Belas Famílias / Belles Familles

Nota: ★★★☆

O veterano Jean-Paul Rappeneau passou 12 anos sem lançar um filme, depois do maravilhoso Viagens do Coração/Bon Voyage, de 2003, uma obra excitante, feérica, um tour-de-force cheio de estilo, sobre a fuga de milhares e milhares de pessoas de Paris antes da chegada dos invasores nazistas, em 1940.

Talvez a qualidade do filme anterior, mais o período de silêncio tão longo, possam explicar o fato de que Belas Famílias, lançado em 2015, não tenha tido um maior sucesso de público e crítica. Não que tenha sido um tremendo fracasso – foram 387 mil ingressos na França, e algumas cinco estrelas em publicações de prestígio, como a tradicional revista Positif, a Première e Le Point. Mas críticos e leitores de sites (IMDb, AlloCiné) usaram adjetivos como “décevant” – decepcionante.

Não achei Belles Familles decepcionante, de forma alguma. OK, não é uma maravilha absoluta como Viagens do Coração. Nem teria a obrigação de ser. É um ótimo filme – uma interessantíssima trama de drama familiar à qual não faltam toques cômicos, com um roteiro ágil, de excelente ritmo, com bons atores em ótimas atuações. Mathieu Amalric, que faz o personagem principal, tem um desempenho não menos que brilhante, e a jovenzinha Marine Vacth (na foto abaixo) tem uma beleza que ilumina a tela.

Um diretor conhecido por filmes de época, com grandes atores

Pouco depois que terminamos de ver Belles Familles, Mary viu que a média da cotação dos leitores do IMDb para o filme foi de apenas 5,9 em 10. E vi esta avaliação num simpático blog chamado Le Blog du Cinéma, assinada por Sylvie-Noëlle:

“Mais de dez anos que não tínhamos tido a ocasião de ver um filme de Jean-Paul Rappeneau, desde Bon Voyage! Nós o conhecemos sobretudo por seus filmes históricos, de época, muito bons: Cyrano de Bergerac, Un hussard sur le toit (O Cavaleiro do Telhado e a Dama das Sombras) ou Les Mariés de l’An Deux (Aventuras de um Casal no Ano Dois). Ele deve muito à energia de seus atores fetiche Yves Montand, Isabelle Adjani ou Catherine Deneuve em outros filmes, como Le Sauvage (O Selvagem) ou Tout feu, tout flamme (Que Figura, Meu Pai). Aqui ele usou os serviços de roteirista de seu filho Julien Rappeneau, que participou de filmes como Cloclo (My Way – O Mito Além da Música) ou mais recentemente Bis (De Volta para o Passado), e de Philippe Le Guay, realizador de Floride (A Viagem de Meu Pai) e Les femmes du 6ème étage (As Mulheres do 6º Andar).”

Depois desse primeiro parágrafo – que situa quem é Rappeneau, e assim me desobriga de fazê-lo –, Sylvie-Noëlle lança a flechada:

“Por tudo isso, como Belles Familles era aguardado! O resultado, infelizmente, é decepcionante.”

É a opinião dela. Não é – repito – a minha, nem a de Mary.

Belas Famílias fala deste mundo de economia globalizada, transações financeiras ao redor do planeta, tempos que mudam, pequenas cidades que crescem, incham, precisam de mais e mais imóveis, especulação imobiliária. Mas isso tudo é pano de fundo, porque o roteiro foca mesmo é nos laços familiares, herança, disputas, segredos do passado que sempre, sempre, necessariamente em algum momento vêm à tona, ressentimentos antigos que não desaparecem nunca.

Exatamente como Jean-Paul Rappeneau, que passou mais de dez anos distante, Jérôme Varenne, o protagonista da história, interpretado por Mathieu Amalric, esteve longe da família e de seu país nos últimos dez anos ou mais. E bota longe nisso: Jérôme, bom profissional da área de finanças, estabeleceu-se na China. No momento em que a ação começa, é dono de uma financeira em Xangai, juntamente com três sócios, todos chineses. Um dos sócios é Chen-Lin (interpretada por Gemma Chan, uma bela inglesa nascida em Londres em 1982 descendente de chineses).

