Um Misterioso Assassinato em Manhattan / Manhattan Murder Mystery

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Nota: ★★★☆

Um Misterioso Assassinato em Manhattan, de 1993, é o primeiro filme de Woody Allen após os 10 anos e 13 filmes da fase Mia Farrow. Ao longo da fase Mia Farrow, ele fez três dos seis dramas de toda a sua carreira de quase 50 títulos – e mesmo algumas das comédias tinham muita tristeza pairando no ar, como Neblinas e Sombras, de 1991.

Pois então, depois de Maridos e Esposas, de 1992, no seu primeiro filme pós Mia Farrow, ele voltou a fazer comédia escrachada, escancarada, despudora. E, para fazer a mulher do personagem central, interpretado por ele mesmo, chamou Diane Keaton, a mulher de sua vida antes de Mia Farrow.

Os dois parecem ter se divertido imensamente, ao fazer o filme.

Para participar da festa, foram chamados Alan Alda e Anjelica Huston, que já haviam trabalhado com o realizador em Crimes e Pecados (1989). Alan Alda voltaria a trabalhar com ele em Todos Dizem Eu Te Amo (1996).

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Allen faz Larry Lipton, um editor de livros, casado há tempos com Carol. Os dois se gostam, mas parecem ter prazer em implicar um pouco um com o outro, feito dois velhinhos – embora ainda não fossem propriamente velhinhos, Allen com 58 anos e Diane Keaton com 47. Por exemplo: Larry insiste em levar Carol para ver um jogo de hóquei no Madison Square Garden – é a primeira sequência do filme –, embora ela deteste o esporte. Da mesma forma, Carol insistirá em levar Larry ao Metropolitan para ver uma ópera de Wagner – e Larry sairá antes de a apresentação terminar, dizendo uma das mais deliciosas piadas do filme.

Carol: – “O combinado era você ver a ópera toda.”

Larry: – “Não posso ouvir tanto Wagner: me dá vontade de invadir a Polônia.”

Allen usou a idéia básica de Janela Indiscreta: e se o vizinho for um assassino?

Dois fatos que ocorrerão logo no início da narrativa vão se combinar, se potencializar para ameaçar a estabilidade do casamento de Larry e Carol. O primeiro é que um dos casais mais próximos deles vai se separar, e a partir daí Ted (o papel da Alan Alda), agora divorciado, passará a se encontrar bastante com Carol, deixando Larry com ciúmes.

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O segundo fato é a base de toda a trama, e tem a ver com um casal de vizinhos de Larry e Carol, Paul (Jerry Adler) e Lillian (Lyn Cohen). Os dois casais não se conheciam, apesar de morarem no mesmo prédio, no mesmo andar. Ficam se conhecendo um dia qualquer, e Paul e Lillian se mostram extremamente gentis, alegres, animados, e insistem em fazer que o outro casal vá até o apartamento deles, tomar um café ou um chá.

Larry está sem paciência alguma para travar conhecimento com aqueles vizinhos bem mais velhos, mas Carol adora novidades, acha divertido conversar com Lillian. E o casal é de fato muito bem humorado, os dois falam bastante, conversam animadamente, contam histórias. Contam, por exemplo, que Lillian é muito saudável e faz exercícios físicos, anda e corre em esteira. Contam também que têm o plano de serem enterrados juntos, para permanecerem juntos também após a morte.

Poucos dias depois desse primeiro encontro entre os dois casais, todos os moradores do prédio são abalados com a notícia de que Lillian morreu – teve um ataque cardíaco fatal, fatídico, e morreu.

Passam-se uns poucos dias; Larry e Carol estão saindo do prédio para ir à tal ópera, e eles cruzam com Paul. Conversam por um momento, e Paul não está com o semblante triste, abatido, com a morte repentina e recentíssima da mulher. Ao contrário: parece estar muito bem, até alegre, sorridente.

Larry e Carol – ela muito, muitíssimo mais que ele – ficam desconfiados de que há algo muito errado ali. De que Paul pode ter assassinado Lillian – de alguma forma forjado o ataque cardíaco fatal.

