How To Get Away With Murder – A Primeira e a Segunda Temporadas

Nota: ★★★½

O sistema legal, o Judiciário, a instituição do júri popular – tudo é cheio de falhas. Todos mentem, não adianta pensar que não: todos mentem. Não vence a verdade – vence quem apresentar melhor a sua versão. É tudo um teatro mesmo: ganha quem consegue a melhor atuação. 

Assim poderíamos resumir a moral – ou a falta de moral – da história da excelente série How to Get Away With Murder.

Ou, como ensina para seus alunos a admiradíssima professora de Direito Penal e dona de um respeitado escritório de advocacia Annalise Keating, a protagonista da série, interpretada com absoluto brilho por Viola Davis:

– “Quando um cliente (do advogado de defesa) fala com a polícia, ele acha que está clareando as coisas, que pode ajudar no seu caso. Ele está errado. Tudo o que o cliente fala com a polícia pode e vai ser distorcido para ajudar a Promotoria. Diante da dúvida, tem que fechar a boca.”

No Brasil há um tristíssimo dito popular: A Justiça, quando não tarda, falha.

Nos Estados Unidos, onde não pode ser acusada de lerda, demorada, lenta, a Justiça – segundo mostra a série – pode falhar. E falha. Às vezes até acerta – mas volta e meia falha.

Os métodos de Annalise Keating e seus auxiliares muitos vezes fogem do que manda a ética. O primeiro mandamento do escritório estabelece que o advogado de defesa tem que fazer tudo o que for humanamente possível para vencer o caso, para inocentar o cliente – e que sejam revogadas todas as disposições em contrário, inclusive as de ordem moral.

Vale tudo – até o perjúrio. Até a mentira. Até plantar evidências falsas que favoreçam o cliente, ou esconder evidências prejudiciais ao cliente.

A série se caracteriza por excessos. Tudo excede, tudo é exagerado

Se a moral (ou falta de moral) da história é assustadora, a forma com que a série a apresenta se caracteriza pelo exagero. Tudo excede, em How to Get Away With Murder (como se safar de assassinato, como escapar da condenação por assassinato). Viola Davis excede – é uma atuação memorável, de aplaudir de pé como na ópera, mas é over: sua Annalise Keating chora demais, bebe demais, é mandona, autoritária, ditatorial demais, sofre demais, tem drama demais na vida.

Há crimes demais. O que se mata de gente nas duas primeiras temporadas da série é uma grandeza.

Há traições demais, mentiras demais. Todo mundo trai muito, todo mundo mente muito.

Trepa-se demais. Trepa-se alucinadamente, homem com mulher, homem com homem, mulher com mulher – muitas vezes, sempre, a cada momento, e sempre de maneira furiosa, como se o mundo fosse acabar no instante seguinte.

Há esqueletos demais escondidos nos armários do passado dos personagens. Cada um deles tem uma pesada carga de tragédias, traumas, pavores na vida.

A única coisa que parece faltar na série são luzes no teto dos cômodos, de forma a iluminar os ambientes. Há um excesso de escuridão nas cenas de interiores. É impressionante.

Uma característica maravilhosa: mostra uma sociedade pós-racismo

Há uma característica fundamental – e admirável, maravilhosa – em How to Get Away With Murder. A série faz absoluta questão de mostrar brancos e negros convivendo o tempo todo, ocupando todos os tipos de posições no Judiciário, na promotoria, em tudo.

A série faz questão de mostrar uma Filadélfia de hoje em dia como uma sociedade pós-racismo. Como se o racismo fosse uma doença já inteiramente superada, já extinta, coisa do passado. Os casamentos – e casos, namoros – inter-raciais são absolutamente comuns. A começar pelo da personagem central: Annalise-Viola Davis é casada com Sam, um psicólogo e, como ela, também professor universitário, interpretado por Tom Verica.

Há momentos em que o racismo aparece, é citado, é questionado – mas isso é quase acidental, esporádico, e sempre parece uma manifestação rara de doença que já foi derrotada.

Annalise tem dois assistentes e cinco trainees, todos importantes na trama

A ação se passa em 2014, o ano em que foi lançada a primeira temporada da série, composta por 15 episódios de cerca de 45 minutos cada. (A quarta temporada estava com estréia marcada para setembro de 2017 na TV americana.) A cidade é Filadélfia – e a série usa belas e rápidas tomadas aéreas da cidade pontuando a narrativa, como que marcando a passagem de um capítulo para outro da história.

