O Dobro ou Nada / Lay the Favorite

Nota: ★★½☆

Boa parte da ação de O Dobro ou Nada/Lay de Favorite (2012), se passa em Las Vegas, a capital mundial do jogo. O tema central são os jogos, as apostas, a sorte – ou a falta dela. Assim, nada é mais apropriado do que este aviso dado ao espectador bem no início da narrativa: “Por pura sorte, esta história é verdadeira”.

É uma história movimentadíssima, cheia de peripécias, surpresas, reviravoltas. Parece coisa de roteirista de imaginação extremada – e, no entanto, é a história real de parte da vida de Beth Raymer, uma jovem nascida em 1976, no interior de Ohio, criada na Flórida, e que, aos 24 anos, já com a experiência de ter trabalhado como “in home stripper” – uma stripper para pronta entrega – e como modelo para sites pornográficos, começou o que viria a ser uma gloriosa carreira no mundo da jogatina.

Garota precoce, essa Beth Raymer.

Em 2010, aos 34 anos de idade, portanto – mas já com tão vasta experiência em duas das indústrias mais fascinantes que há, a do sexo e a da jogatina, mais graduação como jornalista e carreira acadêmica –, publicou sua autobiografia, Lay the Favorite: A Memoir of Gambling. A obra foi saudada como um relato “dickensiano e picaresco que pinta uma visão divertida dos jogos com esportes e seu próprio caráter não convencional”, e como “uma tragicômica biografia”.

É no livro picaresco e tragicômico que se baseia o roteiro do filme, que manteve o título original (apenas sem a segunda parte, “uma memória do jogo”) e chegou aos cinemas apenas dois anos depois, em 2012.

Uma vida americaníssima, num filme de um inglês com uma protagonista inglesa

O trecho da vida de Beth Raymer retratado no filme – seus últimos dias na Flórida como stripper para pronta entrega, sua ida para Las Vegas, os primeiros anos na indústria dos jogos – é pura Americana, este fascinante substantivo que em inglês tem que ser grafado com maiúscula, e que meu Dicionário da Longman define como sendo “algo de um estilo que é especialmente American, em geral associado com o interior ou gosto antiquado” – como, por exemplo, motéis, postos de gasolina, velhas picapes Ford…

Assim, é interessantíssimo que Lay the Favorite, o filme, seja dirigido por um inglês da gema, o grande Stephen Frears, e a americaníssima Beth seja interpretada por uma inglesa da gema, a sempre ótima Rebecca Hall.

Interessantíssimo, mas nada surpreendente, no caso de Stephen Frears. Esse sujeito nascido em Leicester em 1941, o ano em que John Huston dirigiu seu primeiro filme, Relíquia Macabra/The Maltese Falcon, tem muito a ver com o grande realizador americano. Exatamente como Huston, Frears não tem uma especialidade, um estilo. É absolutamente eclético, faz de tudo, de adaptação de grande clássico do século XVIII (Ligações Perigosas, 1988) a suspense roçando o terror (O Segredo de Mary Reilly, 1996), de thriller (Os Imorais, 1990) a comédia (A Van, 1996), de drama pesado sobre imigração (Coisas Belas e Sujas, 2002) a filminho leve sobre jovens e seus modismos (Alta Fidelidade, 2000), de cuidadosa recriação de fatos históricos recentes (A Rainha, 2006) a western (Terra de Paixões, 1998).

E trabalha indistintamente onde for que haja bom filme para fazer. Além de na sua Inglaterra natal, já filmou na Irlanda, na França, já fez vários nos Estados Unidos – este aqui é apenas mais um.

A londrina Rebecca Hall também não estreou como americana neste Lay the Favorite: já havia interpretado gringas no mínimo em quatro filmes, pelo que me lembro: Vicky Cristina Barcelona (2008), Atração Perigosa (2010), Sentimento de Culpa (também 2010) e Pronto para Recomeçar (mais um de 2010).

Beth vai pedir emprego usando um shortinho bem shortinho. Consegue a vaga

O filme abre com Beth-Rebecca Hall plantando bananeira para o sujeito que a contratou para fazer strip-tease na sua casa. Está bem humorada, o freguês parece ser gente boa. Ela mesma se oferece para executar uma dança sensual para ele, antes de ir embora, ao final da hora combinada.

