Frenesi / Frenzy

Nota: ★★★★

Para fazer seu filme de número 52 (e que acabaria sendo seu penúltimo), Frenesi, lançado em 1972, Alfred Hitchcock voltou à capital de seu país natal, que havia abandonado três décadas antes para se instalar em Hollywood, a Meca da gente de cinema.

É uma beleza de filme.

Fala sobre um serial killer e um homem errado – este tema que volta e meia aparece na obra do realizador. Os dois se conhecem, o assassino e o homem de quem todos vão suspeitar, talvez até mesmo o espectador mais distraído. O assassino parece um sujeito muito bonzinho, e o que parece suspeito, o homem errado, é um sujeito antipático demais, grosseiro, até nojento.

Mas, se acontecer de algum espectador suspeitar do homem errado, logo vai perceber que é um engano. Quando o filme está aí com uns 30 minutos, o assassino comete mais um crime, e o espectador vê tudo.

Frenesi tem momentos de humor, como a imensa maioria dos filmes do mestre. Deliciosos momentos de humor. A trama é simples, mas fascinante, porque a cada momento o homem errado parece mais e mais suspeito, e Hitchcock brinca com as emoções do espectador: o filme vai fazendo com que o espectador acabe torcendo por aquele sujeito que é antipático, que é um babaca – mas, coitado, por mais que pareça culpado, não é, é absolutamente inocente.

O roteiro é uma perfeição, uma pequena jóia. É obra de Anthony Shaffer, um grande escritor, um expert na arte do thriller, autor, entre outras, da peça Sleuth, que deu origem a dois belos filmes, Jogo Mortal (1972) e Um Jogo de Vida e Morte (2007). O roteiro se baseou numa novela de Arthur La Bern que tem o curioso, londriníssimo título de Goodbye Piccadilly, Farewell Leicester Square.

Aqui e ali, há maravilhosos planos-sequências, uma das manias do diretor.

Tudo no filme é ótimo – a trama, o roteiro, os personagens, as situações, e, claro, as atuações. Todas as atuações são maravilhosas, até dos personagens mais secundários.

O filme só não tem astros, estrelas. Alfred Hitchcock, o sujeito que podia chamar quem ele bem entendesse para trabalhar em seus filmes com a certeza que jamais ouviria um não, preferiu dessa vez não usar nenhum nome de grande fama. Nisso, este Frenesi se parece um pouco com O Terceiro Tiro/The Trouble With Harry (1955), em que o principal papel masculino é de John Forsythe, que jamais foi um grande astro, e o principal papel feminino coube a uma novata, uma estreante. Verdade que Shirley MacLaine depois viraria uma estrela, mas quando o filme foi lançado era uma absoluta desconhecida.

Ao contrário do que era usual, desta vez Hitch filmou muito nas ruas

Hitch, como se sabe, é um diretor que faz filmes dentro de estúdio, lugar em que pode controlar temperatura e pressão. Não é, de forma alguma, um realizador que filma nas ruas de verdade, como os diretores do neo-realismo italiano fizeram, e nisso foram seguidos por diversos movimentos cinematográficos ao longo das décadas seguintes, na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, no Brasil, e bem mais recentemente no Irã, na Romênia. Bem ao contrário: é do tipo que recria ruas dentro de estúdio.

Hitch sempre preferiu filmar dentro de lugares fechados.

No entanto, muitos dos 116 minutos de Frenesi se passa ao ar livre, nas ruas de Londres. The streets of London Town. Ao ar livre. Boa parte do filme foi feita nos famosos estúdios Pinewood, nos arredores da capital, mas muitas cenas foram filmadas de fato nas ruas.

A primeira sequência do filme mostra Londres do alto. A câmara vai sobrevoando o Tâmisa de Leste para Oeste, da jusante para a montante, até se aproximar da Tower Bridge. Vão rolando os créditos iniciais enquanto a câmara, colocada em um helicóptero, vai chegando perto da Tower Bridge, e a ponte se abre como se para deixar a câmara passar. E a câmara passa sob a parte alta da ponte exatamente ao final dos créditos, logo após o letreiro de “Directed by Alfred Hitchcock”.

