No Tempo das Diligências / Stagecoach

Nota: ★★★★

Uma das coisas mais fascinantes, impressionantes, extraordinárias de No Tempo das Diligências/Stagecoach, talvez o mais clássico de todos os westerns, é o contraste entre a amplidão extrema e a exiguidade de um pequeno espaço fechado.

A brutal diferença entre os planos gerais dos descampados do Oeste, aqui e ali pontuados por aquelas formações rochosas, e os close-ups dos sete passageiros apertados dentro da diligência. A disparidade entre a imensidão sem fim e a claustrofobia do huis clos.

Esse confronto do aberto-fechado, amplo-pequeno me deixou muito impressionado, ao rever agora – para escrever sobre ele para este site – o filme que John Ford lançou em 1939, há portanto 78 anos.

Um detalhe também fascinante é a opção do mestre Ford e de seu roteirista, o grande Dudley Nichols, pela elipse exatamente no clímax do final da narrativa. Ao longo de seus curtos 96 minutos, há tudo, tudo o que um bom western deve ter: cenas em saloon, jogadores de cartas, bebedores de uísque, roubo, romance, o jornal da pequena cidade, a Cavalaria, o medo de um ataque dos índios, o ataque dos índios. E, é claro, a confrontação final, o duelo entre o mocinho e o(s) bandido(s).

Só que o espectador não vê o duelo final. Mestre Ford não o mostra. Mostra os preparativos, a confrontação sendo armada, mocinho e bandido indo para a rua – e aí corta, e não vemos o duelo em si.

Uma beleza de sacada.

E o outro grande elemento que fascina, que impressiona, que faz qualquer cinéfilo babar é a composição daqueles personagens que viajam na diligência pelas pradarias do Arizona, em um território inóspito, em que Jerônimo e seus apaches podem atacar a qualquer momento.

Dentro da diligência, apertados ali naquele pequeno espaço, entre a cidade de Tonto e Lordsburg, com paradas previstas em Dry Fork, Apache Wells e Lees Ferry, vão a dama, a prostituta, o banqueiro, o médico bêbado, o comerciante, o jogador e o caubói.

Lá no alto, do lado de fora, o cocheiro e o xerife.

Um microcosmo da sociedade.

Preconceito social é um tema importante de Stagecoach

A prostituta Dallas (o papel de Claire Trevor) está sendo expulsa da cidadezinha de Tonto pelo auxiliar do xerife, atendendo a exigência das senhoras da Liga da Decência, Lei e Ordem. Justamente no momento em que ela é levada para a diligência que acaba de fazer uma parada em Tonto, o dr. Josiah Boone (o papel de Thomas Mitchell) está sendo expulso, por insolvência financeira, da pensão onde vivia. O dr. Boone é um bom médico quando está sóbrio – o problema é que ele vinha ficando sóbrio durante raríssimos momentos, nos últimos tempos.

E então se encontram, a prostituta e o médico bêbado que estão sendo expulsos da cidade ao mesmo tempo. Dallas pede a ajuda do médico: – “Eles têm o direito de fazer isso comigo, doutor?” Ao que ele responde:

– “Nós dois somos vítimas dessa doença chamada preconceito social, minha criança!”

Preconceito social é um tema importante de Stagecoach. Estará presente ao longo de toda a narrativa.

Quando a diligência chega à pequenina Tonto, conduzida pelo cocheiro Buck (Andy Devine, aquele ator um tanto barrigudo de vozinha fina que tem mais de 190 filmes em seu currículo), já levava a dama e o caixeiro-viajante.

A dama se chama Lucy Mallory (Louise Platt), e tem todo o jeito de vir de uma família aristocrática da Virginia. Está grávida, e, mesmo assim, se dispôs a enfrentar a dura viagem até o Oeste Selvagem para se encontrar com seu marido, um capitão do Exército.

Assim que a vê entrando no hotel da cidade, onde vai tomar um café durante os instantes da parada da diligência para a troca de cavalos, o jogador Hatfield (o papel de John Carradine) toma-se de amores por ela. Dirá, mais tarde, que uma coisa rara na sua vida é ver uma verdadeira, uma autêntica dama.

