O Sentido do Fim / The Sense of an Ending

Nota: ★★★☆

É do tipo de filme que de fato importa: fala de pessoas comuns, relações afetivas, a vida o amor a morte. Conta a história de homem de 60 e tantos anos que, de repente, a partir de um acontecimento fortuito, passa a se lembrar de fatos que aconteceram quando era bem jovem, ainda adolescente, entrando na idade adulta – fatos sobre os quais ele não tinha voltado a pensar durante décadas.

As lembranças vão dominando cada vez mais seus pensamentos, e o homem passa a ficar obcecado por elas – e pelos sentimentos e sensações que elas fizeram aflorar.

Como é um filme inglês – há muito estou convencido de que o melhor cinema que se faz no mundo nas últimas décadas é o das Ilhas Britânicas –, tem atores maravilhosos. Não poderia ser diferente: é uma beleza.

E é fascinante ver que o realizador é um jovem indiano, nascido (em 1979) e criado em Mumbai, ex-Bombaim. Um indiano, jovem, que antes deste O Sentido do Fim só havia feito um único longa-metragem – e no entanto Ritesh Batra fez um filme inglesérrimo, sobre gente idosa, com imenso talento, sensibilidade e um domínio de linguagem que só se pode esperar de cineastas experientes.

Numa entrevista dada quando o filme foi apresentado num festival em San Francisco, Ritesh Batra contou que, antes do início das filmagens, tomou um chá com Julian Barnes, o autor do romance The Sense of an Ending. Estava tão absolutamente nervoso que, depois do encontro, não conseguia se lembrar de nada do que haviam conversado – a não ser a frase que o escritor disse quando se despediam, em tom brincalhão: – “Vá em frente e me traia”.

Não conheço o livro O Sentido de um Fim, lançado na Inglaterra em 2011 e publicado no Brasil pela Rocco, mas não creio que Ritesh Batra e seu roteirista Nick Payne tenham traído o espírito da obra.

E devo dizer: depois que escrevi os parágrafos acima, li algumas frases do livro que estão na internet – e senti que de fato o filme é bastante fiel. Há frases de Julian Barnes que estão inteiras no filme.

(Sim: o título do livro em português foi O Sentido de um Fim, mais literal que o do filme, O Sentido do Fim.)

“Você quer que suas emoções mudem inteiramente sua vida”

O filme começa com a voz em off de Jim Broadbent, esse maravilhoso ator de tantos belos filmes – ele interpreta Anthony Webster, o protagonista da história.

– “Não tenho interesse nos meus dias de escola, nem tenho saudade deles. Mas me lembro do sexto ano.”

Vemos um grupo de alunos de típica boa escola inglesa dos anos 50, iniciozinho dos 60, sentados num amplo salão. Entra um professor para fazer uma saudação – é o primeiro dia de um novo ano letivo. A câmara focaliza em primeiro plano um rapaz é obviamente o narrador quando jovem – o jovem Tony Webster é interpretado por Billy Howle.

– “Naqueles dias, nós nos imaginávamos trancafiados em um tipo de jaula, à espera do momento em que seríamos soltos para nossas vidas. E quando esse momento chegasse, estaríamos na universidade.”

Vemos agora o jovem Tony Webster caminhando através dos aposentos de uma casa em que rola uma festa de jovens – festa de jovens ingleses pré-Beatles, todo mundo de paletó, bem arrumadinho.

– “Como poderíamos saber que nossas vidas já tinham começado, e que nossa soltura seria apenas numa jaula maior? E, depois, numa jaula ainda maior? Quando você é jovem, você quer que suas emoções sejam como aquelas sobre as quais você lê nos livros.”

Nesse momento, Tony saiu da casa em que rola a festa. Diante dele, sentada no chão, está uma garotinha loura (a atriz que interpreta a garotinha é Freya Mavor, na foto abaixo, com Billy Howle, que faz o jovem Tony).

– “Você quer que suas emoções mudem inteiramente sua vida, que criem e definam uma nova realidade.”

Vemos agora um despertador que começa a tocar. São 7 horas da manhã.

– “Mas, enquanto os ponteiros insistem em girar, o tempo leva você à meia idade, e à terceira idade.”

Vemos os pés de um homem velho que saem da cama e procuraram os chinelos no chão.

– “E então você quer algo mais suave – não é? Você quer que as emoções dêem apoio à sua vida como ela se tornou. Você quer que elas digam que tudo está certo. E há algo errado nisso?”

Vemos pela primeira vez o rosto de Anthony Webster adulto, um senhor de 60 e tantos anos – o rosto de Jim Broadbent.