Neste primeira longa tomada que dura por todos os créditos iniciais, ouvimos a trilha sonora composta pelo inglês Ron Goodwin (1925-2003) – uma melodia grandiosa, um tanto marcial, que faz lembrar o estilo cerimonioso, britânico a não mais poder, de Sir Edward Elgar e suas marchas “Pomp and Circumstance”.

Surge na margem do Rio Tâmisa um corpo de mulher nua, estrangulada

Só então há um primeiro corte, e a câmara, novamente do ar, mostra uma pequena multidão reunida na avenida que ladeia o Tâmisa no lado Norte. Um político bonitão, bem vestido – Sir George (John Boxer) –  está fazendo um discurso cheio de pompa e circunstância, anunciando um projeto de limpeza das águas do rio que corta a capital do Império Britânico.

Nada de palanque, carro de som: britanicamente, londrinissimamente, Sir George fala aos cidadãos do alto de um pequeno caixote de madeira que o deixa ligeiramente mais alto que os demais.

No meio da pequena multidão há repórteres, fotógrafos. Há também um velhinho barrigudão, bochechudo, com um indefectível chapéu coco – ele mesmo, Alfred Hitchcock, fazendo a sua tradicional aparição rápida no filme, aquilo que em inglês chamam de cameo role.

O discurso está sendo feito do outro lado da rua, o lado mais distante do rio. De repente, um homem de costas para o político que discursa olha para o rio: na margem do Tâmisa que será limpo no breve futuro, segundo se anuncia, está o corpo nu de uma mulher morta. Um corpse, essa coisa que Alfred Hitchcock adorava. A razão de ser da maioria de seus filmes.

Enrolada no pescoço da mulher há uma gravata.

O homem chama a atenção dos outros. Rapidissimamente, toda a pequena multidão que ouvia o discurso do político dá as costas para ele e se espreme junto à mureta do Tâmisa para ver o corpo, o cadáver, o corpse.

Há exclamações. Logo percebem a gravata. – “Outro assassinato com a gravata!” “O assassino da gravata!”

Um close-up da cabeça da vítima, para podermos ver de perto a gravata em volta do pescoço dela.

Corta, e vemos um sujeito colocando uma gravata ao redor do seu próprio pescoço. Ele dorme num quartinho logo acima de um pub que ainda não abriu. Entra no bar – e se serve de uma bebida. De manhã bem cedo!

Dick é demitido do bar e sai de lá sem dinheiro, sem futuro

O espectador tinha acabado de ver uma vítima do assassino da gravata, e agora vê esse sujeito que coloca a gravata sobre a camisa para começar a trabalhar no bar que ainda não abriu, e ele já toma uma! De manhãzinha!

O espectador ainda não sabe disso, é claro, mas aquele é o homem errado, aquele de quem a polícia logo começará a suspeitar. Chama-se Richard Blaney – o papel de Jon Finch (à esquerda na foto abaixo). Veremos que ele havia sido chefe de esquadrilha na Royal Air Force; na vida civil, no entanto, nada dava certo para ele. Estava agora, fazia já alguns meses, trabalhando como garçom naquele pub, localizado nas proximidades do Covent Garden e portanto também de várias lojas e depósitos de frutas, verduras, legumes, carnes.

(O filme foi feito pouco tempo antes de o Covent Garden deixar de ser o grande mercado de frutas e verduras de Londres.)

Forsythe (Bernard Cribbins), o dono do pub, sujeito tão grosseiro e antipático quanto o próprio Dick Blaney, flagra o empregado pegando a bebida. Começa uma discussão desagradável. Dick argumenta que paga pelo que bebe. Entra Babs (Anna Massey), a outra funcionária do pub, que – veremos em seguida – está tendo um caso com Dick. Forsythe diz que ele está demitido, Babs o defende, o patrão ameaça demiti-la também.

