Negócio das Arábias / A Hologram for the King

Nota: ★★★☆

Negócio das Arábias, no original A Hologram for the King, do diretor alemão Tom Tykwer, é o que se pode chamar – com alguma dose de frescura, de coisa pernóstica – de um filme que permite várias leituras. Se o espectador quiser entendê-lo como uma gostosa comédia, tudo bem – é, sim, uma gostosa comédia.

É também um relato dramático – embora com momentos cômicos – sobre um profissional que enfrenta um momento dificílimo em sua carreira, ameaçado de perder o emprego, sem dinheiro para continuar custeando a universidade da filha única, alvo de queixas constantes da ex-mulher, fragilizado, debilitado por um problema de saúde.

É também uma história sobre a globalização e seus efeitos. Ele mesmo o resultado da globalização – é uma co-produção Inglaterra-França-Alemanha-EUA-México, filmada em diversos países, passada na Arábia Saudita –, o filme fala da exportação de empregos industriais dos Estados Unidos para outros países. Foi lançado em 2016, o mesmo ano em que a Grã-Bretanha surpreendeu o mundo com a vitória do Brexit e Donald Trump fez o mesmo ao ser eleito presidente dos Estados Unidos com um discurso radical antiglobalização.

E é ainda uma sátira, uma brincadeira com os estereótipos que o Ocidente costuma desenhar sobre o mundo muçulmano. Terreno perigosíssimo, este – pode até parecer a alguns que o filme caminha no fio da navalha entre o bom humor e o preconceito, o etnocentrismo, o supremacismo dos brancos ocidentais.

Quem definir o filme assim é ignorante ou age de má-fé. O filme é na verdade uma ode à convivência entre as diferentes culturas, uma elegia à colaboração entre os díspares.

O filme se baseia em um livro de Dave Eggers, um geninho

O filme, como a maioria dos feitos nos últimos anos, não tem créditos iniciais. O espectador que não tiver lido matérias sobre ele (o tipo de espectador mais cuidadoso, na minha opinião) só vai ficar sabendo quem fez o que depois que tudo termina. Enquanto o filme ia rolando na minha frente, já havia me esquecido quem era o diretor.

Nos créditos finais, me caiu a ficha: claro, eu havia visto antes, em algum título de jornal, revista ou site, que era um filme do alemão Tom Tykwer, realizador admirável, inquieto, jovem, pulsante, o autor de Corra, Lola, Corra, aquela bela surpresa de 1998. Depois, ele fez A Princesa e o Guerreiro (2000), Perfume: A História de um Assassino (2006), Trama Internacional (2009), e também A Viagem/Cloud Atlas, de 2012, um troço que parece meio cabeção e ainda não vi, com diversos grandes atores, inclusive Tom Hanks – o protagonista deste A Hologram for the King aqui.

Se não estou enganado, nos créditos finais aparece “Written and directed by Tom Tykwer”. Quando a assinatura vem assim, “escrito e dirigido por”, é porque o roteiro é original, porque o autor ou autores do roteiro criou ou criaram também a trama, a história. Naquele momento, fiz uma exclamação para a Mary, tipo: pô, é mesmo, é o Tom Tykwer, e a história é dele!

Não, não é. Logo em seguida os créditos explicam: Baseado no livro de Dave Eggers. Como sou um absoluto ignorante, jamais tinha ouvido falar de Dave Eggers, mas vejo agora que o bicho é fodinha. Nascido em 1970, apenas cinco anos antes da minha filha, ele é, como diz a Wikipedia, um escritor e editor americano, autor de um livro de memórias que foi best-seller, A Heartbreaking Work of Staggering Genius, e foi também o fundados do jornal literário McSweeney’s, o co-fundador do projeto literário 826 Valencia, de uma organização de defesa dos direitos humanos, Voice of Witness e o fundador de um programa – ScholarMatch – dedicado a unir doadores, filantropos, com estudantes que não podem pagar por seus estudos.

Entre 2000 e 2016, o rapaz colecionou 38 prêmios literários. Mais que Charlie Chaplin, John Ford, Orson Welles no mundo do cinema. Muito provavelmente mais que Fitzgerald, Hemingway, Faulkner e Steinbeck.

Escreve à velocidade de um Gabriel Chalita, deixa para trás um Paulo Coelho. Nestes parcos 16 anos, publicou cinco obras de não-ficção, 13 de ficção, mais 4 livros de humor.