Há aí algo de Janela Indiscreta/Rear Window, não há? Não sei se da primeira vez que vi o filme, na época do lançamento, pensei nisso, mas ao revê-lo pela primeira vez agora, fiquei com essa nítida sensação. Com a impressão de que Woody Allen tomou emprestada a idéia básica da trama do filme do mestre Alfred Hitchcock de 1954: e se aquele vizinho for um assassino?

Uma grande piada: “Eu sou seu marido! Você tem que me obedecer!”

O que vai servir como elemento para afastar Carol de Larry será exatamente essa suspeita de que Paul, o vizinho, tenha assassinado a mulher. Larry também teve a suspeita, mas não dá maior importância ao assunto, esquece aquilo, vai tocando a vida. Mas Carol vai ficando cada vez mais intrigada com aquilo. A suspeita vai virando uma obsessão: ela vai dar um jeito de entrar no apartamento do vizinho enquanto ele está fora, vai ficar de tocaia, seguindo os passos dele – e nessas aventuras terá a companhia de Ted, que vai demonstrando que tem mesmo uma queda pela amiga mulher do amigo.

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E, quanto à trama, não é preciso relatar mais do que isso aí acima. Relatar mais seria a rigor spoiler. Mas estou certo de que não é spoiler contar uma ótima piada a respeito do relacionamento entre Larry e Carol. Acontece lá pela metade do filme. Carol insiste em voltar a visitar – na ausência do dono da casa, é claro – o apartamento do vizinho, Paul. Larry tenta de todas as maneiras impedi-la, diz que é crime, invasão de domicílio. Como ela continuava firme na decisão, ele apela para o machismo que ele mesmo está cansado de saber que é a maior imbecilidade, e que com Carol – e com qualquer outra personagem interpretada por Diane Keaton – jamais funcionaria:

– “Eu sou seu marido! Você tem que me obedecer!”

Allen cita Resnais e Wilder, e imita Welles e talvez de novo Hitchcock

Woody Allen em geral cita filmes em seus filmes – seja explicitamente, com personagens falando de fitas que viram ou vão ver, seja com situações que fazem lembrar outras obras. Em Setembro (1987), por exemplo, a personagem de Mia Farrow fala várias vezes que pretendia ir ver “o último Kurosawa”. Em Annie Hall (1977), seu hino de amor a Diane Keaton, os personagens de Allen e Diane marcam de se encontrar para ver Face a Face, de Ingmar Bergman; depois vão ver Le Chagrin et la Pitié, documentário de 251 minutos de Marcel Ophüls sobre o período em que a França esteve ocupada pelos invasores nazistas, entre 1940 e 1944.

Neste Manhattan Murder Mystery, os personagens de Allen e Diane vão a um bairro em que havia um antigo cinema. Dá-se o seguinte diálogo, deliciosíssimo, fascinante, de matar de rir qualquer cinéfilo:

Larry: – “Lembra que ali tinha um cinema? Trouxe você para ver O Ano Passado em Marienbad.”

L’année dernière à Marienbad, que Alain Resnais lançou em 1961 e entortou a cabeça de meio mundo, este pobre escriba inclusive, com sua mistura de fatos de épocas distintas, de realidade com imaginação, memória, sonho.

Carol: – “Eu sei. Tive que ficar explicando o filme para você durante seis meses.”

Larry: – “Como eu ia saber que eram flashbacks?”

Que maravilha!

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Antes, Larry e Carol já haviam ido, com um casal de amigos, rever mais uma vez Double Indemnity, Pacto de Sangue (1944), de Billy Wilder.

Paul, o vizinho que se torna suspeito, é um empresário, dono de salas de cinema. Já teve várias, na época da ação tem um número menor. Está reformando uma sala num trecho de Manhattan que naquela época estava um tanto decadente.

Nesse cinema, quando a narrativa está chegando bem ao fim, Woody Allen encena uma sequência que faz lembrar a célebre sequência da casa de espelhos de parque de diversões em A Dama de Shangai (1947), de Orson Welles, com sua então mulher, Rita Hayworth. Vemos a sequência com os personagens da história e trechos de A Dama de Shangai sendo projetado na tela do cinema. Metalinguagem explícita, uma absoluta delícia.

