Laranjas e Sol / Oranges and Sunshine

Nota: ★★★½

O título suave, gostoso, até poético, Oranges and Sunshine (no Brasil felizmente a tradução literal, Laranjas e Sol), contrasta com a história que o filme conta – pesada, sombria, tenebrosa, das mais chocantes que pode haver.

E é uma história real.

O caso que o filme revela ao mundo é ainda mais chocante por ter acontecido na Grã-Bretanha, uma das mais sólidas, tradicionais, longevas democracias do mundo, talvez a mais de todas – a civilização que eu e tantas pessoas ao redor do planeta admiramos profundamente.

Outros filmes ingleses recentes, ou mais ou menos recentes, têm exibido chagas horrorosas da civilização britânica. Belos e importantes filmes. Ao mostrar o martírio infringido ao genial matemático Alan Turing – o homem que deu uma valiosa contribuição para que os Aliados derrotassem o nazismo na Segunda Guerra –, O Jogo da Imitação (2014) trouxe à baila o grotesco absurdo que foi a legislação britânica que criminalizava a homossexualidade, e que vigorou até meados dos anos 1960, quando Beatles e Rolling Stones e Mary Quant e tantos outros já anunciavam uma revolução nos costumes.

As Sufragistas (2015) escancara como foi violenta, horrorosamente violenta, a repressão ao movimento das mulheres inglesas que lutavam pelo direito de votar, nas duas primeiras décadas do século XX. Assim como diversos filmes – Ventos de Liberdade (2006) e O Salão de Jimmy (2014), ambos de Ken Loach, para dar só dois exemplos – escancararam como foi violenta, horripilantemente violenta, a repressão aos movimentos pela independência da Irlanda.

 O filme conta a história de uma heroína, uma dessas pessoas imprescindíveis

Como os filmes citados acima, Laranjas e Sol revela uma das chagas feias, tenebrosas, da história da Grã-Bretanha. E é certamente a menos conhecida.

Mary e eu nunca tínhamos ouvido falar desses episódios, que ocorreram a partir do final do século XIX e, por mais absurdo que possa parecer, continuaram até os anos 1970, tendo seu ápice nos anos 1940 e 1950.

As indicações são de que não é uma falha especificamente nossa: a tragédia só começou a ser exposta ao mundo a partir dos anos 1980, a partir de um trabalho de uma pessoa, uma assistente social da cidade de Nottingham chamada Margaret Humphreys.

Uma heroína. Uma daquelas pessoas que Bertold Brecht definia como os imprescindíveis.

O filme conta a história dela – a história de como ela foi tomando conhecimento dos fatos e passou a agir sobre eles. O roteiro – de autoria de Rona Munro – se baseia em um livro escrito pela própria Margaret Humphreys, Empty Cradles, berços vazios, publicado em 1994.

Exatamente porque o filme vai mostrando pouco a pouco como Margaret foi descobrindo os fatos – que ela e a imensa maior parte das pessoas do mundo inteiro desconheciam –, quase como numa história policial, um caso de mistério, entendi que não faria sentido abrir de cara de que afinal de contas se trata. Seria um spoiler criminoso. Vou falar do que exatamente se trata mais adiante, é claro – mas aí o eventual leitor já está avisado. Se quiser continuar a ler este texto, é por sua conta e risco. Melhor seria primeiro ver o filme – que está disponível na Netflix.

O filme abre com a assistente social tirando um bebê da mãe incapaz

Margaret Humphreys é interpretada pela londrina Emily Watson, essa maravilhosa atriz de tantos belos filmes como O Lutador (1997), O Poder Vai Dançar (1999), Assassinato em Gosford Park (2001). O espectador vê Emily Watson, na primeira sequência do filme, falando com muita calma com uma moça, uma jovem mãe, num apartamento de conjunto habitacional pobre. Há policiais no local. A personagem de Emily Watson, a assistente social Margaret Humphreys, está, com tato, com jeito, retirando do apartamento pobre, da pobre mãe, seu bebê.

Ela fala com a voz muito suave: – “Neste momento, seu bebê precisa ficar bem, e você precisa de um pouco de ajuda, não é? Eu sei que você gosta dele, é claro que você gosta. Mas isso vai te dar uma chance de melhorar.”

