Florence: Quem é Esta Mulher? / Florence Foster Jenkins

Nota: ★★★☆

A história é tão incrível, inacreditável, assombrosa, surpreendente, que parece ter sido criada por um roteirista especialmente imaginativo em uma viagem com alucinógeno poderoso. E, no entanto, aconteceu de fato. Por mais estranha que seja sua história, Florence Foster Jenkins não é uma personagem fictícia: viveu 76 anos, de 1868 a 1944.

Apresentou-se, de fato, no Carnegie Hall, em Nova York, como mostra o filme: diante de cerca de 3 mil pessoas que lotavam o venerando teatro, cantou com sua voz horrorosa, pavorosa, a voz mais desafinada que já foi ouvida neste mundo de Deus e do diabo.

Foi objeto de muito riso: como bem mostra o filme, as pessoas não conseguiam parar de rir diante daquele espanto.

Uma única pessoa no mundo achava que Florence Foster Jenkins sabia cantar, era afinada, tinha belo timbre: ela mesma. Mais ninguém.

Às vezes, ao longo dos 111 minutos deste belo filme, me peguei rindo, mesmo sem querer, porque algumas situações são tão grotescas, tão ridículas, que a gente ri. O ser humano é assim: consegue rir da desgraça alheia.

Porque a história de Florence, e o filme dirigido pelo grande Stephen Frears, são extremamente tristes.

Os atores são absolutamente perfeitos para seus papéis

Os filmes de Stephen Frears sempre têm diversas grandes qualidades, e este aqui já começa muito bem com a escolha dos três atores que fazem os papéis centrais, o de Florence, o de seu marido, St. Clair Bayfield, e o do jovem pianista que Florence escolhe para acompanhá-la primeiro nas aulas de canto, e depois nas suas apresentações públicas, Cosmé McMoon.

Florence é interpretada por Meryl Streep – e, embora seja absolutamente dispensável dizer qualquer coisa sobre Meryl Streep, eu digo: a interpretação dela é nunca menos que deslumbrante. Ah, sim a indicação para o Oscar de melhor atriz por sua interpretação de Florence Foster Jenkins foi a de número 20. A indicação para o Globo de Ouro foi a de número 30, se é que contei direito.

Não poderia haver outra atriz melhor para interpretar essa milionária que não conseguia acertar uma única nota de uma canção, mas achava que cantava divinamente. Meryl sabe cantar, e muito bem, como já demonstrou em Lembranças de Hollywood/Postcards from the Edge (1990), A Última Noite/A Prairie Home Companion (2006), Mamma Mia! (2008) e Ricki and The Flash: De Volta para Casa (2015). Aqui, ela demonstra que também tem competência para cantar de forma atroz, horrível, horrenda.

E não poderia haver ator melhor para interpretar esse St. Clair Bayfield do que Hugh Grant.

O inglês St. Clair Bayfield, que se dizia (ou talvez fosse mesmo) filho bastardo de um conde, é um sujeito de personalidade complexa, multifacetada. Chegou a Nova York para tentar a vida como ator, e não foi muito feliz. Durante anos, manteve com a herdeira milionária um casamento que parecia perfeito – só que era de fachada.

Uma estranha fachada, um estranho casamento, um estranho arranjo: não havia sexo entre eles, nunca houve. E toda noite, depois de deixar Florence na cama, e recitar um poema para ela, St. Clair pegava um táxi e ia de Manhattan até o Brooklyn, onde era esperado pela jovem amante, Kathleen (interpretada pela belíssima atriz Rebecca Ferguson, mezzo sueca, mezzo inglesa).

Um casamento sem sexo, e o marido tinha uma bela e jovem amante – mas, ao mesmo tempo, St. Clair Bayfield era um marido atenciosíssimo, carinhosíssimo, inteiramente dedicado a fazer feliz a milionária que não podia viver sem música mas ao abrir a boca assassinava todas as canções.

O personagem de St. Clair Bayfield caiu como uma luva em Hugh Grant

Inteiramente dedicado a cuidar da mulher. É impressionante esse traço do personagem.

E St. Clair tinha todo um jeito de ator que está interpretando o tempo todo – estivesse ele no palco do Verdi Club, uma associação para amantes da música erudita e lírica criada e financiada por Florence Foster Jenkins, ou na vida real.

