Agnus Dei / Les Innocentes

Nota: ★★★★

Les Innocentes, que no Brasil e também em outros países ganhou o título de Agnus Dei, mostra, da maneira crua com que um professor de anatomia exibe para os alunos as vísceras de uma pessoa, como o ser humano pode ser vil, brutal, cruel, abjeto, desumano. E também demonstra como o ser humano é capaz dos gestos mais nobres, mais solidários, mais belos que um criador poderia pedir às criaturas feitas à sua imagem e semelhança.

É uma história baseada em fatos reais. A trágica barbárie aconteceu de fato: freiras beneditinas de um convento do interior da Polônia foram estupradas primeiro por soldados nazistas, e em seguida por soldados soviéticos, em 1945, o último ano da Segunda Guerra, em que os alemães foram se retirando dos países ocupados, e os aliados foram tomando conta deles.

Várias das freiras ficaram grávidas. Foram ajudadas por uma médica francesa – e foi graças a ela que a história pôde ser contada.

Madeleine Pauliac era recém-formada quando se integrou a uma equipe da Cruz Vermelha francesa, que, logo após o fim da guerra, foi enviada para o interior da Polônia para tratar dos franceses feridos. Ela relatou toda a experiência em seu diário íntimo. Um sobrinho dela, Philippe Maynial, guardou o diário, que chegou às mãos da diretora Anne Fontaine.

Anne Fontaine trabalhou com vários colaboradores na criação do roteiro do filme. Os créditos finais não citam Madeleine Pauliac – que no filme se chama Mathilde Beaulieu e é interpretada por Lou de Laâge (na foto abaixo). Segundo os créditos, a concepção da história é do sobrinho da médica, Philippe Maynial, o roteiro é de Sabrina B. Karine e Alice Vial, com adaptação e diálogos de Pascal Bonitzer e Anne Fontaine.

Foi o 15º filme da realizadora; é uma co-produção França-Polônia, com o apoio do Instituto Polonês de Filmes. As filmagens foram na Polônia, as atrizes que interpretam as freiras são polonesas.

A produção é esmerada, e a direção de Anne Fontaine, extremamente segura. Assim, o resultado não poderia ser outro: é um grande filme.

Uma noviça polonesa pede ajuda à jovem médica francesa da Cruz Vermelha

Um letreiro avisa o espectador o quando e onde de cara, logo no início do filme: “Polônia, dezembro de 1945”.

Uma jovem noviça, sem avisar a ninguém, sem autorização de ninguém, sai furtivamente do convento – isolado, em meio a uma floresta – e caminha até a cidade mais próxima. Vai até o prédio ocupado pela equipe da Cruz Vermelha francesa, encontra uma jovem médica – Mathilde Beaulieu – e, vencendo a barreira da língua, expressa que precisa desesperadamente da ajuda dela.

Mathilde diz, em francês, e com algumas poucas palavras que havia aprendido de polonês, que não pode ajudá-la, que sua missão é atender cidadãos franceses. Que ela deve procurar por algum médico polonês.

Horas depois, num intervalo, numa breve pausa no trabalho, Mathilde vai fumar um cigarro junto de uma janela – e vê, lá fora, ajoelhada na neve, rezando, a noviça.

Na tomada seguinte, está dirigindo um dos caminhões da Cruz Vermelha ao lado da noviça, indo em direção ao convento.

A princípio, a madre superiora não quer aceitar a ajuda da médica

Há duas personagens fundamentais entre as cerca de 30 freiras do convento de beneditinas perdido no interior gelado da Polônia que mal se recupera da invasão nazista, agora invadida pelo “libertador” exército soviético. Uma é a madre superiora, a abadessa (Agata Kulesza), uma mulher absolutamente rígida, dura, inflexível. A outra é a madre Maria (o papel de Agata Buzek), que, ao contrário, é pessoa doce, sensível, sempre disposta a ajudar as outras.

As duas falam francês – o que tem lógica, não é de se estranhar, e facilita tremendamente para que a história possa fluir.

A princípio, a madre superiora não quer a interferência da médica (e vai até punir a jovem noviça que procurou ajuda). Entende que precisa, antes de mais nada, impedir que a comunidade católica que mantém o convento fique sabendo da gravidez de várias das freiras. Entende que seria uma desonra inominável, que o convento perderia o respeito da população. Prefere que suas freiras sofram sozinhas a ter o segredo revelado ao mundo.

Maria, com jeito, com tato, a convence a admitir a ajuda de Mathilde. Mas as duas suplicam à médica que não conte nada para ninguém, absolutamente ninguém.

A primeira a ser examinada, que está prestes a dar à luz, terá que ser submetida a uma cesárea, já que o bebê está numa posição que não permite o parto natural.

É uma sequência de arrepiar frade de pedra.

Vários outros partos virão.

Com imensa sensibilidade, o filme fala de fé, maternidade, solidariedade

Mathilde está sendo paquerada por um colega, um médico bem mais experiente que ela, Samuel Lehman (Vicent Macaigne). Numa noite, num salão de dança, estão bebendo e conversando. Samuel, como o nome indica, é judeu. Conta para ela que praticamente toda a sua família morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen. E diz que não gosta dos poloneses – só dos que viviam no Gueto de Varsóvia.

