Um Novo Dueto / Une Autre Vie

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Nota: ★★★☆

Este Une Autre Vie, no Brasil incompreensivelmente intitulado Um Novo Dueto, é um filme triste, danado de triste. Não que contenha grandes tragédias. Conta uma história de amor triste, uma história de amor que parece inapelavelmente fadada a não dar certo.

É triste. Desesperançado. Melancólico. Daria para parafrasear T. S. Elliott e dizer que Une Autre Vie mostra o fim de uma história de amor não como um estrondo, mas como um gemido. Um gemido baixo, surdo, doído.

Essa foi a característica que mais me impressionou neste belo e sensível filme, porque poucos meses antes tínhamos visto a obra imediatamente anterior do autor e realizador Emmanuel Mouret, A Arte de Amar (2011) – e A Arte de Amar é uma comédia romântica gostosamente romântica e terrivelmente engraçada.

Antes de ver A Arte de Amar, não conhecia esse jovem ator, diretor e roteirista nascido em Marselha em 1970. Ao comentar o filme, escrevi: “Tem dez títulos como diretor e escritor de argumento e roteiro, e, pelo que dá para ver pelas sinopses no IMDb, é autor que quer ficar num estilo só: seus filmes são quase sempre comédias românticas. Há apenas duas exceções, que são mistura de drama e comédia. Apesar de tão jovem, consegue atrair bons atores para seus filmes: antes deste A Arte de Amar, de 2011, que foi seu oitavo filme, sétimo longa-metragem, já havia filmado com Nicole Garcia, Nathalie Baye, Virgine Ledoyen, Isabelle Carré, Judith Godrèche, Marie Gillain, Marie Laforêt (ela mesma, a garota dos olhos de ouro!), Ariane Ascaride. O que é uma prova cabal de que é um realizador respeitado, benquisto.”

E então, em seu filme lançado em 2013, ele vem com um drama sério, denso. Não há motivo para um sorriso sequer do espectador ao longo dos 95 minutos de Une Autre Vie.

Emmanuel Mouret mudou de estilo – e prova que sabe escrever, roteirizar e encenar drama tão bem quanto comédia.

Une autre vie, un film d'Emmanuel Mouret avec Jasmine Trinca (Aurore)

Uma grande pianista tem um colapso. Dois anos depois, tenta retomar a carreira

A primeira sequência – enquanto vão rolando os créditos iniciais – é de tremendo impacto. Vemos as mãos de uma pianista executando uma peça erudita, num teatro – uma peça unicamente para piano, para piano solo.

É um plano fechado, quase um close-up: vemos apenas o teclado e as mãos da pianista.

Logo após o acorde final, corta para um plano mais aberto, quase de conjunto: vemos toda a pianista, uma mulher jovem, bela, de cabelos bem curtos, vestido negro. Começam as palmas da audiência. A pianista começa a se levantar da cadeira para agradecer – e imediatamente cai no chão, desmaiada.

Crack down. Colapso. Derrocada. Desmoronamento. Tensão demais, stress demais – e Aurore (interpretada por Jasmine Trinca) desaba diante da platéia que começava a aplaudi-la em êxtase.

Corta, e Aurore está despertando numa cama de hospital. Um médico conversa baixinho com um homem, junto de uma janela. Ele diz: – “É você que cuida da agenda dela, não é? Não se preocupe. Com repouso ela ficará bem”.

E o homem – que, veremos, se chama Paul (Stéphane Freiss, na foto abaixo): – “Nosso pai morreu ontem à noite. Posso dar a notícia, ou espero mais um pouco?”

Uma tomada do rosto de Aurore deitada ali perto, olhos abertos. Corta, e vemos Aurore e seu irmão Paul de pé, recebendo os cumprimentos dos amigos no enterro do pai deles. A imagem desaparece em fade out, e, na tela negra, vem o que faltava dos créditos iniciais, o título do filme, Une Autre Vie. Uma outra vida.

E aí vemos Aurore ensaiando uma nova peça, de autoria de um jovem compositor que, ao que tudo indica, é um gênio precoce. De maneira interessante, o filme não conta para o espectador o nome do jovem compositor, interpretado por Thibault Vinçon. Pela sala caminha Paul, o irmão – que, veremos ao longo da narrativa, já foi ele também um grande pianista, mas quebrou a mão, não toca mais, e agora se dedica a cuidar da carreira da irmã mais nova. É seu empresário, agente, tesoureiro.

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Um letreiro informa: “Dois anos mais tarde”.

Passaram-se dois anos do colapso, e Aurore está retomando a carreira. Ela faz perguntas ao compositor sobre determinada passagem da obra, ele responde com ar de quem está encantado porque sua composição será tocada por aquela grande pianista.

Saem para almoçar os três, e Paul diz para os dois entrarem primeiro, ele vai fumar um cigarro – a sequência é rápida, mas fica claro, para o espectador atento, que Paul quis usar um pretexto para deixar a irmã sozinha com o compositor durante um tempinho.

