À Primeira Vista / At First Site

Nota: ★★½☆

O título – À Primeira Vista/At First Site – dá idéia de que pode ser uma comédia romântica. Não há nada cômico no filme dirigido por Irwin Winkler lançado em 1999. É uma daquelas duríssimas histórias de personagem que enfrenta terrível adversidade. A adversidade, aqui, é uma das mais pavorosas que pode haver: a cegueira.

O cinema tem dezenas e dezenas e dezenas de histórias de pessoas enfrentando adversidades dos mais diversos tipos – a perda de entes queridos, a perda da saúde, a perda da sobriedade, a perda da esperança, a perda da vontade de viver. Em geral, nos filmes do cinemão comercial, seja o feito nos Estados Unidos, seja o da Europa, de onde for, há uma sequência lógica nessas histórias: no início, o personagem central está no fundo do fundo do poço da desesperança. Com o tempo, no entanto, através da ajuda das pessoas que o cercam, ele vai saindo do buraco – e então a trama se encaminha, se não para um final feliz, ao menos para uma situação bem melhor do que se estava no início da narrativa.

Tive medo de que o filme seguisse à risca esse esquema que de uma maneira geral predomina. Na verdade, tive dúvidas se deveria ver À Primeira Vista, ou se não seria melhor deixá-lo de lado. Já sabia da temática básica – a personagem interpretada por Mira Sorvino, essa gracinha de atriz, se apaixona pelo personagem de Val Kilmer, que é cego. O interesse em ver vinha basicamente por causa de Mira Sorvino, e também pelo veterano diretor, produtor e roteirista Irwin Wikler, que tem filmes respeitáveis no currículo, como Culpado por Suspeita (1991), Sombras do Mal (1992), Tempo de Recomeçar (2001) e De-Lovely (2004).

Pois o fato é que À Primeira Vista não segue aquela coisa esquemática. Vai contra essa regra geral dos dramas que mostram pessoas lutando contra adversidade. Apresenta surpresas, fatos inesperados.

Tem muitos momentos de imensa sensibilidade. Alguns momentos sensualíssimos – não de uma forma agressiva, apelativa. Não, de jeito algum, pelo contrário; são momentos que passam muita sensualidade de uma maneira bela, terna, envolvente.

E, ao fim, leva o espectador a refletir sobre aquela realidade que apresenta. Pode levar a reflexões que se encaminham para territórios desconhecidos, inesperados.

Talvez porque se baseie em uma história real. Não é mero fruto da imaginação de um roteirista criativo.

O filme se inspira no relato feito por um neurologista sobre caso real

Não pretende ser a reprodução fiel de uma história – sequer usa aquela frase “baseado em uma história real”, que tem grande apelo de marketing. Apenas registra, nos créditos iniciais e também nos finais, que o roteiro de autoria de Steve Levitt se baseia em uma história escrita pelo médico Oliver Sacks – um neurologista que ficou conhecido por criar histórias a partir de sua experiência junto aos pacientes. É dele, por exemplo, o livro que deu origem ao filme Tempo de Despertar/Awakenings (1990), que Penny Marshall dirigiu com Robert De Niro e Robin Williams.

Os créditos finais explicitam: “Inspirado pelo relato real do doutor Oliver Sacks sobre as experiências de Shirl e Barbara Jenkins”. E, como tantos filmes inspirados em histórias reais, os letreiros finais contam o que aconteceu com as pessoas reais nos anos seguintes àquele período relatado no filme.

Ela é uma arquiteta estressada; ele é um excelente massagista em um spa

No filme inspirado em Barbara e Shirl, ela se chama Amy, e ele, Virgil. São, como já foi dito, interpretados por Mira Sorvino e Val Kilmer. Estavam jovens e lindos em 1999, o ano de lançamento do filme. Mira, Oscar de atriz coadjuvante por Poderosa Afrodite (1995) de Woody Allen, tinha então 32 anos, mas aparentava ainda menos, com aquela baby face linda dela, e Val Kilmer, tinha 40.

O primeiro que vemos é Virgil, de óculos escuros, numa paisagem gelada, sorrindo, segurando um taco de hóquei. São tomadas rápidas, e então passamos a ver Amy, em um escritório em Nova York. Enquanto os créditos iniciais vão rolando, o espectador vai percebendo, pela conversa de Amy com a secretária e amiga Betsy (Laura Kirk) que ela é uma jovem profissional que trabalha demais, está absolutamente estressada, e se prepara para uma viagem rumo ao Norte do Estado, para descansar por uns dias num spa numa pequenina cidade.

