A Garota no Trem / The Girl on the Train

Nota: ★★☆☆

Três mulheres jovens e belas, uma delas tristíssima, angustiada, com inveja profunda da vida feliz que já teve, não tem mais e as outras ainda desfrutam. A questão eterna da maternidade. Traição, infidelidade – muita traição, muita infidelidade. E ainda a presença sempre, constante de trem, viagens de trem, o mais cinematográfico de todos os meios de transporte.

A Garota no Trem promete. E, nos primeiros dois terços de seus 112 minutos de duração, entrega um thriller interessante, envolvente, com  uma atmosfera de tensão, mistério, suspense. Para isso contribui a cuidadosa e bem engendrada forma com que o roteiro se utiliza das vantagens do flashback, de ir mostrando aos poucos fatos fundamentais que aconteceram antes da época em que se passa a história.

Depois tudo desaba feito castelo de cartas.

Um thriller sobre mulheres, escrito, roteirizado e fotografado por mulheres

Um thriller sobre três mulheres jovens e belas.

É interessante notar que tanto o roteiro quanto o livro em que ele se baseia são obras de mulheres. Paula Hawkins é a autora da novela; britânica nascida na Rodésia, em 1972, trabalhou 15 anos como jornalista da área de finanças em Londres. Após a crise financeira iniciada em 2008, resolveu diversificar; escreveu quatro romances sob o pseudônimo de Amy Silver, que simplesmente não aconteceram. Em 2015 lançou Girl on the Train, e foi um sucesso espetacular – ficou 13 semanas consecutivas no número 1 da lista dos mais vendidos do New York Times.

A roteirista Erin Cressida Wilson, nascida em San Francisco em 1964, já foi professora de Dramaturgia no Departamento de Teatro e Dança da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. O roteiro de A Garota no Trem foi o décimo que ela assinou, numa filmografia que inclui A Pele/Fur: An Imaginary Portrait of Diane Arbus (2006) e o extraordinário Homens, Mulheres e Filhos (2014), escrito em parceria com o diretor Jason Reitman.

Também a direção de fotografia do filme é de uma mulher, algo ainda bastante raro no cinema americano. Charlotte Bruus Christensen, nascida em 1978 na Dinamarca, vem assinando a direção de fotografia de filmes importantes, como A Caça (2012), de Thomas Vinterberg, e Um Limite entre Nós (2016), de Denzel Washington.

O diretor Tate Taylor tem no currículo curto (este foi seu sexto filme como realizador) outro filme que mergulha no universo feminino, Histórias Cruzadas/The Help, focalizando as relações entre patroas brancas e empregadas negras no Sul dos Estados Unidos do racismo institucionalizado, nos anos 60.

Entre as companhias produtoras de A Garota no Trem estão a Amblin e a DreamWorks de Steven Spielberg, e ele é um dos produtores executivos do filme, ao lado de seus braços direitos Frank Marshall e Kathleen Kennedy.

Três jovens e belas atrizes em uma história sobre traições, alcoolismo, abuso…

As três jovens e belas protagonistas são interpretadas por Emily Blunt, Rebecca Ferguson e Haley Bennett.

Emily Blunt é a mais famosa das três. Embora seja bem jovem (nasceu em Londres em 1983), já tem mais de 40 títulos na filmografia, 17 prêmios, inclusive 1 Globo de Ouro, fora 65 outras indicações, inclusive 4 ao Globo de Ouro e 3 ao Bafta. Entre seus filmes estão, só para citar uns poucos, Meu Amor de Verão (2004), O Diabo Veste Prada (2006), A Jovem Rainha Vitória (2009), Atração Perigosa (2010), Os Agentes do Destino (2011), Amor Impossível (2011), Meus Dias Incríveis (2012) e Caminhos da Floresta (2014).