O caixeiro-viajante se chama Samuel Peacock (o papel de Donald Meek, outro extraordinário ator que jamais foi protagonista, mas fez dezenas e dezenas de papéis secundários em belos filmes nos anos 30 e 40 – 128 no total). É de Kansas City, e viaja pelos territórios do Oeste levando amostras de uísque para os bares. Aproveita a parada para visitar o bar da rua principal de Tonto – onde está, naquele momento, pedindo por uma saideira, o nosso médico bêbado. Ao saber que aquele senhorzinho pequeno que se veste como se fosse um pastor é um comerciante de uísque, o dr. Boone se apaixona perdidamente por ele.

O roteiro nos apresenta de forma magistral os nove personagens

É magistral, brilhante, a maneira com que o roteirista Dudley Nichols – autor ou co-autor dos roteiros de, entre outros, O Delator/The Informer (1935), Levada da Breca/Bringing Up Baby (1938), Por Quem os Sinos Dobram (1943), O Tempo é uma Ilusão (1944), Os Sinos de Santa Maria (1945) – vai nos introduzindo todos esses personagens, as nove pessoas cujos destinos vão se entrelaçar na diligência que faz a parada em Tonto no início da narrativa e em seguida prossegue a viagem em direção a Lordsburg.

Quando a diligência pára em Tonto para a troca dos cavalos, e a dama e o comerciante descem para descansar um pouquinho, dela sai também um carregamento valiosíssimo: um cofre contendo a fabulosa fortuna de US$ 50 mil, para o pagamento dos salários dos mineiros de uma empresa da região. Dois homens conduzem o cofre até o banco da cidade, onde a fortuna é recebida pelo banqueiro, o aparentemente honorável Ellsworth Henry Gatewood (Berton Churchill).

Enquanto o cofre é levado ao banco, a dama toma um café no hotel, o caixeiro-viajante vai ao bar e lá se encontra com o dr. Boone, o cocheiro Buck dá uma passadinha na delegacia para cumprimentar os amigos. Fica sabendo pelo xerife da cidade, Curley Wilcox (George Bancroft, nenhum parentesco com Anne Bancroft, que aliás foi batizada como Anna Maria Louise Italiano), que seu amigo Ringo Kid fugiu da prisão.

Buck até fica feliz em saber que Ringo Kid fugiu da penitenciária. Mas, falante, contador de casos, diz para o xerife Curley que viu Luke Plummer quando esteve pela última vez em Lordsburg.

Luke Plummer (que, interpretado por Tom Tyler, só vai aparecer bem mais para o final do filme) é o sujeito que matou o pai e o irmão de Ringo Kid. O xerife Curley está cansado de saber, assim como o cocheiro Buck e mais toda a população do Território do Arizona, que tudo o que Ringo Kid quer na vida é se vingar da morte do pai e do irmão e matar Luke Plummer e seus dois irmãos.

Assim que ouve do cocheiro Buck que Luke Plummer está em Lordsburg, o xerife se decide: irá na diligência até aquela cidade. Com toda certeza, encontrará o fugitivo Ringo Kid no caminho, ou então lá na cidade do inimigo de morte dele.

Mestre Ford demonstra profundo nojo pelo criminoso de colarinho branco

Chega um destacamento da Cavalaria, liderado pelo tenente Blanchard (Tim Holt): como Jerônimo está à solta, fugido da reserva, liderando um grupo de apaches rebeldes e hostis, os oficiais superiores da região haviam determinado que um grupo escoltasse a diligência em sua viagem rumo Oeste.

A diligência então é posta em movimento, destacamento da Cavalaria atrás. Estão na direção Buck e o xerife. Lá dentro vão os expulsos Dallas e o dr. Boone, a dama Lucy, o comerciante Peacock, o jogador Hatfield.

Quando estão quase saindo da cidadezinha, o banqueiro Ellsworth Henry Gatewood pede para subir a bordo: acabou de receber um telegrama de Lordsburg, pedindo sua presença, ele se apressa a contar.

