Flor de Cacto / Cactus Flower

Nota: ★☆☆☆

Ingrid Bergman, a mais bela mulher que já apareceu à frente de uma câmara de cinema, ficou exatos 20 anos sem filmar nos Estados Unidos, depois que ela e Hollywood se separaram de forma bastante litigiosa, em 1949. Flor de Cacto/Cactus Flower, de 1969, foi o primeiro filme após esse longo hiato.

Tanto Hollywood quanto principalmente Ingrid Bergman poderiam perfeitamente ter passado sem o filme. Cactus Flower é uma bobagem danada.

É um caso memorável de miscasting, de má escolha de atriz – e de ator.

Puseram Ingrid Bergman, faiscantemente bela aos 54 anos bem vividos – com um ar de senhora, é verdade, porque as mulheres, naquela época, já pareciam senhoras nessa idade, bem diferentemente do que acontece hoje – para fazer o papel de uma mulher solteira, solitária, sem brilho, sem encanto, quase sem vida pessoal, cuja maior diversão é jogar Banco Imobiliário com o cunhado (que trapaceia!), e nos fins de semana leva os sobrinhos para passear.

E ainda puseram Walter Matthau – excelente ator, maravilhoso comediante, mas não propriamente um Apolo, um Paul Newman, um Alain Delon – como um garanhão, conquistador, galinha, que consegue todas as mulheres que quer.

Um garanhão cegueta, coitado, porque fica sassaricando atrás de garotinhas e não consegue enxergar que ali bem pertinho dele, dentro do seu próprio consultório chique de dentista bem de vida em Manhattan está Ingrid Bergman, a mulher que entortou a cabeça de Rick Blaine-Humphrey Bogart em Casablanca (1942), de Robert Jordan-Ernest Hemingway-Gary Cooper em Por Quem os Sinos Dobram (1943) e de mais milhões e milhões de cinéfilos mundo afora.

O único sujeito do mundo inteiro que não conseguia ver que a secretária Stephanie Dickinson era bela, fascinante, maravilhosa, igualzinha a Ingrid Bergman, era esse dentista garanhão danado de feio, o dr. Julian Winston-Walter Matthau.

Foi o filme que lançou Goldie Hawn, aos 24 aninhos. E ela chegou com tudo

Claro: ver Ingrid Bergman sempre é um prazer – ainda que num papel que não tem nada a ver com ela, ainda que numa porcaria de filme.

Mas este abacaxi aqui tem uma certa importância assim histórica, museológica, porque foi o filme que lançou Goldie Hawn, então com 24 aninhos, aqueles gigantescos olhos azuis que brilhavam, e um natural talento para a comédia.

Os créditos iniciais mostram primeiro o nome de Walter Matthau, depois o de Ingrid Bergman, depois o título do filme – e, em seguida, traz o “introducing Goldie Hawn”.

A rigor, a rigor, não foi o primeiro trabalho da mãe de Kate Hudson: ela já havia aparecido numa série de TV e em dois filmes, mas em papéis bem pequenos.

Chegou com tudo: introduzida no filme, Goldie Hawn ganharia o Oscar de coadjuvante por sua interpretação de Toni, uma garotinha de 21 anos na Nova York daquele fim da década que – diriam depois – mudou tudo. Toni mora sozinha num pequenino apartamento, trabalha como vendedora numa grande loja de discos do Village e, faz um ano quando a ação começa, namora um dentista de ricos, o tal dr. Julian Winston.

Para demonstrar que estamos em 1969 – o auge da contracultura, do hippísmo, o ano de Woodstock, de Janis Joplin, de Jimi Hendrix, um ano depois da revolta e da loucura toda em Paris, um ano depois do Álbum Branco dos Beatles –, o filme do diretor Gene Saks começa com um sujeito barbudo carregando um maço de flores e colocando uma flor em cada limpador de pára-brisa dos carros parados numa rua nova-iorquina. Flower-power, baby!

Enquanto o barbadinho distribui flores na rua, uma garotinha de grandes olhos claros, com um sobretudo e calçando pantufas cor-de-rosa – Toni-Goldie Hawn, claro – atravessa a rua e deposita uma carta numa caixa do correio. Depois atravessa a rua de volta, entra no seu pequeno apartamento, em que se vê uma mesa – intocada – posta para dois, com velas. Toni então apaga o que resta das velas, procede ao fechamento cuidadoso de todas as janelas do pequeno apartamento, e liga todas as quatro trempes do fogão, mais o forno, devidamente escancarado, e se deita na cama, não sem antes dar um beijo na foto em que o espectador vê a cara nada apolínea de Walter Matthau.