Tony tem uma loja que vende e conserta antigas máquinas Leica

Vão entrando os créditos iniciais, os nomes dos vários atores que veremos em seguida, enquanto acompanhamos momentos da rotina matinal de Tony Webster na terceira idade. Coloca para tocar um CD de música erudita, prepara seu café. Lê o jornal, e encontra lá, publicada, a carta que havia enviado, comentando uma afirmação qualquer feita dias antes pelo jornal acerca dos hábitos dos motoristas de Londres.

No momento em que Tony está saindo do pequeno sobrado em que vi e obviamente sozinho, chega um carteiro, Ao longo do filme, vamos ver esse mesmo carteiro, Danny, várias outras vezes – ele é interpretado por Nick Mohammed. Há uma carta registrada – Tony tem que assinar acusando o recebimento.

Mete a carta registrada no bolso, e começa a caminhada até o trabalho. Mora bem – entre sua casa e o trabalho, atravessa um daqueles magníficos parques da bela Ilha do Norte.

Vemos então que Tony tem uma loja de venda e conserto de máquinas fotográficas. Estamos nos dias de hoje, e a pequena loja de Tony é de venda e conserto de máquinas fotográficas daquelas de antigamente, dos filmes que tinham que ser revelados. Mais ainda: ele vende e conserta máquinas Leica, as antigas máquinas Leica, que eram a paixão de quem tinha paixão por fotografia nos anos 50, 60, a época longínqua do passado em que o garoto Tony, ao sair de dentro da casa em que se realizava uma festa, conheceu a moça loura que estava sentada no chão.

Eu tive uma Leica.

Sou exatamente da geração de Julian Barnes, o autor do romance em que o filme se baseia. (Ele é de 1946, um pouquinho mais velho que eu.) Exatamente da mesma geração de Jim Broadbent, que interpreta Tony Webster. (Ele é de 1949, um ano antes de mim.)

Quando eu era um pouquinho mais velho que Tony na época em que ele conheceu Veronica Ford, a garotinha loura, comprei uma Leica do editor de fotografia do Jornal da Tarde, que a gente chamava de Mamãe Fotóptica. Tirei com ela belas fotos de Suely, a menina linda que conheci naquela época e me deu minha filha única.

“When you’re young – when I was young – you want your emotions to be like the ones you read about in books”, escreveu Julian Barnes. “You want them to overturn your life, create and define a new reality.”

A filha e depois os amigos dizem que Tony precisa chegar ao século XXI

A filha única de Tony, Susie, de 36 anos, está grávida de uns 8 meses. (Ela é interpretada por Michelle Dockery, a Lady Mary de Downton Abbey.) Faz um daqueles cursos de grávida moderna, alternativa, descolada, e, num dia em que a mãe não pode acompanhá-la, por ter tido um acidente com o pé, leva o pai. E presenteia o pai com o primeiro smartphone da vida dele, com o cumprimento: – “É hora de chegar ao século XXI”.

Ela comentará também que ninguém mais hoje em dia escreve cartas. E o espectador havia visto que Tony escreve cartas até para o jornal.

Bem mais tarde, veremos que, embora tenha computador em casa, com uma boa impressora multi-uso, Tony não é um sujeito ligado nas redes sociais. Os antigos amigos dos tempos de colegial Colin Simpson e Alex Stuart, que ele não via fazia décadas, vão demonstrar, no próprio computador dele, como é fácil localizar pessoas usando as redes sociais. E um deles vai repetir a mesma frase da filha Susie: – “Bem-vindo ao século XXI”.

(Colin Simpson é interpretado por Peter Wight; quando jovem, por Jack Loxton. Alex Stuart é feito port Hilton McRae e, quando jovem, por Timothy Innes. Os dois personagens aparecem como senhores idosos apenas em duas sequências; como jovens, aparecem várias vezes, nos flashbacks.)

Sim, Tony Webster de fato não parecia viver em pleno século XXI, quando a ação começa. Um sujeito que vende e conserta câmaras Leica, ainda usa celular que não tem tela e não trafega pelas redes sociais. E ainda escreve cartas e vai ao Correio postá-las.

Ao longo dos meses que se seguirão à chegada daquela carta, Tony Webster vai passar por situações inéditas em sua vida. Vai mudar. Volto a falar disso mais adiante.

Tony demora bastante para abrir a carta que recebeu ao sair de casa

A carta, a carta registrada, ou seja lá que tipo de coisa for na Inglaterra o que para nós é uma carta registrada.

