Mulheres Diabólicas / La Cérémonie

Nota: ★★★★

La Cérémonie, o filme de Claude Chabrol de 1995 com sua musa Isabelle Huppert e mais um elenco estonteante, é um filmaço. Estupendo, extraordinário. Obra-prima.

É também uma paulada, um violento soco no estômago.

O único defeito deste filme maior é o título que os exibidores brasileiros inventaram para ele.

A rigor, a rigor, quem ainda não viu La Cérémonie não deveria ler nada sobre o filme antes de vê-lo. Qualquer informação sobre ele, a rigor, a rigor, é spoiler. O ridículo título brasileiro já é um spoiler.

Então fica o alerta desde já: se o eventual leitor não viu, pare de ler este texto agora. Veja o filme, que é cinema grande.

Para Roger Ebert, o desfecho é uma grande surpresa – mas, a rigor, seria de se esperar

Roger Ebert, o crítico que amava ver filmes e amava reconhecer as qualidades e não os defeitos dos filmes que via, começou seu longo texto sobre La Cérémonie – que recebeu dele seu selo de “Great Movie” – dizendo que os franceses têm um substantivo para designar os eventos que levam a uma morte na guilhotina: “a cerimônia”. “Embora La Ceremonie (1995) de Claude Chabrol não contenha guilhotina alguma (os acentos franceses da palavra foram dispensados…), há uma implacável sensação que remete a ela, como se os personagens estivessem envolvidos numa performance que pode ter apenas um desfecho. Ele chega como uma surpresa para todos eles, e para nós. Mas, dadas aquelas pessoas naquela situação, nós poderíamos realmente dizer, em retrospectiva, que fomos surpreendidos?”

http://www.rogerebert.com/reviews/great-movie-la-ceremonie-1995

Não encontrei referência à pena de morte pela guilhotina nos verbetes sobre “cérémonie” nos meus dois dicionários de francês, uma edição antiquíssima do Petit Larousse e uma bem recente do Le Robert de Poche, nem na Wikipedia em francês, mas seguramente Roger Ebert sabia do que estava falando.

As duas protagonistas da história já haviam sido personagens de faits divers

O que me veio à cabeça, algumas horas depois de levar a paulada, o violento soco no estômago que é o filme, foi uma outra expressão francesa, tipicamente francesa: fait divers.

Fait divers, segundo Le Robert, é “notícias sem importância”, segundo o Larousse, “acontecimentos pouco importantes” – mas essas definições são pobres, limitadas. O Larousse na internet avança um pouco mais: “Acontecimento sem amplitude geral que pertence à vida cotidiana”.

Fait divers é, em jornalismo – explica detalhadamente a Wikipedia em francês –, “um tipo de acontecimento que não é classificável nas rubricas que compõem habitualmente uma publicação – internacional, nacional, política, economia, etc. São geralmente eventos trágicos, tais como os crimes, os acidentes.”

Geralmente eventos trágicos, crimes, acidentes – mas não apenas. Também os incidentes que acontecem nas vidas das pessoas comuns, gente como a gente. Casos de pessoas desaparecidas, de disputa pela guarda de filhos, de disputa por uma herança. Parodiando a canção de Haroldo Barbosa, são as notícias de quando a dor da gente sai no jornal. Nos jornais brasileiros, são as notícias nas páginas de editoriais que se chamam Cidades, Cotidiano, Geral.

Folheio O Globo e O Estado do dia em que vimos La Cérémonie: “PM que fazia bico no Uber é morto durante assalto.” “Estupro coletivo teria uma segunda vítima.” “Júri condena fundador da Gol por assassinato.”

Fait divers. Esses aí são perfeitos exemplos de fait divers.

Demora bastante para que o espectador fique sabendo, mas as duas personagens centrais de La Cérémonie haviam sido notícias de jornal. Haviam sido personagens de fait divers.

Quase até o fim, parece não haver propriamente uma trama, uma história

O roteiro do filme, escrito por Chabrol e Caroline Eliacheff, foi elaborado de tal maneira que o espectador só fica sabendo que duas personagens haviam tido seus nomes e fotografias reproduzidos nos jornais quando chega à metade do filme que dura 1 hora e 52 minutos.

Assim, quando se escreve sobre La Cérémonie, é preciso ter muito cuidado para não revelar fatos que o filme demora bastante para apresentar. Em suma: é preciso um cuidado redobrado para não dar spoilers.

Durante os primeiros 92 minutos dos 112 que o filme tem, Claude Chabrol constrói o clima para o que virá nos últimos 20.