Annalise Keating dá aula na Faculdade de Direito de Middleton, numa daquelas salas que mais parecem um anfiteatro, em que cabem uns 180, 200 alunos. Tem voz, postura, jeito de mulher poderosa, que sabe tudo, que conhece profundamente o tema que está ensinando àquele bando de jovens.

Sua matéria é Direito Penal – ou, como ela, no primeiro episódio da série, diz que prefere, e escreve no quadro negro, How to get away with murder. Como se safar de um assassinato.

Em seu escritório – que funciona numa ampla casa de dois andares e mais um porão onde ela vive com o marido Sam –, Annalise Keating tem dois assistentes. No início do ano letivo mostrado no começo da primeira temporada, ela escolhe cinco de seus alunos para serem trainees no escritório.

Esses sete personagens são importantíssimos na série. Tudo gira em torno de Annalise Keating, mas os dois assistentes e os cinco trainees têm participação fundamental em todos os 30 episódios das duas primeiras temporadas.

Os dois assistentes, Frank Delfino e Bonnie Winterbottom, foram, no passado, trainees como são agora aqueles cinco. Vão aparecer como trainees 10 anos antes do momento atual da ação, em flashbacks, na segunda temporada. Têm em comum um respeito imenso pela chefe, uma devoção quase canina por ela.

Veremos, no desenrolar da história, que Frank (Charlie Weber) é o encarregado de todo o trabalho sujo – e, assim como Bonnie, jamais recusa-se a atender uma ordem de Annalise. Tem os mais diferentes contatos nas áreas fundamentais para o bom funcionamento do escritório, como, por exemplo, a polícia, o Tribunal de Justiça, o escritório do procurador, o laboratório que trabalha para a procuradoria. Tem, como quase todo mundo na história, alguns segredos no seu passado.

Bonnie (Liza Weil) é uma mulher pequena, em geral mansa, suave. Parece até tímida, indefesa, frágil. Sabe, no entanto, ser firme e rígida com os trainees. Demonstra ter uma imensa dívida de gratidão tanto por Annalise quanto por Sam, o marido.

Os cinco trainees trabalham como escravos no escritório da professora

Os alunos que foram escolhidos por Annalise para terem a honra de trabalhar no escritório são tratados de forma absolutamente autoritária por ela. Ela, e também Frank e Bonnie, mandam os garotos executarem todo tipo de tarefa, muitas vezes rodando noite para conseguir alguma informação necessária para ser apresentada no tribunal. É quase um trabalho escravo – mas a sensação que Annalise passa é sempre aquela: eles devem se honrar por terem sido escolhidos. Deveriam agradecer aos céus todos os dias, ajoelhados em pedrinhas.

São três homens e duas mulheres – todos muito, muito jovens, aí na faixa dos 20 a 20 e poucos anos. Dos cinco, dois são negros e uma é mexicana; quatro são héteros, um é gay.

Michaela Pratt (Aja Naomi King) é bela, caxias, CDF, ambiciosa. É também a que parece mais inocente, pouco vivida – e entra em pânico com grande facilidade. Foi criada por pais adotivos e, quando a série começa, está namorando um rapaz riquíssimo, de família de empresários milionários.

Laurel Castillo é interpretada por Karla Souza, nascida na Cidade do México, que começou a carreira na TV mexicana e nos últimos anos tem trabalhado tanto nos Estados Unidos quanto em seu país natal. É bela – faz lembrar Malu Mader – e demonstra talento. Ganhou uma personagem complexa, interessantíssima. Laurel é uma das mais inteligentes do grupo, talvez a mais inteligente. Diferentemente de Michaela, mostra-se experiente, vivida. Demora bastante para surgir a informação, mas o espectador verá que Laurel é filha de um milionário. As duas primeiras temporadas não mostram, mas dá para o espectador suspeitar que o pai seja um barão do tráfico de drogas.

Connor Walsh (Jack Falahee) é o que mais se revolta contra a forma com que os trainees são tratados. É o que mais contesta Annalise – dentro do grupo, não na frente dela. Gay assumidérrimo, era daquele tipo absolutamente promíscuo, até conhecer Oliver (Conrad Ricamora), um pacato expert em tecnologia da informação e em finanças, por quem vai se apaixonando. Connor é esperto, safo – mas as melhores informações que consegue para ajudar o trabalho de Annalise nos tribunais, quem obtém para ele é Oliver, um hacker competentíssimo.