Ao receber visitas para Florence, ao defender os interesses dela, ao conversar com alguém para protegê-la, St. Clair tinha sempre um jeito de ator um tantinho ruim, um tantinho careteiro, canastrão, afetado, maneirístico…

Sim: sem dúvida, não haveria ator no mundo mais indicado do que Hugh Grant, esse sujeito que brilhou demais em dramas de época e sobretudo em comedinhas românticas na última década do século XX e na primeira deste, de Quatro Casamentos e um Funeral (1994) a Simplesmente Amor (2003), passando por Um Lugar Chamado Notting Hill (1999).

Poderia ter feito muito mais filmes do que vinha fazendo nos últimos dez anos; poderia ser uma espécie de Cary Grant dos novos tempos. Preferiu uma semi-aposentadoria – que interrompeu quando foi chamado pelo conterrâneo Stephen Frears para esse papel. Consta que Hugh Grant topou a proposta em boa parte por vontade de trabalhar ao lado de Meryl Streep.

Meryl, que já trabalhou com virtualmente todos os atores de língua inglesa importantes das últimas três décadas e tanto, disse, numa entrevista, sobre contracenar com Hugh Grant: “Eu sempre pensei que eu era velha demais. Mas ele ficou mais velho”.

De fato: Hugh Grant envelheceu bastante. Não sei se houve um trabalho especial de maquiagem para torná-lo mais velho – como houve, por exemplo, um trabalho para tornar Meryl mais cheia, mais volumosa, em especial na barriga. Mas o fato é que os dois aparentam ter mais ou menos a mesma idade, no filme. Não demonstram, de forma alguma, a diferença de 11 anos que há entre eles (Meryl é de 1949; Hugh Grant, de 1960).

De Meryl Streep era mesmo de se esperar um belíssimo desempenho. Todo desempenho da mulher é belíssimo. E de Hugh Grant interpretando um ator de teatro que não deu muito certo e está sempre sorrindo e fazendo gestos largos como se estivesse num palco, daria para dizer que é um papel que lhe cai como uma luva.

Não há nada surpreendente aí.

É extraordinária a atuação de Simon Helberg como o pianista escolhido por Florence

Surpreendente, bastante surpreendente é a interpretação do terceiro ator principal do filme, Simon Helberg.

Nem eu nem Mary conhecíamos Simon Helberg.

Ele dá um show. Um show. É impressionante. Há algumas sequências em que ele está ao lado dessa mulher que é uma das melhores atrizes de toda a História do cinema, e ele está de igual para igual com ela. Há mesmo momentos em que a interpretação dele chega até mesmo a chamar mais a atenção do espectador que a dela.

Como já foi dito lá atrás, ele interpreta Cosmé McMoon, o jovem pianista que é escolhido por Florence para acompanhá-la primeiro nas aulas de canto, e depois nas suas apresentações.

É excelente a primeira sequência em que Cosmé McMoon aparece, quando estamos aí com uns 15 minutos de filme. Florence está sentada em uma das amplas salas de sua residência de gente muito, muito, muito rica, em Manhattan, e um pianista está tocando, de maneira virtuosística, no volume mais alto que pode haver em um piano. Ele estraçalha as pobres teclas do piano, e Florence está incomodadíssima com aquilo.

O que é fascinante, porque demonstra que Florence tinha bom ouvido – para ouvir os outros. A si mesma, não ouvia direito. Quer dizer, ouvia uma voz maravilhosa que só ela mesma ouvia.

Mas então o pianista está ali massacrando as teclas do piano. St. Clair percebe a irritação de sua mulher, diz para o pianista que está bem, que ele pode parar – mas o pianista, transtornado, em transe, não ouve. É preciso que St. Clair altere o volume da voz para que o sujeito perceba.

St. Clair escolta o pianista virtuoso até a porta do apartamento. Num cômodo comprido, uma espécie de corredor, amontoa-se uma dezena, talvez uma dúzia de candidatos a pianista da milionária excêntrica.