Com calma, extrema calma, através de uma série de pequenos detalhes – além dos diálogos –, Chabrol vai mostrando como é o comportamento de cada um dos seis personagens da história, como é o cotidiano deles.

É um retrato psicológico de seis pessoas. Não parece haver propriamente uma trama, uma história – em 92 minutos de belo cinema, acompanhamos o dia-a-dia de uma família, da empregada doméstica e de uma moça que se torna amiga da empregada.

Só isso. Ou melhor: tudo isso.

Quando o filme estava com 40 minutos, Mary comentou que faltava um fato, uma história, algo que amarrasse, que justificasse por que estamos acompanhando o dia-a-dia daquelas pessoas. Mary, felizmente para ela, não tinha lido uma sinopse sequer do filme, e tudo para ela foi surpresa total. Eu tinha lido uma sinopse bem curta – mas bastou para me revelar o tipo que coisa que viria.

A patroa finalmente acha uma moça disposta a cuidar de sua gigantesca casa

Começa com o encontro de uma mulher que procurava uma empregada com uma empregada que procurava um trabalho.

A patroa é Catherine Lelievre – o papel de Jacqueline Bisset, com aquela beleza esplendorosa dela. Mulher bela, elegante, rica, fina, chique. Tem uma galeria de arte naquele pequenina cidade, e a casa dela fica afastada, a uns 10 km da área urbanas – e é uma casa muito grande mesmo, ela faz questão de dizer à candidata a um emprego lá, quando as duas se encontram num café.

A moça chama-se Sophie – o papel de Sandrine Bonnaire. Havia trabalhado muitos anos para um casal, mas o patrão tinha morrido. A patroa fez uma carta de apresentação para ela, e colocou no alto o número do telefone, para Madame ligar – e Catherine diz que vai ligar à noite.

Sophie diz que não tem medo de trabalho.

Catherine pergunta quando ela pode começar – poderia ser na terça-feira que vem? Sophie faz uma expressão de dúvida – que dia é hoje?, pergunta. É sábado, Catherine informa. Assim ela teria o domingo e a segunda para se organizar. Tudo bem na terça?

Combinam que a patroa pegará a moça na estação de trem na terça-feira, às 9 da manhã.

Em casa, conta para a família que está esperançosa, que a moça parece ser boa. Fica bastante claro que estava difícil encontrar alguém disposto a trabalhar ali naquela casa gigantesca, isolada, no meio do nada, a 10 km da cidadezinha mais próxima.

O marido, Georges Lelievre (Jean-Pierre Cassel), é um homem simpático, bem mais velho que Catherine, aí com uns 65, talvez já 70 anos. Veremos que é um industrial – tem uma empresa no ramo de alimentação, de sardinhas. A pequena cidade que jamais é identificada no filme fica à beira mar. George adora comer bem. E tem absoluta paixão por música erudita e por Mozart em particular.

Ele e Catherine – o espectador vai percebendo ao longo do filme – se amam, são bastante carinhosos um com o outro.

Com o casal mora Gilles (Valentin Merlet), o filho dos dois, um adolescente aí de uns 14 anos. A filha do primeiro casamento de Georges, Melinda, não mora com eles – vive e estuda numa cidade grande, e passa os fins de semana na gigantesca casa no meio do campo e próxima do mar. Melinda tem 19 anos, e é interpretada por Virginie Ledoyen (nas fotos acima e abaixo), aquele avião, que, nascida em 1976, estava exatamente com 19 anos quando o filme foi lançado. Mas não era uma novata: tinha já dez títulos na filmografia, incluindo séries de TV.

A luta de classes está clara, exposta, aberta, ao longo do filme

É uma família tranquila, ajustada, sem dramas, sem tragédias. O casal se entende bem – Catherine e George são bastante carinhosos um com outro, repito. Gilles é um adolescente não muito aborrescente – é um garotão bem legal, na verdade.

Melinda se dá bem com a madrasta, e Catherine se dá bem com a enteada, algo que nem sempre acontece. Com 19 anos, Melinda contesta o pai e a madrasta em algumas coisas. Por exemplo, questiona a necessidade de a família ter uma empregada. Questiona até a expressão usada pelos franceses para designar a empregada doméstica, bonne. Mas todo adolescente contesta os pais – e as contestações de Melinda são todas numa faixa absolutamente aceitável. Nada grave.

Não há nada grave na família Lelievre.

Sim, claro, são privilegiados, são ricos. Têm uma vida absolutamente confortável, em termos materiais, neste mundo em que existe tanto pobre, tanto miserável, tanta injustiça.