O freguês seguinte mora num trailer, e, bem ao contrário do anterior, não parece ser gente boa, e, lá pelas tantas, diante da exibição da moçoila gostosa dentro do trailer dele, tira um revólver e começa a brincar com ele. Beth sai às pressas de lá, antes mesmo de se vestir. E decide que quer mudar de vida. Encontra-se com o pai – que naturalmente não sabe qual é o ofício da filha – e conta que vai deixar a Flórida e tentar a vida como garçonete em Las Vegas.

No motelzinho barato em que se hospeda na capital mundial do jogo, fica conhecendo uma moça que também tinha vindo vencer na vida ali, Holly (Laura Prepon). E Holly sugere que ela procure Dink – o papel de Bruce Willis.

Dink é um bookmaker, um agenciador de apostas. Ele não gosta do termo bookmaker, que designa pessoa dedicada a atividade que, em alguns Estados, como Nova York, por exemplo, é ilegal e dá cadeia – embora em Nevada nada que se refira a jogo seja ilegal. O fato é que ele é um bookmaker – é o dono de uma empresa que agencia, intermedia apostas. Apostas em tudo, em qualquer tipo de esporte – e há uma sequência deliciosa em que Dink-Bruce Willis vai enumerando os esportes com os quais sua empresa mexe, e é uma lista que não termina jamais. Apostas no concurso de Miss America, de Miss Universo, de concurso de soletrar. E isso não é piada, não. Dink se refere explicitamente aos concursos de spelling, que são uma das muitas manias nacionais dos americanos – uma Americana, enfim.

Beth vai pedir emprego a Dink usando um shortinho de jeans bem shortinho, que põe às mostras suas coxas e realça sobremodo sua bunda.    Consegue o emprego.

Shortinho bem shortinho, pela segunda vez consecutiva

A coisa do shortinho é muito interessante.

O filme anterior de Stephen Frears havia sido O Retorno de Tamara/Tamara Drew (2010). Essa Tamara Drew é a personagem de uma história em quadrinhos, perdão, uma graphic novel inglesa – uma jovem absolutamente gostosa, sensualíssima, que reaparece no seu lugar natal, no campo inglês, e entorta a cabeça de um monte de senhores de meia-idade ou de idade inteira hospedados numa pousada, uma espécie de retiro para escritores.

Tamara Drew, no filme que Frears fez antes deste Lay the Favorite, é interpretada por Gemma Arterton, uma jovem que causaria frisson até mesmo na Marquês de Sapucaí, no meio daquelas mil mulheres gostosas. E ela está quase o tempo todo vestindo um shortinho de jeans bem shortinho que põe às mostras suas coxas e realça sobremodo sua bunda.

Pois o sacripanta do Stephen Frears gostou dessa história, e, pelo segundo filme consecutivo, mostra uma heroína que passa quase o tempo todo exibindo as coxas e a bunda.

Sou fã de Rebecca Hall desde a primeira vez que a vi, acho que em Vicky Cristina Barcelona (2008). Acho que é uma das melhores atrizes de sua geração. Mas não sabia, não fazia idéia que fosse tão… tão… como dizer? Cheinha. Coxas nada anoréxicas, esquálidas, biafrentas. Coxas belas, cheias, comme il faut. Uma bundinha redondinha, aprumada, muito mais próxima do que se considera o paradigma brasileiro do que o britânico.

(Entrevistado para o documentário Olhar Estrangeiro, de Lúcia Murat, o inglesérrimo Michael Caine afirmou: “O Brasil é um clichê por um ótimo motivo: eu acho que o Brasil produz mais gente bonita do que qualquer outro país. Se vocês quiserem ser tratados mais seriamente, acho que vocês deveriam dançar menos e ficar mais feios. Aí todo mundo vai tratá-los mais seriamente. Nós (os ingleses) não conseguimos dançar daquele jeito, e somos muito feios, e todo mundo nos trata muito seriamente.” Pois Rebecca Hall desmente essa última afirmação de seu colega e compatriota.)