St. Clair escolhe Cosmé McMoon, um rapazinho baixinho, pequenino, com cara de muito, muito jovem – e um jeitinho de veado. Perdão aos politicamente corretos, mas é jeitinho de veado, mesmo. De veadinho. Essa é a melhor, mais perfeita expressão para definir o jeitinho de Cosmé McMoon.

Ele entra, senta-se ao piano, pergunta o que deve tocar. Florence, os ouvidos ainda ardendo com aquela barulheira do candidato anterior, diz algo tipo “o que você quiser, de preferência não muito alto”.

Cosmé McMoon-Simon Helberg corre os dedos sobre o piano de forma suave, doce, baixinho.

O IMDb informa que quem toca o piano é mesmo Simon Helberg, da mesma maneira que quem canta com a voz horripilante é a própria Meryl Streep, uma atriz que consegue fazer qualquer coisa que é preciso fazer.

Daí a pouquinho St. Clair está dizendo àquela dezena de candidatos que muito obrigado por terem vindo, agradecemos muito, mas infelizmente a presença de vocês não se faz mais necessária: Florence havia escolhido Cosmé McMoon.

Um mundo de sensações passa pelo personagem – e nós as vemos no rosto do ator     

O personagem do jovem pianista também é muito rico. Ele se tem em alta conta; considera-se um pianista clássico competente, capaz de brilhar no concorridíssimo mundo da música erudita nova-iorquina.

Rapaz esforçado, com talento, mas pobre, McMoon se derrete quando é informado de que receberá US$ 150,00. Ele abre os olhos com espanto – vemos que ele não esperava tanto dinheiro. (Estamos em 1944.) – “Por mês?”, pergunta, já satisfeito. Não: – “Por semana”, responde Florence.

A primeira vez em que McMoon se senta ao piano para acompanhar a aula de canto de Florence, e ele ouve aquela voz pavorosa, é outra sequência marcante. As caras que Cosmé McMoon-Simon Helberg faz! Ele não acredita no que está ouvindo, ele está chocado, apatetado – mas nunca na vida teria emprego tão bom, tão bem pago, e então tem que engolir em seco e tentar esconder seu choque, sua surpresa, seu espanto. Só que não consegue – e vemos no rosto do ator a quantidade de sensações que estão tomando conta do rapaz, o espanto, a necessidade de se conter, não demonstrar o que está sentindo, a incapacidade de não se mostrar chocado.

Um brilho.

Na vida real, Cosmé McMoon (1901-1980) jamais conseguiu se estabelecer como pianista, após a morte de Florence Foster Jenkins. (Na foto abaixo, Rebecca Ferguson, que faz a amante de St. Clair Bayfield.)

A fascinante vida de Florence deu origem a várias obras

O filme faz questão de mostrar que Florence não poupava dinheiro de sua imensa herança (o pai dela, Charles Dorrance Foster, 1836–1909, era um advogado bem sucedido, de uma rica família proprietária de terras na Pensilvânia) para ajudar a música e os músicos.

Não foi apenas uma exótica herdeira que se achava grande cantora: foi também uma mecenas, uma incentivadora da arte. No filme, não apenas se mostra o Verdi Club, que ela criou, como também há uma sequência em que ela recebe no seu apartamento a visita do maestro Arturo Toscanini (1867-1957), uma lenda viva, um dos maiores do mundo. Toscanini (interpretado por John Kavanagh) fala das dificuldades financeiras que está tendo para apresentar um concerto no Carnegie Hall; corta, e na cena seguinte Florence e St. Clair estão comentando quanto foi que a milionária deu para o maestro.

A fantástica vida de Florence já havia inspirado diversas obras, antes que Stephen Frears realizasse este filme.

Uma peça de teatro, Precious Few, do escritor Terry Speed, de 1994, contou parte da vida de Florence.

Em 2005, uma peça inspirada na vida da milionária, chamada Glorious!, estreou no West End de Londres; de lá para cá, segundo o IMBb, já foi traduzida para 27 línguas e apresentada em mais de 40 países.

Naquele mesmo ano de 2005, uma outra peça inspirada na vida de Florence, chamada Souvenir, estreou na Broadway.

O cinema francês produziu Marguerite em 2015. A história é todinha inspirada na vida de Florence, só que tudo foi adaptado para a realidade francesa. A milionária se chama Marguerite Dumont, e é interpretada por Catherine Frot, a ótima atriz de, entre tantos filmes, Nem Parece Minha Irmã!/Les Soeurs Fâchées (2004) e Os Sabores do Palácio/Les Saveurs du Palais (2012).