Diferentemente de todos os demais, que são todos muito inteligentes, Asher Millstone é um bobão. Tem a cabeça de um ginasiano, só pensa em sexo, se tem como um gostosão. Fala bobagem o tempo todo – e, quando precisa falar sério, se atrapalha, diz impropriedades. É uma toupeira. A única explicação para o fato de ter sido escolhido para o grupo seleto é que é filho de um juiz da Suprema Corte estadual, William Millstone (John Posey).

O juiz Millstone terá importância na trama.

E, finalmente, temos Wes Gibbins – o papel de Alfred Enoch, o jovem e ótimo ator que interpretou Dean Thomas em todos os filmes da série Harry Potter.

Todos os cinco estagiários são muito importantes em toda a trama, mas Wes é o mais importante de todos. Isso fica claro desde os primeiros episódios. É inteligente, hábil, rápido, bom de serviço – e Annalise o trata de maneira diferente. Dá muito mais atenção a ele que aos demais.

Wes, assim como Michaela, foi criado por pais adotivos. Mas as indicações são de que era uma família bem mais pobre do que a que adotou Michaela. Cursou só escolas públicas. Fica absolutamente surpreso por ser escolhido pela professora famosa para trabalhar em seu escritório.

Na foto posada, para publicidade, da esquerda para a direita: Jack Falahee (Connor Walsh), Aja Naomi King (Michaela Pratt), Matt McGorry (Asher Millstone), Alfred Enoch (Wes Gibbins), Karla Souza (Laurel Castillo) e Viola Davis (Annalise Keating).

Desde o comecinho da série, sabemos que um homem foi morto no escritório

Desde o comecinho do primeiro episódio de How to Get Away With Murder, o espectador vê que um homem foi morto dentro da casa onde funciona o escritório de Annelise Keating – e que os estagiários levaram o corpo para uma floresta.

Quatro deles – Wes, Connor, Laurel e Michaela. O único que não estava no grupo é Asher, o bobão.

E isso aconteceu num dia importante, dia de festa em homenagem ao time de futebol americano da universidade. É uma festa tradicional, realizada uma vez por ano, há muitas, muitas décadas. Todos os estudantes de Middleton participam da festa, reunidos em torno de uma gigantesca fogueira no campus.

As sequências em que aparecem os estagiários pegando o corpo e o levando para uma floresta são muito rápidas, em tomadas curtíssimas, com a montagem feita numa velocidade extremamente acelerada.

E elas vão aparecendo ao longo de todos os episódios da primeira temporada – sempre daquela maneira, tomadas curtíssimas, montagem mais acelerada que videoclipe da MTV. A cada vez que surgem essas sequências vão se acrescentando mais detalhes, mais informações.

Ao final do primeiro episódio, o espectador fica sabendo que o morto é Sam (na foto abaixo), o marido de Annalise.

Ao longo da primeira temporada, vamos vendo que os estagiários enrolaram o corpo de Sam num tapete, puseram no carro de Connor, levaram para um bosque, tocaram fogo, esquartejaram o corpo queimado e dispuseram partes dele em vários sacos de lixo, que espalharam em diversos locais.

É uma teia incrível, bem elaboradíssima, um emaranhado de histórias

Exatamente como aconteceu a morte de Sam, quem o matou, por que os estagiários procederam daquela maneira, queimando e esquartejando o corpo – essas são as perguntas que o espectador vai fazendo ao longo de toda a primeira temporada, e que, naturalmente, só vão ser completamente respondidas ao final dela.

Mas essas questões, embora importantíssimas, fundamentais, são apenas algumas das muitíssimas que serão apresentadas ao espectador.

Algum tempo antes da morte de Sam, uma jovem estudante, que morava numa daquelas grandes fraternidades de universitários americanos (o que aqui a gente chamava de república de estudante), é dada como desaparecida. O noticiário das TVs fala muito do caso. É uma jovem bonita, era popular entre os colegas – Lila Stangard (Megan West).

Muitos dias depois do desaparecimento de Lila, a polícia encontra seu corpo, dentro da caixa d’água, no alto do prédio de uns quatro andares da fraternidade em que ela morava.

Há dois suspeitos: o namorado de Lisa, um garoto famoso, estrela do time de futebol americano de sua escola, Griffin O’Reilly (Lenny Platt), e uma grande amiga dela, Rebecca Sutter (Katie Findlay, na foto abaixo).

