Major / Manop

Nota: ★★★☆

Major, produção russa de 2013, é um filme impressionante. Na forma, é duro, seco, cru, agressivamente distante de qualquer beleza. Mostra uma Rússia suja, pobre, feia, brutal, violenta, corrupta.

A forma de fato impressiona, e muito. Há muita câmara de mão, e um exagero de close-ups. Há longos close-ups das cabeças dos personagens vistas por trás, com a câmara atrás deles – e isso se repente insistentemente. Longos close-ups das nucas e da parte de trás das cabeças dos personagens.

Muitas vezes, a rigor na maior parte do tempo, as imagens são bastante granuladas.

A paisagem é feia: é inverno, a neve cobre tudo, a região em que se passa a ação tem indústrias de cujas chaminés sai fumaça negra. Os prédios são feios. O interior da delegacia de polícia, onde acontece boa parte da trama, é sujo, desgastado, mal cuidado, opressivo.

As pessoas são feias. E dão a impressão de estarem sujas, sem banho há dias. Quase todos os homens estão com a barba por fazer.

Dá a impressão de que o diretor Yuriy Bykov quis seguir quase todos os mandamentos do Dogma 95, o movimento de diretores dinamarqueses que exigia um cinema “puro”, imaculado, sem enfeites, sem absolutamente nada artificial, sem iluminação especial, sem filtros nas lentes.

Só um mandamento da estética da sujeira dos dinamarqueses o diretor Yuriy Bykov desobedece, pelo que notei: o que proíbe música, trilha sonora. Major tem uma trilha sonora bela e, como todo o resto do filme, dura, crua – acordes de guitarra, acordes fortes, doídos, que realçam ainda mais a angústia, a opressão. A trilha é composta pelo próprio diretor.

O major dirige depressa demais – e atropela e mata um garoto

O major do título, Sergey Sobolev (Denis Shvedov), é acordado ainda de madrugada por um telefonema. É a primeira sequência do filme, após rapidíssimos, sucintos créditos iniciais apenas com o nome das produtoras e o título do filme. Uma voz feminina avisa que a mulher dele, Nadya, está para dar à luz.

Sobolev sai em disparada em seu carro rumo ao hospital, que fica bem distante do apartamento em que mora. Pega uma estrada simples, de mão dupla, e ultrapassa um carro, depois outro, depois outro. Numa das ultrapassagens, quase provoca um acidente gravíssimo – obriga o carro que vinha em sentido contrário a sair quase inteiramente para o acostamento gelado.

Dirige de forma absolutamente irresponsável – qualquer pessoa com o mínimo bom senso vê isso.

É um homem grande, forte. Tem um semblante irritado, preocupado, tenso. Mesmo um espectador pouco atento vê que aquele ali é um homem nervoso, tenso, que parece sempre à beira de um ataque de violência.

Sai da estrada principal, pega uma secundária. Lá adiante há dois vultos. Não diminui a velocidade – vai seguramente a mais de 100 km/h. Tenta se desviar na última hora, não adianta – atropela e mata um garoto de sete anos de idade, Kolya.

Quando Sobolev sai do carro, ferido com a batida no rosto no momento do choque com o corpo de Kolya, a mãe do garoto – veremos que se chama Irina Guturova, e é interpretada por Irina Nizina – desfalece, cai no chão coberto de neve ao lado de uma parada de ônibus naquele ponto isolado, deserto, da estrada secundária.

Sobolev vai até a mulher, carrega-a desacordada para dentro de seu carro. Ele mesmo fica de fora, e tranca o carro.

Pega o celular, e faz uma ligação.

Um plano-sequência forte, chocante – cinema da melhor qualidade

É um plano-sequência forte, chocante – e cinematograficamente brilhante.

Vemos o rosto de Sergey Sobolev em close-up, em primeiro plano; um pouco atrás está seu carro.

Assim que ele disca, uma voz de homem atende: – “Seryoja”.

O homem do outro lado da linha identificou de imediato o telefone que chamava. E chamou Sobolev pelo diminutivo do prenome. Ou seja: é colega, amigo. Veremos depois que se chama Pavel Korshunov, e é tratado por todos na polícia pelo diminutivo Pasha – o papel do próprio diretor e roteirista do filme, Yuriy Bykov.

Sobolev: – “Atropelei um menino.”

A voz de Pasha Korshunov ao telefone: – “O quê? Onde?”

Sobolev: – “Na saída do km 6.”

Pasha: – “Alguém viu?”

Sobolev: – “Não. Acho que não”.

Atrás dele, lá em segundo plano, vemos que Irina acordou do desmaio. Movimenta-se, grita, bate com as mãos no vidro. Logo o alarme do carro será acionado, e o ruído alto do alarme só faz aumentar a tensão.

Não há corte – é um plano-sequência. A câmara mostra o rosto do homem falando ao telefone e, atrás dele, o carro fechado em que se agita uma mulher que acabou de perder o filho.

Pasha sugere que o colega e amigo saia do lugar imediatamente. Pergunta se os pais do menino estão perto, Sobolev diz que a mãe está. Pasha pergunta se o menino está vivo, o outro responde que está morto.

Pasha: – “Quer que o tiremos dessa? Burlakov está de guarda. Estou com Sherpelev e Karpunin. Merkulov está por perto.”

Sobolev: – “Venha rápido com Merkulov. Mais ninguém.”

O filme ainda não chegou a 7 minutos.

O atropelamento é uma faísca que surge no meio de um barril de pólvora

Dois anos depois deste Major, em 2015, o grande Wim Wenders lançou Tudo Vai Ficar Bem, uma co-produção Alemanha-Canadá-França-Suécia-Noruega em que, bem no início, um homem, dirigindo em uma estrada no meio da neve, atropela um garoto.