Vi também uma citação a Psicose – mas de fato não dá para saber se foi intencional ou não. Na sequência final do clássico de Hitchcock, um psicólogo da polícia explica o que aconteceu; para o caso de o espectador não ter entendido, o camarada vai e explica as questões da mente de Norman Bates.

Mais ou menos a mesma coisa acontece aqui. Depois do clímax da seqüência no cinema que exibe A Dama de Shangai, há toda uma conversa entre Ted-Alan Alda e Marcia-Anjelica Huston em que eles explicam em palavras o que foi que aconteceu em relação ao assassinato misterioso.

A câmara está, neste filme, bem nervosa. E o roteiro foi feito a quatro mãos

Uma característica específica deste Manhattan Murder Mystery: a câmara é inquieta, durante boa parte da narrativa. Não chega a ser nervosíssima, à beira de um ataque de nervos, como em diversos filmes, especialmente de diretores jovens que querem demonstrar talento. Mas é mais inquieta do que usualmente nos filmes de Allen. E é um tanto “suja”, descuidada – às vezes ela está seguindo personagens em movimento nas ruas e meio que perde por meio segundo um deles, porque um transeunte passa entre a câmara e os personagens. Coisinhas assim.

zzmurder4aA fotografia é do competentíssimo italiano Carlo Di Palma, que trabalhou com Allen em vários filmes, mas essa coisa da câmara inquieta não é uma característica dele. Ele fez a câmara ficar inquieta por ordem de Allen, com toda a certeza. Mas não consegui perceber se há alguma razão para isso, ou se foi apenas um capricho do realizador.

Manhattan Murder Mystery tem outra característica que o diferencia da maioria dos outros filmes do autor: Allen divide com uma outra pessoa a autoria do argumento e do roteiro. Em vez do tradicionalíssimo “Written and directed by Woody Allen”, nos créditos iniciais aparece “Written by Woody Allen and Marshall Brickman”.

Marshall Brickman – nascido no Rio de Janeiro, de pais americanos, em 1939 – dividiu com Woody Allen também os roteiros de O Dorminhoco/Sleeper (1973), Annie Hall (1977) e Manhattan (1979).

Quatro filmes escritos em colaboração com Marshall Brickman! Todos os quatro estrelados por Diane Keaton. Dois dos quais, Annie Hall e Manhattan, são absolutas obras-primas! Não me lembrava disso.

Quando Allen escreveu o roteiro, ainda pensava em Mia Farrow para o papel

Manhattan Murder Mystery foi a oitava – e última, até agora – colaboração Woody Allen-Diane Keaton. Em seis desses oito, ele também trabalhou como ator, e um deles não foi dirigido por ele – Sonhos de um Sedutor/Play it Again, Sam (1972) tem argumento e roteiro de Allen, mas foi dirigido por Herbert Ross.

É fascinante pensar que Diane Keaton e Woody Allen fizeram filmes antes e depois da fase Mia Farrow – e até mesmo durante! Em A Era do Rádio/Radio Days (1987), Allen criou para a ex-mulher uma sequência em que ela aparece como cantora num show no réveillon de 1943 para 1944. Quando, em 2001, revi Radio Days, escrevi:

zzmurder6“De tudo que este filme espetacular tem, o melhor de tudo, na minha opinião, é a homenagem que Woody Allen presta – bem no meio de sua fase Mia Farrow – à sua mulher e musa anterior. A beleza de Diane Keaton, seu talento, sua presença, sua pessoa soltam faíscas na tela. Nelson Motta escreveu que dor de amor quando não passa é porque o amor valeu. Eu diria que quando não passam nunca a admiração, o respeito pelo amor que passou, é porque a vida valeu. Ver Diane Keaton cantar em A Era do Rádio é belíssimo. É emocionante. É de chorar de alegria. É dessas coisas que fazem a vida valer a pena.”

Ver Woody Allen e Diane Keaton trabalhando juntos, fazendo papel de marido e mulher, neste Manhattan Murder Mystery também é uma maravilha.

Allen escreveu o roteiro do filme tendo em mente Mia Farrow, logo antes do final do casamento. O final do casamento, como se sabe, foi absolutamente escandaloso, com brigas na Justiça e fofocas ininterruptas nos jornais e revistas. Não haveria, é claro, forma alguma de fazer o filme com Mia, e foi então que o realizador chamou a ex-mulher.