Dick sai do bar sem emprego e praticamente sem dinheiro algum. Logo se encontra com Robert Rusk (Barry Foster, à direita na foto abaixo), um comerciante da região, dono de um armazém de frutas, frequentador do pub de Forsythe. Esse Bob Rusk, um sujeito de cabelo claro, entre o louro e o ruivo, branco demais, com as faces sempre muito rosadas, parece um excelente sujeito. Ao saber que o outro foi demitido, oferece ajuda, pergunta se ele precisa de algum dinheiro emprestado. Dick, duro mas cheio de orgulho, diz que não precisa. Bob diz que pode ajudá-lo no que for preciso, que ele fique à vontade de pedir se precisar. E ainda oferece a ele uma caixa de uvas e uma dica para apostar num cavalo que vai correr dali a pouco, uma barbada.

A ex-mulher de Dick é assassinada – e os indícios todos apontam para ele

Com o restinho de dinheiro que tem, Dick almoça num bar, em que bebe bastante. E, lá pelas 4 da tarde, resolve visitar a ex-mulher, que não vê há vários meses.

Bem ao contrário do ex-marido, que não consegue se ajustar, dar um jeito na vida, Brenda Blaney (Barbara Leigh-Hunt, na foto abaixo) deu certo. Criou uma agência matrimonial, uma dessas que promovem encontros de casais, e a coisa vai indo razoavelmente bem.

A secretária de Brenda, Monica Barling (Jean Marsh), uma mulher de maus bofes, mal humorada, nunca tinha visto o ex-marido da patroa – e, pela cara que faz, não gosta do que está vendo pela primeira vez.

Brenda recebe o ex com simpatia, com sorrisos – mas Dick é um sujeito chato de galocha, está com péssimo humor, e um minuto depois de estar com a ex na sala dela já está falando alto e com tom nervoso, agressivo. Brenda vai até a sala de espera, em que fica a secretária, e diz que ela pode ir para casa mais cedo naquele dia.

A mulher vai embora ouvindo a voz brava do ex da patroa.

Essa Ms. Barling vai ser importante na trama que envolverá o pobre coitado do sujeito sem sorte que é esse Dick Blaney.

Um dia depois dessa primeira visita de Dick à agência da ex-mulher, ele volta lá, provavelmente para agradecer à gentileza que Brenda havia feito – na véspera, sem que ele percebesse, ela havia botado várias notas graúdas no bolso do casaco de chuva de Dick.

E então Dick vai até a agência, bate algumas vezes na porta, e ninguém atende.

O espectador sabe por quê. Momentos antes, o filme havia mostrado Bob Rusk, o comerciante de frutas que parecia tão bonzinho, tão legal, assassinando Brenda e deixando em seu pescoço uma gravata.

Como ninguém atende a porta, Dick sai da agência. No momento em que está saindo do prédio, é visto por Ms. Barling, que vem voltando do almoço.

Momento de brilho de Hitch: a câmara fica então parada no meio da rua. Por um momento, não vemos ninguém. Dick já havia saído do quadro. Ms. Barling também, tendo entrado no prédio onde funciona a agência. Surgem na rua duas mulheres, conversando – e de repente ouve-se um grito lancinante. A câmara, parada ali na rua, não mostra nada, porque não é preciso: o espectador está cansado de saber que naquele momento a secretária acabava de encontrar o corpo da patroa, uma gravata em volta de seu pescoço.

O que foi dito aí acima não revela nada que não pudesse ser revelado

Para o inspetor Oxford (Alec McCowen) da Scotland Yard que vai ao local do crime, Ms. Barling fornece uma descrição perfeita do suspeito óbvio, o homem que na véspera tinha elevado o tom de voz para Brenda, o homem que havia saído do prédio no momento exato em que ela voltava do almoço.

Descrevi muita coisa em detalhes, me estendi, como faço sempre, mas não revelei nada do que não possa ser revelado. Não houve spoilers, nessa descrição toda aí acima.

No momento em que Bob Rusk entra na sala de Brenda de repente, sem que tivesse se anunciado, e ela o reconhece como o sr. Robinson, um cliente desagradável, estamos com 25 minutos de filme.

Dez minutos depois, quando o filme está com 35 minutos, Bob Rusk sai do prédio, e logo em seguida chega Dick Blaney.

A partir daí haverá muita, muita, muita coisa.

