Beleza Oculta / Collateral Beauty

Nota: ★★½☆

Beleza Oculta/Collateral Beauty reuniu um elenco impressionante para contar uma história de perda. Toda perda de ente querido é evidentemente trágica, e não tem sentido imaginar algo como um perdômetro para medir intensidade da dor, mas creio que dá para dizer sem dúvida que a perda que o protagonista da história, Howard, experimenta é a pior de todas que pode haver: a de uma filhinha ainda criança.

O cinema tem tratado bastante do tema perda, e isso é muito positivo. Numa época de tantas dezenas de filmes sobre super-heróis e realidades alternativas, terras médias, galáxias muito distantes, reinos de sete chaves, são sempre bem-vindos dramas (ou comédias, por que não?) sobre seres humanos, gente de carne, osso, dúvidas e medos.

A história de Beleza Oculta – criada diretamente para o cinema pelo autor e roteirista Allan Loeb, de Coisas Que Perdemos pelo Caminho (2007), entre outros 20 títulos – vai fundo no retrato da depressão, tão inevitável quanto profunda, de Howard, o personagem interpretado por um Will Smith com cabelos grisalhos. Mas acrescenta um outro elemento: a impossibilidade da convivência entre a depressão pós perda e a necessidade imperiosa de tocar a vida prática.

O tema básico de Beleza Oculta é cruel. É uma crueldade que se soma à crueldade trágica da perda do ente querido. O filme mostra que, neste mundo, nesta sociedade, neste tipo de organização social em que vivemos, não é permitido a um pai pirar porque perdeu a filhinha. Porque ele tem que tocar a vida, trabalhar, produzir. Ele não quer, ele não tem condições – mas tem que. Não há como fugir.

É crueldade em cima de crueldade.

As pessoas que cercam Howard – pessoas boas, amigas dele – vão ter uma idéia muito singular, bastante sui generis, para tentar despertá-lo de sua depressão profunda.

Quatro sócios de uma agência de publicidade, todos eles boas pessoas

A abertura que Allan Loeb criou para o filme, em seu roteiro original, é acachapante.

Uma festa na firma: Whit (o papel do sempre ótimo Edward Norton, aqui em momento estranho) e Howard estão comemorando com todos os seus funcionários mais uma bela conquista da agência de publicidade de que são os donos e sócios principais. É uma agência de porte médio, que os dois criaram, e que deu muitíssimo certo. São sócios minoritários dois profissionais abnegados, gente boa, amigos de Whit e Howard – Simon (o papel de Michael Peña) e Claire (nada mais nada menos que Kate Winslet, Kate the Great).

Whit faz um rápido discurso de introdução, e passa a bola para Howard.

O espectador vê de cara que Howard é o gênio de criação da agência. Não se passaram 3 minutos do filme, e o espectador já sabe que Whit, Simon e Claire são bons profissionais, dedicados, competentes. São todos eles pessoas boas, de bom coração, bom caráter, conforme veremos ao longo dos 97 minutos de filme. Mas o gênio criativo, o Don Draper, o Washington Olivetto do pedaço é Howard.

Howard fala um monte de belas frases sobre o amor a vida a morte. Não fala exatamente desse conjunto o amor a vida a morte – esse trio foi reunido no título de filme de Claude Lelouch de 1969, e passou para mim a ser a definição de tudo o que importa. La vie l’amour la mort.

Para Howard, é o amor o tempo a morte.

O discurso de Howard sobre o amor o tempo a morte é uma beleza. Todos os funças da agência de publicidade aplaudem em delírio.

Há uma proposta para a venda da agência – mas Howard não está presente

Corta, há um letreiro que nos conta que se passaram 2 anos – e eis que tudo mudou.

Olivia, a filhinha de Howard, morreu de uma doença terrível; ele mergulhou na depressão, e simplesmente se recusa a tratar de qualquer tipo de assunto. Comparece ao local de trabalho, mas não para trabalhar. Fica ali elaborando complicadérrimos, imensos, gigantescos jogos de dominó, daqueles que a gente derruba uma peça e aí cada peça vai derrubando outras e outras e outras e outras.