Tony demora a abrir a carta. Chega a ser até mesmo um tanto irritante como o roteirista Nick Payne vai adiando o momento em que finalmente Tony abre a carta. Como ele a recebe já do lado de fora de sua, saindo para o trabalho, não a abre imediatamente – coloca num bolso. Uma vez dentro de sua pequena loja (na qual trabalha sozinho, sem ajudante, sem auxiliar qualquer), dá uma olhada na correspondência que chegou ali – coisas sem importância, propagandas, panfletos. Vai abrir o tal envelope no momento exato em que entra um possível comprador na loja – e então ele deixa a carta de lado.

É nesse momento que terminam os créditos iniciais, que foram rolando mansamente, sem pressa, ao longo da rotina matinal de Tony.

Primeiro vemos Tony indo até a casa da filha Susie, levando-a à aula do curso de grávidas modernas, alternativas, descoladas, e depois levando-a de volta até a casa dela. Susie pede que ele a espere um pouquinho no carro enquanto ela vai pegar algo em casa que quer dar para ele. O presente será exatamente um iPhone, que ela entrega para ele convidando-o a chegar ao século XXI e explicando que, como está prestes a dar à luz, e a mãe está com o problema no pé, ela precisa muito estar em contato com ele.

No breve momento em que Tony fica esperando a filha entrar em casa e voltar com o presente, ele finalmente abre a carta. A câmara mostra a carta – não dá de forma alguma para ler o texto, mas é possível ver, se o espectador estiver bem atento, que a carta, escrita em computador, é claro, tem apenas uma página, e, no alto, há três nomes com um & entre o penúltimo e último. Obviamente um escritório de advocacia. Fulano, Sicrano & Beltrano.

Surge uma tomada bem rápida, uma mulher jogando uma frigideira dentro de uma pia. Coisa de uns pouquíssimos segundos – um flash que veio à memória de Tony naquele momento, é claro.

Susie chega perto dele, a barriga imensa, entrega o iPhone de presente.

Estamos com 12 minutos de filme.

Ao morrer, Sarah Ford deixa um diário para Tony – mas ele não consegue receber o presente

Tony escreve uma carta para o tal escritório de advocacia. Corta, e pouco depois o carteiro Danny entrega a ele um envelope grande, dentro do qual há um envelope menor. Tony retira a carta que está no envelope menor quando está ainda sentado à mesa para o seu café da manhã. Ouvimos uma voz feminina – a da autora da carta, obviamente – ler o conteúdo para Tony e para nós, os espectadores.

Começa assim: – “Caro Tony, acho que o certo é que fique com você o anexado. Adrian sempre falou bem de você, e talvez você ache que essa é uma lembrança interessante, embora dolorosa, de algo passado há muito tempo.”

Em seguida, a missivista diz na carta que também deixou algum dinheiro para Tony, embora nem ela mesma saiba muito bem por que motivo. E termina: – “Eu lhe desejo tudo de bon, mesmo além do túmulo. Sarah Ford. PS: Pode parecer estranho, mas os últimos meses de vida dele foram felizes.”

Se o espectador for extremamente atento, e for um cinéfilo inveterado, e tiver visto muitos filmes ingleses (e também americanos) recentes nos últimos anos, poderá identificar a voz feminina que lê a carta para Tony, a voz dessa Sarah Ford, como a de Emily Mortimer (na foto acima), essa jovem e fascinante atriz de tantos bons filmes.

Enquanto a voz em off de Sarah Ford-Emily Mortimer lê a carta endereçada a Tony que fala de um Adrian, surge, numa tomada muito rápida, mas muito rápida, a figura de um jovem louro, de óculos, que chega atrasado a uma cerimônia no colégio. Essa mesma figura já havia aparecido bem na abertura do filme, durante as primeiras frases que ouvimos faladas por Anthony Webster-Jim Broadbent.

Tony vai ao escritório de advocacia que havia mandado as duas correspondências para ele. Reclama que a carta deixada para ele por Sarah Ford faz menção a um item atachado, anexado – mas ele não recebeu tal item.

A advogada, interpretada por Karina Fernandez, é fugidia como um peixe ensaboado, ou como uma advogada, o que talvez dê no mesmo. Diz que não está de posse do item. Tony argumenta que, em seu testamento, Sarah Ford deixou o item para ele. Peixe ensaboado, a advogada diz que pois é, pois bem, veja só, coisa e tal. Tony insiste. O peixe ensaboado acaba confessando que o item que deveria estar anexado à carta é um diário. – “O diário de Sarah Ford?”, ele pergunta, para advogada responder que isso ela não sabe.