O xerife Curley acha aquilo muito estranho: a linha postal havia sido cortada – não teria sido possível o banqueiro ter recebido um telegrama de Lordsburg.

O espectador não acha nada estranho, pois já sabia que os fios haviam sido cortados, e também já havia visto o banqueiro, aquele sujeito de figura tão honorável, tão empertigado em sua fatiota de rico, roubar os US$ 50 mil recém-chegados para o pagamento dos salários dos mineiros da região.

Mestre Ford – quase oito décadas antes de Dirceu, Mantega, Delúbio, Vaccari, Joesley, Wesley – já demonstrava profundo asco pelos criminosos de colarinho branco.

O banqueiro-ladrão vai dizer, ao longo do filme, uma grande quantidade de frases em favor da livre empresa e contra o Estado que cobra muitos impostos e provê a população de pouca assistência. Stagecoach tem um firme viés anti Wall Street, anti sistema financeiro, anti grandes corporações. Ironiza duramente os que professam o liberalismo econômico.

Quando John Wayne aparece pela primeira vez, a câmara faz uma estripulia

E lá vai a diligência, seguida pelos homens da Cavalaria.

Quando a diligência chega perto de Ringo Kid, há algo que foge ao normal da narrativa do mestre Ford, sempre absolutamente clássica, escorreita: a câmara do diretor de fotografia Bert Glennon faz um zoom em direção ao rosto do ator que interpreta o mocinho.

Acontece quando o filme está com 18 minutos.

John Wayne dá uma revirada na sua espingarda. A câmara o mostra em plano americano, aquele que focaliza uma pessoa da cintura para cima, e aí faz um zoom até mostrar o rosto do ator em close-up.

Há diretores (especialmente quando são jovens, e querem mostrar que são rebeldes, e são geniais) que dão berros para o espectador: olha aí como eu sou genial! Olha que movimento de câmara fantástico eu faço!

John Ford não é homem de dar gritos para o espectador. John Ford é mestre dos mestres, não precisa dar gritos.

No entanto, ele se permitiu soltar um fogo de artifício, ainda que pequeno, quando, aos 18 minutos de Stagecoach, John Wayne aparece na tela pela primeira vez.

É fundamental ter em mente que, em 1939, quando Stagecoach foi lançado, John Wayne ainda não era um grande astro.

Não era um estreante, de forma alguma. Já havia feito 64 – 64! – filmes, desde a estréia em 1928. Mas eram filmes pouco importantes, vários deles produções B, de baixo orçamento. Nada relevante.

Fiquei em dúvida – será que o parágrafo acima exprime mesmo a verdade? Peguei então o livro The Films of John Wayne, uma velharia que tenho há tempos, parece que comprada em sebo. Folheei – e, de fato, não há, entre os 64 filmes que John Wayne fez entre 1928 e 1939, nada relevante.

Não havia nenhum astro gigantesco no elenco

A verdade é que Stagecoach, um western com nove personagens importantes, não tinha assim um gigantesco astro, uma gigantesca estrela, entre seus nove principais atores.

Havia ali bons atores, alguns bem conhecidos, alguns com muita experiência, mas nenhum gigantesco astro.

Tanto que, nos créditos iniciais, não surge nenhum nome antes do título do filme. Isso era uma regra absoluta: quando havia astros, seus nomes apareciam nos créditos antes do nome do filme. Top billing, como se dizia, e se diz até hoje.

Os créditos iniciais de Stagecoach abrem com o nome do produtor, Walter Wanger (o filme não foi produzido por qualquer dos grandes estúdios, e a distribuição foi feita pela United Artists). Em seguida vem o nome do filme, e, depois, num único letreiro, o nome de todos os nove atores cujos personagens viajam na diligência, e mais um décimo, o ator que faz o bandidão Luke Plummer.

Os próprios créditos mostram que ali não havia gigantesco astro ou estrela.

O primeiro nome que aparece é o de Claire Trevor, a atriz que faz a prostituta Dallas. Depois vem o de John Wayne, depois o de Andy Devine, depois o de John Carradine.

