A Garota Dinamarquesa / The Danish Girl

Nota: ★★★★

A Garota Dinamarquesa é um daqueles filmes absolutamente impecáveis, irrepreensíveis. Se é que existe perfeição em algo feito pelo homem, então A Garota Dinamarquesa é a perfeição.

É tudo precioso – e preciso. Cada tomada, cada enquadramento parece resultado de muito planejamento, e a execução é sempre maravilhosa.

É um show de fotografia. Um show de direção de arte, um show de figurinos.

A gente vê talento excedendo, sobrando, saindo pelo ladrão.

Esse Tom Hooper – tão novo, nascido em Londres em 1972, só três anos antes da minha filha – se firma como um dos grandes realizadores em atividade nesta segunda década do século, do milênio. E demonstra que é um expert em encenar filmes baseados em histórias reais, depois de Longford (2006), Maldito Futebol Clube (2009) e O Discurso do Rei (2010).

Tinham sido três histórias reais muito diferentes uma das outras. A rigor, a rigor, o único traço de união dos três filmes citados é o fato de que são histórias reais passadas na Grã-Bretanha. Longford aborda uma figura pouco conhecida do grande público, um nobre, um lord que lutou a vida inteira por uma sociedade mais igualitária, mais justa, menos preconceituosa. Maldito Futebol Clube conta a fantástica, fabulosa história de Brian Clough, um técnico de futebol que só os amantes de futebol conhecem. O Discurso do Rei é o único deles que trata de uma pessoa mais famosa, mais amplamente conhecida, o rei George VI, o monarca do Império Britânico entre 1936 e 1952, o rei que estava no trono ao longo de toda a Segunda Guerra Mundial – o pai da rainha Elizabeth II.

O sujeito que realizou aqueles três filmes, e mais este aqui, já assegurou seu lugar entre os grandes cineastas da História.

Eddie Redmayne e Alicia Vikander estão excepcionais, maravilhosos

E, também tão jovem, Eddie Redmayne assegura seu lugar como um dos grandes atores da História. O rapaz nascido em Londres em 1982, que estava portanto com 33 anos quando A Garota Dinamarquesa foi lançado, já ganhou um Oscar, por sua admirável, extraordinária interpretação de outra figura real, o físico e cosmólogo Stephen Hawking, em A Teoria de Tudo (2014), e teve uma segunda indicação ao prêmio por este filme aqui. Em uma filmografia de 27 títulos, Eddie Redmayne já colecionou 22 prêmios e outras 68 indicações. É um fenômeno.

Sua dupla atuação aqui como o pintor dinamarquês Einar Wegener (1982-1931) e como Lili Elbe – a mulher em que ele se transformou e, como dizem os letreiros finais, “permanece uma inspiração para o movimento transgênero” – é arrebatadora. É de babar. É de se aplaudir de pé como na ópera.

O diretor Tom Hooper soube, com inteligência, aproveitar ao máximo o talento extraordinário do ator. A câmara do diretor de fotografia Danny Cohen pousa sobre o rosto de Einer Wegener e o de Lili Elbe e deixa-se ficar ali, longamente. As expressões que vemos nos emocionam: vemos dor, angústia, dúvida, às vezes carinho e afeto por Gerda – nossa, e que mulher é essa Gerda que a roteirista Lucinda Coxon criou, e a quem a atriz Alicia Vikander deu vida.

Alicia Vikander… Essa moça é, assim como o colega Eddie Redmayne, um espetáculo, um assombro, e tem aqui, como a companheira fiel de Einer que soube também ser companheira fiel de Lili, uma interpretação magnífica, fora de série.

Sueca de Gotemburgo, nascida em 1988, estava portanto com apenas 27 anos quando o filme foi lançado. Sua filmografia tem 34 títulos, e ela já coleciona 51 prêmios, fora outras 55 indicações. Por sua interpretação de Gerda Wegener, levou o Oscar de melhor atriz coadjuvante e teve indicações ao Globo de Ouro e ao Bafta como melhor atriz – atriz, atriz principal, e não coadjuvante. (A inclusão de seu nome como atriz coadjuvante no Oscar é prova de que a Academia tem razões que a própria razão desconhece: Alicia Vikander apareça na tela tanto quanto Eddie Redmayne.)

