doris Day já começou como protagonista.

Em seu quarto filme, Êxito Fugaz/Young Man with a Horn, de 1950, dirigido por Michael Casablanca Curtiz, Kirk Douglas faz o papel de Rick Martin, um dos poucos músicos brancos a se firmar no cenário do jazz dos anos 20, então completamente dominado por negros. Ela faz o terceiro papel mais importante, depois do próprio Kirk Douglas e de Lauren Bacall.

(Aliás, como anotei quando comentei sobre o filme Êxito Fugaz, a gravadora americana Columbia relançou em CD, em 1999, no seu selo Columbia Legacy – All Time Classics, as gravações originais de 1950 feitas para a trilha sonora. O disco, de “Doris Day, Harry James & His Orchestra”, é apresentado como “songs from the Warner Bros. Production” e tem o mesmo título original do filme, Young Man With a Horn. É um espetáculo.)

Em seu filme seguinte, o quinto, Tea for Two, no Brasil No, No, Nanette, ela já era a principal atriz, a protagonista, a Nanette do título brasileiro.

O filme é fraco, mas tem um grande momento: Washington e Lincoln dançam

O diretor de No, No, Nanette/Tea for Two foi o mesmo deste aqui, David Butler (1894-1979), 90 títulos na filmografia, o mais conhecido deles sendo, talvez, Ardida como Pimenta/Calamity Jane (1953), em que a Calamity Jane é interpretada… por Doris Day, claro.

Do diretor David Butler o mestre Jean Tulard diz que fez um bom trabalho de artesão e alguns westerns consistentes.

Neste April em Paris aqui, David Butler fez pelo menos uma grande seqüência, um grande momento. É quando S. Winthrop Putnan, o sub do sub, volta de uma viagem a Nova York, onde foi dar à Dynamite Jackson a terrível notícia de que havia sido em engano, e que ela não vai para o Festival Internacional de Artes de Paris. Só que, chegando à Secretaria de Estado, é chamado pelo secretário e futuro sogro, que o cumprimenta pela genial idéia de convidar uma chorus girl para representar o teatro americano na França. Que grande idéia, comemora o secretário: os jornais estão elogiando, pegou bem pra burro convidar uma pessoa simples, humilde, corista da Broadway; os sindicatos estão adorando, todo o poder ao povo humilde, simples, trabalhador.

E então o burocratinha até ali bobo, pequeno, diminuto, se enche de esperanças de vir a ser, quem sabe, candidato a senador ou até mesmo, por que não?, presidente da República – e S. Winthrop Putnan se põe a dançar nos amplos salões ocupados pelo secretário de Estado. E, como foi dito, o tal Ray Bolger como ator é um pavor, mas sabe dançar, e é ótimo sapateador.

E aí vem a grande sequência, o melhor momento do filme.

Pendurados na parede, estão dois imensos retratos de corpo inteiro e tamanho natural de George Washington, o primeiro presidente dos US of A, e Abraham Lincoln, o 16º e um dos três ou quatro mais importantes de todos.

E então, enquanto S. Winthrop Putnan dança e sapateia, George Washington e Abraham Lincoln, dentro dos grandes quadros, tomam vida e dançam também.

Doris Day escreveu que o diretor e o ator Ray Bolger brigaram o tempo todo

Mais tarde, haverá, com o mesmo Ray Bolger e com a própria Doris Day, belas sequências de dança, na gigantesca cozinha do não menos gigantesco transatlântico que leva a troupe americana para a França.

Essas sequências, e a presença de Doris Day na tela, acabam fazendo valer o filme – mesmo sendo a trama tão absolutamente boba.

Ah, mas é boba demais. Quando a gente pensa que não dá para ficar mais boba, vem nova situação mais boba ainda.

Uma porcaria, sem dúvida – mas com uma bela, inventiva sequência, alguns bons números de música e dança, e o charme envolvente de Doris Day.

Na sua autobiografia, segundo o IMDb, ela escreveu que só enfrentou problemas ou tensão em dois dos filmes que fez durante seu período na Warner Bros – Corações Enamorados/Young at Heart, em que contracena com Frank Sinatra, e este April em Paris. Ray Bolger e o diretor David Butler – escreveu ela – se bateram de frente desde o início das filmagens, com o diretor acusando o ator de tentar roubar as cenas em que aparece ao lado da estrela. A própria Doris teria, segundo conta, tentado ficar fora da linha de fogo entre os dois.

Aparentemente, conseguiu.

Leonard Maltin deu ao filme 2.5 estrelas em 4: “Burocrata do corpo diplomático que está tentando melhorar as relações franco-americanas se apaixona por uma showgirl que por engano foi escolhida para aparecer no show April in Paris que ele está montando. Musical medíocre da Warner Bros. sustentado pelas personalidades de Day e Bolger – que fazem um casal romântico inconvincente”.

Concordo com o tom com que Maltin trata o filme, mas na sinopse ele errou feio ao falar que o burocrata está montando um show chamado April em Paris. Isso não existe.

O Guide des Films de Jean Tulard não incluiu este “musical medíocre” entre os 15 mil filmes que analisa. O Petit Larousse des Films também o ignorou.

O livro The Warner Bros. Story diz que o completo desprezo de Ray Bolger pelos demais atores resultou numa interpretação auto-complacente que tirou qualquer plausibilidade do caso de amor entre o personagem dele e o de Doris Day; e que Sammy Cahn e Vernon Duke escreverem “canções indiferentes”.

É. Não é um filme que tenha deixado marcas profundas.

Anotação em janeiro de 2017

Paris em Abril/April in Paris

De David Butler, EUA, 1952

Com Doris Day (Ethel S. Jackson, a Dynamite Jackson) e

Ray Bolger (S. Winthrop Putnam), Claude Dauphin (Philippe Fouquet), Eve Miller (Marcia Sherman), George Givot (François), Paul Harvey (secretário Robert Sherman), Herbert Farjeon (Joshua Stevens), Wilson Millar (Sinclair Wilson), Raymond Largay (Joseph Welmar), John Alvin (Tracy), Jack Lomas (motorist de táxi)

Argumento e roteiro Jack Rose e Melville Shavelson

Fotografia Wilfred M. Cline

Música Ray Heindorf e Howard Jackson

Canções Vernon Duke-Sammy Cahn

Canção “April in Paris” Vernon Duke-E.Y.Harburg (1932)

Montagem Irene Morra

Produção William Jacobs, Warner Bros. DVD M.D.V.R.

Cor, 100 min

*1/2

Título na França: Avril à Paris.

Um Comentário

  1. Senhorita
    Postado em 24 maio 2017 às 6:53 pm | Permalink

    Bom, se Doris canta, faço o esforço de assistir um dia – principalmente agora, depois de ver o Espantalho do Mágico de Oz tão desmoralizado nos autos cinematográficos rsrsrsrs

Um Trackback

  1. […] virou atriz. Em Tea for Two, o segundo dos seus seis filmes na Warner Bros sob a direção de David Butler, então, pôde mostrar que, ferimentos curados, também sabia […]

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