Quando Stagecoach foi lançado, Claire Trevor tinha maior importância em Hollywood do que John Wayne. Tanto que, nos créditos iniciais de O Primeiro Rebelde/Allegheny Uprising, lançado depois, mas ainda no mesmo ano de 1939, o nome de Claire Trevor ainda aparecia antes do dele.

É uma beleza de elenco esse que o produtor Walter Wanger e o mestre John Ford conseguiram juntar.

Thomas Mitchell, que faz o médico bêbado, é um maravilhoso ator. Naquele mesmo ano de 1939, esteve em … E o Vento Levou. Fez o tio Billy no capriano A Felicidade Não se Compra/It’s a Wonderful Life (1946), trabalhou com Frank Capra também em A Mulher Faz o Homem/Mr. Smith Goes to Washington (1939), e estaria ainda em outro dos maiores westerns da História, Matar ou Morrer/High Noon (1952).

John Carradine é um dos atores de que John Ford gostava muito. Ele está, por exemplo, em O Homem Que Matou o Facínora, a obra-prima que o mestre lançou em 1962, quando John Wayne já era, e de há muito, um dos atores mais adorados do cinema americano.

John Ford dirigiu John Wayne nem sei quantas vezes – mas foram várias, e foram vários filmes extraordinários. E não foram apenas westerns: em 1952, fizeram a obra-prima que é Depois do Vendaval/The Quiet Man, rodada e passada no interior da Irlanda.

Claire Trevor venceu em Hollywood sem ter beleza estonteante

De todos os bons atores de Stagecoach, creio que a mais especial é Claire Trevor.

Me permito repetir aqui o que escrevi sobre Claire Trevor depois de ver Entre Dois Fogos/Raw Deal (1948), um filme noir dirigido por outro autor de grandes westerns, Anthony Mann.

Claire Trevor (1910-2000) é uma atriz fascinante. Tenho imensa admiração por atrizes fortes, que conseguiram vencer em Hollywood apenas por talento, sem ter uma beleza estonteante para ajudar.

Claire tinha um tipo físico que a fazia parecer mais velha, mais senhora, mais quase matrona, mesmo quando era jovem. Mas era uma grande atriz, e conseguiu, graças ao talento, belos papéis. Começou a carreira em 1933, aos 23 aninhos. Em apenas cinco anos, entre 1933 e 1938, fez nada menos de 29 filmes.

Deu um show de interpretação em Key Largo, no Brasil Paixões em Fúria (1948), de John Huston, como a amante bêbada e decadente do gângster interpretado por Edward G. Robinson.

Teve três indicações ao Oscar – por Um Beco Sem Saída (1937), por Key Largo e por Um Fio de Esperança (1954). Levou para casa o Oscar por Key Largo.

O filme faz uma crítica feroz aos preconceitos sociais de que fala o médico

Não sei se foi bem proposital, mas o fato é que o roteiro maravilhoso de Dudley Nichols demonstra com vibrante clareza como são ridículos os tais preconceitos sociais de que fala, com imensa lucidez, o médico bêbado interpretado por Thomas Mitchell.

Entre Tonto e a primeira parada seguinte, Dry Fork, a prostituta e a dama viajam sentadas no mesmo lado da diligência, separadas apenas pelo corpanzil do banqueiro-ladrão Gatewood.

É nesse trecho da viagem que a diligência passa por Ringo Kid. O cavalo dele havia quebrado a perna, e Ringo estava caminhando carregando a sela quando foi avistado pelo xerife Curley e então enfiado na diligência como o sétimo passageiro.

Na parada em Dry Fork, é servido o almoço. Dallas, consciente de que não é bem-vinda na mesa principal, junto de uma dama e um banqueiro, se encaminha para ficar um tanto distante – e Ringo Kid a chama para a mesa principal. Daí a pouquinho, o jogador Hatfield sugere à dama Lucy que mais para perto da janela está mais fresco – uma boa desculpa para que a dama se afaste da prostituta.

Isso é uma absoluta maravilha, a crítica que o filme faz da hipocrisia. Na diligência, o huis clos, vão juntas, pertinho. Na parada, na mesa da parada no meio do nada, a dama se recusa a ficar perto da prostituta!