A moça toparia ter um caso com o patrão. Mas o patrão teme a patroa

Dink não dá o emprego a Beth por suas belas coxas – ou, no mínimo, não só por isso. A moça logo se revela, como ela mesma diz, boa de números e boa de palavras. Aprende rapidamente, é simpática ao telefone com os apostadores e os outros bookies. E, dentro da cabeça de Dink, ela dá sorte para a empresa.

A garotinha fica encantada com aquele sujeito aventureiro, charmoso, simpático, energético. O coroa fica encantado pela moça competente e gostosinha. Por ela, seguramente teriam um caso, mas Dink morre de medo de contrariar a patroa, a madame, a esposa, Tulip – interpretada por ninguém menos que Catherine Zeta-Jones, outra atriz das Ilhas Britânicas neste filme sobre modos e comportamentos típicos da Americana.

E é deliciosa a forma como o roteirista D.V. DeVincentis conta como Beth e Dink foram controlando a atração óbvia que um sentia pelo outro para se manterem amigos, próximos.

Aqui, um detalhinho: há uma bela cena quando, pressionado pela mulher, Dink diz a Beth que os dois precisam se afastar. A moça fica devastada de dor de amor – e ouvimos então Linda Ronstadt cantando “It doesn’t matter anymore”, a canção deliciosa, maravilhosa, quase adolescente, de Paul Anka que Buddy Holly gravou e botou entre os discos mais vendidos de 1959. Me emociona sempre ouvir, em filmes de hoje em dia, canções que atravessam décadas e décadas.

Um dos melhores, mais regulares e mais ecléticos diretores em ação

Até ali pelo meio do filme, este O Dobro ou Nada é uma gostosa, despretensiosa comedinha. Aí há uma certa mudança de tom, quando Beth vai se aventurar em Nova York, trabalhando com Rosie, um bookmaker mais louco e mais ousado ainda que Dink – o papel de Vince Vaughn. A atividade, em Nova York, como já foi dita, é ilegal, e haverá então momentos de tensão, de drama.

Nada de muito sério, nada de muito trágico. A vida de Beth Raymer é uma história de sucesso.

Há uma característica interessante, que pode, talvez, ou certamente, deixar cansados alguns espectadores: todo mundo é exagerado, fala alto demais, fala demais, gesticula demais, faz gestos amplos demais. Em especial os dois bookmakers, Dink-Bruce Willis e Rosie-Vince Vaughn. Eles extrapolam – mas, de uma maneira geral, todo mundo está assim uma oitava acima do que seria normal. Mas penso que isso foi absolutamente proposital, intencional. Afinal, é um mundo de muita adrenalina, de muita agitação, de nervos à flor da pele.

Ao fim e ao cabo, é um filme gostoso de se ver.

É o mínimo que se pode esperar de Stephen Frears – e é o mínimo que ele entrega, nos filmes mais leves, mais descompromissados que faz, como Tamara Drew e este Lay the Favorite aqui. No mínimo, no mínimo, filmes gostosos. Stephen Frears continua sendo um dos melhores, mais regulares e mais ecléticos cineastas em atuação.

Anotação em outubro de 2016

O Dobro ou Nada/Lay the Favorite

De Stephen Frears, EUA-Inglaterra-França, 2012.

Com Rebecca Hall (Beth)

e Bruce Willis (Dink), Catherine Zeta-Jones (Tulip), Joshua Jackson (Jeremy), Laura Prepon (Holly), Vince Vaughn (Rosie), Joel Murray (Darren), Hugo Armstrong (freguês), Corbin Bernsen (Jerry), John Carroll Lynch (Dave Greenberg)

Roteiro D.V. DeVincentis

Baseado no livro de memórias de Beth Raymer, Lay the Favorite: A Memoir of Gambling.

Fotografia Michael McDonough

Música James Seymour Brett

Montagem Mick Audsley

Casting Victoria Thomas

Produção Emmett/Furla Films, Jackson Investment Group, Likely Story, Lipsync, Random House Films, Ruby Films, Wild Bunch.

Cor, 94 min

**1/2

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