Há duas coincidências, aí: um homem que atropela e mata um garoto – e isso acontece no meio de uma paisagem gelada. As semelhanças param por aí. Em todo o resto, Major e Tudo Vai Ficar Bem se distanciam.

O filme de Wim Wenders se passa no Canadá, país rico. Os personagens da história têm todo o conforto material de civilização abastada, são classe média para média alta – diferentemente dos personagens do filme russo, que são trabalhadores de classe média média para média baixa, em país pobre. Não há miséria, na Rússia atual mostrada em Major – mas é uma região pobre de um país que está longe de ser abastado.

Tudo Vai Ficar Bem mostra nitidamente que foi um acidente – o garoto saiu do meio do nada e atravessou a estrada coberta de neve no momento em que o protagonista passava em seu carro, em velocidade reduzida. O motorista nem mesmo chega a ser levado preso. O filme se concentra nos efeitos psicológicos da tragédia sobre todos os envolvidos.

Bem diferentemente, Major mostra com clareza que Sergey Sobolev dirigia de forma irresponsável – e o atropelamento do garoto Kolya é um crime.

O próprio Sobolev vai reconhecer sua culpa, e vai se arrepender por ter vacilado naquele primeiro momento e pedido a ajuda dos colegas.

Mas o atropelamento do garoto é apenas o primeiro crime da história. Logo virá outro – o acobertamento do fato pela polícia. E em seguida virão vários outros crimes.

Major mostra o atropelamento do garoto como uma pedra jogada num lago calmo: ao primeiro círculo formado pelo afundamento da pedra vão se seguir vários outros círculos ao redor do primeiro.

Essa imagem que me surgiu na cabeça é interessante, mas é falha, porque não há nada calmo ali, quando acontece o atropelamento.

Aquele microcosmo da sociedade russa que o diretor Yuriy Bykov mostra na região de Ryazan, a Sudeste de Moscou, não muito longe da capital do que já foi o grande Império Russo dos czares e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, mais parece um barril de pólvora, um depósito de gasolina. Bastaria uma pequena faísca para tudo explodir.

Então o mais correto é mesmo dizer que Major mostra o atropelamento do filho de Irina Gutorova como a faísca que acontece junto do barril de pólvora, do depósito de gasolina.

O filme faz um retrato assustador da Rússia de hoje

Yuriy Bykov (na foto abaixo) nasceu ali mesmo em Ryazan, onde se passa toda a ação de seu filme. Não na cidade de Ryazan, mas na Oblast de Ryazan, cuja capital tem o mesmo nome. Oblast, aprendo agora, é algo como província – uma divisão administrativa.

Bykov é muito jovem – nasceu em 1981, e portanto não viveu mais de dez anos na União Soviética. Se fosse adulto e dirigisse filmes na União Soviética, seguramente teria problemas sérios com a censura. A Rússia vive hoje sob um regime autoritário – mas nem tanto quanto o anterior.

De qualquer maneira, este filme não deve ter agradado ao Establishment da Rússia de Vladimir Putin.

O retrato que ele faz do país, da violência e da corrupção que permeia tudo, é assustador.

Major foi exibido na Semana da Crítica no Festival de Cannes de 2013. Participou de várias mostras mundo afora, e conquistou 5 prêmios, fora outras 9 indicações.

Foi o segundo longa-metragem do diretor – e Bykov demonstra nele não apenas ser um realizador de grande talento, como um sujeito que é multitalentoso. Além de dirigir e fazer o segundo papel mais importante do filme, ele foi também o autor da história e do roteiro, da trilha sonora e ainda da montagem!

Yuriy Bykov. Eis aí um nome que merece toda atenção.

E aqui cabe um registro. Merecem parabéns os responsáveis pela programação do Max da HBO, o canal 178 e 678 da Net. O Max de fato tem oferecido um cardápio diferenciado, com filmes independentes e de cinematografias menos disponíveis nos demais. Que continue assim.

Anotação em junho de 2017

Major/Manop

De Yuriy Bykov, Rússia, 2013

Com Denis Shvedov (major Sergey Sobolev), Yuriy Bykov (Pavel Korshunov, Pasha), Irina Nizina (Irina Gutorova), Ilya Isayev (Anatoly Merkulov), Dmitriy Kulichkov (Gutorov), Boris Nevzorov (Aleksey Pavlovich Pankratov), Kirill Polukhin (Burlakov)

Argumento e roteiro Yuriy Bykov

Fotografia Kirill Klepalov

Música Yuriy Bykov

Montagem Yuriy Bykov

Produção Ale Kino+.

Cor, 99 min (1h39)

***

Um Comentário

  1. Jussara
    Postado em 29 outubro 2017 às 12:15 pm | Permalink

    Fiquei com vontade de ver! Agora estou na dúvida se já vi algum filme russo… Assisti recentemente ao belga “Loft”, e a uma das refilmagens, a holandesa, e acredito que o sistema russo de fazer cinema seja parecido (só não sei de onde tirei isso. hehehe)

    Em relação à corrupção e à violência, dos livros de autores russos que já li, sabe que às vezes tenho a impressão de que estão falando do Brasil? A semelhança entre os dois países nesses quesitos é impressionante, e sempre me deixa abestalhada. Sem falar no que diz respeito ao funcionalismo público (nesses momentos, paro a leitura e penso: “Não é possível, ‘cês ‘tão falando do Brasil, sim!”).

    Se eu encontrar o filme por aí, volto para comentar.

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