O Pecado Original / Les Parents Terribles

Nota: ★★★☆

Os fatos e as circunstâncias em torno de Les Parents Terribles (1948) são absolutamente fascinantes – tanto quanto, ou talvez até mais, que a trama desse drama familiar tão exagerado, tão superlativo e cheio de tantas reviravoltas que chega em alguns momentos a ser cômico.

Um drama pesado que se aproxima da comédia. Não é um absurdo: o termo “comédie” expressa, como diz o dicionário Le Robert de Poche, a “peça de teatro que tem por finalidade divertir representando os ridículos de uma sociedade” – e é exatamente dos ridículos da classe média parisiense que se trata. Como expressa também, ainda segundo Le Robert, a afetação dos sentimentos e ainda os caprichos de crianças. Em Les Parents Terribles há muita afetação dos sentimentos, e, no entender de Yvonne, a mãe, o que seu amadíssimo filho Michel tem é um capricho de criança.

Fatos e circunstâncias absolutamente fascinantes. Para começo de conversa, Les Parents Terribles é de autoria de Jean Cocteau – e Jean Cocteau (1889-1963) é apenas e tão somente “um dos artistas mais criativos do século XX, que deixou uma marca como poeta, libretista, novelista, ator, diretor de cinema e pintor”, para usar o que diz sobre ele a Encyclopaedia Britannica.

Não é tido como um de seus trabalhos mais marcantes como diretor – Sangue de um Poeta (1932), A Bela e a Fera (1946), Orfeu (1950) e O Testamento de Orfeu (1960) têm muito mais fama. No entanto, a história seria refilmada quatro vezes!

Jean Cocteau trabalhou como ator em 14 filmes e dirigiu 11. Desses 11, seis foram estrelados por Jean Marais, seu companheiro, amante, camarada, cúmplice.

No filme de Cocteau, Jean Marais interpreta Michel, o filho, rapagão de 22 anos, mas que a mãe trata como se fosse ainda um criançola; 32 anos mais tarde, em 1980, o ator interpretaria Georges, o pai, na refilmagem para a TV francesa com direção de Yves-André Hubert, e Lila Kedrowa, a inesquecível Boubilina de Zorba, o Grego, como Yvonne, a mãe possessiva.

Em 1953, já havia tido uma refilmagem inglesa, com o título de Intimate Relations, dirigida por um tal Charles Frank, com atores de que eu nunca ouvi falar.

Em 2003, foram feitas duas refilmagens, ambas para a TV francesa. Uma delas tinha Nicole Garcia como Yvonne, a mãe, e Jeanne Moreau como Léo, a tia materna; a direção foi de Josée Dayan. A outra foi dirigida por Jean-Claude Brialy, o ator que brilhou demais nos anos 60 e 70; não conheço nenhum dos atores dessa versão.

A peça foi proibida duas vezes, uma antes e outra durante a Segunda Guerra

Jean Cocteau escreveu Les Parents Terribles como uma peça de teatro – e o histórico da peça é coisa de novela, de teatro, de cinema, parece coisa saída da cabeça de um roteirista imaginativo demais e além de tudo sob o efeito de um ácido poderoso. Transcrevo que diz a Wikipedia:

Les Parents Terribles é uma peça de teatro de Jean Cocteau, criada (encenada pela primeira vez) a 14 de novembro de 1938, no Théâtre des Ambassadeurs.”

Fundamental lembrar: em 1939 começaria a Segunda Guerra Mundial; em 1940 as tropas nazistas ocuparam Paris e boa parte do território francês.

“No dia 3 de janeiro de 1939, depois da nona encenação, o Conselho Municipal de Paris, proprietário do Théâtre des Ambassadeurs, interditou a representação da pela acusando-a de colocar em cena a evocação de um incesto. Ela será reprisada no Théâtre des Bouffes Parisiens, mas em outubro de 1941 foi de novo interditada depois de pressões da imprensa colaboracionista que via nela um ‘espetáculo deprimente, quadro de uma família francesa onde o proxenetismo, o lixo moral, a prostituição mais baixa nos são representados como sendo a imagem mesma de nossos costumes’. Após 1945 (ou seja, após o fim da Segunda Guerra), ela seria reapresentada diversas vezes.”