O filme vai indo de situação ridícula para situação ainda mais ridícula

Toni se prepara para se matar da maneira mais palhaça que se pode imaginar.

E só se houvesse alguém absolutamente louco na platéia para acreditar que uma garota bonitinha, gostosinha, de 21 aninhos, vivendo em Nova York em 1969, trabalhando numa loja de disco do Village, quisesse mesmo se matar porque o amante – um dentista mais velho e muito feio – não apareceu no dia em que deveriam celebrar um ano de namoro.

Aí então o vizinho dela, um garotão, Igor (Rick Lenz), sai para comprar cigarro. É de madrugada, mas acabou o cigarro, e então ele sai para comprar – e aí é claro que sente o cheiro de gás. E tenta tudo até que arrebenta uma janela de vidro do apartamentinho de Toni, e salva a vida dela.

Mas a carta avisando ao dentista garanhão que ela iria se matar já estava no correio! E aí?

Aí vem uma comedinha bem bobinha, extremamente bobinha.

O dr. Julian Winston vai correndo para o apartamento de Toni assim que recebe a carta, para encontrá-la, naturalmente, viva e numa boa. E aí ele a pede em casamento. Acontece que ele sempre havia mentido para ela que era casado e pai de três filhos. Ela aceita se casar, é claro – mas antes quer ter uma conversa com a sra. Winston.

Vai o dr. Winston tentar convencer a secretária, a srta. Stephanie Dickinson, que ele jamais havia reparado que era bela como Ingrid Bergman, a se fazer passar pela sra. Winston.

E daí a coisa vai indo, de situação ridícula para situação ainda mais ridícula.

Pobre Ingrid, a mais bela mulher que já apareceu à frente de uma câmara de cinema.

Que pena ter se sujeitado a participar de uma idiotice destas.

Os filmes precisavam mais de Ingrid que ela precisava deles

Nascida em Estocolmo em 1915, dez anos depois da conterrânea Greta Garbo, Ingrid chegou a Hollywood pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial da Europa, depois de uma dezena de filmes na Suécia. Um deles, em especial, Intermezzo (1936), em que interpretava uma jovem pianista apaixonada por um violonista mais velho e casado, chamou a atenção do produtor David O. Selznick, o homem que importaria para Hollywood outro europeu, Alfred Hitchcock. O produtor importou Ingrid e refez o mesmo Intermezzo com ela e Leslie Howard, o stor que naquele mesmo ano de 1939 trabalhou em outra produção de Selzick, … E o Vento Levou.

Depois de uma série de sucessos que incluiu os já citados Casablanca e Por Quem os Sinos Dobram, e de um Oscar de melhor atriz por À Meia Luz/Gaslight, era uma das maiores estrelas de Hollywood. Tropeçou, então, no primeiro filme que fez após o fim do contrato com Selznick, O Arco do Triunfo (1948), um tremendo fracasso, e também no seguinte, Joana d’Arc (também 1948), baseado numa peça de Maxwell Anderson (e não na de Bernard Shaw que Otto Preminger filmaria em 1957 com Jean Seberg).

Depois de dois fracassos seguidos, precisava de um grande êxito. Fez então seu terceiro filme com Alfred Hitchcock, após os sucessos de público e crítica Quando Fala o Coração/Spellbound (1945) e Interlúdio/Notorious (1946). Mas há momentos em que nada dá certo, e Sob o Signo de Capricórnio/Under Capricorn (1949) não foi o sucesso que se esperava.

Foi mais ou menos nessa época que, como conta Sheridan Morley no livro Legends – Ingrid Bergman, a estrela viu, em um cinema de Los Angeles que passava filmes europeus, Roma, Cidade Aberta (1945) e Paisà (1946), e então escreveu uma carta para o homem que havia dirigido as duas obras, Roberto Rossellini: “Se você precisar de uma atriz sueca que fala inglês muito bem, não esqueceu seu alemão, que não é muito fluente em francês e que em italiano sabe apenas ‘Ti amo’, estou pronta para ir fazer um filme com você”.

Em março de 1949, Ingrid estava em Roma, filmando com Rossellini e vivendo com ele, após deixar para trás Hollywood e o marido sueco que a tinha acompanhado nos dez anos de Estados Unidos. Faria com Rossellini seis filmes e três filhos, entre elas Isabella, que teria ela própria uma bela carreira no cinema.