Na mesma sequência da parada em Dry Fork, o xerife Curley lidera uma votação entre os passageiros para definir se continuariam a viagem apesar da possibilidade de um ataque dos apaches ou se voltariam para o ponto de partida. Curley pede primeiro a opinião de Lucy Mallory, e em seguida se dirige a um dos homens. Ringo intervém de imediato: – “Não vai perguntar primeiro à outra dama?”

“Um dos grandes filmes americanos, um marco no amadurecimento do western”

1939 foi um ano especialmente dourado em Hollywood.

Stagecoach foi indicado a sete Oscars, inclusive os dois principais, de melhor filme e melhor diretor.

Concorriam com ele ao Oscar de melhor filme …E o Vento Levou, Ninotchka, de Ernst Lubitsch, O Mágico de Oz, de Victor Fleming, A Mulher Faz o Homem/Mr. Smith Goes to Washington, de Frank Capra, O Morro dos Ventos Uivantes/Wuthering Heights, de William Wyler, Duas Vidas/Love Affair, de Leo McCarey, Carícia Fatal /Of Mice and Men, de Lewis Milestone, Adeus, Mr. Chips, de Sam Wood, e Vitória Amarga/Dark Victory, de Edmund Golding.

Claro que deu … E o Vento Levou. Nas duas categorias – melhor filme e melhor diretor para Victor Fleming.

Stagecoach levou os prêmios de melhor ator coadjuvante para Thomas Mitchell e melhor trilha sonora – assinada por vários músicos, que fizeram arranjos para canções folclóricas.

Leonard Maltin deu – é claro – 4 estrelas, a cotação máxima: “Um dos grandes filmes americanos, e um marco no amadurecimento do western, equilibrando estudo de personalidade (os diferentes passageiros reunidos na mesma diligência) e ação incomparável (num longo ataque indígena). Foi também o filme que impulsionou John Wayne para o estrelato.”

Maltin informa ainda que a história “Stage to Lordsburg”, em que o roteiro se baseia, faz lembrar o conto “Boule de Suif”, de Guy de Maupassant, e que as filmagens foram no Monument Valley, na fronteira do Arizona com Utah, que John Ford adorava.

Sim, isso tinha que ser dito: a paisagem do Monument Valley, com aquelas formações rochosas, é uma das marcas registradas de Ford.

Pauline Kael escreveu: “Talvez o mais convincente dos westerns, e um Grande Hotel sobre rodas que tem de tudo – aventura, romance, cavalaria – e tudo muito singelo e convencional. John Ford dirigiu, a partir de um roteiro de Dudley Nichols (com, dizem, a colaboração anônima de Ben Hecht), baseado num conto de Ernest Haycox – ‘Stage to Lordsburg’.” Em seguida, a prima donna da crítica americana enumera os atores, e ao final lembra que houve uma refilmagem “lastimável” feita por Gordon Douglas em 1966, com Ann-Margret no papel da prostituta.

Nunca cheguei perto dessa refilmagem, que teve o mesmo título original, Stagecoach, e no Brasil se chamou A Última Diligência. Vejo no IMDb que um tal Alex Cordy fez o papel que foi de John Wayne, e – ora essa! – Bing Crosby interpretou o médico bêbado!

“Ford se mostra cheio de compaixão por aqueles que são vítimas da sociedade”

O livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer fala que John Wayne agarrou a chance de alcançar o estrelato com o papel de Ringo Kid com unhas e dentes: “Desde sua entrada em cena, de pé no deserto acenando para a diligência, ele impressiona como Ringo Kid, que fugiu da cadeia para se vingar dos Plummers, os assassinos de seu pai e seu irmão. Contudo, a aparição de Wayne é postergada enquanto Ford explora a personalidade dos demais passageiros. Cada um é esboçado com habilidade e de forma memorável. (…) A interação entre os membros desse estranho grupo permite a Ford explorar um de seus temas preferidos, as superiores qualidades morais daqueles que a sociedade ‘respeitável’ rejeita.”

Perfeita, maravilhosa observação.

O texto termina dizendo que o ótimo desempenho do filme nas bilheterias ajudou a restabelecer o gênero western, que, nos anos 30, não andava muito bem.