Depois de filmes na sua Escandinávia natal – como o belo dinamarquês O Amante da Rainha (2012), foi atraída por Hollywood e tem emprestado sua beleza e talento a filmes de ação tipo Ex Machina: Instinto Artificial (2014) e Jason Bourne (2016). Espero que saia dessa.

No elenco, uma Babel: são atores de diversos países         

A Garota Dinamarquesa ganhou 29 prêmios, fora outras 72 indicações. Além do Oscar ganho Alicia Vikander na categoria errada de atriz coadjuvante, o filme teve indicações ao prêmio da Academia nas categorias de melhor ator para Eddie Redmayne, melhor figurino e melhor desenho de produção.

Ao Bafta, o maior prêmio do cinema da Grã-Bretanha, teve cinco indicações, inclusive ao prêmio Alexander Korda para melhor filme.

Interessante, porque é britânico, sim – o diretor, a roteirista e o ator principal são britânicos, todos os diálogos são em inglês –, mas a rigor é uma co-produção Inglaterra-EUA-Alemanha-Dinamarca-Bélgica. Foi filmado basicamente na Dinamarca, onde boa parte da história se passa, mas também na Bélgica, na Noruega e na própria Inglaterra.

O fantástico é a Babel dos atores que a produção reuniu. Como já foi dito, os dois papéis principais – Einer/Lili e Gerda – são interpretados por um inglês e uma sueca.

Matthias Schoenaerts, que interpreta Hans Axgil, o amigo de infância de Einer, e depois se torna também grande amigo de Gerda, é belga.

Amber Heard, que faz Ulla, a dançarina, grande amiga do casal Einer e Gerda, é americana do Texas. Adrian Schiller, que faz Rasmussen, o marchand de Einer, é inglês. E o grande alemão Sebastian Koch, de, entre tantos outros bons filmes, A Vida dos Outros (2006), faz, quase em uma participação especial, o dr. Warnekros, que se tornaria o primeiro médico a executar uma operação de troca de sexo no mundo, em 1926.

O livro em que  o filme se baseia não é uma biografia acurada: tem muita ficção

Em suma, A Garota Dinamarquesa é um filme tão assombrosamente bom que não sobra muita coisa para eu opinar. Vou atrás de informações objetivas – e a tarefa é fácil. Só a página de Trivia sobre ele no IMDb tem mais de 50 itens.

Lili Elba morreu aos 49 anos, em 1931, após realizar uma quinta operação para a completa transformação em mulher. (No filme são mostradas duas operações.) Dois anos após sua morte, foi publicada uma autobiografia, Fra mand til kvinde, ou, em inglês, Man Into Woman, De homem a mulher – basicamente, a transcrição das anotações que ela fez em seu diário.

Seguramente a autobiografia foi uma das fontes que o escritor americano David Ebershoff consultou para escrever o livro sobre a vida de Einar Wegener/Lili Elbe, no qual Lucinda Coxon se baseou para escrever o roteiro de A Garota Dinamarquesa.

A Garota Dinamarquesa, o livro de David Ebershoff, não pretende ser uma biografia acurada de Einar/Lili. É uma versão bastante romanceada da vida da pessoa real; muitos elementos foram mudados, e há personagens no livro que são inteiramente fictícios.

Tanto que o filme toma o cuidado de não afirmar que é baseado em história real. Sequer a frase “Inspirado em uma história real” é usada.

Cinema não é recriação da realidade, a vida real tal qual ela é

A Wikipedia em português afirma que Lili Elbe era intersexual; já segundo a Wikipedia em inglês, “é bastante provável que Elbe tenha sido uma pessoa intersexual, embora isso tenha sido tema de polêmica”. O IMDb afirma que Lili era intersexual; que dois médicos que ela procurou a diagnosticaram como homossexual, e um terceiro como intersexual. E lembra que, no filme, não há referência a intersexualidade.