Veremos depois que é arquiteta, sócia de um escritório de arquitetura juntamente com o agora ex-marido, Duncan (Steven Weber).

Na recepção do spa, Amy ouve da funcionária uma explanação sobre o que está disponível ali: balanças, aparelhos, ioga, steps, aeróbica, esteira, etc, etc, etc. Amy diz: – “Eu queria alguma coisa para descansar. Para ficar deitada”. E então a recepcionista sugere uma massagem. Amy pede que não seja cedo. A recepcionista oferece o horário das 10, Amy pede o das 11.

O massagista é Virgil.

O espectador percebe de cara que Virgil é cego – mas Amy não. Conversam um pouco durante a massagem. Ao ver que ela é de Nova York, ele brinca identificando em cada ponto das costas dela um motivo de tensão – o trânsito pesado, o táxi que não parou, o trabalho que tem que ser entregue.

Virgil é um excelente massagista, e Amy começa a relaxar – e adormece. Virgil a deixa dormindo e sai.

Amy logo acorda, e vai atrás do massagista para pedir desculpas por ter dormido na sessão. Só então percebe que ele é cego.

Na segunda sessão de massagem, massagista e paciente morrem de tesão

O filme mostra então Virgil chegando em sua casa, conversando com o seu grande cachorro, contando para ele que havia conhecido uma moça de voz gostosa, de cheiro muito bom.

Bem rapidamente, vemos que Virgil é um sujeito feliz. Tem uma boa casa, bem arrumada; a irmã, Jennie (o papel de uma Kelly McGillis sem a beleza estupenda que havia mostrado em A Testemunha, de 1985, e  Top Gun, de 1986), vive na casa ao lado, cuida dele, arruma tudo de que ele necessita.

Absolutamente apaixonado pelo esporte, acompanha os jogos de hóquei pela narração da TV. Anda bem pela pequenina cidade, reconhece as pessoas pelo cheio e pelo jeito, conversa com elas, é benquisto, querido, admirado.

É sensível, tem sensibilidade à flor da pele.

Vive bem.

A segunda sessão de massagem de Amy é de um imenso tesão. Com jeito alegre, tranquilo, Virgil diz a ela que tem que parar por ali, porque naquele momento ela é uma cliente – mas que tal se ela fosse à casa dele, mais tarde, para jantar uma comidinha que ele prepararia?

Mais tarde, Virgil está preparando o jantar. Amy liga – para dizer que sente muito, mas infelizmente estava no carro, na estrada, de volta para Nova York, porque tinha surgido um problema, um incêndio que ela tinha que apagar. Frustrado com o contra-vapor, a reversão de expectativa, ele se distrai e queima a mão ao encostar numa das frigideiras.

Até Amy falar de tratamento, Virgil era um homem feliz, em paz

Mas Amy volta ao spa daí a alguns dias. Reencontram-se, e trepam maravilhosamente.

Amy está absolutamente apaixonada. Como ela diz para a amiga Betsy: tinha sido casada com um sujeito sem sensibilidade alguma. E aquele cara lá do interior é a sensibilidade à flor da pele. Não a enxerga, não sabe como ela é fisicamente, mas parece conhecê-la, saber todas as suas intimidades.

Bem rapidamente, Amy – nova-iorquina, profissional ágil, workaholic – descobre um super bambambã da oftalmologia, o dr. Charles Aaron (Bruce Davison), que fica interessado em examinar Virgil.

Virgil reage muito mal quando Amy, felicíssima, conta para ele sobre o contato com o médico. Amy vai conversar com Jennie, e a irmã dele explica que, quando Virgil perdeu a visão, por volta dos 3 anos de idade, o pai deles havia tentado de tudo para reverter o quadro. Virgil havia enfrentado uma via crucis dolorosa de médicos, exames, novos exames, exames dolorosos. Finalmente, ali pela adolescência, tinha decidido não tentar mais nada. Mais ou menos nessa época, o pai havia saído de casa, abandonado a família, nunca mais tinha dado notícia.

Mas o fato é que – Jennie diz para Amy – Virgil está bem do jeito que está, e mexer com a possibilidade de reiniciar uma série de tentativas iria só tirar a paz que ele afinal havia conquistado na vida.

O roteirista Steve Levitt colocou na história alguns componentes psicológicos complicados. Fica evidente que Jennie dedicou a vida a cuidar do irmão – e praticamente deixou de ter vida própria. Caso o irmão viesse a se mudar dali, ir para Nova York para ficar com Amy, ou para tentar um tratamento, a vida dela ficaria vazia, sem sentido.

