A Pequena Morte / The Little Death

Nota: ★★★☆

A Pequena Morte é assim uma espécie de variação do Pequeno Dicionário Amoroso de Sandra Werneck. Só que não trata propriamente de amor, e sim de sexo. Mais especificamente, de formas, ahnnn, digamos, menos usuais de sexo.

Masoquismo. Fetichismo. Dacrifilia. Sonofilia. Escatologia telefônica. Como no filme de Sandra Werneck, os verbetes são exibidos na tela. São essas cinco formas menos usuais de sexo (creio que dizer taras seria considerado politicamente incorretíssimo) que são apresentadas ao espectador, através das histórias de cinco casais de classe média, na faixa entre 30 e 45 anos, moradores de Sydney, na Austrália. As histórias vão se desenrolando simultaneamente, e há alguns elementos que fazem a ligação entre um casal e outro.

Quando um casal aparece pela primeira vez, o filme informa seus nomes, para facilitar a vida do espectador. E informa também, em um letreiro, o nome específico da tara, perdão, do gosto especial daqueles personagens.

De fato, como se fosse um Pequeno Dicionário – e foi Mary que se lembrou, de cara, do filme de Sandra Werneck, e não eu.

Abre com um homem beijando o pé de uma mulher. Beijando apaixonadamente, gostosamente, tesudamente – e a tomada é em close-up, para realçar bastante a coisa do tesão.

E aí vêm as palavras escritas na tela: “La Petit Mort.” Tradução: The Little Death (gíria): um orgasmo.

(Sim, a expressão original é francesa. O filme é bem didático nisso.)

Maeve confessa ao marido que tem o desejo de ser estuprada

Um filme que fala o tempo todo de sexo.

Poderia ser o que chamo de QuasePornô, com muitas cenas de sexo explícito. Não é. O diretor Josh Lawson – ele também autor da história e do roteiro, e um dos dez atores que fazem os casais – conseguiu a proeza de navegar no fio da navalha, na fina linha que separa uma história sobre sexo de um filme quasepornô. Sua comédia (com muitos lances bem tristes) é fina. Fala-se de sexo, e de sexo pouco usual, de maneira aberta, franca, honesta, adulta – mas sem nada apelativo, exagerado, forçado. Nada, nada, nada.

E não há explicitude visual alguma. Nada de cenas explícitas de trepada, peito, coxas, bunda – nada. A cena de sexo mais explícita de todo o filme é aquela podolatria da abertura.

O primeiro casal apresentado ao espectador é o de Paul e Maeve. Junto com o nome deles, aparece na tela o tipo de paixão: “Masoquismo sexual”. Paul é interpretado por Josh Lawson (na foto acima), o autor e diretor; Maeve, por Bojana Novakovic.

Estão juntos há seis anos – e só então é que Maeve encontra coragem para dizer a Paul que tem o desejo de ser estuprada. Por ele mesmo, mas de um jeito que pudesse parecer que não era por ele.

Vivem bem. Tinham vivido bem durante aqueles primeiros seis anos, são carinhosos, trepam com frequência. Têm uma vida absolutamente normal.

A princípio, Paul reage mal à revelação do desejo da mulher. Acha esquisito, e fica irritado com a coisa de ela querer que parecesse que ele era outra pessoa.

À medida em que o tempo vai passando, Paul vai encarando a coisa com normalidade. É um desejo de Maeve, e ele a ama, e gostaria de satisfazer todos os desejos dela. Então por que não?

O terapeuta aconselha que o casal simule situações, faça um teatrinho

O segundo casal é formado por Dan e Evie (Damon Herriman e Kate Mulvany). A primeira vez em que eles surgem – e na tela aparece a indicação de “Fetichismo sexual” –, estão diante de um terapeuta de casais (Paul Gleeson). Dan está reclamando que a chupada de Evie não é muito boa.

O terapeuta pergunta quando foi a última vez que o casal fez sexo. Os dois demoram para responder, e fica claro que fazia um bom tempo. O terapeuta, então, faz a sugestão: que tal se eles, naquela noite, fizessem assim uma encenação? Fingissem ser outras pessoas, e então fizessem sexo?

Dan e Evie obedecem. Fingem que são um médico e sua paciente. depois que são um preso e uma guarda de presídio – e trepam, e trepam bem gostoso.

Problema resolvido? Nada. A questão é que Dan – elogiado por Evie como um bom ator, por ter feito uma boa atuação – passa a ter uma fixação com a coisa de fingir situações, interpretar papéis. A coisa sobe-lhe à cabeça – ao ponto de ele entrar para um curso de arte dramática. Evie vai ficando cada vez mais furiosa com aquilo.