A mãe não está certa de que o melhor é entregar a criança. Margaret vai fazendo tudo com muito cuidado, mas, no momento em que pega o bebê, a mãe se arrepende, começa a chorar, pede para Margaret devolver a criança, jura que vai cuidar dela. A assistente social já está no corredor do prédio e a mãe continua chorando.

Não se mostram mais detalhes: o espectador infere que aquela mãe não tinha condições de criar o bebê, provavelmente porque é viciada em álcool ou alguma outra droga, e o Estado foi obrigado a tomar dela a criança, para protegê-la.

É um grande achado da roteirista Rona Munro iniciar a narrativa mostrando exatamente isso.

“Nos colocaram num navio para a Austrália. Centenas de nós.”

Esse episódio de intervenção do Estado na vida particular de uma mulher que não tem condições de criar seu bebê é mostrado durante os créditos iniciais. Antes da primeira tomada, já haviam sido apresentados os nomes dos diversos produtores, e o espectador já havia podido observar que é uma co-produção Inglaterra-Austrália.

Corta, e Margaret está supervisionando uma reunião de um grupo de pessoas adultas que foram adotadas por outras famílias quando crianças. Um letreiro informa o onde e quando: “Nottingham, 1986”.

A reunião termina, todos vão saindo. Quando Margaret está para deixar o prédio em que se realizam aquelas sessões de terapia de grupo, uma mulher aí de uns 30 e tantos anos chega, segurando alguns papéis na mão. Margaret diz que o trabalho ali já terminou. A mulher estende a mão para ela e se apresenta: – “Charlotte. Charlotte Cooper”. (Ela é interpretada por Federay Holmes.) Pede para conversar um pouco, não tomará muito tempo. Mas Margaret vai se encaminhando para a rua.

– “Este grupo não é o que você está procurando. Posso encaminhar você para alguém que possa lhe oferecer aconselhamento”, ela vai dizendo para Charlotte.

– “Não quero aconselhamento. Quero saber quem eu sou. Nem sei se meu nome e minha data de nascimento estão certos. Lembro que deixei a Inglaterra. Eu tinha quatro anos…”

Ela está andando atrás da assistente social na rua, já tarde da noite.

– “Estava num orfanato porque meus pais estavam mortos. Colocaram-me num navio para a Austrália. Tudo o que sei com certeza é que nasci em Nottingham.”

No momento em que está abrindo a porta de seu carro, Margaret pergunta: – “Como assim, colocaram você num navio?”

– “Nos colocaram num navio para a Austrália. Centenas de nós.”

– “Seus pais adotivos estavam imigrando?”

Charlotte dá um sorriso de profunda tristeza, um esgar doloroso:  – “Não. Nem meus pais, nem tutores. Apenas centenas de crianças. Nos mandaram embora.”

– “Isso não pode estar certo”, diz a assistente social.

– “O que quer dizer?”

– “Isso não é legal. Não existe a possibilidade de colocarem crianças desacompanhadas num navio para serem despachadas assim.”

E Charlotte: – “Você está me chamando de mentirosa?”

Trocam mais algumas frases. Charlotte entrega para Margaret os papéis que levava na mão, diz que não tem mais tempo, que terá que voltar para a Austrália: – “Viajei 16 mil quilômetros para tentar encontrar minha família e vêm me dizer que sou uma mentirosa.”

“Por que não pergunta ao seu próprio governo? Foram eles que enviaram as crianças.”

Na sequência seguinte, Margaret está em casa, contando o diálogo que havia tido com aquela mulher às 10h30 da noite de um dia pesado. Vemos que o marido, Mervyn (Richard Dillane), também é um social worker, pessoa boa, séria, como a própria Margaret. Têm dois filhos – uma garota aí de uns 8, 10 anos, e um garoto de uns 6, 7, Rachel e Ben (Molly Windsor e Harvey Scrimshaw).

Em uma nova sessão do grupo de pessoas que cresceram com pais adotivos, uma senhora de uns 50 e tantos anos, Nicky (Lorraine Ashbourne), conta que ficou sabendo que tem um irmão, Jack, que mora na Austrália. O Exército da Salvação tinha feito uma investigação, e os indícios eram de que Jack era mesmo o irmão de Nicky que ela nunca mais havia visto, desde que eram crianças. (Mais tarde o espectador ficará conhecendo Jack, interpretado pelo excelente ator australiano Hugo Weaving.)