O IMDb chega a afirmar, na página de Trivia, que Allen reescreveu o roteiro para adaptar o papel de Carol Lipton para Diane Keaton. No entanto, na mesma página o IMDb cita-se este trecho do livro Woody Allen on Woody Allen, de 2004: “Não, eu não poderia fazer isso. Num roteiro normal, eu poderia ter feito (mudanças) depois de ter contratado Diane Keaton. Mas eu não podia fazer isso porque é um mistério sobre um crime, e a trama é bem ajustada, então seria muito difícil fazer grandes mudanças… Eu havia escrito (o personagem) mais para o que Mia gosta de fazer. Mia gosta de fazer coisas engraçadas, mas ela não é uma comediante tão explícita quando Diane. Então Diane fez seu papel ficar mais engraçado do que o que eu escrevi.”

Mas há ao menos uma fala que obviamente foi reescrita para Diane Keaton. Ou então ela própria improvisiou, e Allen, claro, não tirou fora na sala de montagem. É quando Carol Litpon diz que jamais usaria uma gravata com uma saia.

Em Annie Hall, o filme que é uma espetacular declaração de amor de Woody Allen a ela, Diane Keaton usa gravata e saia. Esse look ficou associado para sempre à imagem da maravilhosa atriz.

O IMDb informa também que, em entrevistas, Diane Keaton disse que Woody Allen jamais conversou com ela, durante as filmagens, sobre o inferno que ele estava atravessando, com as brigas na Justiça com Mia Farrow e a repercussão toda na imprensa.

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Anjelica Huston – que interpreta Marcia Fox, uma escritora amiga de Larry Litpon – disse em entrevistas que o clima durante as filmagens era “estranhamente livre de ansiedade, introspecção e angústia”, e atribuiu isso à presença de Diane Keaton. “Nesse filme”, disse a filha de John Huston, neta de Walter Huston, “ele (Woody Allen) aparecia no trailer em que Diane estava sendo maquiada e brincava com ela, com o cabelo dela e seus livros de fotografia. Perto de Diane, ele era aberto e acessível.”

É verdade. Quando, depois que o caso, o casamento acaba, e não passam nunca a admiração, o respeito pela pessoa amada, é porque a vida valeu a pena.

Anotação em novembro de 2015

Um Misterioso Assassinato em Manhattan/Manhattan Murder Mystery

De Woody Allen, EUA, 1993

Com Wooddy Allen (Larry Lipton), Diane Keaton (Carol Lipton),

e Jerry Adler (Paul Robert House), Alan Alda (Ted), Anjelica Huston (Marcia Fox), Lynn Cohen (Lillian Beale House), Ron Rifkin (Sy), Joy Behar (Marilyn), William Addy (Jack – the Super), Melanie Norris (Helen Moss), Marge Redmond (Mrs. Gladys Dalton), Zach Braff (Nick Lipton)

Argumento e roteiro Woody Allen e Marshall Brickman

Fotografia Carlo Di Palma

Montagem Susan E. Morse

Casting Juliet Taylor

Direção de arte Santo Loquasto

Produção Jack Rollins, Charles H. Joffe, TriStar Pictures . DVD ClassicLine.

Cor, 104 min

R, ***

Um Comentário

  1. Carla
    Postado em 15 Março 2016 às 8:15 pm | Permalink

    Outro filme-delícia. Talvez, das comédias de Allen, o que mais me agrada e dá prazer, porque sempre que dá eu o revejo. E quanto a piadas de WA nos filmes: uma das minhas favoritas está no seríssimo “Crimes e Pecados”, quando o personagem de Allen se refere a um outro personagem que se suicidara, e ele diz assim: “Lá, no Brooklyn, onde eu cresci, ninguém se suicidava. Eram infelizes demais pra isso”.

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  1. […] admiração pelas pessoas que mantêm a amizade depois que o amor e/ou o casamento acaba, como Woody Allen e Diane Keaton, por exemplo. Com este filme – que aliás faz lembrar muito as melhores comédias de Woody Allen […]

  2. […] 20 anos de idade (o papel de Juliette Lewis), diz uma frase que em boa parte define toda a obra de Woody Allen: – “Gosto de como você torna o sofrimento […]

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