Rebecca Ferguson (na foto abaixo) começa a estourar como um novo grande presente da Suécia para o cinema mundial, depois de Greta Garbo, Ingrid Bergman, Ann-Margret e Lena Olin. Nascida no mesmo ano de Emily Blunt, 1983, começou mais tarde e mais devagar que a inglesa; tem cerca de 20 títulos em sua filmografia, 4 prêmios e outras 6 indicações, inclusive 1 ao Globo de Ouro. Tem sido chamada para produções caríssimas – Hércules (2014), Missão: Impossível – Nação Secreta (2015), Missão: Impossível 6 (que estava sendo filmada em abril de 2017) e também para filmes mais sérios e/ou importantes – Florence: Quem é Essa Mulher? (2016), Vida (2017).

Haley Bennett (na foto acima), uma moça cujo nome não me dizia nada, nasceu na Flórida, em 1988, quando minha filha, aos 13 aninhos, já tinha uma ótima bagagem cinematográfica. Como Rebecca Ferguson, tem cerca de 20 títulos já – inclusive O Protetor (2014) e a refilmagem de Sete Homens e Um Destino (2016).

Três jovens e belas atrizes.

Três personagens envolvidas numa história que envolve traições, infidelidades, depressão, alcoolismo, abuso, um misterioso desaparecimento e suspeitas de assassinato.

E viagens de trem.

Do trem, a moça olha para uma outra que está em casa – e sente inveja

A roteirista Erin Cressida Wilson usa aquele recurso de indicar num letreiro o nome de cada personagem que vai apresentar. Vemos na tela, no iniciozinho da narrativa, o nome Rachel – e vemos Emily Blunt num trem.

Ela conta sua história para o espectador, a voz em off:

– “Meu marido costumava dizer que eu tenho uma imaginação super-ativa. Não consigo evitar. Quer dizer, você nunca esteve num trem e ficou pensando sobre as vidas das pessoas que vivem perto da linha? As vidas que você nunca viveu. São coisas que eu gostaria de saber. Duas vezes por dia, eu sento no terceiro vagão, de onde eu tenho uma vista perfeita da minha casa favorita: Beckette Road, número 15.”

Vemos uma mulher na varanda de trás de sua casa, voltada para a linha de trem.

E a voz de Rachel-Emily Blunt continua:

– “Não sei quando foi exatamente; acho que comecei a notá-la há um ano, e gradualmente, enquanto os meses iam passando, ela se tornou importante para mim. Não sou mais a garota que eu era. Acho que as pessoas vêem isso na minha cara.”

Agora vemos aquela mesma mulher na varanda de trás de sua casa, no início da noite. A mulher está com o marido.

– “Ela é o que eu perdi. Ela é tudo o que eu queria ser.”

Rachel agora está sentada na estação de trem, desenhando num grande caderno sem pauta:

– “Imagino que ela seja uma pintora. É criativa. Ele é médico, ou arquiteto. Tem uma boa risada. Ela não sabe cozinhar. Fico imaginando o que dizem um para o outro antes de dormir!”

Rachel está de novo no trem, no início da noite:

– “Hoje o nome dela é Jess. Amanhã pode ser Lisa ou Amber – depende do dia. Depende do meu estado de espírito. A verdade é que não sei o nome dela.”

Anna está casada com o marido que foi de Rachel

O nome da moça loura que Rachel vê na varanda da casa dela é Megan – o papel de Halley Bennett.

O espectador vê o nome Megan escrito na tela. Pouco depois, outro letreiro diz “6 meses antes”. Nas idas e vindas no tempo, o espectador verá que Megan está casada com Scott (Luke Evans), mas, ao contrário do que Rachel imagina quando a vê do trem, sua vida não é um mar de rosas. Muito antes ao contrário. Megan é uma moça bastante problemática. Teve um trauma grande, feio, pesado, na adolescência. Tem uma grande inquietação sexual – dá para um amante, está louca para dar para o psiquiatra, Kamal Abdic (Edgar Ramírez). Provoca o psiquiatra das formas mais abusadas que pode haver.