De fato, não há. O filme não se preocupa em se aprofundar sobre detalhes anatômicos, genéticos, de cromossomas. Mostra, claramente, da forma mais límpida possível, que, depois de viver durante um bom tempo como homem, tendo um casamento afetuoso, carinhoso e sexualmente pleno com Gerda, o pintor Einar Wegener passou a perceber que era, por dentro, uma mulher. E a partir daí foi assumindo a identidade feminina.

O IMDb também afirma que Einar/Lili não foi a primeira pessoa transgênero a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo – na realidade, foi uma das primeiras (nas fotos abaixo, Einar e Lili).

Ainda segundo o IMDB, muito do que o filme mostra sobre a relação entre Einar/Lili e Gerda é fictício. A Gerda do filme permaneceu leal, fiel e próxima de Einer/Lili durante todo o tempo, até o final. Gerda, no filme, era uma mulher de personalidade forte, que não queria de forma alguma viver à sombra de Einar, um pintor de grande fama na Dinamarca enquanto ela própria, Gerda, também pintora, ainda não era muito reconhecida. Mas sempre foi absolutamente apaixonada por Einer, e sentia falta dele, e do sexo com ele, quando ele foi deixando Einar de lado e encarnando Lili.

Segundo relatos mais acurados – diz o IMDb –, não foi bem assim. Na realidade, Gerda era bissexual, ou lésbica, e preferia a feminilidade de Lili à masculinidade de Einar. Além disso, os dois, ao contrário do que o filme mostra, tinham uma relação aberta, e, em Paris, Gerda viveu abertamente como uma lésbica.

Essa distância entre os personagens reais e os que vemos no filme não me incomoda nem um pouco. A história que o filme mostra é uma bela história de amor, de angústia, de coragem, de luta para o/a protagonista assumir aberta e fisicamente sua identidade feminina. É o que vale, é o que importa.

Cinema não é recriação da realidade, a vida real tal qual ela é. De forma alguma. O cinema se inspira na vida real – mas não se envergonha por ser mais belo, mais bem acabado, mais ricamente produzido que ela.

Anotação em junho de 2017

A Garota Dinamarquesa/The Danish Girl

De Tom Hooper, Inglaterra-EUA-Alemanha-Dinamarca-Bélgica, 2015

Com Eddie Redmayne (Einar Wegener / Lili Elbe), Alicia Vikander (Gerda Wegener)

e Matthias Schoenaerts (Hans Axgil), Amber Heard (Oola, a amiga dançarina), Adrian Schiller (Rasmussen, o marchand de Einer), Ben Whishaw (Henrik), Sebastian Koch (Dr. Warnekros), Emerald Fennell (Elsa), Richard Dixon (Fonnesbach), Pip Torrens (Dr. Hexler), Raphael Acloque (homem no parquet), Alexander Devrient (homem no parque), Nicholas Woodeson (Dr. Buson), Philip Arditti (Dr. McBride), Miltos Yerolemou (Dr. Mai), Sophie Kennedy Clark (Ursula)

Roteiro Lucinda Coxon

Baseado no livro de David Ebershoff

Fotografia Danny Cohen

Música Alexandre Desplat

Montagem Melanie Ann Oliver

Casting Nina Gold

Produção Working Title Films, Pretty Pictures, ReVision Pictures, Senator Global Productions, Copenhagen Film Fund

Cor, 119 min (1h59)

****

2 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 28 setembro 2017 às 7:21 pm | Permalink

    Dessa vez você se superou!!! Achei o filme maravilhoso (fiquei feliz por você reconhecer o talento dos jovens atores), e seu texto é O TEXTO sobre ele.

    PS: Alicia Vikander estava sendo cotada há pouco para interpretar a melhor-de-todas (Agatha Christie) em um filme, será que vai?

  2. José Luís
    Postado em 30 setembro 2017 às 10:08 am | Permalink

    Vi uma meia-hora no Netflix e depois desisti. Achei aborrecido. O assunto, na verdade, não me interessa muito.
    As imagens do filme são muito bonitas lá isso é verdade.

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