É uma trama toda muitíssimo bem engendrada.

Personagens muito bem construídos, e atuações maravilhosas

Frenesi é um dos filmes de Hitchcock de que mais gosto. Não tenho idéia de quantas vezes já o vi, mas seguramente foram muitas. Ao vê-lo de novo agora, para fazer esta anotação, fiquei impressionado como me lembrava de quase tudo. Me lembrava bem de diversos detalhes – até mesmo de uma e outra fala dos personagens.

Nesta nova revisão, me impressionou mais uma vez como é bem construído esse personagem de Dick Blaney, um sujeito amargo, amargurado, frustrado, que não se adaptou à vida civil depois de deixar a RAF, que é agressivo, antipático – mas de forma alguma é um assassino serial, embora as evidências contra ele vão se acumulando cada vez mais.

Como, ao contrário, é simpática essa moça Babs – e que bela atriz essa Anna Massey que a interpreta. Anna Massey (na foto abaixo) era uma mulher feiosinha, coitada, e faz com perfeição essa Babs, uma mulher em nada atraente, típica mulher simples, humilde, working class inglesa – mas o que falta a ela de charme, beleza, sobra de coração grande.

Como é bem construído esse Bob Rusk, que a princípio parece simpático, solícito, bonzinho, e que depois o espectador vê praticando o crime brutal, horroroso – Bob Rusk é meio assim uma espécie de o médico e o monstro, Dr. Jekyll e Mr. Hyde.

O inspetor Oxford e sua mulher são dos mais deliciosos personagens de Hitchcock

Mas, para mim, os personagens que roubam o filme, os personagens mais interessantes, mais simpáticos, mais irresistivelmente divertidos são o inspetor Oxford e sua senhora.

E que maravilha de atores são Alec McCowen e Vivien Merchant (na foto abaixo).

Lá pelas tantas, vemos o inspetor Oxford sentado à sua mesa de trabalho na sede da Scotland Yard, traçando um pratão de comida – um grande bife. Ele se atraca com o prato com uma voracidade de leão, e uma intensa, genuína alegria.

Seu assistente, o sargente Spearman (Michael Bates), assiste àquele espetáculo com curiosidade, espanto.

O inspetor Oxford percebe, é claro, o espanto do subordinado diante do seu apetite pantagruélico, e então explica para ele, e para o espectador, é claro, qual é a situação. É que a sra. Oxford havia ingressado num curso de culinária francesa, e, nas últimas semanas, apresentava para ele, à noite, quando chegava em casa cansado do trabalho duro, uns pratos esquisitos, de quantidades pequenas e nada, mas nada, nada suculentos. Assim, quando almoçava, ali, no escritório, estava agora sempre com grande apetite.

Veremos depois dois ou três jantares que a sra. Oxford prepara para o marido. Ela vem com os pratos e os apresenta – sempre com nomes em francês, que ela pronuncia com fortíssimo sotaque, é claro. Educado, gentil, amoroso, o inspetor jamais reclama do que lhe é oferecido – mas acha tudo um absoluto horror.

Enquanto a sra. Oxford serve o jantar para o marido, pergunta a ele sobre as novidades do caso do assassino da gravata. O marido apresenta os fatos – a cada dia, mais evidências contra Richard Blaney, que agora está foragido.

A sra. Oxford está convencida de que Richard Blaney é inocente, apesar de todos os indícios. O marido pergunta em que ela se baseia para deixar de lado tantas evidências que se acumulam contra o suspeito, e ela responde que é sua intuição.

O inspetor percebe que ali há a ocasião de dar um xeque-mate na esposa, e pergunta: – “O que sua intuição diz que um homem gostaria de jantar?”

Ao que ela responde, com uma carinha absolutamente deliciosa: – “Um grande pedaço de carne. Mas não é isso que você vai comer, e sim um…” e aí diz o nome de algum prato de rã ou coisa parecida. Em francês, naturalmente.

O inspetor Oxford vai ficando cada vez mais importante na trama.

Ele e a mulher são dois dos personagens mais impressionantes de toda a galeria de personagens dos 53 filmes de Alfred Hitchcock.