A Hologram for the King apareceu em 2012. Não é uma trolha gigantesca, um cartapácio: tem umas 300 e tantas páginas.

Aparentemente, no entanto, detalha muito mais episódios da vida do protagonista, Alan Clay, do que os que acabaram cabendo no filme. Aparentemente (repito, porque não li o livro), Tom Tykwer preferiu se concentrar em uma parte da obra – a viagem de Alan Clay à Arábia Saudita –, e apenas citar, bem en passant, episódios anteriores a este, que, pelo jeito, são mais detalhados no livro.

O protagonista havia tido carreira fulgurante – e aí caíra no chão

Em pinceladas rápidas, muito rápidas, o filme, seguindo o roteiro escrito pelo realizador, mostra que Alan Clay havia tido uma carreira fulgurante. Homem de vendas, competentíssimo no assunto, tinha chegado a diretor de uma grande indústria fabricante de bicicletas. Lá pelas tantas, como tantos outros CEOs de tantas outras indústrias americanas, havia decidido – para maximar os lucros, para continuar sendo competitivo no mundo de economia globalizada – transferir a parte industrial para a China, onde a mão de obra é muitissíssimo mais barata que nos Estados Unidos. Os chineses haviam então dominado a tecnologia, passado a produzir bicicletas iguaizinhas às da empresa americana, e a um custo muito inferior – e a americana havia simplesmente falido, quebrado, desaparecido.

Homem de vendas competente, em ascensão meteórica até chefiar uma grande indústria, Alan havia então perdido tudo, voltado ao ponto inicial do Banco Imobiliário que é a vida da gente.

Há um diálogo triste, dramático, entre Alan e sua filha Kit (Tracey Fairaway). Sem dinheiro do pai para continuar pagando a faculdade, Kit estava trabalhando como garçonete. Em ligação para o pai via laptop, conta que a mãe não parava de criticar Alan, chamando-o de coisas tipo incompetente. E então Kit sugere, pede, implora: – “Pai, você vai provar que ela está errada, não é?”

Mas tudo, todas as referências ao passado de Alan são de fato apresentadas em pinceladas muito rápidas, a maioria delas bem no início da narrativa.

Pode parecer uma gozação aos muçulmanos. Não é nada disso

No momento que o filme focaliza, Alan está empregado em uma grande empresa de tecnologia da informação baseada em Boston, a capital da Nova Inglaterra, a base do MIT e outros centros das melhores instituições de ensino que há no mundo. A empresa está apostando suas fichas numa concorrência para cuidar de toda a TI de uma cidade planejada que a Arábia Saudita está começando a construir. Alan está ali porque seu currículo indica que é amigo de um sobrinho do rei da Arábia. Seu superior demonstra o tempo todo que não gosta muito dele. E veremos que a coisa da amizade com um sobrinho do rei é algo que foi muitíssimo ampliado, exagerado, no currículo de Alan: na verdade, ele havia mantido um diálogo com o sobrinho do rei, no seu tempo de universidade, e pouco mais que isso.

Em suma é assim: ou bem Alan se dá bem na concorrência na Arábia Saudita, ou perde o emprego. É sua última chance.

A narrativa começa com Alan sentado no meio de um avião lotado de muçulmanos, a caminho da Arábia Saudita. A cena é engraçada, mas também um tanto dúbia: o nosso herói, o Wasp, o branco anglo-saxão protestante está no meio de duzentos sujeitos todos vestidos de forma idêntica recitando orações em árabe, aquela coisa que, aos nossos olhos, pode parecer um tanto ridícula.

Vamos ter aqui um filme que goza os árabes, os muçulmanos?

Não. Já disse, lá em cima, que não se trata de nada disso.

Mas que as primeiras sequências – Alan no avião, Alan desembarcando na Arábia, Alan pegando um táxi com um árabe muito árabe, embora tenha passado alguns anos nos US of A, um tal Yousef (Alexander Black) – são engraçadíssimas. Os esquerdiotas, os anti-americanistas de plantão talvez tivessem motivo para dizer que aquilo ali é manifestação de supremacismo branco de zóio azul.

Besteira. Não é nada disso.

