Elle

Nota: ★★★☆

Elle vem sendo maciçamente, abundantemente incensado desde que foi exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes, no dia 21 de maio de 2016. Ganhou 55 prêmios mundo afora, e teve mais 70 outras indicações.

Levou o César de melhor filme, o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, o Goya espanhol e o Gaudí catalão de melhor filme europeu, entre muitos outros.

Isabelle Huppert levou o segundo César de melhor atriz – foi a 16ª indicação da atriz ao prêmio oficial de seu país. Levou também o Globo de Ouro de melhor atriz em drama, o Globo de Cristal francês, e mais uma dezena de prêmios de festivais e associações de críticos. Foi indicada ao Oscar de melhor atriz, e, segundo 11 de cada 10 críticos de cinema, deveria ter levado o prêmio, que acabou indo para a garotinha Emma Stone por La La Land.

É absolutamente indiscutível: é um grande filme. É extremamente bem realizado, em cada quesito possível e imaginável.

É também um filme doentio. Desgraçadamente, repugnantemente doentio. Não há uma só pessoa, entre todos os diversos personagens da história, que seja são da cabeça. São todos, todos, todos infelizes, mal resolvidos, ruins, cruéis ou simplesmente loucos de pedra.

Elle é um filme sem moral – mas, se tivesse uma moral da história, seria mais ou menos assim: a vida é uma merda, as pessoas são podres, então relaxe e goze.

A mim, pessoalmente, não me parece uma mensagem agradável.

Michèle não pensa em denunciar à polícia que foi vítima de estupro

O filme começa com um estupro. Michèle, a personagem de Isabelle Huppert, está sendo estuprada por um homem todo vestido de preto que usa um capuz preto com apenas a abertura para os olhos.

A violência absurda está acontecendo no chão da sala da bela, ampla casa dela, num subúrbio rico de Paris. Perto da cabeça dela, há pedaços de louça quebrada, uma toalha de mesa.

Assim que o estuprador vai embora, Michèle recolhe os cacos de louça. Em seguida toma um banho de banheira – o espectador vê que ela ainda está sangrando na vagina.

E depois liga pedindo uma comida.

No dia seguinte, faz um exame de sangue para ver se contraiu alguma DST. E vai para o trabalho normalmente.

É uma executiva poderosa, sócia, com a melhor amiga, Anna (Anne Consigny), de uma empresa que cria videogames – videogames de deixar Alex DeLarge, o jovem adepto da ultraviolência de Laranja Mecânica, parecendo um anjo.

Não passa pela cabeça de Michèle procurar a polícia, denunciar o crime. Nem mesmo quando o estuprador manda mensagem para o celular dela, dizendo que é “bastante apertada para uma mulher da sua idade”. Nem mesmo quando surgem indícios de que o estuprador pode ser um de seus empregados – na sua empresa há uma dezena de pessoas bem jovens, e muitos deles a detestam, porque Michèle é uma patroa mandona, exigente, cobrativa, chata, desagradável.

Nem mesmo quando o estuprador ataca pela segunda vez.

Não dá para compreender as muitas ações sem lógicas, loucas, de Michèle

O espectador poderá até entender por que Michèle se recusa a apelar para a polícia, por que tem pavor e ojeriza de polícia e de imprensa: seu pai está preso há nada menos que 39 anos. Qual foi o crime que ele cometeu, isso só será revelado quando o filme de Paul Verhoeven já passou da metade de seus longos 130 minutos, e portanto seria spoiler adiantar a informação aqui, mas fica bem óbvio desde logo que foi um crime especialmente horrendo, para manter um homem preso por 39 anos.

Mas muitas das ações daquela mulher de bela, atraente, de inegável sucesso profissional, rica, bem de vida, serão absolutamente incompreensíveis para o comum dos mortais.

Para dar um exemplo que não é spoiler:

Quando o filme ainda está em seu início, Michèle vai jantar com Richard, seu ex-marido (Charles Berling), a grande amiga Anna, já citada, e o marido dela, Robert (Christian Berkel). Ao estacionar o carro – um Audi, coisa de rico – na rua do restaurante, bate no carro que está atrás. Movimenta o carro um pouco para a frente e dá ré de novo, para bater de novo. É o carro do ex-marido – que, aliás, anda duro, sem dinheiro.

Por que raios uma pessoa bate propositadamente no carro do ex com quem vai jantar em seguida, meu Deus do céu e também da terra?

Mais uma coisinha. Não chega a ser spoiler, é revelado ainda cedo: Michèle é amante de Robert, o marido da sua maior amiga e sócia Anna.

Outra: lá pelas tantas, Michèle diz, sobre seu filho único, Vincent (Jonas Bloquet): – “Não compreendo como aquele grandalhão bobo e sem ambição saiu do meu ventre”.

É bem verdade que Vincent é um vara-pau do tamanho de jogador de basquete, e bobo a ponto de não perceber que o filho teoricamente dele que sua namorada teve tem a pele negra, sendo que os dois são brancos, e um grande amigo do casal é negro.

Dificilmente, no entanto, uma mãe que não fosse desnaturada falaria uma frase daquela.

Só mais uma: na ceia de Natal em sua casa, para a qual convida a mãe, Irène (Judith Magre), e o jovem namorado dela, Ralf (Raphaël Lenglet), o ex-marido Richard e a atual namorada dele, Helène (Vimala Pons), o filho Vincent e a namoradinha maluquete dele, Josie (Alice Isaaz), o casal Anna e Robert, e mais o casal de vizinhos da frente, Patrick (Laurent Lafitte) e Rebecca (Virginie Efira), no meio da ceia de Natal, Michèle tira o sapato e vai encostando o pé na perna e depois no pau do vizinho!