A teia que entrelaça esses personagens todos – Lila, a garota morta, Griffin, seu namorado, Rebecca, sua amiga, mais Sam Keating, mais Wes Gibbins, e mais a própria Annalise Keating – é muitíssimo bem estruturada. É de fato um trabalho esplendoroso o do criador da série, roteirista e produtor-executivo Peter Nowalk.

A teia vai sendo desvendada para o espectador aos poucos, é claro. Sem dar spoiler, é possível apresentar vários traços do desenho criado por Peter Nowalk e sua equipe de roteiristas.

O astro do futebol americano Griffin é rico, de família extremamente religiosa. Ele propõe a Lila um pacto de virgindade – só farão sexo depois de casados. Lila vai ficando cada vez mais amiga de Rebecca – uma moça bastante piradinha, que trafica e consome drogas fortes. Por uma imensa coincidência dessas de que é feita a vida, Rebecca mora no mesmo prédio de apartamentos bastante fuleiro de Wes. Na verdade, os dois apartamentos são colados – a música alta que Rebecca põe para tocar não deixa Wes estudar nem dormir.

Rebecca acaba confessando à polícia que teve uma noite de sexo com Griffin, o namorado de sua amiga.

A promotoria acusa o rico Griffin e a pobre Rebecca pelo assassinato de Lila.

Annalise resolve assumir a defesa de Rebecca. Rebecca e Wes passam a ter um caso.

É uma teia incrível, um emaranhado de histórias. Logo no primeiro episódio da primeira temporada, Wes flagra Annalise com um amante, Nate Lahey (Billy Brown).

E, para complicar tudo muito mais, Annalise começa a suspeitar que Sam, seu marido, pode ter tido um caso com Lila, e pode mesmo talvez ter tido algo a ver com o desaparecimento dela. (Na foto abaixo, Karla Souza-Laurel Castillo.)

Duas histórias principais na primeira temporada, e muitas subtramas

Essas duas histórias – os quatro estagiários retirando da casa-escritório de Annalise o corpo de Sam para queimá-lo e esquarteja-lo, e o mistério envolvendo a morte da estudante Lila – vão se desenrolando ao longo de toda a primeira temporada. Mas, além delas, em cada um dos 15 episódios, há um novo caso em que o escritório de Annalise vai defender um acusado de um crime – em geral crime de morte, mesmo, mas não apenas.

Então são duas histórias principais, mais dezenas de casos de tribunal – e mais as histórias de Annalise, seus assistentes e seus trainees. É um amontado, um bololô de tramas que vão se interligando, um trabalho de muito fôlego – e uma incrível criatividade.

Tenho cada vez maior horror à possibilidade de spoiler, mas dá para dizer, sem estragar o prazer de quem ainda não viu a série, que na segunda temporada haverá, como na primeira, diversas histórias de casos de tribunal em que o escritório de Annalise defende acusados, e uma história maior, principal, que vai se desenvolvendo ao longo dos diversos episódios.

Essa história maior é o assassinato brutal de um casal de milionários. Os principais suspeitos – que Annalise vai defender – são os dois filhos do casal, filhos de criação, um rapaz mulato e uma moça de origem asiática, Caleb e Catherine Hapstall (interpretados por Kendrick Sampson e Amy Okuda).

Mas o fio condutor mesmo da segunda temporada é um caso bem antigo em que Annalise trabalhou, dez anos antes da época da ação, e que tem a ver com a mãe de Wes – o que explica a atenção especial que a advogada e professora dá ao rapaz. (Na foto abaixo, Alfred Enoch-Wes Gibbins.)

Viola Davis dá um monumental, precioso show de atuação

As três primeiras temporadas de How to Get Away With Murder conquistaram 10 prêmios, fora outras 45 indicações. Viola Davis teve duas indicações ao Globo de Ouro de melhor atriz em série dramática. Para o Emmy, a atriz teve quatro indicações – venceu uma delas, em 2015.

É uma série estupidamente bem realizada. Tá, tem alguns defeitinhos. A coisa da pouca iluminação dos interiores, por exemplo, me incomodou demais. Há de fato muito exagero – mas é uma trama fascinante, todos os atores estão muito, muito bem.

A moral da história é tristíssima, apavorante – mas fazer o quê? É assim que são as coisas.