Uma das coisas mais ridículas que há no mundo é esse moralismo careta, calhorda.

Cocteau realça as semelhanças e as diferenças entre cinema e teatro  

Não há uma única tomada externa, no filme Les Parents Terribles. Tudo, tudo, tudo se passa entre quatro paredes. Claustrofobia pura.

Talvez para provocar o público e os críticos, Jean Cocteau – que fez o roteiro, além de dirigir – abre seu filme com a imagem da cortina de um teatro, enquanto vão rolando os créditos iniciais. Uma demonstração clara de que aquilo que virá a seguir é teatro filmado – algo que sempre despertou o ódio dos críticos de cinema.

Há discussões infindas sobre “teatro filmado”. Parece uma fixação de muitos críticos.

Um crítico chamado Jonathan Rosebaum escreveu o seguinte sobre o filme no portal Chicago Reader (chicagoreador.com), não dá para saber em que ano, em que década:

“O filme de Jean Cocteau de sua peça de 1938 feito dez anos depois é tanto uma lição de direção quando a ilustração do paradoxo de que a acentuação dos aspectos teatrais do teatro na tela os torna quintessencialmente cinemáticos. (Que eu saiba, o único outro filme que faz a mesma coisa no mesmo grau é An Actor’s Revenge, de Kon Ichikawa.)”

Admiro essa visão do crítico americano – e tudo o que ele fala depois sobre o filme me parece absolutamente correto –, mas eu, pessoalmente, acho que discutir essa coisa de teatro filmado, se é teatro filmado ou não, é tão chato quanto discutir sobre o sexo dos anjos.

Apenas observo, objetivamente – sem querer com isso elogiar ou criticar – que Cocteau parece ter tido a nítida intenção de provocar, ao abrir seu filme com a cortina de um teatro. Para depois encerrá-lo com o barulho de palmas, enquanto a voz em off de um narrador – ele mesmo – fala a frase final.

Talvez para chocar ainda mais, para fazer uma imensa diferenciação entre cinema e teatro, logo depois dessa abertura mostrando cortina de teatro, ele abusa de algo que só o cinema tem, o plongée – a tomada em que a câmara fica acima do que está sendo filmado.

Nos primeiros cinco minutos de filme, quando estamos sendo apresentados àquela família absolutamente desajustada, louca, insana, há diversos plongées, a câmara bem no alto, segura por uma grua, mostrando os atores lá embaixo.

E, ao longo de todos os 103 minutos de duração do filme, ele abusará também dos close-ups – outro recurso que só o cinema possui, algo inexistente e impossível no teatro.

Nos anos 50, com a chegada da televisão, que parecia então uma grande inimiga do cinema, os filmes de Hollywood passariam a evitar os close-ups, a dar preferência aos planos abertos, os planos gerais, de preferência, ou os de conjunto. Ao mesmo tempo, a indústria procurava agigantar ainda mais o que se via nas grandes telas dos cinemas – e foi aí que surgiram o CinemaScope, o VistaVision, várias formas de fazer crescer a imagem, para rivalizar com as telinhas pequenas dos aparelhos de TV. Que, nas suas primeiras encenações de histórias, por sua vez usavam e abusavam dos close-ups.

Nas telas pequenas da televisão, close-ups. Nas telas gigantescas do cinema, planos gerais – imensidões, multidões, épicos.

Pois em 1948 Jean Cocteau fez seu filme baseado em peça de teatro cheio de plongées e close-ups. Ele realça, ele enfatiza as diferenças e as semelhanças entre cinema e teatro.

Atuações extraordinárias, sensacionais, mas afetadas, exageradas, teatrais

Os atores, as atuações. Afe!

São apenas cinco personagens, cinco atores – e que atores!

São interpretações extraordinárias, as de todos os cinco atores – mas não são realistas, naturalistas, naturais. Não, de forma alguma. São interpretações afetadas, teatrais. Exageradas – o que realça ainda mais o exagero que há em todos os sentimentos que aquelas pessoas expressam.

