Núpcias Reais / Royal Wedding

Nota: ★★★☆

É preciso admitir: história propriamente dita, Núpcias Reais/Royal Wedding (1951) não tem. História, trama, enredo, entrecho, disso estamos em falta.

Mas isso não chega a ser raro, no caso dos musicais da época de ouro do cinema americano, entre as décadas de 30 e 50. Diversos outros musicais padecem da falta de uma trama – e são deliciosos.

Para ser bom, agradável, gostoso de se ver, um musical de Hollywood não precisava de drama, conflitos, situações inusitadas, reviravoltas, surpresas.

Núpcias Reais tem Fred Astaire, o sujeito que dança leve como uma pluma, que parece levitar, que parece não tocar o solo, e que faz o espectador se sentir, ele também, um pouco flutuando – “heaven, I’m in heaven”.

Só Fred Astaire já bastaria. Mas o filme ainda tem Jane Powell, uma gracinha, boa cantora, boa dançarina, rostinho lindo. Tem a direção segura de um expert no gênero, Stanley Donen, o sujeito que um ano depois, em 1952, faria com o outro grande dançarino, Gene Kelly, o que é muito provavelmente o melhor de todos os grandes musicais americanos, Cantando na Chuva.

E, se não tem propriamente uma história, tem uma enxurrada de piadinhas, diálogos inteligentes – o argumento e o roteiro são de Alan Jay Lerner, o autor de My Fair Lady (1964), Sinfonia em Paris (1951), Gigi (1958).

E ainda tem duas sequências absolutamente antológicas, das mais belas de todos os musicais de Hollywood: a de Fred Astaire e Jane Powell dançando num grande salão do transatlântico que ora aderna para a esquerda, ora aderna para a direita, e a de Fred Astaire dançando não apenas nas paredes, mas também no teto.

Leonard Maltin gostou do filme. Pauline Kael e Jean Tulard detestaram

Como sou ruim de escrever sinopses – definitivamente, não tenho o dom da concisão –, vou atrás de sinopses feitas por outros. E já aproveito para dar também as avaliações dos autores sobre o filme.

O Cinéguide, em geral um prodígio no quesito concisão, até se alonga sobre Mariage Royal: “Dois artistas da Broadway, um irmã e uma irmã, viajam à Inglaterra para o casamento da princesa Elisabeth e o duque de Edimburgo. No navio, a moça fica conhecendo um lorde.”

O Petit Larousse des Films diz: “Uma dupla de dançarinos célebres, irmão e irmã, vai à Inglaterra, onde cada um vai encontrar o amor. Um pedaço de antologia: Fred Astaire dançando nas paredes e no teto.”

Leonard Maltin dá 3 estrelas em 4 ao filme e diz: “Agradável musical (escrito por Alan Jay Lerner) sobre dupla de irmão e irmã que leva seu show para Londres na época do casamento da Rainha Elizabeth II, e encontra cada um o seu próprio romance. Destaques: Astaire dançando no teto e transformando um porta-chapéus em seu par, e o dueto dinamite com Powell, ‘How Could You Believe Me When I Said I Loved You (When You Know I’ve Been a Liar All My Life)’. A trilha criada por Jay Lerner também inclui ‘Too Late Now’. Foi o primeiro filme dirigido por Donen.”

Pauline Kael diz que o filme não tem mágica: “É animado, às vezes, mas não mais que isso. O roteiro de Alan Jay Lerner é fraco e as canções de Lerner e Burton Lane não são aquilo que às vezes dizem que elas são.”

Pauline Kael é mal-humorada e seria capaz de falar mal da própria mãe.

Mas o Guide des Films de Jean Tulard também desce o pau no filme. Ele é, no entanto, entre esses guias todos, o que faz a sinopse mais detalhada da trama:

“Irmão e irmã, Tom e Ellen Bowen formam uma dupla de dançarinos muito apreciada. Eles conseguem um contrato para uma temporada em Londres e, no navio, Ellen encontra um lord muito simpático. Por sua vez, Tom leva para trabalhar no show a jovem dançarina Ann, por quem se enamora. Situação muito delicada, porque Tom e sua irmã têm horror a casamento, o que poderia levar à dissolução da dupla. Mas, no dia do casamento da princesa Elisabeth, eles dois tomam consciência da profundidade de seus sentimentos.

