Lolo, o Filho da Minha Namorada / Lolo

Nota: ★★½☆

Aquela velha história: ela é refinada, sofisticada, ele é meio grosso, meio bronco. Já vimos este filme bem antes de Julie Delpy lançar este Lolo, de 2015, que no Brasil ganhou o complemento de O Filho da Minha Namorada.

Em Teu Nome é Mulher/Designing Woman (1957), de Vincente Minnelli, a Marilla de Lauren Bacall e o Mike de Gregory Peck se conhecem numa festa num hotel em Los Angeles, apaixonam-se, casam-se – para descobrir, assim que voltam à cidade de ambos, Nova York, que são completamente diferentes um do outro. Ela – como mostra o título original – é uma estilista, e muito respeitada, finíssima, rica, cheia de amigos artistas, intelectuais. Ele é um jornalista de esportes, adora ver lutas de boxe, e seus amigos são simples, um tanto grossos, broncos.
Em A Mulher do Dia/Woman of the Year (1942), o Sam de Spencer Tracy é – exatamente como Mike viria a ser 15 anos mais tarde – colunista de esportes. Só entende de esporte, e de mais nada. É grosso, homem do povo. A Tess de Katharine Hepburn é muito rica, muito fina e muito chique, filha de embaixador, poliglota, amiga dos poderosos, respeitada redatora da editoria de internacional.

Na deliciosa comédia romântica de 1942, na não menos deliciosa de 1957, assim como em tantas outras, a questão é: conseguirão nossos heróis fazer prevalecer o amor sobre tantas diferenças que os separam?

É exatamente a mesma questão deste Lolo que Julie Delpy, aquela gracinha, escreveu e roteirizou, em parceria com Eugénie Grandval, e ela mesma dirigiu e também estrelou.

Ela faz Violette, que, exatamente como a Marilla feita por Lauren Bacall, trabalha no mundo da moda, e no mundo da moda parisiense. Seguramente há poucos mundos tão metidos a besta, tão fúteis, tão dedicados apenas à aparência, tão frescos, tão veados, para usar as palavras mais adequadas, quanto o mundo da moda parisiense.

E ele se chama Jean-René. Só o nome já é a coisa mais fora de moda que existe. Seria algo como Leopoldo Guilherme – nada cool, absolutamente démodé, old-fashioned, kitsch, boko-moko. O sujeito é interiorano, provinciano. Veste-se terrivelmente mal; tem um mau gosto para roupas capaz de ofender até mesmo quem não liga o mínimo para moda. Jean-René vem na pele de Dany Boon, o ator perfeito para fazer o tipo provinciano, meio bobo, meio grosso.

Apesar de estarem em mundos absolutamente díspares, apesar de tudo e todos, Violette e Jean-René se amam.

Como a sofisticada Marilla e o meio grosseirão Mike. Como a rica fina chique Tess e o homem do povo Sam.

O que difere as duas deliciosas comédias românticas americanas desta aqui de Julie Delpy é que, para atrapalhar ainda mais, e muitíssimo mais, a vida já difícil do casal Violette-Jean-René, há Lolo, o filho de 19 anos dela. É o papel de Vincent Lacoste, garotão nascido em 1993 e que já tem mais de 25 títulos no currículo.

Um filme em que as mulheres falam de sexo abertamente, cruamente

Quando a narrativa começa – depois de deliciosos créditos iniciais com uma bela animação que faz lembrar um pouco a abertura de A Pantera Cor de Rosa original, de Blake Edwards, de 1964 –, Violette-Julie Delpy está passando uns dias de férias em um spa em Biarritz, o balneário no Sudoeste da França que está bem mais perto da fronteira espanhola, do País Basco, do que de Paris. Está com a grande amiga Ariane (Karin Viard, com o rosto bem diferente do que me lembrava dela), ela também do mundo da moda.

Num dia em que estão com uma amiga comum, são apresentadas por ela a dois sujeitos do lugar, dois provincianos absolutos – Gérard (Christophe Vandevelde) e o sujeito que vai virar um dos personagens centrais da história, Jean-René.

A primeira sequência em que ele aparece é hilariante. As três mulheres estão sentadas nas mesas externas de um bar. A amiga de Violette e Ariane acena para Gérard e Jean-René quando eles aparecem lá longe. Os dois se aproximam. Jean-René está segurando um peixão imenso que havia acabado de pescar. A amiga faz as apresentações – os dois caipiras estão de pé, as mulheres estão sentadas. Jean-René faz um gesto para dizer olá para as parisienses – e o imenso peixe que ele carregava cai no colo de Violette.

Ela, é claro, reage com xingamentos.

Jean-René pede mil desculpas. E Gérard convida as três mulheres para aparecerem à noite na casa do amigo, onde ele vai servir o peixão que pescou.

Julie Delpy e sua co-roteirista Eugénie Grandval optaram por fazer um filme em que se fala de sexo abertamente, sem subterfúgios – como tem sido comum em diversas comedinhas românticas americanas e também francesas. Ariane incentiva Violette a dar para Jean-René (“Minha avó dizia que quanto mais idiota o cara, mais bom de cama”), usando expressões cruas tipo tirar as teias de aranha da xoxota. “Há quanto tempo você não trepa?”, provoca ela.