A primeira sequência do filme se passa na classe executiva de um avião que viaja da China para a França: Jérôme e Chen-Lin vão dar uma rápida passada de dois dias por Paris, para ele apresentar a noiva à mãe, e em seguida vão a Londres para um encontro importantíssimo, fundamental para a empresa deles, com os diretores de uma gigantesca corporação financeira com a qual têm negócios.

Quando Suzanne Varenne (interpretada pela grande Nicole Garcia) atende ao telefone, e fica sabendo que seu primogênito está em Paris e quer jantar com ela naquele mesmo dia, cai sentada numa cadeira, atônita, perplexa.

A mão não via o filho fazia mais de dez anos. Ele não tinha vindo sequer – o espectador fica sabendo disso muito rapidamente – para o enterro de seu pai, o rico, respeitadíssimo doutor Varenne.

Belas Famílias está com exatos 7 minutos quando, depois do jantar em família, em que os parisienses ficaram conhecendo a noiva chinesa, Jérôme e seu único irmão, Jean-Michel, que todos conhecem pelo diminutivo Jean-Mi (Guillaume de Tonquédec), estão naquilo que os locutores esportivos antigos chamavam de desforço físico. Em português corrente, os dois irmãos tinham partido para a porrada.

Como costuma acontecer nas melhores, mais belas famílias.

O desentendimento é por causa da gigantesca propriedade deixada pelo pai

O motivo do desentendimento feio entre os dois irmãos, claro, é propriedade, herança, dinheiro.

É uma situação que não é muito simples de o espectador compreender de imediato. A família fala disso ao final do jantar, pouco antes de os dois irmãos se atracarem.

O falecido doutor Varenne era de fato um sujeito muito rico. Tinha uma boa clínica na pequena cidade de Ambray, não muito distante de Paris, e, também lá, uma casa gigantesca, uma mansão de vários andares – uma versão francesa de uma daquelas mansões britânicas à la Downton Abbey.

Ao deixar o país para morar do outro lado do mundo, Jêrôme havia aberto mão de sua parte na herança, deixando tudo para a mãe.

Depois da morte do doutor Varenne, a mansão havia sido vendida para Grégoire Piaggi, um sujeito lá de Ambray mesmo, que tinha sido grande amigo de Jêrôme na sua adolescência, e que agora era um incorporador, um empresário da área da construção. A intenção de Grégoire (o papel de Gilles Lellouche) era manter a mansão e construir em volta dela um condomínio de altíssimo luxo.

A Prefeitura, no entanto, havia embargado a obra sequer iniciada de Grégoire, e se disposto a comprar a propriedade para destruir a casa e construir no imenso terreno em volta dela um conjunto habitacional para a classe média, para dar moradia para os novos habitantes, já que a cidade, antes pequenina, não parava de crescer e crescer e crescer.

Grégoire, por sua vez, tinha entrado na Justiça, alegando que tinha preferência na compra da casa, já que tinha até pago uma entrada – e, com o imbróglio na Justiça, nem Grégoire podia tocar seu projeto, nem o prefeito Cotteret (o papel do grande André Dussollier, ator de tantos filmes de François Truffaut e Alain Resnais) podia tocar o seu. O dinheiro para o pagamento da casa estava bloqueado – e a própria casa estava bloqueada, selada, trancada pela Justiça.

Jêrôme se enfurece por não ter sido informado de nada daquilo. Diz que teria vindo para ajudar a resolver o problema. Jean-Mi se enfurece porque o irmão mais velho vem agora dar uma de bonzinho, mas não veio à França sequer para o enterro do pai, não participou de nada, deixou tudo nas mãos dele.

E partem para o desforço físico. Para a porrada.

O pai tinha tido uma amante, e pretendia deixar a propriedade para ela

No dia seguinte, bem cedo, Jêrôme pega o carro da mãe e vai até Ambray, para tentar se inteirar melhor da situação, falar com Grégoire, com o prefeito (que, veremos, ainda tinha paixão furiosa por Suzanne), com o advogado Vouriot (Jean-Marie Winling), que cuidava dos interesses de seu pai e de sua mãe.