“Fala-se muito da famosa dança de Fred Astaire sobre as paredes e o teto. A sequência é mesmo fabulosa, mas não dura mais de um minuto. E o resto do filme não é mais que ensopado sentimental convencional entremeado de números musicais sem relevo particular. Um filme indigno de um realizador como Donen.”

Oulalá!

Todos dizem que é o casamento da princesa Elisabeth – mas não se fala seu nome

É preciso realçar: apesar de todo mundo, na época do lançamento e mesmo bem depois, inclusive os críticos, como se mostrou acima, dizer que Royal Wedding mostra o casamento de Elisabeth com Philip, o filme não fala em momento algum o nome da princesa Elisabeth. Fala-se apenas em casamento real, príncipe e princesa, e toma-se todo o cuidado de não especificar exatamente quem estava se casando.

A rainha Elisabeth II conheceu o então príncipe Philip da Grécia e Dinamarca em 1934; ficaram noivos e se casaram em 1947. Como o filme foi lançado em 1951, o casamento da princesa Elisabeth ainda estava na memória de todos nos Estados Unidos, na Inglaterra e em todo o Ocidente. Em 6 de fevereiro de 1952, menos de um ano depois da estréia do filme, Elisabeth assumiu o trono, com a morte de seu pai, o rei George VI.

A proximidade entre a história fictícia e a história real era tanta que, na Grã-Bretanha, o filme se chamou Wedding Bells, sinos de casamento, em vez de Royal Wedding, casamento real, para – segundo diz o IMDb – não ficar parecendo um documentário sobre a cerimônia tão recente de casamento da princesa.

E, para misturar ainda mais a ficção com a vida real, a atriz que interpreta Ann, a jovem dançarina por quem o até então solteirão convicto Tom Bowen-Fred Astaire se apaixona, é… Sarah Churchill! Sarah Millicent Hermione Churchill (na foto abaixo), uma das filhas do casal Clementine e Winston Churchill. O primeiro-ministro da Grã-Bretanha entre maio de 1940 e julho de 1945, o homem que governou o país durante quase toda a Segunda Guerra Mundial, o líder que conduziu o país e o levou a derrotar o nazismo.

E que voltaria a assumir o cargo em outubro de 1951, o mesmo ano de lançamento do filme! O experiente, admiradíssimo primeiro-ministro que passaria a ter audiência semanal com a Rainha Elizabeth a partir do início de 1952.

Haja coincidência entre ficção e realidade…

Até o londrino Peter Lawford, escolhido para fazer o lorde John Brindale, iria no futuro participar de uma corte, a de Camelot, como muita gente se referia ao clã dos Kennedy. Como se sabe, o galã foi casado com Patricia Kennedy, irmã de John, Bob e Ted.

O IMDb diz que a história do filme – se é que se pode afirmar que aquilo chega a ser uma história – tem um pouco a ver com a vida real de Fred Astaire. No início da sua carreira, Astaire teve um duo com sua irmã Adele Astaire – que, como a personagem de Jane Powell, acabaria se casando um nobre inglês.

Boas piadas, diálogos inteligentes. Eis alguns exemplos

Falei de boas piadas, diálogos inteligentes. Eis aqui alguns exemplos.

Quando Ellen fica sabendo que o bonitão que paquera todas as mulheres e agora está paquerando ela própria, lord John Brindale pergunta: – “Você nunca tinha conhecido algum com um título antes?” E Ellen, rápida, citando o grande campeão de boxe da época: – “Só Joe Louis.”

Ellen e Tom, os dois irmãos, estão conversando. Tom faz uma brincadeira qualquer, e Ellen questiona: – “Sua mãe nunca ensinou boas maneiras a você?” E ele responde falando errado, o equivalente a isto aqui: – “Num tive mãe. Nóis era pobre demais.”

Depois de uma apresentação no teatro em Nova York, Tom está se vestindo para sair e conversa com o ajudante, Chester, que parece um mordomo inglês. Tom está se proclamando um eterno celibatário. Chester argumenta: – “Casamentos são muito saudáveis, senhor. Veja, homens casados vivem muito mais que solteiros.”

