Vida de Solteiro / Singles

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Nota: ★★★☆

Cada geração merece ter pelo menos um filme que fale sobre ela, seus sonhos, ideais, valores, encontros, desencontros, temores, frustrações, alegrias. Singles, no Brasil Vida de Solteiro, é o filme sobre a geração que, na época do lançamento, 1993, estava aí entre os 25 e os 30 anos. Gente nascida entre 1961 e 1965 – exatamente como os atores principais.

Campbell Scott e Sheila Kelley são da safra de 1961 – dois anos mais jovens que a Mary. James LeGros é de 1962. Matt Dillon e Bridget Fonda, de 1964. E Kyra Sedwick é de 1965.

Entre o ano em que Campbell Scott nasceu e o de Kyra Sedwick, o adolescente Sérgio Vaz viu uns 500 filmes, num total contadinho de 575 idas ao cinema (muitos eu via e revia). Vários deles marcaram minha geração, e também algumas gerações que vieram um pouco antes, como, só para dar uns pouquíssimos exemplos, Assim Caminha a Humanidade/Giant (1956), Morangos Silvestres/ Smultronstället (1957), Os Incompreendidos/Les Quatre-Cents Coups (1959), West Side Story (1961).

Há os que marcam gerações, e há os que definem, desenham, demonstram como são as gerações. É o caso de O Grupo (1966), Nós Que Nos Amávamos Tanto/C’eravamo Tanto Amati (1974), O Reencontro/The Big Chill (1983), O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas/St. Elmo’s Fire (1985), Sobre Ontem à Noite…/About Last Night… (1986), Para o Resto de Nossas Vidas/Peter’s Friends (1992), Até a Eternidade/Les Petits Mouchoirs (2010), Retorno a Ítaca/Retour à Ithaque (2014).

Singles pertence a essa bela linhagem.

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“O filme-manifesto do movimento grunge”

Para ser universal, para fazer uma obra que seja compreendida (e amada) no mundo todo, nada como falar da sua aldeia, daquilo que você conhece bem. Cameron Crowe desde cedo deu demonstrações de saber direitinho essa lei. Nascido na Costa Oeste – em 1957, pouco antes dos atores deste seu segundo filme como diretor, quarto como autor de argumento e roteirista –, ambientou a história ali mesmo, na juventude classe média das grandes cidades da Costa Oeste, só que um pouco mais ao Norte, em Seattle. Como sempre tinha tido ligação com música, tinha escrito matérias sobre música para a emblemática revista Rolling Stone, escolheu Seattle porque era ali que havia um intenso movimento, uma usina de novas bandas: naquele início dos anos 90, Seattle era o que a Haight-Ashbury de San Francisco havia sido em meados dos anos 60, a época da explosão de Janis Joplin, Jimi Hendrix, The Byrds, The Mama’s and the Papa’s, Johnny Rivers.

Cada geração merece ter um tipo de som que se identifique com ela, seus sonhos, ideais, valores, encontros, desencontros, temores, frustrações, alegrias – e, ao situar a ação de Singles na Seattle de 1992, Cameron Crowe fez o filme que guardará para todo o sempre a cara, o jeitão, o estilo do grunge, o lugar e o momento em que veio ao mundo o som do Pearl Jam, Nirvana, Alice in Chains.

O sempre sintético Cinéguide francês usaria a seguinte definição: “o filme-manifesto do movimento grunge”.

São cinco ou seis personagens principais, jovens em torno dos 25 anos

Era muito jovem o autor e diretor Cameron Crowe, mas já tinha grande talento – para escrever bons diálogos, boas piadas, e para dirigir atores.

Teve a sorte de reunir um belo elenco, um monte de bons jovens atores que interpretam os cinco ou seis personagens principais dessa história que é assim meio mosaico, ou, em linguagem mais pedante, estrutura multiplot – uma narrativa à la Short Cuts, sobre diversos personagens que têm alguma ligação entre si.

Kyra Sedgwick é a primeira a aparecer na tela. Seu personagem, uma ativista numa organização ambientalista, se chama Linda. Kyra-Linda aparece falando direto para a câmara, ou seja, para o espectador. É um recurso que será usado por todos os personagens centrais, ao longo dos 99 minutos de filme. Ela conta que está agora, finalmente, morando em uma casa só dela.

Os outros personagens principais todos moram num prédio baixo de apartamentos, em forma de um U, que mais parece uma república de estudantes, já que todos se conhecem, todos sabem da vida de todos, e praticamente não há privacidade.