E aqui, quando Jêrôme volta depois de muitos anos à cidadezinha em que cresceu, e que agora não é mais uma cidadezinha, cresceu, espalhou-se por onde antes era campo, tudo se mistura: a questão imobiliária, e as recordações de infância e adolescência, e mais a descoberta de um pedaço importante da vida do pai que ele desconhecia.

Jérôme não tinha boas lembranças do pai. Muitíssimo ao contrário. As lembranças eram de um homem importante, seco, sempre distante, que poucas vezes sequer se dirigia ao filho mais velho.

Nunca tendo sido próximo do pai, ele não sabia, portanto, que o rico, bem posto doutor Varenne tinha tido uma longa história com uma jovem que trabalhava em sua clínica, Florence (o papel de Karin Viard, na foto acima). Os diálogos do filme não especificam detalhes, mas é de se supor que, quando os dois filhos ficaram adolescentes, mudaram-se para Paris com a mãe, para completar os estudos, e o pai ficou sozinho na cidade pequena.

Florence foi morar com ele na mansão – ela e a pequena filhinha, Louise, que muita gente achava que poderia ser filha do próprio Varenne.

Varenne tinha mencionado para Florence que gostaria de deixar a casa como herança para ela.

Grégoire, o amigo de adolescência, agora no ramo imobiliário, tinha arranjado uma casa para que Florence tivesse onde viver. E estava namorando a filhinha dela, Louise, agora uma jovenzinha de 20 e poucos anos – o papel da belíssima Marine Vacth.

No seu primeiro e infindável dia em Ambray depois de mais de 15 anos de ausência, Jérôme ficará sabendo de tudo isso, e de muito, muito, muito mais.

É necessário registrar: Ambray é uma cidade imaginária. Rappenau quis inventar uma cidade que não existe – e seu filme foi rodado em vários lugares, em três cidades do interior, Blois, Chatou e Sèvres, além de locações em Paris, Londres e Xangai.

Foi o quinto filme de Marine Vacth, a atriz de Jovem e Bela de Ozon

Afogado, atolado naquele redemoinho do passado que envolvia a propriedade do pai que garantiria uma velhice sossegada para a mãe, e envolvido num furacão de novas emoções diante daquela criatura de beleza fulgurante, o pobre Jérôme se descuidará do motivo básico de sua viagem – a reunião na City de Londres que definiria o presente e o futuro de sua empresa e portanto dele e de sua noiva chinesa.

Fiquei de fato muito impressionado com essas duas grandes qualidades que o filme tem: a intepretação fantástica, sensacional de Mathieu Amalric, e a beleza espantosa dessa garota Marine Vacth.

Já tinha ouvido falar, é claro, de Jovem e Bela/Jeune & Jolie, o filme de 2013 do incansável François Ozon, mas ainda não o vi. Sei que o tema é polêmico: jovem de classe média resolve ter a experiência de se prostituir. Foi só depois que acabamos de ver este Belas Famílias que vi que a jovem e bela do filme de Ozon é essa Marine Vacth. A criatura nasceu em 1991. Jovem e Bela foi seu quarto filme. Belas Famílias foi o quinto.

Tinha 15 anos em 2006 quando foi vista numa loja por uma diretora de casting, e então começou uma carreira como manequim. Levou 5 anos para chegar ao cinema, quando Cédric Klapisch, o jovem diretor de Albergue Espanhol e suas duas deliciosas sequências, ofereceu a ela um papel em Ma Part du Gâteau.

A parte do bolo que caberá a essa moça não tem tamanho.

Numa sequência esplendorosa, Jérôme vê a si mesmo garoto na mansão

Mathieu Amalric faz as caras mais tristes, mais perdidas do mundo, no papel desse sujeito de bom coração, bom caráter, que acaba pondo em risco a sua própria vida e sua própria empresa por se deixar envolver na teia de acontecimentos que cercam a mansão em que passou a infância.

Tanto Mathieu Amalric quanto Nicole Garcia, a atriz que interpreta Suzanne, sua mãe, têm experiência na direção. Nos últimos anos, Nicole Garcia tem se dedicado muito mais à direção do que à carreira de atriz. Já realizou oito longa-metragens, entre eles os belos Place Vendôme (1998) e O Adversário (2002).