A agência enfrenta problemas. Seu maior cliente, que tinha em Howard a ligação, já não confia mais no trabalho deles, e ameaça encerrar a conta. Em outra frente, uma grande agência quer comprar a empresa, e a oferta é excelente.

Acontece que Howard é dono de 60% das ações da empresa. Ele e Whit começaram com 50%/50%, mas aconteceu que, quando a mulher de Whit o flagrou comendo uma estagiária, exigiu mundos e fundos no divórcio, e então Howard se dispôs, amigavelmente, a comprar 10% das ações do amigo e sócio, para ajudá-lo, para quebrar o galho dele.

Na época, foi uma beleza, ajudou Whit.

Mas agora Howard é o sócio majoritário – e simplesmente se recusa a conversar sobre qualquer coisa com Whit ou com quem quer que seja.

Afundado na depressão, Howard escreve cartas ao Tempo, o Amor, a Morte

Os sonhadores, os “esquerdistas” românticos, os rebeldes sem ou com alguma causa justa, os de bom coração inocente poderão dizer que Beleza Oculta é uma denúncia de que o capitalismo é um sistema tão cruel que sequer permite que o ser humano sofra em paz pela perda de um ente querido.

O que não é mentira alguma. O capitalismo é mesmo um sistema extremamente cruel. Disso não há dúvida alguma. É uma pena que em 10 mil anos de civilização a humanidade não tenha conseguido inventar um melhor.

Cheguei a pensar, por um breve instante, em pedir desculpas ao eventual leitor pelos parágrafos acima. Mas, na verdade, eles não são um viajandão, não são uma digressão, uma divagação.

O filme nos leva de fato a pensar sobre isso – essa coisa dura de que não há espaço para que um pai possa se entregar ao sofrimento pela perda da filhinha.

Mas passaram-se dois anos, e Howard continua não ligando para nada na vida – e a empresa que ele criou, e que emprega umas boas dezenas de profissionais, periga ir pro buraco.

Das profundezas de sua depressão, Howard escreve uma carta para o amor, uma para o tempo, uma para a morte. Nas cartas, queixa-se amargamente sobre a perda que impuseram a ele.

E põe as cartas na caixa do Correio.

A essa altura, Whit, com a aprovação dos sócios minoritários Simon e Claire, já havia contratado uma detetive particular para seguir todos os passos de amigo. A detetive, Sally Price (Ann Dowd), comete o crime federal de abrir a caixa do Correio e de lá retirar as cartas que Howard havias endereçado ao amor, ao tempo e à morte.

E é então que Whit tem uma idéia. Uma idéia estranha, esquisita, extravagante.

Como Whit vem a ter essa idéia quando o filme já está aí com uns 30 minutos, talvez só um pouquinho menos que isso, creio que a rigor é um spoiler falar sobre ela.

Então, aí vai o aviso:

Spoiler. O eventual leitor que não viu o filme deveria parar de ler este texto

Sem dinheiro sobrando depois do caríssimo divórcio da mãe de sua filhinha Alysson, Whit estava vivendo com sua mãe (Mary Beth Peil), uma velhinha que padece daqueles males horrorosos de que não se livram os humanos que sobrevivem muito tempo – a incapacidade de lembrar e a incapacidade de raciocinar de maneira lógica.

A mãe de Whit viaja na maionese, vive no mundo da lua. E Whit havia desenvolvido um jeito de se comunicar com ela: em vez de tentar “trazê-la à razão”, puxá-la para o planeta Terra, entrava na viagem dela. Alucinava junto com ela.

Então, por um absoluto acaso neste mundo de acasos, Whit fica conhecendo três atores que estão ensaiando uma peça num porão nada distante do prédio em que funciona a agência de publicidade. E tem a idéia: e se cada um daqueles atores interpretasse o Amor, o Tempo e a Morte, e se aproximassem de Howard, levando para ele a carta que ele havia escrito e apresentasse uma série de respostas a ela?