Linda, assim como todos os demais personagens do filme, assim como a imensa maioria dos jovens em torno dos 25 anos, não tem uma vida afetiva tranquila, pacífica. Bem ao contrário. Veremos mais adiante na narrativa que ela havia namorado um sujeito muito rico – até que, no meio de um passeio numa montanha russa, o sujeito confessou para ela que a) não era rico coisa alguma e b) estava transando com uma outra fulaninha.

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Por acaso, Linda vai se envolver, bem no comecinho da narrativa, com um garoto boa pinta, um espanhol, Luiz (Camilo Gallardo), que diz para ela que terá que voltar a seu país porque seu visto de permanência está vencendo.

Na primeira noite sem o garoto espanhol, o qual deveria naquela hora estar chegando a Madri, Linda vai a um clube noturno ouvir uma banda nova de rock, das muitas que estão surgindo em Seattle. No bar, vê Luiz aos beijos com uma outra mulher.

Fim do primeiro pequeno capítulo deste Singles.

O filme se divide em capítulos, como se faziam na nouvelle vague

Muitos filmes da nouvelle vague dividiam-se em capítulos, tinham letreiros com títulos separando uma sequência de outra, como se fossem títulos de capítulos de livros. É bem possível que Cameron Crowe, garoto esperto, descolado, tenha visto os filmes da nouvelle vague.

A divisão em capítulos de Singles é inteligente, bem sacada, gostosa.

Depois de conhecermos Linda e seus problemas, ou o seu problema de não conseguir encontrar nenhum tipo de amor um tanto estável, ficamos conhecendo Steve, o personagem de Campbell Scott (na foto acima). Steve trabalha em algo que tem a ver com transporte, não consegui muito bem entender exatamente o que é aquilo, e isso não tem qualquer importância na história. O importante é que Steve é exatamente como Linda: jamais tinha conseguido encontrar um relacionamento tranquilo, estável.

É claro que os dois vão se encontrar, vão demorar muito para ficar juntos, depois vão enfrentar mil de problemas.

O outro casal principal da história é formado pelos personagens de Bridget Fonda e Matt Dillon. Chamam-se Janet e Cliff.

Ele é o vocalista de uma banda de rock bastante alternativo. É um absoluto babaca, que se acha o maior John Lennon, o maior Jimi Hendrix da história da música. Ela trabalha numa cafeteria, é apaixonada por ele, acha que ele é a coisa mais maravilhosa da terra.

Ele dá muito pouca importância a ela.

Cliff parece gostar de mulheres de seios fartos. Janet vai a um médico, o dr. Jamiston (o papel de Bill Pullman, que parece no filme ter uns 22 anos, mas na verdade já estava na época com 39), conhecido cirurgião plástico especializado em enchimento de seios.

O dr. Jamiston pede licença para dizer algo que jamais tinha dito antes. E diz a Janet-Bridget Fonda que ela não deve fazer cirurgia alguma nos seios, que ela é perfeita, maravilhosa demais, e que se o namorado dela não gostar dela do jeito que ela é, o problema é dele, e não dela.

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Um documento perfeito de como era Seattle na explosão do grunge

As historinhas dos personagens são gostosinhas, engraçadas, bem-humoradas – e tudo vem sempre acompanhado do som grunge que se fazia em Seattle e se espalharia pelo mundo.

O filme de Cameron Crowe não é metido, não pretende ser nada além de uma comedinha romântica divertida, simpática, gostosa. Acabou sendo muito mais que isso – como já disse, o filme conseguiu preservar para sempre esse momento, esse lugar, o que era Seattle na hora da explosão do grunge, e como era a cara das pessoas ali. Se a humanidade vier a destruir de vez a vida neste planeta, mas restar nele um DVD de Singles, as civilizações mais avançadas que vierem até aqui fazer arqueologia terão no filme um documento perfeito, incomparável.

Por algum motivo que não sei explicar, eu havia perdido Singles em seu tempo. Não vi o filme em 1992 – só aconteceu de vir a vê-lo agora, tanto tempo depois.

Me choquei com o quão barulhento e desinteressante era o som grunge que Cameron Crowe revelava ao mundo. Mas me encantei com o filme, os personagens, as locações, as piadas.

Me encantei, sobretudo, com os quatro atores principais. Tenho, sempre tive, grande simpatia por Kyra Sedgwick. Depois de ver o filme, fiquei contente ao ver que ela continua casada com Kevin Bacon – casaram-se em 1988, tiveram dois filhos. Trabalharam juntos num filme importante, um hino pela segunda chance, pelo perdão a quem já cumpriu prisão por crime, ainda que bárbaro – O Lenhador/The Woodsman (2004).