E tenta adivinhar as origens de Mathilde. Chuta: “Família da burguesia. Muito católica”.

Ela ri e diz que ele errou tudo: é de família operária, seus pais são comunistas.

Uma jovem francesa de formação comunista, ajudando secretamente – à noite, em jornada dupla, depois de um trabalho puxadíssimo, estafante, de muitas horas – freiras polonesas estupradas primeiro por alemães, depois por russos.

Nem o mais imaginativo dos escritores poderia pensar numa história assim.

O filme trata, com imensa sensibilidade, de vários temas importantes – além de denunciar a barbárie cometida por soldados dos dois lados da guerra. A fé. A maternidade. E a solidariedade, a capacidade daquela jovem mulher de se desdobrar para ajudar o grupo de mulheres tão duramente maltratadas pelo destino.

A maternidade.

Em condições normais, é claro que seria absolutamente defensável o aborto. Até países com legislação medieval em relação ao tema, como o Brasil, admitem o aborto em caso de estupro.

Naquele caso, isso estaria fora de cogitação. Freiras católicas jamais admitiriam essa possibilidade.

As freiras morrem de vergonha de terem sido tocadas, de estarem gerando filhos. Mas, para algumas, para muitas, não há como impedir a felicidade de estar sendo mãe. Há algumas cenas de arrepiar: uma freira, ao receber de Mathilde o filhinho recém-nascido nos braços, se pega sorrindo, o ar de felicidade estampado, escarrado – para, logo em seguida, esmagar o sorriso, fechar a cara. É realmente de arrepiar ver aquela luta entre a felicidade de ser mãe e a sensação de que não é permitido ter alegria porque aquela gravidez não é admitida pela religião.

“A fé é 24 horas de dúvida e um minuto de esperança”

A fé.

O grupo de escritores reunido por Anne Fontaine criou belos diálogos, belíssimas frases.

Bem no meio da narrativa, quando o filme está com 52 de seus 115 minutos, madre Maria conversa com Mathilde; estão sozinhas, as duas, numa das celas do convento; a médica havia acabado de encher um copo de água. É um plano americano, em que vemos as pessoas da cintura para cima.

Maria conta:

– “Ainda sinto o cheiro deles. Eles vieram três vezes. E a cada vez eles nos…”

Não é necessário que ela diga o verbo.

– “Eles iam nos matar. Foi um milagre não terem feito isso.”

Maria se senta, começa a chorar. Mathilde pega o copo d’água que não havia bebido e oferece para a freira. A câmara se aproxima das duas, faz um close-up de seus rostos.

– “Meu destino não foi tão ruim quanto o das outras. Eu já tinha tido um homem, na minha vida de antes. As outras eram virgens.”

– “Mas nenhuma perdeu a fé”, diz Mathilde.

Nenhuma perdeu a fé. Ao dizer a frase, a filha de comunistas demonstra espanto, incredulidade – mas também uma grande admiração.

E Maria responde: – “A fé… No início, é como um filho que o pai segura pela mão e que se sente seguro. Mas chega uma hora – acho que essa hora sempre chega – em que o pai solta a mão. Ficamos perdidos, sozinhos no escuro, chamamos, e ninguém ouve. Mesmo quando nos preparamos, somos surpreendidos e atingidos bem no coração.”

Ela se levanta, vai até a janela, olha para fora: – “A cruz é essa. Por trás de toda a alegria, há a cruz.”

Em outro diálogo entre as duas, mais tarde, Maria diz: – “A fé é 24 horas de dúvida e um minuto de esperança.”

Credo em cruz. Que frase!

E mais tarde ainda, bem mais tarde, a freira dirá para a filha de comunistas: – “Você pode não acreditar, mas foi Deus que enviou você.”

Agnus Dei qui tollis peccata mundi, miserere nobis

Agnus Dei. “Agnus Dei qui tollis peccata mundi, miserere nobis.”

Lembro bem da frase. Como poderia não lembrar, se é coisa da minha mais remota adolescência, dos tempos em que cheguei a ser coroinha de missas no Convento dos Dominicanos, na Serra, em Belo Horizonte, antes que o Convento fosse invadido pelos militares à procura de padres comunistas, em 1964?

Bem mais tarde, em 1973, o ano em que casei no tabelião e na igreja, Edu Lobo fez uma melodia lindíssima para envolver as frases da oração, em sua Missa Breve. E, com sua voz abençoada, repete a expressão, depois cantada diversas vezes pelo coro de vozes femininas: “qui tollis, qui tollis peccata mundi”.

Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo, tende piedade de nós.

O título Agnus Dei, no lugar do mais óbvio Os Inocentes, não foi uma invenção dos exibidores brasileiros. Esse também foi o título do filme na Itália, na Suécia e na Noruega.

Cordeiro de Deus. Agnus Dei qui tollis peccata mundi, miserere nobis.