Embora more naquele bairro elegante, de casas boas, Megan tem um trabalho humilde: é babá da filhinha de uma vizinha, Anna – o papel de Rebecca Fergusson.

Anna é casada com Tom (Justin Theroux, na foto acima). Aos poucos, com as idas e vindas no tempo que não param, o espectador verá que Tom é o ex-marido de Rachel.

Tom e Rachel queriam muito ter um filho; tentaram de tudo, mas não conseguiram.

Enquanto estavam casados, e morando ali, naquela mesma casa onde agora Tom vive com Anna, na Beckette Road, citada logo nas primeiras falas de Rachel, Tom traía a mulher com Anna.

Na separação, Tom ficou com a casa e o dever de pagar uma pensão para Rachel.

Rachel entrou em depressão, passou a beber cada vez mais, tornou-se completamente dependente do vício.

E passou a ser acusada por Tom e por Anna de assédio brutal, constante, em seguidos telefonemas para a casa em que antes havia vivido. Uma vez, chegou a entrar na casa, e segurar no colo o bebê que Anna tinha tido com o marido que havia sido dela no passado.

Quando faltam uns 30 minutos de filme, tudo desaba

Uma noite de sexta-feira, completamente bêbada, Rachel vê a moça loura que ela idealizava como a mulher do casamento perfeito – e que o espectador sabe que é Megan – abraçar e beijar um outro homem, na mesma varanda da casa dela.

Rachel desce do trem na estação mais próxima de Beckette Road. Vai à procura da moça loura cujo nome ela desconhece – e o espectador sabe que é Megan, mulher de comportamento instável, promíscua, que havia trabalhado como babá na casa de Anna, casa que tinha sido dela, Rachel.

E aí, como acontece com os bêbados, Rachel apagou.

Recobrou os sentidos em casa, a casa que ela dividia com uma amiga, Cathy (Laura Prepon, na foto abaixo). Estava ferida, ensanguentada, cheia de hematomas, um caco.

Não se lembrava do que havia acontecido.

Naquela sexta-feira à noite, Megan desapareceu. Passaram-se dias e dias, e não havia sinal dela. Seus cartões de crédito não haviam sido utilizados desde então – um indício muito forte de que ela poderia estar morta.

Rachel receberá em casa a visita de uma dupla de detetives da polícia local. A detetive Riley (Allison Janney), mulher ampla, grande, forte, tem todo o jeito de competente, dura e tenaz.

E assim vai indo muito bem este thriller sobre mulheres escrito, roteirizado e fotografado por mulheres. Quando está ali faltando uns 30, 25 minutos, tudo desaba.

De repente, muito do que tínhamos visto se mostra falso. A história tem que ser reescrita

Se não estou enganado, tudo começa a desabar quando, mais uma vez, Rachel está no trem que sai de Manhattan e viaja para o Norte, para os subúrbios da metrópole ao longo do Rio Hudson, inclusive Ardsley-on-Hudson, aquele em que fica a Beckette Road onde moram os casais Tom e Anna e Scott e Megan.

Naquela viagem específica, Rachel vê no trem Martha, a mulher do ex-chefe de Tom. Martha é interpretada, numa participação especial, por Lisa Kudrow – ela só aparece nessa sequência e numa rápida que havia sido mostrada bem antes.

Ela dá a Rachel uma informação que desconstrói tudo aquilo em que a pobre moça acreditava – e em que ela havia feito o espectador acreditar.

Muito do que tínhamos visto até então se mostra falso. A história tem que ser reescrita, o caráter dos personagens têm que ser completamente reavaliado.

Quem era bom vira o mal em si.

Como eu dizia quando Marina derrubava torres de brinquedinhos de madeira ou papelão ou Lego que acabávamos de construir: CATABUM!

Pena, mas a verdade é que o filme desaba.