A comunidade de Hollywood jamais a perdoou.

Sheridan Morley, que escreveu a biografia de vários grandes astros do cinema, resumiu com brilho: “Como Chaplin, ela sobreviveu a anos de repúdio de Hollywood pelo simples expediente de provar que os filmes precisavam dela mais do que ela precisava deles. Como Garbo, outra graduada da Escola Real de Teatro de Estocolmo, Bergman conseguiu jamais ser totalmente remodelada pela fábrica de sonhos, e, como ninguém mais na terra ou na tela, ela fez as pessoas acreditarem que o Rick’s Café realmente ficava em Casablanca, e não no estúdio da Warner.”

Ela voltaria ao cinema americano bem antes de voltar a trabalhar de novo nos Estados Unidos. Em 1956, fez o papel título de Anastácia, a Princesa Esquecida/Anastasia, rodado na Inglaterra, e pelo qual ganharia seu segundo Oscar. (Haveria depois um terceiro, de coadjuvante, por Assassinato no Expresso Oriente, de 1974.) E em seguida rodou mais seis filmes na Europa, cinco deles co-produzidos por empresas americanas.

O primeiro contrato para filmar nos Estados Unidos desde que havia abandonado Hollywood em 1949 foi para fazer este Flor de Cacto.

Uma comédia “delgada”, define Leonard Maltin. Verdade: fininha, sem substância

O roteiro do filme é de I.A.L. Diamond (1920-1988), um bamba, que colaborou com Billy Wilder em todos os filmes do grande realizador a partir de Amor na Tarde (1957). Mas não é culpa dele que a trama do filme seja uma porcaria. Sua tarefa era adaptar para o cinema uma peça apresentada na Broadway, escrita por Abe Burrows, que, por sua vez, havia adaptado para os costumes americanos uma peça francesa de Pierre Barillet e Jean-Pierre Grédy.

Leonard Maltin deu 2.5 estrelas em 4: “Comédia era bem delgada para a Broadway, e mais delgada ainda como filme, com Bergman como uma empertigada secretaria do dentista Matthau que floresce quando descobre que está apaixonada por ele. Os melhores momentos são de Hawn, que ganhou Oscar por seu primeiro trabalho importante.”

Pauline Kael diz que o filme é “cheio de gracejos forçados, antinaturais, que alguém pode, num estado de extrema exaustão, achar um pouco engraçado”.

Anotação em março de 2017

Flor de Cacto/Cactus Flower

De Gene Saks, EUA, 1969.

Com Walter Matthau (Dr. Julian Winston), Ingrid Bergman (Stephanie Dickinson), Goldie Hawn (Toni Simmons)

e Jack Weston (Harvey Greenfield), Rick Lenz (Igor Sullivan), Vito Scotti (Arturo Sánchez), Irene Hervey (Mrs. Durant), Eve Bruce (Georgia), Irwin Charone (o gerente da loja de discos), Matthew Saks (o sobrinho)

Roteiro I.A.L. Diamond

Baseado na peça de Abe Burrows

Por sua vez baseada na peça de Pierre Barillet e Jean-Pierre Grédy

Música Quincy Jones

Montagem Maury Winetrobe

Produção Columbia Pictures. DVD M.D.V.R.

Cor, 103 min

*

2 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 22 julho 2017 às 7:17 pm | Permalink

    Ao contrário de você, eu gostei desse filme, mas compartilho a opinião sobre a cegueira do dentista, com a diva Bergman ali na cara dele o filme todo.

  2. Ana
    Postado em 29 julho 2017 às 11:19 pm | Permalink

    Pois é, não é uma obra- prima nem está a altura de Ingrid Bergman. Soa constrangedor escolherem Mathau para ser esse sedutor todo, porque piora para o lado de Bergman. Pra Goldie Hawn foi ótimo, ela é comediante nata, então se apaixonar por alguém tão feio cai como uma luva para o talento dela. Mas Bergman está deslocada, uma pena. Roteiro fraco, direção desnorteada. Enfim, muita bagunça pra um filme só.

Um Trackback

  1. […] de saúde; era por causa de pouco sangue no cérebro que ele tinha virado republicano!) Steffi (Goldie Hawn), também advogada, democrata e liberal com excesso de culpa, como diz a narradora, teve no […]

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