Tudo, absolutamente tudo vai dando errado para Alan na Arábia Saudita

Dá tudo errado para Alan, em seus primeiros dias de Arábia Saudita. A equipe da empresa dele que havia chegado antes – três técnicos em TI, competentes, extremamente jovens – estava alojada numa grande tenda no meio do deserto, não perto demais da majestosa construção sede das atividades do governo que está para criar ali uma nova cidade, à la Abu Dhabi. Os três geninhos da computação (interpretados, se não estou enganado, por Christy Meyer, Megan Maczko e Ben Whishaw) trabalham em condições péssimas, sem conexão estável com a internet, sem acesso a restaurante ou lanchonete, isolados do mundo – em uma tenda!

O sujeito que deveria ser o contato de Alan junto ao governo, Karim Al-Ahmad (Khalid Laith), simplesmente não aparece no prédio que centraliza as ações do governo ali no meio do deserto.

A cada duas horas, Alan recebe uma ligação internacional do chefe que não gosta dele, perguntando por resultados – quando vai ser a apresentação para o rei, quando o contrato vai ser assinado.

Não se vende bebida alcoólica oficialmente na Arábia Saudita – e quando Alan, necessitado de um drink, encontra um uísque vagabundo, exagera, fica bêbado, perde mais uma vez a hora na manhã seguinte.

E precisa se mostrar confiante, otimista, diante dos árabes todos e, sobretudo, do seu time, os três geninhos.

Como toque final na coroa de infortúnios, descobre um gigantesco calombo nas suas costas, perto da coluna vertebral. Numa noite de bebedeira – mais uma –, tenta cutucar o calombo com uma faca, e tudo que consegue é formar na cama do Hyatt em que está hospedado uma imensa poça de sangue.

Na manhã seguinte, sai sangue do calombo, atravessa a camisa, atravessa o terno – e aí Yousef, o árabe que tinha começado como motorista e a cada dia ficava mais o ajudante faz-tudo do gringo, o leva para um hospital.

Alan é atendido por uma médica, a dra. Zhara (o papel de Sarita Choudhury).

Um homem bom, simpático, boa gente, que está à beira do abismo

Tom Hanks, nascido em 1956, que era um garotinho jovem demais lá por 1984, o ano de Splash, 1986, o ano de Um Dia a Casa Cai, e que a gente viu crescer, e crescer, e virar adulto, agora já dá sinais de que muito tempo, muito tempo se passou.

Puta ator, esse Tom Hanks.

Há nos olhos de Tom Hanks uma tristeza imensa, uma desolação infinita, o dragão do desespero chegando perto demais, quando Alan, no meio da consulta com a dra. Zhara, ela já tendo examinado o calombo, não consegue se conter e diz:

– “Não ando bem nos últimos tempos. Desajeitado, lento. Falta de energia. Acho que perdi a força, algumas habilidades. Eu sempre fui em criar simplicidade, em transformar situações complicadas em situações mais fáceis.”

O espectador seguramente já havia dado boas risadas com os infortúnios de Alan mostrados nas sequências anteriores. Os infortúnios, os contratempos, os contra-vapores enfrentados por ele nos primeiros dias nas Arábias haviam sido de fato encenados com graça, com bom humor.

Diante da tristeza sem fim que Alan enfim exibe para a médica coberta por véus que o atende, a garganta do espectador trava.

Estamos diante de um homem que vive uma situação dramática. Um homem bom, simpático, boa gente, que está à beira do abismo.

Duas atrizes marcantes em papéis muito díspares

Por uma dessas coincidências interessantes, tínhamos visto, pouquíssimos dias antes deste A Hologram for the King, o filme A Corte/L’Hermine, de Christian Vincent, em que brilha, fulgura a atriz dinamarquesa Sidse Babett Knudsen (na foto acima). A Corte é de 2015. Em 2016, Sidse Babett Knudsen fez este A Hologram for the King e também Inferno, igualmente com Tom Hanks, mais uma das aventuras do estudioso Robert Langdon criado por Dan Brown. Isso sem contar com a participação nos nove primeiros episódios da série Westeworld.

Sidse Babett Knudsen – que em 2006 foi dirigida pela conterrânea Susanne Bier no maravilhoso Depois do Casamento – de fato ilumina a tela, no filme de Christian Vincent. Está belíssima – uma jovem senhora madura que não esconde de forma alguma seus gloriosos 47 anos de idade, belos cabelos negros contrastando com a pele e os olhos claros.

Está completamente diferente neste A Hologram for the King: tem os cabelos louros, cacheados e curtos. Faz o papel de Hanne, uma competente dinamarquesa que é auxiliar do árabe Karim Al-Ahmad. Ao contrário da Ditte que interpreta em A Corte – uma médica séria, recatada -, sua Hanne aqui é uma mulher fogosa, dada a festas embaladas por muito álcool e droga, e também dada, simplesmente.