Claude Chabrol é um cineasta que – como muitos de seus colegas franceses e italianos – não tem qualquer apreço pela burguesia, os burgueses, os ricos. Muitíssimo ao contrário. Em muitos de seus filmes, Chabrol critica, satiriza, ridiculariza as pessoas das classes altas. É um dos motivos pelos quais tenho uma irreprimível antipatia dele. Mas neste La Cérémonie ele não perde tempo com isso – a não ser numa única sequência, num domingo, em que os quatro da família recebem a visita de um grupo de amigos e parentes. Mas é coisa pouca.

Ao menos me pareceu que neste filme Chabrol não está a fim de ficar criticando, satirizando, ridicularizando os ricos. Apresenta cada um dos quatro membros da família Lelievre sem realçar defeitos, imbecilidades deles – até porque são pessoas de boa índole, educadas, civilizadas, polidas.

Mas La Cérémonie é uma exibição da luta de classes. A luta de classes vai estar clara, exposta, aberta, ao longo do filme. Quem a escancara é Jeanne, a moça que trabalha na agência dos Correios da cidadezinha sem nome – o papel de Isabelle Huppert.

Jeanne, a moça dos Correios, aparece en passant quando o filme ainda está bem no começo. Na terça-feira em que Sophie chega à estação de trem, e Catherine vai buscá-la, Jeanne pede uma carona, e Catherine a coloca no banco de trás. Jeanne fica olhando com grande curiosidade para aquela pessoa nova no pedaço, a moça que veio para trabalhar na casa dos Lelievre.

Depois ela some de cena, para só reaparecer bem mais tarde.

 Diretor e atriz construíram uma Sophie que deixa o espectador intrigado

Com maestria, Chabrol consegue transmitir para o espectador, desde o início, desde a primeira sequência do filme, o encontro de Catherine com Sophie no café, que aquela moça tem algo um tanto estranho.

É coisa de mestre. Sem dúvida, é coisa de mestre isso de deixar o espectador, desde a primeira sequência, com uma sensação, uma impressão de que Sophie tem algo estranho. Que esconde algo do seu passado.

Chabrol e a magnífica interpretação de Sandrine Bonnaire deixam o espectador com uma pulguinha atrás da orelha. Mas é sutil, não é algo forte, violento, aberto, explícito.

Quando o filme estava aí com uns 15 minutos, comentei com Mary pela segunda ou terceira vez que Sophie parecia esconder alguma coisa, parecia ter algo estranho a ser revelado – mas que também pode não haver, porque Chabrol não deixa nada explícito. Poderia ser apenas uma pegadinha – lançar sutilmente essa suspeita para o espectador, para depois desmentir, mostrar que as aparências enganam.

Mas o que, exatamente, Sophie tem de esquisito, que transmite essas dúvidas para o espectador?

Aí é que está a maestria: não é nada muito palpável, nítido, firme, às claras.

Na primeira conversa com a futura patroa, ela não sabe que dia é aquele. Como assim, alguém que não sabe em que dia estamos – quando estamos em um sábado? Mas tudo bem – pode apenas ser uma pessoa meio desligada.

Ela ficou de chegar na terça-feira no trem das 9 da manhã – chega no trem que veio antes. Por quê, diacho?

À maioria das perguntas dirigidas a ela – como está? você está gostando? o que você acha de tal coisa? –, Sophie responde com “não sei”.

Nada sério, nada grave, absolutamente nada explícito – mas que tem alguma coisa estranha aí, ah, tem…

A forma com que Sandrine Bonnaire interpreta essa Sophie é absolutamente extraordinária. Para isso conta, é claro, o talento da atriz – mas conta muito também o trabalho de direção de Chabrol. Ele é sem dúvida um dos grandes diretores de atores da História do cinema. E conta também o trabalho das equipes técnicas, a figurinista, o pessoal da maquilagem, dos penteados.

A Sophie de Sandrine Bonnaire é a imagem perfeita de uma moça solitária demais, medrosa diante do mundo, talvez encerrada em um mundo só seu, uma moça que evidentemente teve uma infância pobre, despossuída, sem oportunidades.

Uma moça no limite – limítrofe, na linha que separa as pessoas de pobreza mental com as de mínima inteligência. No limite, afinal, entre a mínima sanidade mental e o outro lado.

Sophie e Jeanne vão se atrair demais, e desesperadamente, como náufragos

Como a cidadezinha mais próxima da casa isolada dos Lelievre é muito pequena, como todos ali acabam se conhecendo, e como opostos se atraem, Sophie acabará se aproximando de Jeanne, a moça dos Correios.