Alguém do grupo pergunta se Jack havia sido adotado por uma família de australianos, e Nicky diz que não: – “Ele foi levado num navio, um grande navio cheio de crianças entre 5 e 13 anos, todos mandados para a Austrália”.

Alguns dias depois, Margaret viaja até Londres, e lá procura a Embaixada da Austrália. Vemos o imponente prédio da Australia House, Margaret chegando ali, pequena num plano geral, olhando aquele edifício portentoso. Vemos Margaret, de pé, num grande hall, conversando com um empertigado burocrata, perguntando sobre a existência de algum registro sobre um grande grupo de crianças enviadas para a Austrália nos anos 40 e 50. O funcionário diz que tais registros não estão ali.

– “Então crianças foram enviadas para lá? – ela questiona. – Você sabe quantas? Quando? Por que foram enviadas?”

E o funcionário, antes de virar as costas para a social worker do governo de Sua Majestade: – “Acabei de dizer. Não temos mais nenhuma informação.”

– “Então quem saberia?”

O burocrata se volta novamente para ela: – “Por que não pergunta ao seu próprio governo? Foram eles que enviaram as crianças.”

O roteiro foi feito como numa história policial, assim como o de Chinatown

Insisto: a partir daqui há mais e mais spoilers. Quem não viu o filme não deveria ler a partir deste ponto.

Insisto e repito: Rona Munro escreveu o roteiro de Laranjas e Sol quase como se fosse um thriller, um mistério policial. Margaret Humphreys passa a fazer perguntas, a percorrer cartórios, arquivos públicos, para tentar investigar que história é essa afinal de crianças sendo enviadas sem acompanhantes, sem pais, sem responsáveis, sozinhas, para o outro lado do mundo.

Começa a investigação como um detetive particular que procura pistas de um pequeno incidente. Algo como o detetive J. J. Gittes de Chinatown, que inicia uma investigação de um caso que parece ser apenas o de uma infidelidade conjugal – e a partir daí vai desenrolando um gigantesco, mamutiano, jupiteriano esquema da mais alta corrupção.

A comparação tem tudo a ver. Margaret começa ciscando à procura de informações sobre algumas crianças mandadas para a Austrália – e descobre uma das maiores atrocidades já cometidas em uma nação civilizada, e que as autoridades até então conseguiam manter em segredo: ao longo de cerca de oito décadas, a Grã-Bretanha exportou para a Austrália milhares e milhares de crianças que viviam em orfanatos, fossem os mantidos pelo governo, fossem os de instituições ligadas às igrejas cristãs, a católica e a anglicana.

E não foi feita nenhuma distinção entre crianças órfãs e crianças que por algum motivo haviam sido afastadas de seus pais – por pobreza extrema, alcoolismo, maus tratos – ou entregues pelas mães, incapazes de criá-los, para eventual adoção.

Pior ainda: às crianças era dito que estavam indo para uma terra feliz, onde sempre havia laranjas e luz do sol – e, ao chegarem lá, muitas delas, a grande maioria, ou quase todas, eram tratadas em condições semelhantes às de escravos.

O filme não conta que a Grã-Bretanha depois condecorou Margaret Humphreys

O filme mostra – e muitíssimo bem – como foi difícil o trabalho de Margaret Humphreys para ir desenrolando o novelo da história que as autoridades, tanto da Grã-Bretanha quanto da Austrália, faziam questão de esconder a sete chaves. Um trabalho de início, e durante longo tempo, solitário, dela e do marido, que a ajudou em todo o processo.

Com o passar do tempo, Margaret passou a ter ajuda de outras pessoas – mas, à medida em que a história chegava à imprensa, e ela dava mais e mais entrevistas sobre o assunto, cresciam também as ameaças contra ela.

Como acontece sempre em filmes que retratam histórias reais,

os letreiros ao final da narrativa, junto dos créditos, contam um pouco sobre o que ocorreu depois dos fatos mostrados até então.