À noite, Aurore e o compositor estão juntos de novo no jantar. Quando ela chega junto à porta de casa, ele se aproxima para beijá-la. Ela cede durante um rápido momento, mas em seguida o afasta, com suavidade, uma suavidade triste.

Todas essas sequências são rápidas, mas extremamente bem encenadas, e vão dizendo ao espectador tudo o que está acontecendo. Ao afastar o compositor, Aurore – dá perfeitamente para a gente entender, embora ela não fale nada – está dizendo algo do tipo: ainda não, ainda não estou preparada.

Um encontro – seria para encerrar o caso, ou tentar um recomeço?

E então vemos Paul e Aurore na sala de uma imensa casa no meio do campo. Estão com um corretor e um comprador – estão vendendo a grande mansão que era da família, e que agora, com a morte do pai, não tem mais sentido ser mantida. Veremos que a casa fica no campo, na montanha, mas bem próxima do Mediterrâneo, da Côte d’Azur, na região Provence-Alpes-Côte d’Azur.

Depois que corretor e comprador vão embora, Paul e Aurore conversam um pouco, sentados num murinho externo da casa. Paul pergunta se ela está arrependida, diz que não tem boas memórias dali. Toca o celular de Aurore, ela fala umas poucas palavras. Paul pergunta quem é, ela não responde, o irmão diz: – “Você contou para ele que você estaria aqui?” Ela não responde. Paul encerra a conversa: – “Você é bem cruel”.

Aurore vai de táxi ao lugar marcado para o encontro, um bosque junto do mar. A conversa com o homem que ela encontra, Jean (interpretado por Joey Starr, ator, compositor, cantor, um dos líderes da banda de rap Suprême NTN), não flui muito bem. Ela pergunta o que foi, por que ele tanto olha para ela, ele responde que está tentando ver se ela mudou. Ela pergunta pela conclusão a que ele chegou, e ele brinca: “Você continua velha e feia”.

Ele tira do bolso uma correntinha, diz que quer devolver. Ela pede para ele ficar com ela, ele insiste, então ela pega a correntinha e a coloca no pescoço.

Agora é o telefone dele que toca, ele se levanta do banco em que estavam sentados para atender um pouco distante dela.

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Aurore fica olhando para Jean, o mar atrás dele, e vemos que ela está mergulhada em pensamentos sobre o passado, sobre a história dela com aquele homem. Ainda não sabemos se o encontro foi marcado para um adeus final ou para uma eventual tentativa de recomeço.

Corta, surge um letreiro “Alguns meses antes”: Aurore está com o irmão Paul na casa dos pais. Conversa com Claudine, a mulher que, se vê perfeitamente, é mais que uma empregada doméstica, é a governanta que cuidava da casa e do pai viúvo de Paul e Aurore.

Claudine é interpretada por Ariane Ascaride (à esquerda na foto abaixo), numa “participação excepcional”, como está dito nos créditos iniciais. Ariane Ascaride – que esteve também no filme anterior de Emmanuel Mouret, A Arte de Amar, é a mulher e a musa do diretor marselhês de origem armênia Robert Guédiguignan. Dá perfeitamente para imaginar que o jovem Mouret tem seu conterrâneo mais velho como um mestre, um preceptor, e, sempre que pode, oferece um papel em seus filmes para Ariane, atriz excelente.

Todo triângulo amoroso é triste – mas este aqui é inimaginável

O roteiro de Mouret vai e vem no tempo. Não demais, não cansativamente – mas irá, sim, ir e vir um pouco no tempo para contar essa triste história de amor.

Quando surge o letreiro “Alguns meses antes”, o filme não chegou ainda sequer a 15 minutos. Tudo aquilo que relatei que vem antes disso rola de maneira bem rápida, como já foi dito.

Então: dois anos antes de estar retomando sua carreira de pianista, e começando a ter um envolvimento com um jovem compositor, Aurore havia tido um colapso.

Alguns meses antes do retorno às atividades, Aurore esteve passando um período descansando na propriedade da família, agora sem o pai, morto exatamente na época do colapso nervoso.

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Foi nessa época, possivelmente um ano e pouquinho depois do colapso e da perda do pai, que Aurore ficou conhecendo Jean. Ele tinha uma pequena empresa de serviços de eletricista, e foi vários dias à casa da família de Aurore para instalar um sistema de alarme.

Aurore ficou atraída por ele de imediato.

Foi só depois que os dois começaram a ter um caso que ela ficou sabendo que ele era casado. A mulher dele, Dolorès (o papel da belíssima Virginie Ledoyen, na foto abaixo), trabalhava como vendedora numa boutique na cidade mais próxima. Tinha um histórico triste e um presente apavorante: havia perdido os pais num incêndio, e não tinha parente algum – nem amiga. Sua única ligação com o mundo era Jean, que ela conhecia desde criança. Haviam crescido juntos, nunca tinham vivido longe um do outro.

Todo triângulo amoroso é triste. Um triângulo amoroso em que uma das três pessoas só existe em função de uma outra é algo inimaginável.