O crítico Jonathan Rosebaum fala disso logo após aquele trecho que citei aí acima, sobre o paradoxo de que, ao acentuar, frisar os aspectos teatrais, Cocteau os transformou em “quintessencialmente cinemáticos”: “Conseguir fazer isso se torna ainda mais impressionante se considerarmos o qual maneiroso e afetado o material de Cocteau é”.

É exatamente isso.

Vivem quatro pessoas num apartamento parisiense muito, muito amplo, com móveis antigos, muita coisa fora do lugar, que dá uma sensação de não muito bem cuidado. O pai, Georges (Marcel André), é um inventor – está sempre trabalhando na tentativa de criar um fuzil submarino –, que parece concentrado apenas em seu trabalho, em suas próprias preocupações.

A mãe, Yvonne (Yvonne de Bray), é uma mulher doentia – física e mentalmente. Vive à base de insulina, que ela mesma se injeta, e do amor pelo filho já adulto, Michel, de 22 anos, mas que para ela ainda é uma criancinha. Não dá mais qualquer tipo de atenção ao marido – só pensa no filho amado, adorado, venerado. Ela dirá para Michel: – “Carreguei você para a cama até os 11. Depois você ficou pesado.”

Quando o filme abre, Yvonne parece estar passando muito mal, talvez por uma overdose de medicação. Georges vem em seu socorro, mas não sabe direito o que fazer. Surge então Léo, a irmã de Yvonne que vive com o casal e seu filho. Léo (interpretada por Gabrielle Dorziat, uma atriz excepcional, impressionante) socorre Yvonne – mostra-se, assim que aparece em cena, esperta, rápida, ágil.

Léo – o espectador ficará sabendo disso bem rapidamente, num diálogo dela com a irmã – tinha sido apaixonada por Georges, quando todos eram jovens. Mas acabou renunciando a tentar obter o amor dele ao perceber o quanto Yvonne estava apaixonada por ele. Então Léo abriu mão do grande amor da vida – e passava o resto dela ao lado dele, ele casado com a irmã, e ela, como dirá para Yvonne, desempenhando o papel de uma empregada do casal.

Uma situação por si só enlouquecedora, enlouquecida.

O ator que faz o garotinho mimado é um homenzarrão grande, de 35 anos

Já melhor depois de ter passado mal, Yvonne agora se desespera porque Michel não chega. Tinha saído de casa no dia anterior, e, no começo da manhã, ainda não tinha voltado para casa, o filhinho querido.

Um filhinho querido de 22 anos, homem feito, sujeito grande, enorme, além de belo – Jean Marais é homem de uma beleza estupenda, que nem os mais dinossáuricos, renitentes heterossexuais (e eu sou um deles) pode ignorar.

A rigor, a rigor, a escolha de Jean Marais para interpretar esse Michel é um imenso equívoco.

Michel, aos 22 anos, mimado, filhinho da mamãe, deveria – creio eu – ser um sujeito um tanto fracote, miúdo, ainda com aparência de mal saído da adolescência.

Jean Marais estava em 1948, ano de lançamento do filme, com bem vividos 35. E era grande, amplo, 1 metro e 80, ombros largos à la John Wayne, à la Jean Gabin, para citar contemporâneos. Ele tira e põe os sapatos pelo menos duas vezes, no filme, e é um troço maior que o maior número normal, 46, 48, por aí.

Não era um papel adequado, então, para Jean Cocteau dar a Jean Marais – mas fazer o quê? O amor é cego.

E a verdade é que Marais faz um Michel com tanta fúria, tanta paixão, tanto esplendor, que o espectador até consegue se esquecer que o ator é dez anos mais velho que o personagem.

Quando finalmente Michel chega em casa, encontra pai, mãe e tia reunidos no quarto da mãe – um quarto imenso, cheio de tralhas, desarrumado. Chega feliz da vida, bem humorado, expansivo. Faz carinhos na mãe, que chama carinhosamente de Sophie, anuncia que tem uma coisa para dizer para ela e pede para falar a sós com a mãe.

(Algo estranho, pensei comigo, um homenzarrão de 22 anos querer conversar a sós com a mãe, tendo a vida inteira morado com a mãe, o pai e a tia…)

Depois que pai e tia saem do quarto, e depois de muito tempo ouvindo a mãe reclamar da ausência dele, e perguntar mil vezes onde ele estava, Michel conta sua história: está apaixonado.