E, sobretudo, How to Get Away With Murder nos apresenta uma atuação fantástica, maravilhosa, extraordinária de uma atriz em momento especial.

Viola Davis é um show.

Parece que Annalise Keating foi criada para que Viola Davis pudesse dar o grande show que dá.

Annalise, como foi dito lá em cima, é mandona, autoritária, ditatorial demais. Quando fala na sala de aula para 180 alunos, ou no tribunal do júri, eleva a voz forte, poderosa; mostra-se cheia de si, sabe-se poderosa.

No entanto, em especial quando não tem platéia diante de si, ela chora demais, bebe demais, sofre demais. Tem drama demais na vida, essa mulher.

Para conseguir o que quer, para obter o veredito de inocente para seus clientes, sacaneou um bando de gente na vida. Até mesmo o amante, Nate, ela não titubeia em colocar em sérios riscos, com a certeza de que mais para a frente vai acertar as coisas.

Vence muitas vezes – mas volta e meia é tomada por arrependimento, culpa. E sofre, come o pão que o diabo amassou.

E Viola Davis parece ter-se entregue de corpo e alma à sua personagem exagerada, over. Viola tem uma interpretação majestosa – mas exagerada, over, exatamente como sua personagem.

É absolutamente fascinante como Viola Davis nos mostra as mais diferentes caras de Annalise Keating. Na sala de aula, no tribunal, segura de si, metida a não poder mais, é uma mulher vistosa, elegante, bela.

Nos momentos de solidão, trancada em sua casa, enchendo a cara com quantidades industriais de vodca para ajudar a aguentar tanto sofrimento, é a imagem da fragilidade, do desamparo, do desespero. Fica feia, muito feia – e Viola Davis se mostra gigante aí porque não evita essas cenas, ou tenta suavizar as coisas. Não: a câmara fecha sobre o rosto dela e a mostra sofrendo, chorando, feia, pavorosa.

Há um momento, no final do episódio 4 da primeira temporada, em que Viola Davis se garantiu em qualquer antologia de grandes atuações do cinema.

Annalise está em seu quarto, diante do espelho da cômoda, no final de um dia pesado, carregado. Vai tirando as jóias – está sempre com grandes, vistosos brincos, pulseiras, colares. Tira a peruca de cabelos lisos e expõe pela primeira ao espectador seu pequeno cabelo pixaim. Sem a peruca, a aparência do rosto se transforma tremendamente. E então, vagorosamente, bem vagorosamente, ela vai passando algodão para retirar a pesada maquiagem. A câmara está diante dela, o rosto ocupa todo o quadro, a tela inteira.

Sam, o marido, chega ao quarto. E ela pergunta: – “What’s you penis doing in the dead girl’s phone?” O que o seu pênis está fazendo no telefone da garota morta?

Uau.

É. É uma senhora série.

Anotação em julho de 2017

How To Get Away With Murder – A Primeira e a Segunda Temporadas

De Peter Nowalk, criador, roteirista, produtor executivo, EUA, 2014-2016

Direção Bill D’Elia, Mike Listo, Laura Innes, Stephen Williams, Michael Offer

Com Viola Davis (Annalise Keating)

e (no escritório de Annalise ) Charlie Weber (Frank Delfino), Liza Weil (Bonnie Winterbottom), Alfred Enoch (Wes Gibbins), Jack Falahee (Connor Walsh), Aja Naomi King (Michaela Pratt), Matt McGorry (Asher Millstone), Karla Souza (Laurel Castillo), Conrad Ricamora (Oliver Hampton),

(na vida de Annalise) Billy Brown (Nate Lahey, o amante), Tom Verica (Sam Keating, o marido), Famke Janssen (Eve Rothlow, a grande amiga), Cicely Tyson (Ophelia Harkness, a mãe), Marcia Gay Harden (Hannah Keating, a cunhada), Enuka Okuma (Nia Lahey, a mulher de Nate)

(no entorno, nos casos) Katie Findlay (Rebecca Sutter), Kendrick Sampson (Caleb Hapstall), Amy Okuda (Catherine Hapstall), Jefferson White (Phillip Jessup), Megan West (Lila Stangard), Lenny Platt (Griffin O’Reilly, o namorado de Lila), John Posey (juiz William Millstone, o pai de Asher), Kelsey Scott (Rose, a mãe de Wes), Issac Ryan Brown (Christophe, Wes menino), Adam Arkin (Wallace Mahoney), Wilson Bethel (Charles Mahoney), Matt Cohen (Levi Sutter),