Me espantei agora ao ver que Mathieu Amalric já tem 16 títulos como realizador. Verdade que dez deles são curta-metragens. Dos que dirigiu, só vi Turnê (2010), que não me entusiasmou muito. Como ator, é impecável. Teve aqui uma de suas melhores interpretações.

A autoria da história e do roteiro de Belles Familles é assinada assim nos créditos finais (não há crédito algum no início do filme): Roteiro Jean-Paul Rappeneau, com a colaboração de Philippe Le Guay e Julien Rappeneau. Baseado numa idéia original de Jean-Paul Rappeneau e Jacques Fieschi.

Achei o roteiro precioso – e preciso. Ritmado, ágil, sem ser frenético. Quando cai nos momentos cômicos, não se aprofunda muito neles. Não procura ser uma comédia, de forma alguma. Se há às vezes graça, é porque os dramas familiares têm mesmo seus momentos ridículos, tragicômicos. Se a gente parar para pensar em algumas das brigas de família, é impossível não rir de diversos momentos.

Há um ponto no filme que dá vontade de ficar de pé e aplaudir feito na ópera. Não dá para deixar de pensar que mestre Ingmar Bergman fez isso em 1957, em Morangos Silvestres. E que Woody Allen, seguidor assumido do grande sueco, já fez isso algumas vezes.

Mas é brilhante a sequência em que Jérôme vai entrando na mansão em que viveu a infância e parte da adolescência. Vai entrando ali pela primeira vez em mais de 15, talvez 20 anos. A mansão agora trancada, selada pela Justiça, está entregue às traças, empoeirada, decadente, suja, fechada, pouco iluminada.

E então ele vê a porta que dá para a sala de jantar – e ali, do umbral da porta, vê sua família reunida para o jantar, pai, mãe, os dois filhos, todos bem vestidos, paramentados para a ocasião que deveria ser íntima mas é formal. O pai abre algumas cartas que poderia ter aberto na clínica, ou no escritório, mas faz questão de abrir ali, à mesa de jantar, talvez para demonstrar mais uma vez como é um homem importante.

A mãe, com um pequeno gesto, ordena que os meninos não parem de comer para observar os gestos cuidadosos do pai com sua correspondência.

Como o velho e venerável doutor Isak Borg vê a si mesmo criança, brincando com seus parentes, na casa em que morou no interior da Suécia, Jérôme vê a si mesmo na sala de jantar da mansão familiar – até que um ruído atrás dele chama sua atenção, e ele se volta para trás para ver a jovem Louise, a garota que, como ele, passou a infância e a adolescência naquela mesma casa, e conheceu o doutor Varenne numa intimidade que a ele, Jérôme, sempre foi negada.

Não tem nada de décevant este belo filme.

Anotação em dezembro de 2016     

Belas Famílias/Belles Familles

De Jean-Paul Rappeneau, França, 2015

Com Mathieu Amalric (Jérôme Varenne), Marine Vacth (Louise Deffe), Gilles Lellouche (Grégoire Piaggi), Nicole Garcia (Suzanne Varenne, a mãe de Jérôme), Karin Viard (Florence Deffe, a mãe de Louise), Guillaume de Tonquédec (Jean-Michel Varenne, o irmão mais novo), André Dussollier (Pierre Cotteret, o prefeito), Gemma Chan (Chen-Lin, a noiva), Claude Perron (Fabienne Letourneau), Jean-Marie Winling (o advogado Vouriot), Yves Jacques (Ribain, o advogado de Grégoire), Noël Hamann (o doutor Varenne, o pai), Olga Sokolow (Martine), Crispin Redman (Peter), Marie-Christine Orry (a secretária da Prefeitura), Serpentine Teyssier (a secretária de Voufiot), Marie-Pierre Bellefleur (Luiza)

Roteiro Jean-Paul Rappeneau, com a colaboração de Philippe Le Guay e Julien Rappeneau

Baseado numa idéia original de Jean-Paul Rappeneau e Jacques Fieschi

Fotografia Thierry Arbogast

Música Martin Rappeneau

Montagem Véronique Lange

Casting Antoinette Boulat

Produção ARP Sélection, TF1 Films Production, Canal+, Orange Cinéma Séries.

Cor, 113 min

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