Em vez de tentar trazer o louco, ou o não exatamente normal, à razão, tentar entrar no tipo de raciocínio do louco ou não exatamente normal?

Será que não poderia mexer com a forma dele de raciocionar, e fazer com que ele reagisse?

Os três atores que estão ali pertinho da agência de publicidade ensaiando uma peça sem dinheiro para encená-la são interpretados por Helen Mirren, Keira Knightley e Jacob Latimore.

Cacete: Kate Winslet, Helen Mirren, Keira Knightley. E ainda mais Will Smith, Edward Norton, Michael Peña.

É muito ator bom demais junto.

E, além de tanto nome bem conhecido, o filme ainda tem Naomie Harris.

Naomie Harris faz o papel de Madeline, uma mulher que vemos conduzindo as sessões de um grupo de pessoas que perderam entes queridos – assim uma espécie de AA, de NA, de viciados no drama indizível da perda.

Howard passa perto do lugar onde esse grupo se reúne, mas ele não tem coragem de entrar. Sua dor é tamanha, seu mergulho na depressão é tão profundo que ele não tem coragem de chegar perto de um grupo que tenta, através das conversas, dos relatos, enfrentar de frente a perda e procurar  alguma saída.

Depois que uma pessoa se apresenta dizendo que é A Morte, e tendo em mãos a carta que ele escreveu para a morte, no entanto, Howard fica perturbado, e acaba entrando numa daquelas reuniões do grupo de gente que sofre pela perda.

A relação entre Howard e Madeline, a bela mulher que conduz as sessões do grupo, é muito interessante. Muito, muito interessante.

Naomie Harris está muito bem. Já Kate Winslet não tem muito o que fazer

Naomie Harris me pareceu muito, muito bem como essa Madeline.

Will Smith, esse sujeito que teve imensa, indizível fama jovem demais, como ator e como cantor, também me pareceu bem, no papel desse publicitário brilhante que de repente perde todo o brilho, todo o interesse pela vida.

Estranhamente, no entanto, achei que Edward Norton, esse ator talentosíssimo, não estava num grande momento. Não se encontrou com seu personagem.

Que Helen Mirren brilhe, isso não é surpresa alguma. Helen Mirren brilha em qualquer papel que oferecerem a ela.

Que Keira Knightley pareça linda, também não é surpresa alguma. Há quem goste de vê-la em qualquer papel (tô nessa), há quem a deteste (como minha amiga Jussara).

O que mais me surpreendeu, nesse elenco de tanta gente boa, foi ver Kate Winslet fazendo essa Claire, um papel apagado, pouco importante. Meu Deus, ter Kate Winslet, Kate the Great, e botá-la num papel sem importância, sem brilho – que pecado mortal…

Algo tipo botar Garrincha, ou Pelé, fixos na defesa, perto da grande área. Ou Sherlock Holmes, ou Poirot, no trabalho burocrático da Scotland Yard, sem sair para campo, sem liberdade alguma, sem caso para investigar. Se é que me faço entender.

David Frankel dirigiu várias comédias. Aqui, fala da tragédia absurda

Quando terminei de ver este Collateral Beauty, confesso que fiquei meio sem saber o que achar. Um sério drama sobre perda, com o acréscimo de toda a questão do funcionamento, do estar pronto para trabalhar de novo, o capitalismo, e tudo? Um sério drama sobre perda, sobre a dificuldade de pirar dentro do capitalismo, em que de repente entra uma história envolvendo atores que fazem papel de Amor Tempo Morte que talvez possam ser entendidos como anjos?

Uma bobagem – ou um filme interessante?

David Frankel. David Frankel é o nome do diretor.

Dou uma olhada no IMDb, dou uma olhada no meu próprio site. O cara fez Casos e Casamentos (1995), O Diabo Veste Prada (2006), Marley & Eu (2008), Um Divã para Dois (2012). Comédias. O cara é um diretor de comédias. Meteu-se aqui a falar da tragédia mais absurda que pode haver, a perda de uma filha criança.