O rapaz conta que está apaixonado. A mãe se sente abandonada, diz que quer morrer

Conheceu a moça uns três meses atrás, num curso que estava fazendo de datilografia – ou estenografia, não importa. Apaixonaram-se perdidamente. Vão se casar! Ela estava sendo sustentada por um senhor de meia idade, que tinha perdido uma filha muito parecido com ela, e esse senhor se afeiçoou a ela, a tratava como se fosse a substituta da filha morta. Com a ajuda desse senhor, ela havia montado um apartamento, e os dois iriam viver lá, e ele iria começar a trabalhar, e ela já trabalhava, ganhava um dinheirinho…

Naquele dia mesmo, à noite daquele mesmo dia, a moça iria ter uma conversa definitiva com o senhor que a ajudava; iria contar tudo, anunciar que tinha conhecido um jovem, e estava apaixonada.

E tudo o que Michel agora queria era que pai, mãe e tia fossem, no dia seguinte, ao apartamento da moça, para conhecê-la, porque os dois iriam se casar.

Diante daquilo tudo que o filho querido despeja sobre ela, Yvonne fica como se tivesse sido atropelada por uma série seguida de diversos caminhões, um expresso de trem comprido que não acaba mais.

Sente-se abandonada, trocada por outra mulher.

Ao saber que ela tem 3 anos mais que Michel – 25 anos, portanto – diz ao filho que ele está sendo enganado por uma doidivana velha, coisas desse quilate.

Vira uma fera ferida.

Diz que era melhor morrer.

Michel exclama: – “Você quer se matar porque eu amo uma mulher?

E Yvonne, em desespero: – “Morrer de vergonha é pior que o suicídio!”

Michel tenta consolar a mãe, tenta fazer carinho nela – ela rejeita tudo. Está amuada, desesperada, em transe.

Michel, pego no contravapor, na reversão de expectativa, amuado, vai para o seu quarto. Depois de uma conversa rápida de Georges com Yvonne, o pai decide ir ao quarto do filho ouvir dele sua versão da história, enquanto a tia Léo vem conversar com a irmã no quarto onde ela se debulhava em lágrimas e tristeza profunda.

Josette Day já havia trabalhado com Cocteau e Marais em A Bela e a Fera

Estamos, neste momento, com uns 30 minutos de filme. Nesse momento, vai surgir um fato novo absolutamente assombroso. Depois virão novas e incríveis reviravoltas. Todas as sinopses sobre o filme contam tudo isso, relatam o que deveria ser uma total surpresa para o espectador. Não gosto disso; tenho cada vez mais me cobrado para não dar spoiler – a não ser depois de avisar bem avisado que haverá spoiler.

Antes, porém, gostaria de anotar algumas informações e opiniões de críticos que não avancem além do primeiro fato assombroso que surge quando o filme está aí com cerca de 30 minutos.

* O quinto personagem deste Les Parents Terribles, e que ainda não havia sido citado aqui, é Madeleine, a moça de 25 anos por quem Michel havia se apaixonado perdidissimamente. Ela é interpretada por Josette Day, atriz que eu, na minha santa ignorância, não conhecia.

Josette Noële Andrée Claire Dagory Catutel, de nome artístico Josette Day (1914-1978), teve uma vida riquíssima. Começou no teatro e na dança criancinha; aos cinco anos, em 1919, estreou no cinema. Depois de mais dois filmes, dedicou-se apenas ao teatro e à dança, só voltando ao cinema após um intervalo de nove anos, em 1931.

Foi escolhida por Jean Cocteau para fazer a Bela em A Bela e a Fera de 1946, e repetiu a tríplice parceria com Cocteau e Marais neste Les Parents Terribles. E aí há dois detalhes: ela estava então com 34 anos, embora fazendo o papel de uma mocinha de 25. Uma mulher de 34 interpretando uma de 25, um homem de 35 interpretando um de 22.