É bem interessante a escolha de cada um dos três atores principais

Interessante que Emmanuel Mouret tenha escolhido Jasmine Trinca para o papel central do filme. Na verdade, é interessante a escolha dos três atores principais – Jasmine Trinca como Aurore, Joey Starr como Jean ee Virginie Ledoyen como Dolorès.

É positivo, sob todos os aspectos, que o principal papel masculino, o do homem por quem a esposa é absolutamente apaixonada, e por quem a pianista famosa se sente atraída de imediato, seja mulato. Numa França, numa Europa ameaçada pela doença horrorosa do racismo, da xenofobia, é uma maravilha que se coloque um ator de pele escura como o homem que duas belas mulheres brancas amam.

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E é interessante também que a esposa seja interpretada por uma mulher de beleza acachapante, fulgurante. E que a amante, a mulher que chega depois, não seja tão fragorosamente bela quanto a outra. Muitas vezes os filmes mostram a amante como a mais bela.

Mas por que escolher uma atriz italiana para o papel de Aurore?

Jasmine Trinca nasceu em Roma, em 1981, numa época em que eu já via filmes com minha filha. Sua filmografia tem uns 20 títulos, praticamente todos no cinema italiano.

Como sua personagem Aurore é uma francesa filha de franceses ricos, e ela fala francês não exatamente como uma francesa, foi necessário criar um diálogo entre ela e Jean, logo que os dois se conhecem, em que ele pergunta a ela sobre o sotaque, e ela explica que seus pais viveram na Itália um bom tempo, e ela nunca conseguiu se livrar do sotaque.

Não conhecia Jasmine Trinca. Gostei muito de vê-la como essa Aurore por quem o espectador cria imensa simpatia. Trabalha bem, é o contrário dos atores que exageram – é bem minimalista, não tem gesto largo, não fala alto, não faz careta. Exprime, exatamente como seria necessário, uma grande tristeza, uma grande perplexidade diante do que o destino reserva para ela.

Naturalmente, o filme mostra a questão da distância entre as classes sociais. Não há como não mostrar. Aurore é rica, de família rica; teve educação fina, e as oportunidades para vir a ser uma pianista clássica. Comparados a ela, Jean e Dolorès são pobres, classe trabalhadora.

Isso está posto no filme, é claro. Mas não é, de forma alguma, ponto central. Não é nisso que Mouret está interessado. O cerne do filme é a história de amor, o triângulo amoroso, os sentimentos dos personagens envolvidos nele.

Já a cor da pele de Jean, isso não é mencionado em momento algum. Emmanuel Mouret faz questão de deixar bem claro que isso sequer merece ser mencionado. Não tem importância alguma.

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Jasmine Trinca tem um rosto belo e triste – perfeito para interpretar Aurore

Depois de ter anotado até aqui, fui ler as informações sobre a produção do filme no AlloCiné, o site que tem tudo, absolutamente, sobre os filmes em língua francesa. Um dos itens do que o IMDb chama de Trivia, e o AlloCiné chama de Secrets de tournage, segredos da filmagem, é sobre essa coisa da passagem das comédias para o drama – o site classifica o filme como melodrama, e cita Mouret dizendo o seguinte: “Nos meus filmes anteriores, a gravidade era escondida, disfarçada, um pouco sugerida. Aqui ela é muito mais frontal. No cinema, eu acho, o problema da gravidade é que ela impõe respeito, ela pede do espectador uma benevolência, e essa benevolência, é preciso pagar de volta a ele, quer dizer, dar alguma coisa para ele ver que não seja um simples descoberta emocional!”

Foi o terceiro filme do diretor com Ariane Ascaride, e o segundo com Virginie Ledoyen. Foi também, ou sobretudo, o primeiro longa escrito e dirigido por Mouret em que ele não trabalha como ator.

Ao contrário do que imaginei, o AlloCiné não fala nada sobre os motivos da escolha da italiana Jasmine Trinca para o papel central.

A falta de informação permite que cheguemos às nossas próprias conclusões.

Acho que o rosto belo e triste de Jasmine Trinca tinha tudo o que Emmanuel Mouret imaginava na vida de sua pobre Aurore.

É um rosto perfeito para o papel dessa moça tão bem aquinhoada de oportunidades e talento e tão pouco dotada para a capacidade de ser feliz.

Ouso dizer que, se não fosse a diferença de meio século, Michelangelo Antonioni ficaria encantado de filmar longas tomadas silenciosas do rosto de Jasmine Trinca.

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Anotação em novembro de 2015

Um Novo Dueto/Une Autre Vie

De Emmanuel Mouret, França, 2013

Com Jasmine Trinca (Aurore), Joey Starr (Jean), Virginie Ledoyen (Dolorès)

e Stéphane Freiss (Paul), Thibault Vinçon (o jovem compositor), Bernard Verley (o medico), Ariane Ascaride (Claudine)

Argumento e roteiro Emmanuel Mouret

Fotografia Laurent Desmet

Música Grégoire Hetzel

Montagem Martial Salomon

Produção Moby Dick Films, Orange Cinéma Séries, Cinémage 7, Indéfilms.

Cor, 95 min

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