Voltando ao que foi dito antes: o cinema tem imensa paixão pelos trens

Só gostaria de voltar àquela afirmação inicial de que o trem é o mais cinematográfico de todos os meios de transporte.

Claro, o cinema já viajou de navio, de barquinho, de jangada, de carro, de moto, de teco-teco, de jato, de foguete de todo tipo, de maconha, de LSD, todo tipo de coisa que faça viajar – mas a paixão do cinema pelo trem é especial.

Até porque é muito, muito antiga.

Basta lembrar de Desencanto/Brief Encounter, que David Lean fez em 1945, uma das mais belas – e mais tristes – histórias de amor destes 110 anos de cinema.

Em outra história triste contada em outro filme belíssimo, Os Guarda-Chuvas do Amor de Jacques Demy (1964), Guy-Nino Castelnuovo se despede de Geneviève-Catherine Deneuve na estação de trem de Cherbourg.

Foi numa estação de trem de Paris também que Ilsa-Ingrid Bergman e Ricky-Humphrey Bogart se despediram em Casablanca (1942), de Michael Curtiz.

Foi do trem do meio-dia que desceu Frank Miller, o bandidão que vinha se vingar do xerife Will Kane-Gary Cooper em Matar e Morrer (1952), de Fred Zinnemann. Assim como era o último trem de Gun Hill que o xerife Matt Morgan-Kirk Douglas queria pegar, levando com ele o assassino de sua mulher, filho de seu grande amigo Craig Belden-Anthony Quinn, em Duelo de Titãs (1959).

A lista seria absolutamente interminável. Mas é fundamental lembrar de dois outros filmes.

É de 1903 O Grande Roubo do Trem/The Great Train Robbery, de Edwin S. Porter, tido como um dos marcos iniciais do cinema americano e um dos primeiros westerns da História. 1903!

Mas é de antes ainda, de 1895, o pequeníssimo A Chegada de Trem à Estação/L’Arrivé d’un Train à La Ciotat, dos Irmãos Lumière.

L’Arrivé d’un Train à La Ciotat é considerado o marco inaugural do cinema, porque foi o primeiro filme visto por uma platéia de espectadores pagantes, no Salon Indien du Grand Café, em Paris, no dia 28 de dezembro de 1895.

Durava, como todos os vários filmes feitos pelos irmãos Louis e Auguste Lumière, entre 30 e 50 segundos. Em preto-e-branco, naturalmente, sem som. Mostrava um trem que vinha chegando à estação e se aproximava do local em que estava a câmara, na plataforma. O trem vinha se aproximando, se aproximando – e conta-se que sem perceber, sem se dar conta, automaticamente, irreprimivelmente, por puro reflexo, os espectadores jogavam o corpo para trás em suas cadeiras, para evitar o choque. Como se o trem fosse sair da tela.

– “É a vida ao vivo”, comentou-se na platéia.

Foi assim que o cinema chegou – puro choque, pura surpresa, pura emoção.

Não há dúvida: o trem é mesmo o mais cinematográfico dos meios de transporte.

Anotação em abril de 2017

A Garota no Trem/The Girl on the Train

De Tate Taylor, EUA, 2016

Com Emily Blunt (Rachel)

e Haley Bennett (Megan), Rebecca Ferguson (Anna), Justin Theroux (Tom), Luke Evans (Scott), Edgar Ramírez (Dr. Kamal Abdic), Laura Prepon (Cathy), Allison Janney (detetive Riley), Darren Goldstein (o homem de terno)

e, em participação especial, Lisa Kudrow (Martha)

Roteiro Erin Cressida Wilson

Baseado na novela de Paula Hawkins

Fotografia Charlotte Bruus Christensen

Música Danny Elfman

Montagem Andrew Buckland e Michael McCusker

Produção Amblin Entertainment, DreamWorks, Marc Platt Productions, Reliance Entertainment, Storyteller Distribution.

Cor, 112 min

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