Tudo, em La Cérémonie, demora um tanto a acontecer, exatamente como na vida. Nada acontece de repente, rapidamente. E então, como já foi dito, Jeanne só vai reaparecer no filme quando vamos chegamos perto da metade da narrativa. Assim, a aproximação entre Sophie e Jeanne vai acontecer só a partir da metade de seus 112 minutos.

Em muita coisa, Jeanne parece exatamente o oposto de Sophie. A empregada é tímida, fechada, Jeanne é expansiva, aberta. Sophie parece ter medo do mundo à sua volta, Jeanne parece ter um desejo irrefreável de desafiar tudo o que vê pela frente.

Sophie demonstra ser bem pouco inteligente, bem pouco articulada. Jeanne mostra que é espertíssima, fala bem, adora ler, lê muito, tudo o que passa pela sua frente.

Sophie se veste de forma sóbria, careta, antiga, tradicional, Jeanne se veste com roupas coloridas, fortes, até um tanto extravagantes para uma cidadezinha pequenina demais, um tanto jovens demais para uma mulher que afinal de contas já passava bem dos 30 e bastante.

Sophie-Sandrine Bonnaire é uma jovem que parece mais velha. Jeanne-Isabelle Huppert é uma mais que balzaquiana que quer parecer garotinha.

Parei um instante a anotação aqui para checar, e é isso mesmo. Isabelle Huppert é de 1953, estava portanto com 42 anos quando o filme foi lançado. Sandrine Bonnaire é de 1967, estava com 28 anos.

São, em muitas coisas, opostas, e os opostos se atraem muito.

São, naquilo que é absolutamente fundamental, muito parecidas: são, as duas, seres desajustados. Misfits, outcasts. Débauchés, déglingués, dérangés, déséquilibrés, désordonné, détraqués. Desajustados, deslocados, desambientados, desadaptados, desencaixados, descombinados, desordenados, desregulados.

Os desajustados se atraem demais uns aos outros, e desesperadamente, como náufragos.

Sophie e Jeanne vão se atrair demais, e desesperadamente, como naúfragos.

Deram-se maravilhosamente bem o diretor e atriz talentos e antipáticos

Todas as atuações dos atores em La Cérémonie são extraordinárias, marcantes, impressionantes. Já disse mas repito: Claude Chabrol é um dos maiores diretores de atores que há na História do cinema.

Não é à toa, não é sem propósito que Isabelle Huppert e Sandrine Bonnaire tenham tido indicações ao César de melhor atriz, e Jacqueline Bisset e Jean-Pierre Cassel tenham tido indicações ao César de coadjuvante.

Quatro atores centrais – todos os quatro indicados ao maior prêmio do cinema francês.

La Cérémonie também teve indicações ao César nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro. No fim, só Isabelle Huppert levou o prêmio.

Isabelle Huppert, de fato, exagera no talento. É uma interpretação absolutamente impressionante.

Não sei se vou conseguir o número de filmes que La Huppert e Chabrol fizeram juntos, mas foram muitos, vários, vários. Chabrol fez, se não estou enganado, 51 longa-metragens, entre 1958, o ano de Nas Garras do Vício/Le Beau Serge, 2009, o de Bellamy. La Huppert já ultrapassou 130 títulos, em uma carreira iniciada em 1971.

Deram-se maravilhosa, perfeitamente bem, o diretor e atriz de talento demais da conta – um talento tão gigantesco, tão jupiteriano quanto a soberba e a antipatia que transmitem.

No livro, a personagem de Isabelle Huppert é bem menos importante

Os créditos iniciais mostram que o filme se baseia no livro A Judgement in Stone, de Ruth Rendell – e, em seguida, há uma informação intrigante: “Com a participação de Monsieur Ousama Rawi”

Ruth Barbara Rendell, a baronesa Rendell of Babergh (1930-2015), foi uma escritora inglesa, autora de thrillers e histórias de mistério contadas com um viés psicológico, informa a Wikipedia. Em muitos de seus livros, ela “explorou profundamente o contexto psicológico dos criminosos e de suas vítimas”.

Foi premiadíssima: entre 1975 e 2010, recebeu mais de duas dezenas de prêmios literários. Em 1996, um ano após o lançamento de La Cérémonie, ela recebeu da rainha Elizabeth II o título de Commander of the Order of the British Empire (CBE).