“Levaria ainda 23 anos para que os governos da Grã–Bretanha e da Austrália pedissem desculpas pelos esquemas de crianças migrantes. Mais de 130 mil crianças haviam sido deportadas. Margaret e Mervyn continuam na busca das famílias das crianças emigradas.”

O filme foi lançado em 2010, 16 anos, portanto, depois do livro de Margaret, Empty Cradles. Margaret compareceu à première do filme. Em 2017, quando escrevi este comentário, estava viva e atuante.

O que o filme não conta é que, depois de oferecer alguma resistência ao trabalho de Margaret Humphreys e à fundação que ela criou para localizar as famílias dos ingleses deportados em especial nos anos 40 e 50, o Child Migrants Trust, tanto o governo britânico quanto o da Austrália passaram a reconhecer o valor de todo o esforço da assistente social.

Em março de 1993 ela recebeu a Medalha da Ordem da Austrália. Da Nottingham Trent University, recebeu o título honorário de Mestre das Artes. E em 2011 foi dado a ela o título de CBE, a Ordem do Império Britânico. (Margaret está na foto abaixo.)

É algo típico da civilização britânica. Mais que talvez em qualquer outro lugar do mundo, na Grã-Bretanha o governo reconhece seus erros do passado, pede perdão por eles, e as coisas mudam, segue-se em frente.

Apenas em 1967, o ano de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e Their Satanic Majesty Request, a homossexualidade deixou de ser crime na Inglaterra. No entanto, apenas 20 anos depois, em 1997, quando a princesa Diana morreu, Elton John cantou na cerimônia fúnebre na Westminster Abbey, diante de toda a família real e dos olhos do mundo.

150 mil crianças inglesas foram deportadas para a periferia do Império

Segundo a Wikipedia, o número total de crianças inglesas incluídas nesse esquema que ficou conhecido como “Home Children” chegou a 150 mil – e elas foram despachadas não apenas para a Austrália, e sim para lá e também para outras nações da Commonwealth – Canadá, Nova Zelândia, Rodésia. Ainda segundo a Wikipedia, que cita um trabalho da BBC, o motivo central dessa política era econômico: manter uma criança órfã ou abandonada pelos pais em uma instituição na Inglaterra custava dez vezes mais que em uma das ex-colônias do Império Britânico.

Quando o filme termina, antes dos créditos finais e daquelas informações que transcrevi logo acima, são mostradas imagens reais de dezenas e dezenas de crianças inglesas, em roupas domingueiras, carregando malas, embarcando em navio. É de remoer o estômago, é de cair em choro convulsivo.

É uma beleza de filme.

Nada mau para um diretor que estava estreando no longa-metragem.

Não que fosse propriamente um neófito, um principiante. Nascido em 1969, em Londres, Jim Loach começou na direção de séries de TV em 2000. Dirigiu diversos episódios de 14 diferentes séries da TV inglesa, antes de chegar a este seu primeiro longa.

Estreou muitíssimo bem. O pai seguramente deve ter ficado todo orgulhoso.

Sim: Jim Loach é filho do grande Ken Loach, um dos melhores realizadores do cinema em toda a História.

Anotação em outubro de 2017

Laranjas e Sol/Oranges and Sunshine

De Jim Loach, Inglaterra-Austrália, 2010

Com Emily Watson (Margaret Humphreys)

e Richard Dillane (Mervyn, o marido), Molly Windsor (Rachel, a filha), Harvey Scrimshaw (Ben, o filho), Lorraine Ashbourne (Nicky), Hugo Weaving (Jack, o irmão de Nicky), Federay Holmes (Charlotte), Kate Rutter (Vera, a mãe de Charlotte), David Wenham (Len), Greg Stone (Bob), Russell Dykstra (Dan)

Roteiro Rona Munro

Baseado no livro Empty Cradles, de Margaret Humphreys

Fotografia Denson Baker

Música Lisa Gerrard

Montagem Dany Cooper

Casting Nikki Barrett e Kahleen Crawford

Produção Screen Australia, Little Gaddesden Productions, Fulcrum Media Finance, EM Media, South Australian Film Corporation, Deluxe Australia, Screen NSW, BBC Films.

Cor, 105 min (1h45)

***1/2

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