E é bem fascinante notar que este Florence Foster Jenkins é um filme inglês, e não americano. É uma produção da BBC Films, Qwerty Films e Pathé Pictures International. Toda a ação do filme se passa em Nova York, mas as filmagens foram em Londres e Liverpool.

A sequência do concerto – se é que se pode chamar aquilo de concerto – no Carnegie Hall de Nova York foi filmada no Hammersmith Apollo de Londres.

Mesmo quando filma histórias reais, Stephen Frears é eclético

Sempre me impressiona o ecletismo de Stephen Frears. O cara passa com a maior tranquilidade pelos mais diversos gêneros, do western (Terra de Paixões, 1998) ao policial (Os Imorais, 1990), da comédia (A Van, 1996) ao drama de época (Ligações Perigosas, 1988, Chéri, 2009). do suspense-terror (O Segredo de Mary Reilly, 1996) ao drama social (Coisas Belas e Sujas, 2002).

E volta e meia faz filmes baseados em fatos reais, como Sra. Henderson Apresenta (2005), A Rainha (2006), Philomena (2013), Programado para Vencer (2015).

Philomena – um drama familiar que tem como pano de fundo a venda de crianças abandonadas pelos pais para casais ricos por uma instituição ligada à Igreja Católica. Programado para Vencer – uma biografia do mito do ciclismo Lance Armstrong e seu mergulho no doping. E logo em seguida este Florence Foster Jenkins.

Mesmo quando filma histórias reais, Stephen Frears é absolutamente eclético. Só uma coisa não muda: a qualidade de seus filmes. É um dos maiores realizadores em atuação nesta segunda década do século.

Anotação em janeiro de 2017

Florence: Quem é Esta Mulher?/Florence Foster Jenkins

De Stephen Frears, Inglaterra, 2016

Com Meryl Streep (Florence Foster Jenkins)

e Hugh Grant (St Clair Bayfield), Simon Helberg (Cosmé McMoon), Rebecca Ferguson (Kathleen), Nina Arianda (Agnes Stark), Stanley Townsend (Phineas Stark), Allan Corduner (John Totten), Christian McKay (Earl Wilson), David Haig (Carlo Edwards), John Sessions (Dr. Hermann), Brid Brennan (Kitty, a empregada de Florence), John Kavanagh (Arturo Toscanini), Pat Starr (Mrs Vanderbilt), Maggie Steed (Mrs James O’Flaherty), Thelma Barlow (Mrs Oscar Garmunder)

Roteiro Nicholas Martin

Fotografia Danny Cohen

Música Alexandre Desplat

Montagem Valerio Bonelli

Produção BBC Films, Qwerty Films, Pathé Pictures International.

Cor, 111 min.

***

2 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 11 junho 2017 às 9:53 pm | Permalink

    Esse filme é bom e triste; todas as cenas engraçadas, quando lembro que é uma história real, tornam o filme mais triste ainda. Quanto à Florence, discordo do “voz horrorosa, pavorosa, a voz mais desafinada que já foi ouvida neste mundo de Deus e do diabo”… Já ouvi piores, e com auto-tune!
    E, oba, texto no 50 Anos pra animar o começo da semana é maraaa!!!

  2. Postado em 26 junho 2017 às 10:38 pm | Permalink

    Tenho visto muito menos filmes do que gostaria, por isso ando comentando menos. Mas vi este. Na época da indicação ao Oscar muitos contestaram a indicação de Meryl. Bobinhos. Ela devia receber indicações o automático, bastava gravar uma cena. Ela é imensa. E, neste filme, me encheu de ternura. Como o personagem do Hugh, ele também me comoveu. Não sei na vida real, mas o personagem me parecia amar demais a Florence. Um amor que não era sexual, mas que não deixava de ser cuidado, afeto, preocupação, comprometimento. O filme é um tanto dolorido (mesmo que eu tenha rido e não foi pouco). Como é difícil ser (a) gente. Como é difícil. Mas fica mais fácil com o cinema e com bons posts sobre cinema 😉

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