Faz sentido.

Uma jovem atriz que “mistura sensualidade, pureza e mistério”

Anne Fontaine, informa o AlloCiné, o site que tem tudo sobre os filmes franceses, é católica, embora não praticante. Tem tias que são freiras, e, como parte de sua preparação para fazer o filme, chegou a fazer retiros em conventos de beneditinas – a mesma ordem religiosa das freiras polonesas.

Tem vários bons filmes no currículo, essa realizadora nascida em Luxemburgo, em 1959. São dela Nathalie X (2003), Uma Nova Chance (2006), A Garota de Mônaco (2008), Coco Antes de Chanel (2009) e Gemma Bovary (2014).

Mas acho que dá para dizer, sem medo de errar, que este Les Innocentes é sua obra-prima.

Anne Fontaine contou em entrevista que não queria que Mathilde, a protagonista da história de Les Innocentes, fosse sem graça, insípida: “Pela própria profissão que exerce, era necessário que ela tivesse uma certa virilidade de caráter. Se a atriz escolhida para o papel rendesse pouco, chegaríamos ao fim do filme como havíamos começado. O importante era que se demonstrasse o questionamento metafísico que atravessa e que modifica o personagem. Como compreender o sentido da vida naquele caos? Como sobreviver à violência que marcou tão fortemente os corpos das religiosas polonesas? Como julgar a fé delas, que parece sobreviver a uma provação tão dolorosa?”

Quando o filme estava ainda em pré-produção, antes do início das filmagens, falou-se que o papel de Mathilde seria de Adèle Haenel. Adèle é uma mulher belíssima, e uma ótima atriz; nós a vimos em O Homem Que Elas Amavam Demais/L’Homme qu’on Aimait Trop (2014), em que contracena de igual para igual com Catherine Deneuve e Guillaume Canet. Teria muito provavelmente feito muito bem essa Mathilde Beaulieu.

Acabou que não rolou, e o papel principal do filme caiu sobre os ombros de Lou de Laâge, uma atriz que eu não conhecia. Nascida em 1990, estava portanto com 26 anos quando Les Innocentes foi lançado. Estreou na televisão aos 18, em 2008, e tem feito teatro, além de cinema.

Foi uma escolha maravilhosa. Essa moça não tem uma beleza assim estonteante, dentro do padrão; tem um rosto marcante, que transmite personalidade forte, como desejava a diretora. Anne Fontaine declarou: “Lou de Laâge é qualquer coisa incrível. Uma mistura de sensualidade, de pureza e de mistério. Ele tem verdadeiramente alguma coisa da graça. Raramente filmei um rosto de uma atriz tão graciosa, e para esse papel era mesmo fundamental haver um mistério diante das freiras”

Les Innocentes passou por quatro festivais – Jerusalém, Princeton, Seattle e o Festival Internacional de Cinema da Noruega de 2016. Neste, Anne Fontaine ganhou um prêmio, o Andreas Award. Este foi o texto divulgado pelo júri para justificar a premiação:

“O vencedor do prêmio deste ano é baseado em uma história real dos tempos logo após a Segunda Guerra Mundial; é a angustiante história de inocentes submetidas a abuso. Guerras sempre fazem vítimas e o mal pode cair sobre as pessoas mais tementes a Deus. Com uma fotografia estilisticamente segura e atores convincentes que evitam os clichês, o filme nos leva para dentro de um monastério polonês, onde as freiras foram submetidas a ações aterrorizantes. Tudo o que as freiras têm como apoio é o interesse e o vigor de uma jovem francesa da Cruz Vermelha. O filme percorre todo o caminho até o fundo da escuridão que explora, mas ainda consegue sucesso ao formular a seguinte resposta ao problema do mal: A fé é 24 horas de dúvida e um minuto de esperança.”

Anotação em setembro de 2016

Agnus Dei/Les Innocentes

De Anne Fontaine, França-Polônia, 2016

Com Lou de Laâge (Mathilde Beaulieu)

e Agata Buzek (Maria), Agata Kulesza (Madre Abadessa), Vincent Macaigne (Samuel Lehman), Joanna Kulig (Irena), Eliza Rycembel (Teresa), Katarzyna Dabrowska (Anna), Anna Próchniak (Zofia), Helena Sujecka (Ludwika), Mira Maluszinska (Bibiana), Dorota Kuduk (Wanda), Klara Bielawka (Joanna), Pascal Elso (o coronel), Thomas Coumans (Gaspard), Leon Latan-Paszek (Wladek), Joanna Fertacz (a tia de Zofia), Zacharjasz Muszynski (cabo russo)

Roteiro Sabrina B. Karine e Alice Vial

Baseado numa idéia original de Philippe Maynial

Adaptação e diálogos Pascal Bonitzer e Anne Fontaine

Fotografia Caroline Champetier

Música Grégoire Hetzel

Montagem Annette Dutertre eschewing

Produção Mandarin Cinéma, Aeroplan Film, Mars Films, France 2 Cinéma, Scope Pictures, Sofica Manon 5

Cor, 115 min

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