Os principais atores não eram nada conhecidos na época

Tendo vivido nos Estados Unidos durante 32 anos, desde 1940, Alfred Hitchcock não conhecia os atores ingleses de uma geração mais nova, gente que estivesse aí em torno dos 35 anos, como os personagens da história que iria filmar.

Três dos principais atores que foram escolhidos disseram, mais tarde, que foram absolutamente surpreendidos por terem sido chamados. Jon Finch, que faz Dick, o homem errado, Barry Foster que faz Bob  Rusk, o serial killer, e Anna Massey, que faz Babs Milligan, a garçonete do pub namorada de Richard, deram interessantes, gostosos depoimentos a Laurent Bouzereau, para o pequeno documentário The Story of “Frenzy”, feito em 2000, que acompanha o filme no DVD lançado pela Universal.

The Story of “Frenzy” deixa implícito que os produtores queriam fazer um filme de baixo orçamento. Isso explicaria a busca por atores que não eram grandes astros. De fato, o filme custou menos de US$ 2 milhões, cifra baixíssima para um filme de Hitchcock. Mas Frenesi veio depois de Topázio, que tinha sido um desastre total nas bilheterias.

Jon Finch diz que a única coisa que tinha a seu favor era o fato de ter acabado de filmar Macbeth com Roman Polanski. Ao ser procurado por auxiliares de Hitch, Polanski ofereceu a eles tudo o que desejassem – queriam ver algumas cenas do filme, que ainda estava sendo montado? Tudo bem, está à disposição. Não quiseram ver nada. Combinaram um encontro entre o jovem ator em início de carreira com o monstro-sagrado, e pronto – ele foi contratado.

Algo semelhante aconteceu com Barry Foster, segundo ele conta no curta-metragem.

Anna Massey se apresentou à equipe de Hitchcock para se candidatar ao papel da secretária de Brenda Blaney – um papel importante dentro da trama, mas bem pequeno, com pouco tempo diante das câmaras. Hitch conversou um tanto com ela e ofereceu o papel de Babs, a garçonete cockney feiosa e de imenso coração, o principal papel feminino do filme. Babs aparece na tela mais tempo até mesmo que Brenda Blaney, o papel que coube a Barbara Leigh-Hunt.

Num dia de filmagens perto do Covent Garden, Hitch se encontrou com seu passado

Nesse elenco só de atores que o realizador jamais havia visto antes, encontraram lugar, no entanto, para uma velha conhecida dele. Na segunda metade do filme, Dick Blaney e Babs vão se hospedar num belo e tradicional hotel na região de Bayswater, se não me engano. Chegam para fazer o registro com aquela insegurança que, nos anos 70, os casais não casados ainda tinham numa ocasião assim. A senhora que os atende na recepção os olha com um jeito de quem está sacando plenamente que eles não são casados, estão ali para uma trepadinha.

É um papel bem secundário, mas interessante, porque a senhora da portaria vai reaparecer depois, numa conversa deliciosa com um veterano funcionário do hotel.

Esse papel coube à veterana Elsie Randolph (1904-1982), atriz, cantora, sucesso no teatro e no cinema ingleses nos anos 30, que trabalhou sob a direção de Hitchcock em Ricos e Estranhos (1932).

Durante as filmagens de Frenesi, houve um outro encontro de Alfred Hitchcock com o seu próprio passado. Quem conta é Anthony Shaffer, o escritor e roteirista brilhante, entrevistado por Laurent Bouzereau para o curta The Story of “Frenzy”. Um dia em que estavam filmando nos arredores do Covent Garden – que ainda era, como já foi dito, o grande mercado de frutas, verduras e flores de Londres, como na época da Eliza Doolittle de My Fair Lady –, um senhor bem idoso se aproximou da equipe, querendo chegar perto de Hitchcock. Os seguranças tentaram detê-lo, mas logo se percebeu que não havia risco algum.

O velhinho disse a Alfred Hitchcock: – “Eu me lembro de seu pai aqui no mercado.”

O pai de Hitch – explica no documentário Patricia, a filha única do realizador – era um comerciante muito rico, que possuía uma cadeia de armazéns de peixes e hortaliças na região do Covent Garden.