O Guide des Films de Jean Tulard dá a Le Chevauchée Fantastique (cavalgada fantástica) 4 estrelas, algo raríssimo na obra. “Esse grande clássico do western, de narrativa cativante, é tratado com vivacidade e precisão nas vastas paisagens do Monument Valley. Uma música cativante, uma direção rigorosa, uma atmosfera finamente observada, e um senso de detalhe que dá muito relevo e de diversidade aos personagens, dão cor a um filme situado sob o signo da ação. (…) À medida que a tensão aumenta, os viajantes demonstram quem realmente são. Ford se mostra cheio de compaixão por aqueles que são vítimas da sociedade e dá a cada um deles e àqueles que os desprezam uma chance de sair de sua condição. Dallas e Ringo são os porta-vozes, e a mulher grávida um digno exemplo: o olhar cheio de compaixão que ela terá por Dallas é a chave e o momento crucial do filme.”

Tenho que repetir: perfeita, maravilhosa observação. No final, a dama, Mrs. Lucy Mallory, que antes olhava com desprezo a prostituta Dallas, muda de atitude, deixa de lado o preconceito, e olha para ela com um ar cheio de compaixão e agradecimento.

É possível mudar. É possível melhorar.

John Ford puro.

Anotação em junho de 2017

No Tempo das Diligências/Stagecoach

De John Ford, EUA, 1939

Com Claire Trevor (Dallas), John Wayne (Ringo Kid), Andy Devine (Buck, o cocheiro), John Carradine (Hatfield, o jogador), Thomas Mitchell (Josiah Boone, o médico), Louise Platt (Mrs. Lucy Mallory, a dama), George Bancroft (Curley Wilcox, o xerife), Donald Meek (Samuel Peacock, o comerciante), Berton Churchill (Ellsworth Henry Gatewood, o banqueiro), Tom Tyler (Luke Plummer, o bandido), Tim Holt (tenente Blanchard)

Roteiro Dudley Nichols

Baseado em história de Ernest Haycox

Fotografia Bert Glennon

Música Gerard Carbonara

Montagem Otho Lovering, Dorothy Spencer e Walter Reynolds

Produção Walter Wanger. DVD ClassicLine.

P&B, 96 min (1h36)

R, ****

Título na França: La Chevauchée Fantastique. Em Portugal: Cavalgada Heróica.

5 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 31 outubro 2017 às 9:28 pm | Permalink

    “Ao longo de seus curtos 96 minutos, há tudo, tudo o que um bom western deve ter”: JOHN WAYNE.
    Claire Trevor era linda, sempre achei 🙂

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 1 novembro 2017 às 2:34 pm | Permalink

    Espero que você não tenha me entendido mal, Senhorita querida.
    Também acho a Claire Trevor uma mulher bonita. Mas ela não tem aquela beleza esplendorosa de tantas outras atrizes de Hollywood…
    Um abraço.
    Sérgio

  3. Senhorita
    Postado em 1 novembro 2017 às 7:48 pm | Permalink

    Eu acho que o tipo de beleza dela ficava em segundo plano, pois em primeiro lugar a gente pensa que ela atuava MUITO fantasticamente bem. Era tipo… uma versão feminina do Dirk Bogarde (nem precisava ser tão lindo, com tantos atributos) 😀

  4. Senhorita
    Postado em 1 novembro 2017 às 7:49 pm | Permalink

    Agora, quando eu vejo ESSE TIPO DE FILME no 50 Anos, ah, que alegria!!!

  5. Carla
    Postado em 1 novembro 2017 às 8:56 pm | Permalink

    O western dos westerns. Filmaço. Revi este ano, e que maravilha! A observação sobre como cada personagem, através da narrativa, vai revelando quem é, é crucial. Para mim, um western psicológico dos bons. Dos melhores.

Um Trackback

  1. […] Torrey, chamado com admiração pelos que o conheciam como The Rock, A Rocha. É o papel de John Wayne, no primeiro e único filme que fez com Otto Preminger, e que viria a ser o seu último filme em […]

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