Campbell Scott está ótimo como o sujeito que não sabe como se comportar quando quer que um namoro eventual dê certo.

Mas são Matt Dillon e Bridget Fonda que roubam a cena.

Matt Dillon conseguiu fazer as caras mais engraçadas, mais estapafúrdias, de um roqueiro que se acha o máximo mas talvez no fundo, no fundo, saiba que é apenas um babaca de um idiota. A cabeleireira imensa dele é tão impagável quanto as caras que faz. É uma alegria ver o garoto se divertindo naquele papel.

Mas Bridget…

Ah, Bridget…

Meu Deus do céu, Bridget…

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No auge da beleza e da carreira, Bridget mandou tudo para o espaço

Mais de uma vez escrevi aqui que sentia falta de Bridget. Que Bridget deveria fazer mais filmes.

Se quisesse, Bridget poderia ter tido uma carreira esplendorosa, e esplendorosamente longa, como a de seu avô Henry e a de sua tia Jane.

Agora, neste ano de 2016 em que vi pela primeira vez Singles, Bridget, de 1964, está com 52.

Quando Henry Fonda estava com 52, em 1957, fez um dos filmes mais belos de sua magnífica carreira, 12 Homens e uma Sentença.

Quando Jane Fonda estava com 52, em 1989, fez Gringo Velho, ao lado de um magistral Gregory Peck de cabeleira inteiramente branca. No ano seguinte, faria seu primeiro filme ao lado de Robert De Niro, Stanley & Iris. Depois disso se casaria com o milionário Ted Turner e ficaria 15 anos longe do cinema.

Em 1992, Bridget estava no auge da beleza jovem – havia herdado a imensa beleza do avô e do pai, Peter. Era lindérrima, aos 28 aninhos – e irradiava talento.

Poderia ter enchido a sala de sua casa de Oscars.

Resolveu, no entanto, se aposentar dessa coisa de show business.  Em 2003, aos 39 anos, casou-se (com o compositor Danny Elfman, autor de diversas belas trilhas sonoras) e virou mamãe-ser humano em horário integral.

Sinto falta de ver a beleza e o talento de Bridget nas telas. Mas, ao mesmo tempo, fico numa felicidade danada ao ver que há quem prefira jogar no lixo a fama e cuidar de ser feliz do jeito que quer.

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Diversos atores fazem participações especiais engraçadas

É necessário registrar: o filme ajudou, e muito, a carreira de Cameron Crowe, que acabou se estabelecendo como um caso um tanto singular no cinemão comercial americano. É um diretor que faz filmes pessoais, sempre, ou no mínimo quase sempre, escritos e roteirizados por ele mesmo; não são muitos os realizadores que aparecem nos créditos com a expressão “written and directed by” – ainda mais se levarmos em consideração que Crowe não faz filmes independentes, ou de orçamentos baixos. Não. Suas produções, sempre com atores famosos, são do cinemão comercial de Hollywood.

E teve vários sucessos na carreira, entre eles Jerry Maguire – A Grande Virada/Jerry Maguire (1996), Quase Famosos/Almost Famous (2000), Vanilla Sky (2001), Compramos um Zoológico/We Bought a Zoo (2011).

Leonard Maltin deu 2.5 estrelas em 4 para Singles: “A vida de solteiros em Seattle: não é fácil. Animada comedia séria com algumas interpretações interessantes (especialmente de Scott e Sedgwick), mas nunca tão sólida – ou perspicaz – quanto você gostaria que fosse. O filme tem música, configuração e estilo, mas também um roteiro bastante irregular. Eric Stoltz (que aparece em todos os filmes do diretor), Tom Skerritt e Peter Horton fazem divertidas participações especiais.”

Hum… Achei Maltin meio exigente demais.

Mas ele fala de uma coisa importante sobre a qual eu ainda não tinha comentado: as participações especiais. O filme está cheio delas.

Eric Stoltz faz um mímico que aparece apenas duas vezes, se não estou enganado. Tom Skerritt, possivelmente o ator mais velho que aparece na tela, faz o prefeito de Seattle, a quem Steve apresenta o projeto de um supertrem para melhorar o trânsito na cidade. Peter Horton faz um ciclista profissional, que a garota Debbie (Sheila Kelley) tenta conquistar, mas que se engraça com a moça que divide o apartamento com ela, Pam (Ally Walker).