E Tom: – “Se isso for verdade, é porque eles tentam sobreviver a suas mulheres, para poderem ser solteiros de novo.”

Judy Garland tinha sido escolhida para ser a parceira de Fred Astaire

A parceira de Fred Astaire em Royal Wedding poderia ter sido Judy Garland. Os dois haviam trabalhado juntos em Desfile de Páscoa/Easter Parade (1948) – aliás, outro musical sem história, trama, enredo –, e tinha sido um sucesso.

A grande estrela chegou a ser escalada para o papel de Ellen Bowen, mas os executivos da MGM a afastaram porque, de novo, mais uma vez, ela começou a se atrasar e a simplesmente não aparecer para as filmagens. Excelente atriz, excelente cantora, figura em tudo impressionante, Judy tinha problemas emocionais e comportamentais sérios. Já havia sido suspensa pela MGM por problemas durante as filmagens de Ciúme, Sinal de Amor (1949), em que acabou sendo substituída por Ginger Rogers. Outra suspensão havia acontecido quando estava para ser filmado Bonita e Valente (1950), quando tiveram que substituí-la por Betty Hutton.

Afastada do elenco de Royal Wedding, teve seu contrato rescindido com a MGM, o estúdio que a transformou em estrela com O Mágico de Oz (1939). Assinaria depois contrato com a Warner para estrelar a segunda versão de Nasce uma Estrela/A Star is Born (1954), ao lado de James Mason. Depois desse filme, pelo qual teve uma indicação ao Oscar, Judy Garland faria apenas mais quatro.

Não dá para dizer que o filme saiu perdendo por não contar com Judy Garland. Jane Powell está uma gracinha absoluta.

Um último registro: por algum motivo legal, relativo a providências burocráticas ou pendências jurídicas, diversas produções da Metro-Goldwyn-Mayer de 1950 e 1951 não tiveram seus direitos autorais renovados, e caíram em domínio público. Com isso, empresas menores e/ou sem respeito às obras e ao público distribuíram cópias em VHS e depois em DVD de qualidade muito inferior àquelas lançadas oficialmente pela indústria. Isso explica por que a cópia disponível no Now, por exemplo, é tão ruim. Não a ponto de o espectador deixar de ver o filme – mas que é de péssima qualidade, isso é.

Anotação em dezembro de 2016

Núpcias Reais/Royal Wedding

De Stanley Donen, EUA, 1951

Com Fred Astaire (Tom Bowen), Jane Powell (Ellen Bowen)

e Peter Lawford (Lord John Brindale), Sarah Churchill (Anne Ashmond),

Keenan Wynn (Irving Klinger/Edgar Klinger), Albert Sharpe (James Ashmond), Viola Roache (Sarah Ashmond), Alex Frazer (Chester), Jack Reilly (Pete Cumberly), William Cabanne (Dick), John Hedloe (Billy),

Francis Bethancourt (Charles Gordon)

Roteiro Alan Jay Lerner

Fotografia Robert Planck

Canções Alan Jay Lerner-Burton Lane

Direção musical Johnny Green

Coreografia Nick Castle Sr.

Produção Arthur Freed, MGM.

Cor, 93 min

R, ***

Título no Reino Unido: Wedding Bells. Na França: Mariage Royal. Em Portugal: Casamento Real.

2 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 5 abril 2017 às 6:00 pm | Permalink

    A gracinha da Jane fez aniversário agorinha há pouco… Agora, “ruim de escrever sinopses”? Cê tá brincando, né??? Tu escreve qualquer coisa bem pra caramba!!!

  2. Senhorita
    Postado em 5 abril 2017 às 6:03 pm | Permalink

    How Could You Believe Me When I Said I Loved You (When You Know I’ve Been a Liar All My Life?)
    MELHOR TÍTULO DE MÚSICA QUE EU CONHECI.

    Filme maravilhoso… E tô nem aí pra Kael. A mulher não se encantava pelo Gregory Peck (aniversariante do dia, cof cof cof, vai ter filme dele por aqui? Cof cof cof), e se a mulher não se encantava pelo Gregory Peck eu com certeza não teria confiança nenhuma nela… rsrsrsrsrsrs

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