O mestre do suspense, o mais badalado diretor de cinema de seu tempo chamou então o velhinho para sentar-se a seu lado, e ficou fazendo perguntas a ele. Convidou-o para almoçar ali mesmo.

“Um mundo feito de coincidências metodicamente ordenadas”

Em seu livro de entrevistas/conversas com o mestre inglês, HitchcockTruffaut, François Truffaut faz a seguinte síntese:

“Frenesi é a combinação de dois tipos de filmes: aqueles em que Hitchcock nos convida a seguir o itinerário de um assassino – À Sombra de uma Dúvida, Pavor nos Bastidores, Disque M para Matar, Psicose – e aqueles em que descreve os tormentos de um inocente perseguido: Os 39 Degraus, A Tortura do Silêncio, O Homem Errado, Intriga Internacional. Encontramos em Frenesi esse mundo hitchcockiano fechado como um pesadelo, no qual os personagens se conhecem: o assassino, o inocente, as vítimas, as testemunhas, esse mundo reduzido ao essencial em que cada conversa de loja ou de bar trata justamente dos assassinatos em questão, um mundo feito de coincidências tão metodicamente ordenadas que se cruzam vertical e horizontalmente: Frenesi oferece a imagem de um quadro de palavras cruzadas sobre o tema do assassinato.”

Depois de um parágrafo de Truffaut, não há mais o que dizer.

Anotação em fevereiro de 2017

Frenesi/Frenzy

De Alfred Hitchcock, EUA-Inglaterra, 1972

Com Jon Finch (Richard Blaney), Barry Foster (Robert Rusk), Barbara Leigh-Hunt (Brenda Blaney), Anna Massey (Babs Milligan, a namorada de Richard), Alec McCowen (inspector-chefe Oxford), Vivien Merchant (Mrs. Oxford), Clive Swift (Johnny Porter, o velho amigo de Richard), Billie Whitelaw (Hetty Porter, a mulher de Johnny), Bernard Cribbins (Felix Forsythe, o dono do pub), Michael Bates (sargento Spearman), Jean Marsh (Monica Barling, a secretária de Brenda), Madge Ryan (Mrs. Davison), Elsie Randolph (Gladys, a recepcionista do hotel), Gerald Sim (Mr. Usher, advogado no pub), John Boxer (Sir George, o politico que discursa)

Roteiro Anthony Shaffer

Baseado na novela Goodbye Piccadilly, Farewell, Leicester Square, de Arthur La Bern

Fotografia Gilbert Taylor

Música Ron Goodwin

Montagem John Jympson

Casting Sally Nicholl

Produção Universal Pictures

Cor, 116 min

R, ****

 

2 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 18 junho 2017 às 1:28 pm | Permalink

    Também gosto imenso deste filme, para mim é um dos melhores de Hitchcock. Lembro-me muito bem de o ver no cinema quando saiu, estava sozinho e ri alto e com gosto em várias alturas para espanto de umas pessoas de idade que estavam ao meu lado e não percebiam onde estava a graça.
    Os pratos de cozinha francesa da mulher do inspector têm todos um aspecto repugnante, o Sérgio deve ter reparado.
    Lembro-me também que este é o primeiro filme de Hitchcock em que se vê o peito nu de uma mulher e outra mulher nua vista de trás.
    É um filme magnífico em que o velho Hitch mostra que sabia muito de cinema e continuava em forma.
    Foi pena só ter feito mais um filme.

  2. Senhorita
    Postado em 18 junho 2017 às 8:40 pm | Permalink

    De onde você tira tanto talento pra escrever, rapaz? Eu, que nem gosto tanto assim de Hitchcock, tô aqui encantada com esse texto.

    PS: Estava me deliciando com esse texto e pensando: “Com certeza ele vai falar das refeições do coitado do inspetor”.
    Outro PS: Li em algum lugar que o Michael Caine recusou o papel de malfeitor do filme…

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  2. Por 50 Anos de Filmes » Os 39 Degraus / The 39 Steps em 3 agosto 2017 às 7:01 pm

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