Pelos diálogos entre as duas amigas, ficamos que o casamento de Violette com o pai de Lolo, seu filho único, acabou faz muito, muito tempo. De lá para cá, tinha tido vários namoros, é claro, mas nada muito sério nem duradouro.

O filho aborrescente fará tudo para atrapalhar o namoro. Tudo, mas tudo mesmo

As teias de aranha deviam estar incomodando bastante, porque Violette não só topa ir ao jantar tipo churrasco do caipira desajeitado como o procura para conversar. Há aí uma bela sacadinha do roteiro: o filme pula a primeira trepada dos dois. Nós os vemos conversando no churrasco; aí corta, e, na sequência seguinte, Ariane está perguntando para Violette como tinha sido. E tinha sido muito bom. Tanto que se encontram de novo, e de novo, e de novo.

Terminam as férias, Violette e Ariane voltam para Paris – mas, como a vida é feita de coincidências, e algumas são muito boas, daí a pouco tempo Jean-René está se mudando para Paris. Ele é um programador, um expert de informática, e trabalha num programa voltado para bancos e financeiras. E acaba de ser contratado por um banco parisiense.

O namoro começa a ficar firme. Apesar de todas as diferenças entre eles, Violette vai se apaixonando. O cara trepa bem, é terno, a trata maravilhosamente.

Aí, quando o filme está com uns 15, 20 minutos, Lolo, o filho dela, entra em ação.

Lolo, aborrescente de 19 anos de idade, é um chato de galocha, um pentelho absoluto, um pusteminha. É absolutamente apegado à mãe; é inteligente, mas só usa a inteligência para o mal. Julga-se o melhor artista plástico do mundo, o maior gênio da humanidade.

E fará de tudo para atrapalhar o namoro da mãe com Jean-René. Mas tudo, tudo mesmo, inclusive os golpes mais baixos, até mesmo criminosos.

“Os códigos de linguagem e o politicamente correto nos limitam mais e mais”

Julie Delpy e Dany Boon parecem ter sido feitos para os papéis de Violette e Jean-René. Ela tem todo o jeito de uma mulher moderna, cosmopolita, independente, descolada, intelectualizada. Ele tem absolutamente todo o jeito de sujeito provinciano, bronco, meio bobo, meio ingênuo.

Os filmes feitos por Julie Delpy, seja como atriz, seja como diretora, são mais cerebrais, mais intelectualizados. Os de Dany Boon são mais simples, mais escrachados, mais povão.

Dany Boon conseguiu uma proeza fantástica: em 2008, A Riviera Não é Aqui/Bienvenue Chez les Ch’tis, dirigido e interpretado por ele, tornou-se o filme francês de maior bilheteria de toda a História no país. Foi o Titanic, o Avatar francês. Era uma comédia gostosa, simples, despretensiosa, previsível, às vezes roçando na bobagem – mas bem realizada e, sobretudo, muito engraçada

Talvez Julie Delpy tenha imaginado que a presença de Dany Boon no seu filme pudesse transformá-lo num sucesso de bilheteria. Não aconteceu. Segundo o AlloCiné, o site que tem tudo sobre os filmes franceses, o filme foi visto por 857 mil pessoas na França. A Riviera Não é Aqui teve 20,2 milhões de espectadores no seu país.

Foi o sexto longa-metragem dirigido pela atriz. Ela justificou desta maneira, em uma entrevista reproduzida no AlloCiné, aquela coisa que citei da linguagem clara, crua, direta: “Gosto de ir longe, de flertar com os limites, sem no entanto cair na vulgaridade. É o meu jeito de escrever. Vivemos numa época em que os códigos de linguagem e o politicamente correto nos limitam mais e mais. Isso não torna as pessoas melhores. Ao contrário: o medo reina e dá forças ao fascismo.”

Brilho! Grande Julie Delpy!

Anotação em novembro de 2016

Lolo, o Filho da Minha Namorada/Lolo

De Julie Delpy, França, 2015

Com Julie Delpy (Violette), Dany Boon (Jean-René Graves), Vincent Lacoste (Lolo), Karin Viard (Ariane), Antoine Lounguine (Lulu), Christophe Vandevelde (Gérard), Elise Larnicol (Élisabeth), Christophe Canard (Patrick), Nicolas Wanczycki (o médico), Rudy Milstein (Paco), Didier Duverger (Dutertre), Xavier Alcan (Xavier), Fabienne Galula (Solange), Juliette Lamet (Annabelle)

e, em participação especial, Karl Lagerfeld (como ele próprio)

Argumento e roteiro Julie Delpy e Eugénie Grandval

Fotografia Thierry Arbogast

Música Mathieu Lamboley

Montagem Virginie Bruant

Casting Nicolas Ronchi

No DVD. Produção The Film, France 2 Cinéma, Mars Films, Tempête Sous un Crâne, Sofica Manon 5.

Cor, 99 min.

**1/2

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*