Aparece pouquíssimo, apenas em três sequências, creio.

Já a dra. Zhara aparece lá pela metade do filme, quando o bom Yousef leva o gringo Alan até um hospital, e aí não desaparece mais.

Não conhecia Sarita Choudhury (na foto abaixo), a atriz que faz a médica. Boa atriz, mulher de presença forte na tela, a mil milhas do padrão tradicional de beleza, um tipo fascinante. E de carreira tão interessante quanto sua beleza distante das Barbies da vida.

Sarita Catherine Louise Choudhury nasceu em Londres, em 1966, filha de pai indiano e mãe inglesa. Foi criada na Jamaica, no México e na Itália e estudou economia na Queens University, no Canadá, antes de virar atriz. Consta que foi meio por acaso que se apresentou para os testes de casting do filme Mississippi Masala, que a diretora indiana Mira Nair lançaria em 1991 – e acabou ganhando o papel principal, ao lado de Denzel Washington. Há quem nasça com o para a Lua – bem, claro que é o talento que define tudo, mas uma boa dose de sorte, como diria Woody Allen, também é fundamental.

Mississippi Massala fez muito sucesso, mas Sarita Choudhury empenhou-se em remar contra a maré e não ir para Hollywood. Assim, nos anos seguintes, como mostra a minibiografia dela no IMDb, interpretou uma cantora de country paquistanesa em Wild West (1992), uma chilena vítima de estupro na adaptação feita por Bille August da novela de Isabel Allende A Casa dos Espíritos (1993) e uma mãe lésbica em Fresh Kill (1994). Voltaria a trabalhar com Mira Nair em Tudo por Um Sonho (1995) e na adaptação do Kama Sutra (1996).

Como ninguém é de ferro, e Hollywood sempre atraiu todo tipo de talento vindo de qualquer lugar do mundo, participou de dois filmes da franquia Jogos Vorazes, antes de fazer a dra. Zhara desta co-produção de diversos países. Uma co-produção do mundo globalizado, com uma atriz absolutamente globalizada.

É um bom filme. Mais um bom filme nos belos currículos desses dois Toms, o Hanks e o Tykwer.

Anotação em novembro de 2016

Negócio das Arábias/A Hologram for the King

De Tom Tykwer, Inglaterra-França-Alemanha-EUA-México, 2016.

Com Tom Hanks (Alan)

e Alexander Black (Yousef), Sarita Choudhury (Zahra), Sidse Babett Knudsen (Hanne), Khalid Laith (Karim Al-Ahmad), Tracey Fairaway (Kit, a filha de Alan), Jane Perry (Ruby), Tom Skerritt (Ron, o pai de Alan), Michael Baral (Ron jovem), Lewis Rainer (Alan jovem), Alexander Molkenthin (Alan criança), Xara Eich (Kit criança), David Menkin (Brad), Christy Meyer (Cayley), Megan Maczko (Rachel), Ben Whishaw (Dave)

Roteiro Tom Tykwer

Baseado no romance de Dave Eggers

Fotografia Frank Griebe

Música Johnny Klimek e Tom Tykwer

Montagem Alexander Berner

Produção X-Filme Creative Pool, 22h22, Fábrica de Cine, Kasbah-Film Tanger, Playtone, Primeridian Entertainment.

Cor, 98 min.

***

2 Comentários

  1. Celia Foresto
    Postado em 9 julho 2017 às 11:01 am | Permalink

    Sérgio, a atriz Sarita participou da série Homeland como esposa do grande ator Mandy Patinkin! Aliás, Sérgio, essa série está entre minhas favoritas!
    Abraços

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 17 julho 2017 às 6:22 pm | Permalink

    Sim, Celia. Eu vi essa bela atriz em “Homeland”. Nós também, Mary e eu, ficamos encantados com a série. Vimos as cinco primeiras temporadas; já fiz um texto sobre as três primeiras e um outro sobre a 4 e 5. Estou para publicar qualquer dia destes.
    Um abraço, e obrigado pelo comentário, Celia!
    Sérgio

Um Trackback

  1. […] foi o primeiro encontro de Clint Eastwood e Tom Hanks – dois dos nomes mais importantes do cinema americano nos últimos 50 anos, para não dizer dos […]

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