Rowena descobre que goza loucamente se o marido estiver chorando

Richard e Rowena (interpretados por Patrick Brammall e Kate Box) são daquele tipo de casal que quer desesperadamente ter um filho, mas Rowena não engravida. Tentam de tudo, trepam nas horas indicadas – e nada. Lá pelas tantas, a médica dela, Zoe Carides, pergunta se Rowena tem orgasmo; se tiver prazer, se gozar, haverá maior chance de engravidar.

Rowena descobre, por acaso, quando vê Richard aos prantos ao receber a notícia de que seu pai morreu, que goza desbragadamente quando o marido chora.

Isso é que é tara, perdão, gosto esquisito, siô! Vai ter gosto esquisito assim na Conchinchina!

O letreiro avisa que se trata de dacrifilia – e especifica: “prazer sexual em ver alguém chorar”.

Rowena não tem coragem de contar para o marido que descobriu como é o melhor jeito para ter imenso prazer durante o sexo. Mas fica tentando de tudo para fazer com que Richard chore. Espalha fotos do pai dele pela casa. Da locadora, traz para eles verem A Escolha de Sofia e Filadélfia – aqueles dois dramas pesadíssimos. Depois, numa manobra desesperada, leva a cachorrinha deles, a grande paixão de Richard, para a casa de uma amiga (Maeve, a que quer ser estuprada), e diz para ele que a cachorrinha desapareceu.

Phil descobre que tem prazer em comer a mulher enquanto ela dorme

Sonofilia, ou “prazer sexual ao ver alguém dormindo”, é o tema do quarto casal, os pobres Phil e Maureen (Alan Dukes e Lisa McCune). São o único casal da história que têm filhos, dois garotos. Maureen é uma chata de galocha: está sempre implicando com Phil, criticando, botando defeito. E não quer saber de sexo.

Por acaso, Phil vai preparar para si mesmo um potente sonífero que o patrão ofereceu a ele, para que dormisse bem à noite e parasse de ter sono durante o horário de trabalho. Coloca um tanto do sonífero na xícara de chá; vai ver os filhos, e, quando volta para tomar o chá… vê que a mulher pegou a xícara e levou para beber diante da TV. Daí a pouco, está absolutamente apagada.

Phil tenta chamá-la, e nada.

Naquela primeira noite, só a leva para a cama e faz carinhos nela. Nas noites seguintes, vai comê-la enquanto ela dorme.

Grrr. Comentei com Mary que a tal sonofilia, da qual nunca tinha ouvido falar, parece necrofilia…

“Por lei federal, devo informar que sou um infrator sexual condenado.”

Falei lá em cima que os personagens vivem em Sydney. É o que dizem todas as sinopses do filme, e faz sentido, já que é a maior cidade da Austrália, e as histórias são mesmo de gente que mora em metrópole. Mas a rigor poderia ser qualquer grande cidade, de Toronto a Chicago, de Londres a Johanesburgo.

De propósito, é claro, o filme não mostra paisagens específicas de Sydney – justamente para enfatizar essa coisa de que poderia ser em qualquer cidade do mundo.

Mas o espectador fica sabendo que todas aquelas pessoas são vizinhas, moram no mesmo bairro. Alguns deles se conhecem: como já foi dito, Rowena, a que só goza se o parceiro estiver chorando, é amiga de Maeve, a que quer ser estuprada. E ainda há um personagem que liga todas as histórias. Chama-se Steve (Kim Gyngell), é um homem mais velho, aí de uns 60 anos. Ele bate campainha na casa de cada um dos casais para dizer que acaba de se mudar para aquele bairro – e oferece para os donos da casa um docinho que ele mesmo faz, no formato de um bonequinho. Depois, diz a frase – sempre a mesma, para todos os novos vizinhos: – “Por lei federal, devo informar que sou um infrator sexual condenado”.

Nenhuma das pessoas que ouvem Steve dizer isso parece se importar muito com a informação.

Uma história esdrúxula, cheia de termos chulos – e no entanto terna, delicada

A história que une Monica e Sam (Erin James e T.J. Power, na foto acima e na foto abaixo) é a mais terna, delicada, sensível das cinco que o diretor Josh Lawson nos conta neste A Pequena Morte. É também a única em que o homem e a mulher não são um casal. Monica e Sam se conhecem em uma ligação via computador, um vendo o outro na sua própria tela, diante do espectador.

Os termos que surgem na tela quando vemos Monica pela primeira vez são “Escatologia telefônica – prazer sexual com telefonemas obscenos”.

Monica trabalha num serviço de atendimento a surdos que precisam falar com alguém por telefone. Coisa do mundo desenvolvido, nem sei se existe algo semelhante no Brasil. Funciona assim: o surdo liga para o número daquele serviço, e fala, através da linguagem de sinais, com um atendente. Explica o que deseja, com quem deseja falar, e o atendente então faz uma ligação telefônica para aquela pessoa, e vai dizendo a ela o que o surdo está dizendo.

A própria Monica tem um problema de audição, e usa aparelho.