Sei lá. Continuo não sabendo, alguns dias depois de ver o filme, o que pensar sobre ele.

Anotação em julho de 2017

Beleza Oculta/Collateral Beauty

De David Frankel, EUA, 2016

Com Will Smith (Howard), Edward Norton (Whit), Kate Winslet (Claire), Michael Peña (Simon), Naomie Harris (Madeline), Helen Mirren (Brigitte), Keira Knightley (Amy), Jacob Latimore (Raffi), Ann Dowd (Sally Price), Liza Colón-Zayas (a mãe de Trevor), Natalie Gold (a mãe de Adam), Kylie Rogers (Allison, a filha de Whit), Shirley Rumierk (a mulher de Simon), Alyssa Cheatham (Olivia), Mary Beth Peil (a mãe de Whit), Benjamin Snyder (o neto de Sally)

Argumento e roteiro Allan Loeb

Fotografia Maryse Alberti

Música Theodore Shapiro

Montagem Andrew Marcus

Casting Rori Bergman e Jeanne McCarthy

Produção New Line Cinema, Village Roadshow Pictures, Anonymous Content, Overbrook Entertainment, PalmStar Media, Likely Story

Cor, 97 min (1h37)

**1/2

Um Comentário

  1. Jussara
    Postado em 21 janeiro 2018 às 4:52 pm | Permalink

    Só consegui ver uma parte desse filme, achei chato, não me prendeu, e aos quase 18 minutos ainda me aparece a mala da Keira Knightley com seu indefectível bico de pato. Falei: “Não acredito que essa mulher está nesse filme!”. Em bom inglês e no meu atual estado de espírito ficaria: “Are you f*cking kidding me??”
    Me deu uma vontade tremenda de parar, mas por algum motivo eu continuei, até a parte em que o Tempo, o Amor e a Morte entram na história. Depois disso eu desisti, até porque o personagem de Will Smith volta a montar o tal jogo de dominó, quando eu esperava que ele reagisse minimamente. Nessa hora vim ao site para reler o texto, e só então li a parte com spoiler; qual não foi minha surpresa ao ver meu nome citado? hehehe Pois anote aí outra atriz que eu detesto: Carey Mulligan. Arghhh!!! Tão ruim quanto a Knightley.

    Enfim, dei uns fast forward na história, mas achei tão sem pé nem cabeça, que preferi não perder meu tempo. O personagem de Smith é down demais, e com razão, mas me deu um pouco de cansaço e gastura ver uma pessoa que não reage, que quer se afundar propositadamente. As encenações dos atores do teatro me pareceram infundadas, e talvez descambem para o lado filosófico-religioso? Sei lá. Se você que viu o filme inteiro não soube o que achar, muito menos sei eu. Em um dos FF que dei, tem uma cena em que Will Smith fala para a personagem de Helen Mirren sobre as coisas que ele não aguenta mais ouvir, vindas de algumas religiões: que a filha dele era a flor mais bonita e Deus a levou, que tudo faz parte de um plano maior, e outras tolices assim, e esse trecho até que é interessante. (Ele cita a ciência e o biocentrismo também, just for the record).
    Achei o personagem de Edward Norton um tremendo babaca, não sei se ele se redime mais para o final; já a filha dele é super adultizada, e conseguiu me irritar apenas em uma rápida aparição.
    Fiquei tentando me lembrar onde já tinha visto a atriz Naomie Harris, mas não consegui. Fiz uma pesquisa rápida, e não vi nenhum dos filmes que ela fez e apareceram na busca (a maioria blockbuster). Deve ser de alguma série, ou participação. Sua personagem me pareceu a melhor pessoa da história.

Um Trackback

  1. […] de 2017, dirigido pelo palestino Hany Abu-Assad, autor do impressionante Paradise Now – é Kate Winslet e Idris Elba. Sobretudo, antes de mais nada, é Kate Winslet e Idris […]

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