E onde raios está o diário?

Com a executora do testamento. A filha de Sarah Ford.

– “Sim, Veronica”, diz Tony. E então ele pede o endereço, o telefone de Veronica. – “Perdão”, diz a advogada, “mas não temos a autorização…

Estamos aqui exatamente com 16 minutos de filme.

Veronica, claro, é a lourinha que já vimos, que o jovem Tony conheceu quando saiu da casa da festa.

Tony se dá bem com a ex-mulher – mas nunca havia contado para ela sobre Veronica

Na sequência seguinte, Tony está num restaurante com Margaret (Harriet Walter, na foto acima), sua ex-mulher, a mãe de sua filha Susie, contando sobre aqueles acontecimentos recentes, mostrando para ela as cartas que havia recebido do escritório de advocacia que representa Veronica e que cuidou do testamento de sua mãe, Sarah.

Veremos que Tony e Margaret têm uma relação simpática, agradável – ao contrário de muitos casais divorciados, os se dão basicamente bem, se respeitam, se gostam, se vêem de vez em quando. Têm uma filha que está para lhes dar um neto, afinal… Tiveram problemas no passado – e dá para perceber que os problemas do casal se deveram basicamente a ele, sujeito cabeça dura, teimoso, chato. Mas são capazes de ter uma boa convivência – ainda bem.

No entanto,Tony jamais havia contado para Margaret sobre Veronica, a namorada da juventude. Nada, absolutamente nada, coisa alguma. Nem, naturalmente, sobre Sarah, a mãe de Veronica, que, ao morrer, deixou para ele um cheque e um diário – o qual ele não recebeu porque não estava de posse dos advogados de Veronica, a executora do testamento da mãe.

Muito menos sobre Adrian, que Sarah menciona em sua carta a ser lida postumamente. Adrian, o rapaz louro de óculos, bonito, que o filme mostra duas vezes nos seus primeiros 15 minutos em tomadas rapidérrimas, chegando atrasado a uma cerimônia no colégio em que estudavam Tony e seus amigos Colin Simpson e Alex Stuart.

Adrian Finn é interpretado por Joe Alwyn. Devo dizer que as duas tomadas rápidas em que ele aparece nesse início de filme são tão marcantes que fiquei achando que teria havido, entre Anthony Webster e esse Adrian Finn, algo além de grande amizade.

É muito estranho que Tony não tivesse falado dessas pessoas para a mulher

Tudo isso que narrei, nessa quantidade absurda de parágrafos acima, acontece até os primeiros 17, 18 minutos do filme. Não apresentei aí, portanto, nenhum tipo de spoiler.

Mas acho que não vem ao caso, de forma alguma, relatar mais do que já foi relatado. O realizador Ritesh Batra e roteirista Nick Payne quiseram montar sua narrativa dessa maneira – revelando no início alguns pontos básicos, e deixando uma quantidade imensa de interrogações para o espectador. Não teria sentido, portanto, avançar mais sobre a história – que, de fato, vai sendo revelada bem aos poucos.

Só me permito dizer que achei muito, muito, muito estranho essa coisa de Tony jamais ter falado sobre as histórias do passado com Margaret, com quem viveu um bom número de anos, com quem teve uma filha que agora estava já com 36 anos, e com quem tinha uma convivência mais que civilizada, até mesmo amigável, após a separação, o divórcio.

Mary não concordou com esse meu juízo. Achou natural, normal. Ah, era um namoro de adolescência, argumentou ela.

Acho muito estranho. A rigor, acho um baita furo no roteiro, na história. O namoro do jovem Tony com Veronica tinha sido bastante sério – tanto que Tony chegou a ser levado para um fim de semana na casa da família no interior pelo próprio pai da moça, David (James Wilby). Tinha conhecido o irmão dela, Jack (Edward Holcroft), e, sobretudo, a mãe, Sarah – o papel de Emily Mortimer.

Cacete, quando Sarah morreu, deixou um dinheiro para Tony, e mais um diário.

Aqueles episódios todos do passado, envolvendo Veronica, Sarah e Adrian tinham sido absolutamente importantes na vida de Tony.

Não teria sentido ele não ter falado a respeito daquilo com a mulher com quem viveu décadas.

Diacho: eu sei os nomes de todos os namorados que Mary teve antes que nos conhecêssemos  – e foram muitos. E vice-versa: ela também sabe os nomes de todas as minhas ex-namoradas, e também foram muitas, graças ao bom Deus.