Num dia qualquer em que ela estava trabalhando, recebe a ligação via computador de Sam, um jovem bonitão, simpático. Sam quer que ela faça uma ligação com uma empresa de tele-sexo.

Monica é bem jovem, está aí com uns 25 anos, talvez; é um tanto tímida, é evidentemente solteira. Fica profundamente embaraçada, sem jeito, com aquilo, mas ela precisa muito do emprego, e então fazer o quê? Ela liga para o tele-sexo. A mulher que atende, Sonya (Genevieve Hegney), faz lembrar bastante a personagem interpretada por Jennifer Jason Leigh em Short Cuts (1993), de Robert Altman. Está em casa, cuidando da avó que sofreu um AVC, quando recebe a ligação de uma mulher se dizendo atendente de um serviço para surdos.

Toda a situação é absolutamente esdrúxula. O espectador vê Sam falando na linguagem de sinais para a bela Monica, e a moça, sem jeito, coitadinha, transmitindo para a profissional do tele-sexo os pedidos do rapaz, e depois tendo que transmitir para ele o que a profissional respondeu ou perguntou: Já está duro? Enfia na minha buceta. Isso, bem depressa, com força, com muita força.

Esdrúxulo, completamente doido.

Depois que a profissional desliga, Monica e Sam conversam mais um pouquinho. Estão visivelmente atraídos um pelo outro. Rolou um lance de simpatia, de interesse. Ela pergunta o que ele faz, ele diz que é desenhista de novelas gráficas. Ela diz que não acredita, ele diz que vai desenhar o rosto dela.

Nenhum dos dois tem vontade de desligar.

Acabaram de falar de sexo com todos os termos mais chulos que há, mas são tímidos e ninguém sugere que talvez pudessem voltar a conversar.

“O que aconteceu com o velho papai-e-mamãe?”

Quando Monica sai do prédio de seu trabalho, ao terminar seu turno, haverá uma ligação entre a história dela e as dos outros casais. É surpreendente, e muitíssimo bem sacado.

O roteiro desse Josh Lawson acaba amarrando tudo de forma fascinante.

Bem na metade dos 96 minutos do filme, há um diálogo especialmente fascinante entre o personagem interpretado pelo próprio autor e diretor com um amigo, Glenn (Ben Lawson). Paul pergunta se Glenn alguma vez já havia estuprado alguém, e Glenn, espantado, diz que não, claro, e pergunta se Paul já havia estuprado alguém, e por que raios ele tinha perguntado isso. Paul confessa para o amigo que Maeve tem o desejo de ser estuprada.

Ao que Glenn reage como uma frase assim: – “O que aconteceu com o velho papai-e-mamãe?”

Boa, excelente pergunta. Poderia servir de moral para as histórias contadas no filme. O que será que aconteceu com o velho papai-e-mamãe?

Quem vê o filme gosta, conforme indicam as cotadas que recebe na internet

Josh Lawson é um garoto: nasceu em 1981, quando minha filha já via filmes comigo. Sua filmografia como ator já tem 50 títulos, e inclui a série de TV americana House of Lies. Este A Pequena Morte é seu primeiro longa-metragem como diretor.

Em 2016, dois anos depois do lançamento de A Pequena Morte, foi feita uma refilmagem na Espanha, com o título de Kiki, el amor se hace. Não conheço o diretor, Paco León, e não reconheci nenhum nome entre os dos atores, embora tenha visto vários filmes espanhóis ultimamente.

A Pequena Morte foi apresentado no Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2014.

Quem vê o filme gosta. É o que indicam as cotações dadas a ele pelos leitores dos dois melhores sites sobre filmes que conheço, o IMDb e o AllMovie. No primeiro, teve nota média 7,1 em 10, o que não são muitos filmes que conseguem. No segundo, a média da cotação dos leitores é de 4.5 estrelas em 5.

Anotação em fevereiro de 2017

A Pequena Morte/The Little Death

De Josh Lawson, Austrália, 2014.

Com Bojana Novakovic (Maeve), Josh Lawson (Paul),

Damon Herriman (Dan), Kate Mulvany (Evie),

Kate Box (Rowena), Patrick Brammall (Richard),

Alan Dukes (Phil), Lisa McCune (Maureen),

Erin James (Monica), T.J. Power (Sam)

e também Kim Gyngell (Steve), Lachy Hulme (Kim),  Paul Gleeson (o terapeuta), Zoe Carides (Dra. Barnes), Kim Gyngell (Steve, o criminoso sexual que já cumpriu pena), Tasneem Roc (Yael), Ben Lawson (Glenn),

Genevieve Hegney (Sonya, a moça do tele-sexo)

Argumento e roteiro Josh Lawson

Fotografia Simon Chapman

Música Michael Yezerski

Montagem Christian Gazal

Casting Nikki Barrett

Produção Head Gear Films, Metrol Technology, See Pictures

Cor, 96 min

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