Há também todo um problema de relacionamento – ou ausência de relacionamento – de Virgil com o pai que abandonou a família. Virgil se culpava por isso, achava que o pai tinha ido embora porque ele, Virgil, não conseguiu se tratar, persistir nos tratamentos que talvez pudessem levá-lo a recuperar a visão.

O filme dá importância a esses elementos. Mas o principal, claro, é a disposição de Virgil de retomar a tentativa de recuperar a visão – ou não.

O ponto central é este: até a chegada de Amy, e a insistência dela para ele tentar voltar a ver, Virgil era um homem feliz.

Ou, como resumiu Leonard Maltin: tentar voltar a ver seria necessariamente uma coisa boa?

Sim, é isso: a vontade de Amy de fazer a tentativa seria necessariamente a melhor? Mas Virgil antes de ela aparecer não estava em paz, feliz?

Mais ainda: o que significa exatamente ver? Antes Virgil não teria uma percepção muito melhor das coisas a seu redor? Não enxergava melhor quando não via?

Quando chega a esse momento em que se menciona o médico que poderá operar Virgil, o filme está aí com uns 30, no máximo 40 minutos, e ele é um pouco mais longo do que a maioria dos filmes comerciais de hoje em dia – tem 128 minutos, duas horas e oito.

O que virá depois que Amy traz à baila a existência do médico não é bem o que o espectador poderia esperar. Há, como já foi dito no início do texto, surpresas, muitas surpresas.

Não se segue – repito – o caminho tradicional da grande maioria de dramas que falam de terríveis adversidades.

Um filme que deixa mais questões do que afirmações seguras

À Primeira Vista não foi um sucesso de público. Consta que custou caro para uma produção sem grandes acrobacias, US$ 60 milhões, e rendeu apenas US$ 22 milhões no mercado americano (o site especializado Box Office Mojo não traz a renda no mundo).

Também não teve grande apreciação entre os leitores do site Rotten Tomatoes (avaliação média de 5,2 em 10) e do IMDb (avaliação média de 5,9 em 10).

Leonard Maltin, que já citei, deu 2.5 estrelas em 4. Ele diz que “o drama romântico abertamente novelesco não pretende ser mais do que é, e os atores são adoráveis… mas é comprido demais”.

Eu, que comecei a ver com o pé atrás, acabei gostando bem do filme. Em parte, seguramente, por causa da bela atuação de Val Kilmer e de Mira Sorvino. Mas também pelo fato de ele fugir do caminho tradicional no desenrolar da história. E, principalmente, pelo fato de o filme deixar mais questões do que afirmações seguras.

Anotação em março de 2017

À Primeira Vista/At First Site

De Irwin Winkler, EUA, 1999.

Com Val Kilmer (Virgil Adamson), Mira Sorvino (Amy Benic)

e Kelly McGillis (Jennie Adamson), Steven Weber (Duncan Allanbrook), Bruce Davison (Dr. Charles Aaron), Nathan Lane (Phil Webster), Ken Howard (o pai de Virgil e Jeannie), Laura Kirk (Betsy Ernst), Margo Winkler (Nancy Bender), Diana Krall (cantora)

Roteiro Steve Levitt

Baseado em história escrita pelo médico Oliver Sacks, “To See and Not See”

Fotografia John Seale

Música Mark Isham

Montagem Julie Monroe

Produção Metro-Goldwyn-Mayer.

Cor, 128 min

**1/2

Título na França: Premier Regard.

2 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 27 agosto 2017 às 5:37 pm | Permalink

    Os anos 1990 acho que foram os anos em que eu mais via filmes; alugava quase todos os lançamentos que a locadora oferecia. Claro que não deixei escapar esse aí, até por que cegueiras e problemas sérios de visão mexem comigo, pois tenho a genética ruim por parte de pai.

    Apesar de tantos anos passados, fui me lembrando de algumas coisas à medida em que lia seu texto.

    O final não é mesmo tradicional, nem vai por um caminho que a gente espera ou torce. Pelo pouco que me lembro tem bastante a ver com as perguntas que você faz.

    E que fim levou Val Kilmer? Ele fez um tremendo sucesso durante alguns anos, mas depois sumiu.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 28 agosto 2017 às 3:43 pm | Permalink

    Jussara, querida, fiquei curioso com sua pergunta sobre o Val Kilmer, e fui ver o IMDb. Ele participou de 4 séries de TV entre 2013 e 2014; neste ano de 2017, está em 3 filmes. E para o ano que vem já foram anunciados 2 filmes com ele.
    Um grande abraço.
    Sérgio

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