Mas Michèle fará diversas coisas ainda muito mais insanas, loucas, doentias do que essas aí que citei. Só que relatá-las seria spoiler.

Diversas atrizes famosas recusaram o papel. Isabelle Huppert se ofereceu

Michèle é uma personagem tão doentia, e toda a trama é tão absolutamente insana, que o papel foi oferecido a Nicole Kidman, Sharon Stone, Julianne Moore e Diane Lane, entre outras – e todas recusaram.

O diretor Paul Verhoeven – holandês, mas com vários filmes produzidos nos Estados Unidos e outros países – contou em entrevistas que algumas atrizes recusaram o papel imediatamente, sem sequer pedir alguns dias para pensar, que é o mais normal. Uma das atrizes explicou que se sentiria desconfortável por causa de coisas que haviam acontecido a ela no passado. Outra não deu razão alguma, mas respondeu com um “certamente não”.

Segundo o IMDb, o plano inicial era produzir o filme nos Estados Unidos – os filmes americanos sempre têm maior bilheteria que os europeus. Como atrizes de grande fama do cinema americano seguidamente recusaram-se a fazer o filme, e Isabelle Huppert, ao contrário, se ofereceu para o papel, os planos foram alterados. Embora o filme seja uma co-produção França-Alemanha, todo o elenco e toda a equipe técnica são formados por franceses.

Consta que Verhoeven teve aulas para reavivar o francês que havia aprendido na escola, para poder se comunicar com os atores e os técnicos. Consta também que adorou a experiência, e pretende fazer mais filmes na França, um país, segundo ele, bem mais liberal que os demais. Vindo de um holandês, esse é um elogio e tanto.

Atenção: spoilers. Não se revela o principal, mas há spoilers

Um leitor do IMDb, um belga chamado Ruben Mooijman, escreveu no grande site enciclopédico que o filme sofre de uma overdose de personagens com “dificuldades psicológicas”.

É bem verdade. É difícil evitar spoilers para enumerar algumas dessas “dificuldades psicológicas” dos personagens. Então aí vai o aviso: embora eu não vá citar os segredos principais da trama, o eventual leitor que ainda não viu o filme deveria parar por aqui.

Porque entre os personagens há

* Uma senhora bem velhinha que paga pelos favores sexuais de um homem bem jovem;

* Um homem que matou nada menos de 27 vizinhos;

* Uma mulher que expulsa de casa o marido infiel, mas permanece amiga da amante dele;

* E, como se não bastasse, uma mulher – extremamente religiosa, católica fervorosa – que não se incomoda nadinha com o fato de que seu marido é um estuprador.

O belga leitor do IMDb definiu muito bem o filme: “O diretor Paul Verhoeven é famoso por seus filmes provocativos, em geral combinando sexo, violência e jogos psicológicos. A atriz Isabelle Huppert é famosa por papéis difíceis, em geral interpretando mulheres poderosas com obsessão por sexo e/ou por violência. Coloque os dois juntos e você pode imaginar o resultado.”

Verdade.

O resultado é um grande filme. Um filme desgraçadamente, repugnantemente doentio.

Anotação em abril de 2014

Elle

De Paul Verhoeven, França-Alemanha, 2016.

Com Isabelle Huppert (Michèle Leblanc)

e Laurent Lafitte (Patrick, o vizinho), Anne Consigny (a amiga e sócia), Charles Berling (Richard Leblanc, o ex-marido), Virginie Efira (Rebecca, a mulher de Patrick), Judith Magre (Irène Leblanc, a mãe), Christian Berkel (Robert, o marido de Anne), Jonas Bloquet (Vincent, o filho), Alice Isaaz (Josie, a namorada de Vincent), Vimala Pons (Hélène, a namorada de Richard), Raphaël Lenglet (Ralf, o amante de Irène), Arthur Mazet (Kevin, o funcionário que parece simpático), Lucas Prisor (Kurt, o funcionário que parece antipático), Stéphane Bak (Omar, o amigo de Vincent)

Roteiro David Birke

Baseado na novela de Philippe Djian

Adaptação para o Francês Harold Manning

Fotografia Stéphane Fontaine

Música Anne Dudley

Montagem Job ter Burg

Produção SBS Productions, Twenty Twenty Vision, Filmproduktion GmbH, France 2 Cinéma, Entre Chien et Loup, Canal+, France Télévisions.

Cor, 130 min

***

2 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 20 agosto 2017 às 8:02 pm | Permalink

    Eu parei de ver “Elle” antes da metade; achei pesado demais, foi me deixando pra baixo. Uma amiga viu no cinema e disse que saiu com dor no corpo. Não foi à toa que várias atrizes recusaram o papel (eu não sabia disso, comecei a ver o filme sem ter muita informação sobre ele).
    Li a parte do texto com spoilers, e consegui relacionar com os personagens, só não descobri quem era o violentador (não me lembro de nenhuma personagem religiosa até a parte que assisti). Pelo o que li nas entrelinhas, e pelo trailer, parece que a personagem principal descobre quem é o estuprador e entra num jogo sexual com ele? Meu Deus!! (Estou chutando, pode não ser isso).
    Com tanta coisa linda que o cinema já fez, e continua fazendo, o restante desse filme eu realmente passo!

  2. Joel
    Postado em 27 agosto 2017 às 5:55 am | Permalink

    Gostei do filme, achei excelente. A Huppert dá um show, sem falar que é uma mulher com um tipo especial de beleza interior. “Doentio”? Não acho, já vi filmes dez vezes piores, achei bem leve, até. Só vi o filme por causa desse teu texto, caro Sérgio: obrigado!

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