Tem mais. Paul Giamatti aparece numa única sequência, num papel engraçado. É uma sequência em que Steve e Linda estão numa lanchonete, num dos seus primeiros encontros. Ainda não rolou nada entre eles, estão tateando, os dois, tentando ver se vale a pena investir na relação. Numa mesa ao lado, há um casal se beijando loucamente. Quando saem da lanchonete, Steve e Linda comentam que o sujeito estava quase engolindo a namorada.

O beijador entusiasmado é Paul Giamatti. Foi o terceiro filme de uma carreira que teria uma indicação ao Oscar e dois Globos de Ouro, fora outras três indicações aos Golden Globes.

Mais ainda: Tim Burton, que também aparece em uma única cena, faz o papel de um videomaker sobre o qual uma mulher de uma agência de encontros de pessoas solitárias diz: “Ele será o novo Martin Scorsese”.

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A gente se pega sorrindo no meio do filme. É divertido, é gostoso

Roger Ebert deu ao filme 3 estrelas em 4. Trechos de seu texto:

Singles conta a história um bando de amigos e vizinhos que moram num prédio de apartamentos em Seattle e sonham com o amor. Estão todos com 20 e tantos anos, são razoavelmente atraentes e não particularmente desesperados, mas todos têm uma provação com a qual todas as pessoas podem se identificar: a dificuldade de achar alguém que goste de você e de quem você goste. Parece que sempre que um lado da equação está certo, o outro está errado.”

Mais adiante:

“O filme vai desafiar alguns espectadores simplesmente porque ele não é uma progressão tipo 1-2-3 de personagens e trama. Não há problema algum no começo nem solução no fim; o filme é sobre um processo da vida que é, pela sua própria natureza, inconclusivo – a procura da felicidade. A visão de Crowe sobre o assunto inclui uma percepção particular: quando você está na faixa dos 20 anos, você tende a passar mais tempo tentando se colocar no mapa do que se preocupando com a felicidade de qualquer outra pessoa. Observemos a forma com que o personagem de Scott promove sua idéia para um sistema de transporte rápido para Seattle. Ele acredita em trens? Apenas até certo ponto. Ele acredita nos trens que ele mesmo projeta.”

E conclui:

Singles não é um filme de ponta, e partes dele podem parecer caprichosas demais, ou desorganizadas demais, para audiências acostumadas a tramas de causa-e-efeito. Mas eu me peguei sorrindo bastante durante o filme, algumas vezes por diversão, algumas vezes por admiração. É fácil gostar daqueles personagens, e torcer por eles.”

Roger Ebert era mesmo um crítico maravilhoso.

Está certíssimo ele. Eu também me peguei sorrindo bastante enquanto via o filme. É divertido, é gostoso. È preciso de mais alguma coisa?

Anotação em junho de 2016

Vida de Solteiro/Singles

De Cameron Crowe, EUA, 1992

Com Campbell Scott (Steve Dunne), Kyra Sedgwick (Linda Powell), Bridget Fonda (Janet Livermore), Matt Dillon (Cliff Poncier), Sheila Kelley (Debbie Hunt), Jim True (David Bailey), Bill Pullman (Dr. Jeffrey Jamison), James LeGros (Andy), Devon Raymond (Ruth), Camilo Gallardo (Luiz), Ally Walker (Pam), Eric Stoltz (o mímico), Jeremy Piven (Doug Hughley), Tom Skerritt  (prefeito Weber), Peter Horton (Jamie, o ciclista),

Paul Giamatti (homem que beija na lanchonete), Alicia Roper (mulher que beija na lanchonete), Cameron Crowe (entrevistador em clube), Tim Burton (o videomaker)

Argumento e roteiro Cameron Crowe

Fotografia Tak Fujimoto e Ueli Steiger

Música Paul Westerberg

Montagem Richard Chew

Casting Owens Hill

Produção Warner Bros., Atkinson/Knickerbocker Productions.

Cor, 99 min

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Um Comentário

  1. Senhorita
    Postado em 15 setembro 2016 às 7:57 pm | Permalink

    Matt Dillon foi minha paixão de adolescente, nos tempos em que paixão de adolescente era o Leonardo DiCaprio.

    Achei o texto tão bacana quanto o filme, e adorei a ode à Bridget. Ah, e muitíssimo obrigada pelo elogio inesperado ao Greg 🙂

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » O Inocente / The Innocent em 11 julho 2017 às 1:54 pm

    […] ação se passa na Alemanha dos anos 50, no auge da guerra fria: Leonard, um jovem oficial inglês (Campbell Scott), especialista em comunicações e vigilância, se apresenta perante um grupo de militares aliados […]

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