E nenhum de nós, e ninguém que eu conheça, recebeu algo de herança de alguma mãe de ex-namorado ou namorada.

Um elenco maravilhoso – e nele Emily Mortimer tem um brilho especial

Achei interessante ver Michelle Dockery sem falar como Lady Mary. Gosto dela; acho que ela faz maravilhosamente aquele personagem tão complexo que é a filha mais velha do conde de Grantham – e achei que ela está bem aqui.

É interessante também que Matthew Goode, que faz o segundo marido de Lady Mary em Downton Abbey, faça o professor do colégio que mais atiça a imaginação e a inteligência do quarteto de colegas e amigos Tony, Adrian, Colin e Alex.

A escolha do grande Jim Broadbent para o papel central e de Charlotte Rampling (na foto acima) para o papel de Veronica adulta, idosa, é nada menos que perfeita, irreprochável, maravilhosa.

Mas fiquei fascinado foi com a escolha de Emily Mortimer para fazer Sarah Ford, a jovem mãe dos jovens Veronica e Jack Ford.

Emily Mortimer é uma atriz maravilhosa. Sou fã dela nem sei dizer desde quando. Mas ela não me parece propriamente uma mulher belíssima, ou sensual, sensualíssima, de fechar o comércio. Nem propriamente uma mulher de duas caras, de duas personalidades, femme fatale. Ela me parece perfeita para papéis de mulher “normal”, se é que alguém pode ser considerado assim; de mulher comum, parecida com a grande maioria das mulheres.

Pois ela me surpreendeu. Está brilhante como essa mulher tão complexa, tão excêntrica, tão surpreendente que é Sarah Ford (na foto, ela fala junto do ouvido do namorado da filha Veronica).

O filme mostra que as pessoas podem aprender, evoluir, melhorar

Em suma: é um belo filme, apesar da questão que levantei aí atrás.

O que este belo filme me passou é que as pessoas podem aprender, evoluir, avançar, mesmo quando já estão em plena terceira idade, como o autor da história, o ator principal. o personagem central da história e eu mesmo.

Nos anos 1960, quando todos nós éramos muito jovens, uma canção de Donovan e Christopher Logan me impressionou demais – mais que muito Dylan, Beatles, Caetano, Chico. “Be not too hard for life is short / And nothing is given to man. (… ) Be not too hard when he tells lies / Or if his heart is sometimes like a stone / Be not too hard for soon he’ll die / Often no wiser than he began.”

Não seja duro demais, porque a vida é curta e nada é dado ao homem. Não seja duro demais quando ele mente, ou seu coração às vezes é como uma pedra. Não seja duro demais porque logo ele vai morrer, muitas vezes não mais sábio do que quando começou.

Morrer não mais sábio do que quando começou. Essa frase ficou para sempre na minha cabeça.

Gostaria de ter certeza de que aprendi alguma coisa durante a passagem por aqui.

Ao final do filme – e isso não chega a ser um spoiler, creio –, Tony Webster está melhor do que quando o filme começou. Esse pobre sujeito soube aprender, e ficou melhor.

É um bom exemplo para cada um de nós.

Um filme que fala de seres humanos – em vez de seres de outras realidades, ou super-homens, ou super-mulheres – e ainda por cima

traz um bom exemplo para cada um de nós… Meu Deus do céu e também da terra, que maravilha!

Anotação em julho de 2017

O Sentido do Fim/The Sense of an Ending

De Ritesh Batra, Inglaterra, 2017

Com Jim Broadbent (Tony Webster), Billy Howle (Tony jovem), Charlotte Rampling (Veronica Ford), Freya Mavor (Veronica jovem), Harriet Walter (Margaret Webster, a ex-mulher de Tony), Michelle Dockery (Susie Webster, a filha de Tony), Emily Mortimer (Sarah Ford, a mãe de Veronica), Matthew Goode (Mr. Hunt, o professor), James Wilby (David Ford, o pai de Veronica), Edward Holcroft (Jack Ford, o irmão de Veronica), Joe Alwyn (Adrian Finn), Jack Loxton (Colin Simpson jovem), Peter Wight (Colin Simpson), Timothy Innes (Alex Stuart jovem), Hilton McRae (Alex Stuart), Andrew Buckley (Adrian Junior), Nick Mohammed (Danny, o carteiro)

Roteiro Nick Payne

Baseado no romance homônimo de Julian Barnes

Fotografia Christopher Ross

Música Max Richter

Montagem John F. Lyons

Casting Nina Gold

Produção Origin Pictures, BBC Films, FilmNation Entertainment.

Cor, 108 min (1h48)

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