O segundo detalhe: Josette Day não é uma mulher de grande beleza. Não é feia, claro, e é ótima atriz. Abandonou a carreira cedo, no entanto: seu último filme foi Corolian, de novo sob a direção de Cocteau (1950), de novo ao lado de Marais. Depois disso, passou desta literalmente para melhor: casou-se com um bilionário, o belga Maurice Solvay, magnata do ramo químico.

* Assim como Jean Cocteau, Jean Marais (1913-1998) foi uma homem de diversas artes. Foi pintor, escultor e escritor. Como ator, trabalhou no cinema, no teatro e na TV; pertenceu à Comédie Française, o correspondente no teatro à Academia de Letras. Recebeu praticamente todos os tipos de honrarias possíveis, inclusive a Legião de Honra dada pela Presidência da República, em 1996, dois anos antes de sua morte.

Sua filmografia tem quase 100 títulos, entre a estréia em O Gavião (1933) e a despedida em Beleza Roubada (1996), aquele de Bernardo Bertolucci sobre adolescente americana – interpretada pela lindérrima Liv Tyler – que viaja para a Itália depois do suicídio da mãe.

* Jean Cocteau não se contentou em escrever a peça Les Parents Terribles e depois filmá-la. Escreveu também uma novela chamada Les Enfants Terribles, e depois fez ele mesmo uma adaptação da obra para o cinema. Mas dessa vez não dirigiu. O filme Les Enfants Terribles, de 1950, foi dirigido por Jean-Pierre Melville. (Na foto abaixo, a tia Léo, interpretada pela excelente Gabrielle Dorziat.)

Atenção: a partir daqui, spoilers. Quem não viu o filme deveria parar de ler

Transcrevo agora outras opiniões – a começar do que diz o resto da crítica curta mas muito boa do americano Jonathan Rosenbaum no Chicago Reader. Como seguramente todos os demais autores que vou transcrever, ele revela os fatos que eu preferi não revelar.

Portanto, o que vem agora é spoiler. Quem tiver interesse em ver o filme pela primeira vez deveria parar por aqui.

“O protegido filho de um casal de meia-idade, que vive com a irmã solteira da mulher, se apaixona por uma jovem mulher sem saber que ela é a amante de seu pai, e o terror enfrentado pela mãe diante da perspectiva de perder seu filho é tão grande quanto o terror enfrentado pela amante diante da perspectiva de ser exposta. Os personagens podem parecer bizarros, se vistos individualmente, mas coletivamente eles dão confiabilidade uns aos outros, enquanto a trama avança em dois claustrofóbicos apartamentos, e o elenco é formado por atores magistrais.”

Ele então cita os cinco atores, e conclui: “Cocteau corta e movimenta sua câmara de tais maneiras que são ao mesmo tempo excêntricas e definitivas.”

Gosto muito da avaliação desse Jonathan Rosenbaum.

Truffaut contaria uma história parecida em A Noite Americana        

Então é isso: quando o filme está ali com uns 30 minutos, o espectador fica sabendo que o homem de meia idade que ajudava Madeleine, a moça por quem Michel está apaixonado, é o pai de Michel!

É o que eu chamei de fato novo absolutamente assombroso, e que não quis eu mesmo relatar.

Não tinha a menor idéia da trama do filme, e acho que esse é o jeito certo de se ver um filme pela primeira vez – mesmo quando é um filme produzido dois anos de você nascer, e que estava portanto com 68 anos de idade agora quando finalmente você o vê pela primeira vez.

Não sabia de nada, e de fato fui profundamente surpreendido quando Georges ouve de Michel o mesmo que Michel já havia contado para a mãe – e percebe que a namorada do filho é a sua jovem amante.

Essa coisa criada por Jean Cocteau – uma jovem do interior que se torna amante de um senhor de meia idade, que dá para ela dinheiro para ela se estabelecer na metrópole, e que acaba se apaixonando exatamente pelo filho do amante – é chocante, apavorante.

Coisas assim devem seguramente ter acontecido na vida real, já que a arte não passa de uma imitação da vida, mas meu Deus do céu e também da terra, que tragédia!

Histórias de amores, ou simples casos, de uma mulher com pai e filho, ou de homem com mãe e filha, podem de fato não ser raras. Deve haver meia dúzia de novelas com histórias assim, mas isso não faz com que seja algo normal, comum. Conheci uma história real, bem próxima de mim, e a pessoa envolvida sofreu demais – mas não é o caso de falar disso.