Consta que ela ficou plenamente satisfeita com a adaptação para o cinema feita por Chabrol, com roteiro dele e de Caroline Eliacheff. (O diretor voltaria a fazer um filme baseado em obra da escritora em 2004, A Dama de Honra/La Demoiselle d’Honneur.)

O livro que deu origem a La Cérémonie já havia tido uma adaptação para o cinema em 1986, com o título de The Housekeeper, a empregada. Foi também distribuído com o título do romance, A Judgement in Stone – no IMDb constam os dois títulos; na Wikipedia em inglês, apenas o primeiro. O papel central, da empregada, ficou com Rita Tushingham, a inglesinha feiosa de gigantescos olhos claros que encantou as platéias nos anos 60 em Um Gosto de Mel (1961) e A Bossa da Conquista (1965).

O filme foi dirigido por Ousama Rawi, um iraquiano radicado na Inglaterra que tem vários trabalhos como diretor de fotografia e produtor; o único filme que dirigiu foi esse The Housekeeper/A Judgement in Stone. O que explica a menção ao nome de Ousama Rawi nos créditos iniciais do filme de Chabrol.

Pelo que dá para perceber pelo que dizem o IMDb e a Wikipedia, no romance da autora inglesa a personagem da amiga da emprega tem importância bem menor do que a dada em La Cérémonie para Jeanne, a moça dos Correios. Ou seja: para fazer brilhar sua atriz fetiche, Chabrol e sua co-roteirista fizeram crescer a importância da personagem.

Mas não foi apenas para fazer Isabelle Huppert brilhar. Foi também para aproveitar o fantástico talento dela.

Decisão acertadíssima.

No final deste texto, um fato absolutamente surpreendente

O livro A Judgement in Stone é de 1977. A Wikipedia em inglês traz a primeira frase do romance – e é fascinante, surpreendente, chocante: na primeira frase, o romance desvenda tudo. Revela o segredo que a empregada guarda de todos a sete chaves, e que o filme mostra ao espectador quando estamos com 20 minutos de narrativa. E mais ainda: revela de cara os fatos que no filme só acontecem nos dez minutos finais.

Bem no começo deste meu comentário, avisei que a rigor, a rigor, ler sobre o filme leva a spoilers. Mas nem mesmo com esse aviso, esse alerta, tenho a coragem de revelar o que a escritora Ruth Rendell entrega na primeira frase do livro.

É outra maneira de contar a história. Completamente diferente.

Incrível!

Anotação em abril de 2017

Mulheres Diabólicas/La Cérémonie

De Claude Chabrol, França-Alemanha, 1995

Com Sandrine Bonnaire (Sophie, a empregada), Isabelle Huppert (Jeanne, a moça dos Correios), Jean-Pierre Cassel (Georges Lelievre), Jacqueline Bisset (Catherine Lelievre), Virginie Ledoyen (Melinda Lelievre), Valentin Merlet (Gilles Lelievre)

e Julien Rochefort (Jeremie, o namorado de Melinda), Dominique Frot (Madame Lantier), Jean-François Perrier (o padre)

Roteiro Claude Chabrol e Caroline Eliacheff

Baseado no livro A Judgement in Stone, de Ruth Rendell, “com a participação de Monsieur Ousama Rawi”.

Fotografia Bernard Zitzermann

Música Matthieu Chabrol

Montagem Monique Fardoulis

Produção Marin Karmitz, MK2 Productions, France 3 Cinéma, Olga Film GmbH, Prokino Filmproduktion, Zweites Deutsches Fernsehen.

Cor, 112 min (1h52).

****

Disponível no Claro Vivo

2 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 19 setembro 2017 às 10:18 pm | Permalink

    É um filme que eu gostava de ter visto pois creio que ia gostar. Não vi muito provavelmente por ser realizado por Claude Chabrol, um dos realizadores que eu passei a evitar depois de ver um filme ou dois, juntamente com Jean-Luc Godard e Alain Resnais (destes tenho a certeza que só vi um filme).
    Li com muito prazer o livro de Ruth Rendell de que sou um admirador e penso que seria difícil estragar um argumento tão bom.

  2. luis
    Postado em 29 setembro 2017 às 10:48 pm | Permalink

    Olá! Acompanho há anos seu blog e o tenho como referência, embora, é claro, nem sempre concorde com as avaliações (mesmo assim, são poucas vezes). Sobre Chabrol, passei a me interessar por ele desde que vi, há alguns dias, “Os Primos” e me impressionei com sua maneira de contar aquela história. Agora vou acrescentar “Mulheres Diabólicas” na minha lista.

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