(na promotoria e nos tribunais) Sarah Burns (Emily Sinclair), Benito Martinez (Todd Denver), Milauna Jackson (Rene Atwood), Alysia Reiner (Wendy Parks),

Roteiro Peter Nowalk, Michael Foley, Erika Green Swafford, Warren Hsu Leonard e outros

Fotografia Michael A. Price

Música Photek

Montagem David Greenspan, Julia Grove, Matthew Pevic e outros

Casting John Brace, Linda Lowy e outros

Na Netflix. Produção ShondaLand, Nowalk Entertainment, ABC Studiosk.

Cor, cerca de 675 min (11h15) cada temporada

***1/2

5 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 22 dezembro 2017 às 10:54 pm | Permalink

    Está no Netflix e penso que vi uns 5 ou 10 minutos e fiquei assustado com o que vi. Como escreve o Sérgio: “Vale tudo – até o perjúrio. Até a mentira. Até plantar evidências falsas que favoreçam o cliente, ou esconder evidências prejudiciais ao cliente.”
    Não tenho pachorra para coisas destas.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 23 dezembro 2017 às 12:54 am | Permalink

    Acho que compreendo bem o que você sentiu, José Luís.
    De fato, é muita podridão.
    Dá para entender quem não tem paciência nem estômago para ver esse tipo de
    coisa.
    Mas é muito bem feito! Eu gostei muito.
    Um grande abraço!
    Sérgio

  3. José Luís
    Postado em 23 dezembro 2017 às 2:01 pm | Permalink

    Caro Sérgio,
    Lembro-me da minha mãe dizer para meu espanto que teria um grande desgosto se eu fosse advogado.
    Não sei qual a razão para ela dizer isto, na nossa família não havia notícias de qualquer questão judicial.
    De facto todos os cidadãos devem ter direito a defesa em tribunal, é um imperativo da democracia.
    Mas, na realidade há advogados que são pessoas vis, asquerosas, indignas de entrar numa sala de tribunal.
    Poucos são os que se assemelham a Atticus Finch, infelizmente.

  4. Jussara
    Postado em 23 dezembro 2017 às 4:37 pm | Permalink

    A sua descrição de parte da narrativa e estilo de montagem acelerada me fez lembrar da série “Scandal”. A trama se parece um pouco também: recrutamento de estagiários, protagonista mandona, badass, rica, fina, bonita, que faz de tudo para inocentar os clientes, personagens com tragédias no passado etc. Então fiz uma pesquisa rápida, e vi que uma das produtoras é Shonda Rhimes, a mesma de “Scandal”. Tá explicado!

    Já ouvi falar bastante de HTGAWM, mas nunca bateu vontade de assistir, não estou numa vibe de ver séries.

    Viola Davis pelo visto emagreceu muito pra fazer a personagem, e ainda deve ter treinado forte. Está irreconhecível. Uau! Só não sabia que ela usava peruca para compor a personagem, dado que 99% das atrizes americanas alisam o cabelo, mesmo as que têm o cabelo naturalmente liso; se não estiver o liso mais liso, escovado e chapinhado de todo o planeta, parece que não serve para o padrão americano de beleza (e brasileiro também, infelizmente, embora isso venha mudando um pouco aqui).

    Quanto à característica de sociedade pós-racismo, apesar de não ver a série, também acho maravilhosa, e penso que é graças à Shonda. Em “Scandal”, a protagonista também é negra e há relacionamentos inter-raciais.

    Outra série que mostra muito bem isso é “The Good Wife”. Nunca vi tantos atores negros atuando, e não em papéis pequenos ou desimportantes, como ainda acontece, mas em papéis de chefias, altas posições no Judiciário, como advogados de grandes firmas e o escambau a quatro. Maravilhoso de se ver!

  5. Patrícia Pantoni
    Postado em 12 janeiro 2018 às 11:18 am | Permalink

    olá! Aspas para vc: A série se caracteriza por excessos. Tudo excede, tudo é exagerado… Aí vc me pegou de jeito, achava que por causa disso vc jamais gostaria de HTGAWM!!! Eu gosto bastante! Gostei muito dessa maneira de ir voltando e acrescentando um tico a mais da trama, e tem crime, né?! Eu curto… sem contar Viola Davis! Demais!
    Abraço

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