Fiquei pensando se essa história criada por Cocteau não teria ficado na cabeça de François Truffaut, quando ele, sua eterna colaboradora Suzanne Schiffman e mais Jean-Louis Richard escreveram A Noite Americana, o filme sobre a produção de um filme em que a jovem esposa de um rapaz se apaixona pelo pai dele.

Bem, Claude Lelouch sempre adorou dizer que só existem duas ou três histórias na vida, com diversas variações. E isso é a mais pura verdade. Em 1936, dois anos de Jean Genet encenar pela primeira vez sua peça Les Parents Terribles, Hollywood produziu Come and Get It, que no Brasil teve o elucidativo título de Meu Filho é Meu Rival.

Les Parents Terribles poderia se chamar, talvez, Meu Pai é Meu Rival.

Aproveito para falar pela primeira vez do título que os exibidores brasileiros deram a Les Parents Terribles: O Pecado Original.

Não fiquei tentando compreender por que os exibidores acharam que essa história tem a ver com o Pecado Original. Para mim, este é apenas um título ridículo, para ser juntado àquela coleção trash que inclui O Poderoso Chefão, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Clamor do Sexo, Amor, Sublime Amor, e Depois Daquele Beijo.

“Ao adaptar sua peça, Cocteau se recusou a ‘arejá-la’”

O Guide des Films do mestre Jean Tulard dá ao filme 3 estrelas, algo raro, só reservado para algumas poucas obras. O verbete é assinado pelo próprio Tulard:

“Uma mãe abusiva, a de Michel, que ama Madeleine, de quem o pai de Michel é amante. Tudo sob o olhar sarcástico da tia Léo. (Aqui, numa curta frase, Tulard conta exatamente o fim do filme; naturalmente, eu a omito.) Narrativa sufocante a portas fechadas como Cocteau gosta, que transpõe aqui sua peça para a tela sublinhando o lado teatral (as três tomadas ao fim dos créditos iniciais). Tudo de propósito. ‘Era necessário’, declarou ele, ‘o cinema para que o projeto teatral se exprimisse enfim livremente que Les Parents Terribles se transformasse evidentemente em uma tragédia de apartamento em que o fecho de uma porta pode ter mais sentido que um monólogo sobre um leito’.”

Não compreendi a frase de Jean Cocteau citada por Tulard. Acho o filme mais fácil de entender do que a definição de seu autor.

Eis a bela avaliação do Le Petit Larousse des Films:

“Ao adaptar sua peça, Cocteau se recusou a ‘arejá-la’: toda a ação do filme se desenrola na atmosfera confinada da ‘roleta’, o nome que os personagens dão ao apartamento dos pais terríveis. (Aqui há um pequenino equívoco: há uma longa e vital sequência que se passa no apartamento de Madeleine, como mostra a foto abaixo.) Grandemente ajudado pelo diretor de fotografia Kelber, Cocteau investiga os rostos, descreve a reclusão dos corpos prisioneiros entre quatro paredes. E se os primeiros jovens não são na verdade tão jovens para seus papéis (a peça havia sido criada para Jean Marais dez anos antes), o atemorizante trio mais velho permanece fabuloso. O travelling antes do final tendo se revelado instável, Jean Cocteau adicionou a ele um barulho de roleta e um breve comentário recitado por ele mesmo, nos entregando assim um das imagens mais fortes do cinema francês dos anos 40.”

Anotação em outubro de 2016

O Pecado Original/Les Parents Terribles

De Jean Cocteau, França, 1948

Com Jean Marais (Michel, o filho), Yvonne de Bray (Yvonne, que Michel chamade Sophie), Marcel André (Georges, o pai), Gabrielle Dorziat (a tia Léo), Josette Day (Madeleine)

Roteiro Jean Cocteau

Baseado em sua peça

Fotografia Michel Kelber

Música Georges Auric

Montagem Jacqueline Sadoul

Produção Francis Cosne e Alexandre Mnouchkine, Les Films Ariane

P&B, 103 min

***

Título nos EUA: The Storm Within.

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