The Fall – A Primeira e a Segunda Temporadas

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Nota: ★★★½

Há livros, filmes e séries sobre serial killers a dar com o pau. No entanto, mesmo em terreno tão batido, The Fall, série da TV britânica cuja primeira temporada foi lançada em 2013, inova.

Nem precisaria, porque é de grande qualidade. Mas, além de ser muito boa, a série consegue a façanha de não ser repetitiva, inovar, surpreender.

São várias as características que fazem de The Fall uma série diferente da maioria das outras, e uma história de serial killer diferente da maioria das outras.

Para começar, não é uma série de muitos episódios. Em geral, cada temporada de série de TV tem uns 10 episódios, um pouco mais, um pouco menos.

Pois The Fall tem apenas cinco episódios na primeira temporada, e seis na segunda. São episódios um pouco mais longos do que muitas outras séries – cada um tem aproximadamente uma hora de duração. No total, portanto, a primeira temporada, produzida e lançada na Grã-Bretanha em 2013, tem cerca 300 minutos, ou 5 horas. Não tão maior assim do que Cleópatra (1963), com suas 3h12 de duração, ou Ben-Hur (1959), com 3h32, ou … E o Vento Levou (1939), com 3h58,

A primeira temporada, com cerca de 300 minutos, é menor que as primeiras de House of Cards (700 minutos), Downton Abbey (378), Mad Men (614) ou The Good Wife (999 min).

Outro exemplo: em geral, são vários os roteiristas e vários os diretores em cada temporada. O criador da série dá o tom geral, e cada episódio é escrito e dirigido por uma dupla desses profissionais.

The Fall, não. Todos os cinco episódios da primeira temporada têm o roteiro assinado pelo criador e produtor executivo da série, Allan Cubitt. E todos foram dirigidos pelo mesmo profissional, Jakob Verbruggen. Na segunda temporada, o criador exagerou, e assumiu também a direção.

As séries feitas para a TV em geral têm uma unidade de tom, de clima, que é uma característica fantástica, dado o fato de que são diversos os roteiristas e diretores. Mas a verdade é que este The Fall parece de fato um único filme um pouco mais longo e que por isso foi cortado em cinco pedaços. Não há oscilação alguma de um episódio para outro. Bem ao contrário: é uma obra só, toda feita em um único tom, sob as mesmas batutas. E é um magnífico exemplar de cuidados formais – sobre os quais pretendo falar mais adiante.

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É sobre serial killer, mas evita mostrar explicitamente violência

Embora seja sobre um serial killer, The Fall tem menos violência que um conto de fadas. É menos violento do que Frozen, ou A Bela Adormecida, ou Branca de Neve e os Sete Anões, só para citar histórias clássicas que foram filmadas pelos Estúdios Disney.

Espectador que gosta de ver cenas violentas, sanguinolentas, daquela explicitude de sangue esguichando da carótida, ou de muitas brigas, lutas físicas, mostradas detalhadamente, esse aí corre o seriíssimo risco de ficar profundamente desapontado com essa história de serial killer contada britanicamente.

O serial killer de The Fall ataca cinco mulheres, até o final da segunda temporada. A ação começa quando ele está se preparando para atacar a terceira vítima – os ataques às duas primeiras ocorrem antes de ação começar, e não são mostrados. Poderiam ser, é claro, em flashbacks, mas o criador-roteirista-produtor executivo Allan Cubitt não parece muito chegado a esse negócio de flashbacks.

E então temos que, nos cinco episódios da primeira temporada, o serial killer ataca apenas duas vezes – o ataque à quinta mulher será na segunda. A câmara mostra apenas parte do primeiro desses dois – e não gasta muito tempo e esforço nisso. Depois mostra bastante do segundo ataque, porque aquilo é muito importante na história, na composição dos personagens – mas não parece ter grande prazer em ficar exibindo o momento exato da violência.

Essa é uma das muitas maravilhas de The Fall, em especial na primeira temporada. Isto aqui não é para satisfazer às necessidades mórbidas de quem adora ver violência explícita. Muitíssimo antes ao contrário. Isto aqui é cinema de boa qualidade. É estudo psicológico, é drama sobre o comportamento das pessoas. Não é filme de ação. Não tem uma única perseguição de carro.

A segunda temporada tem mais violência explícita que a primeira – mas, mesmo assim, não é nada exagerado – bem ao contrário.

É um filme maduro para platéias inteligentes.

Ahnnn… Cinema? Filme? Mas não é uma série de TV?

Pois é. Já faz alguns anos que – como já escrevi aqui diversas vezes – muito do que se faz de bom cinema é para a TV.

Isso vale para o pouco que já vi de produções para a TV francesa, a TV sueca, a TV espanhola, para o muito que já vi da TV americana. Para a TV da Grã-Bretanha, o lugar onde há décadas se faz o melhor cinema do mundo, então…

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O espectador acompanha todos os passos da Polícia e do assassino

Mais que qualquer outro povo do mundo, o daquelas ilhotas situadas no mapa à esquerda do continente europeu é mestre em criar e contar histórias policiais, de crimes e criminosos, de monstros e monstruosidades.

Drácula, Frankenstein, e também Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Miss Marple – todos eles são criações de escritores das Ilhas Britânicas. (Ahnn… Perdão, sherlockianos tradicionais, por incluir uma pessoa de verdade, um ser humano de existência real, nessa lista.)

Agatha Christie e Alfred Hitchcock, dois artistas que têm em comum os fatos de serem inglesérrimos e de incrível sucesso, optaram por estilos bem diferentes de narrativas em suas históriais policiais. A velhinha (1890-1976) é mestra do whodunit – quem fez, quem cometou, quem perpetrou? O que faz o leitor passar rapidamente as páginas de suas dezenas e dezenas de livros (e é impossível parar de passar as páginas dos livros dela) é saber quem, entre aqueles personagens que ela apresenta, cometeu o crime.

Já nos filmes do velhinho (1899-1980), o suspense vem não do fato de o espectador não saber a identidade do sujeito que fez, cometeu, perpetrou. Muitas vezes o espectador sabe quem é o criminoso. A questão é muito menos óbvia, muito mais diáfana: como será que vai acontecer de o criminoso se trair? De que maneira a polícia vai conseguir chegar até ele?

The Fall não tem nada a ver com o estilo whodunit em que Agatha Christie foi mestre. Bem ao contrário: vai fundo no outro estilo.

A primeira e a segunda temporadas mostram, simultaneamente, o tempo todo, todinho, as ações do criminoso e da policial que chefia a caça a ele.

Insisto: não é um filme de ação. Não é um filme de suspense. É um drama psicológico, um estudo de personagem.

Um leitor do IMDb fez uma feliz definição sobre a série. Assina com o pseudônimo doidão de vhavnal, mas sua sinopse é um exemplo de concisão e correção:

“Um thriller psicológico que examina as vidas de dois caçadores. Um é um serial killer que vigia suas vítimas em Belfast ou ao redor da cidade, e a outra é a talentosa detetive-superintendente da MET que é trazida para capturá-lo.”

Impressionante: vhavnal tem o dom da concisão e da correção. Tenho inveja dessa pessoa.

Gillian Anderson in "The Fall" season 2. Photo courtesy of Netflix

A câmara faz questão de realçar a beleza dos dois atores principais

A policial competentíssima é interpretada por Gillian Anderson, a bela atriz nascida em Chicago em 1968, famosérrima como a Dana Scully da série Arquivo X (1993-2002 e depois de novo em 2016). O serial killer também bastante competente é feito por Jamie Dornan, o irlandês nascido em 1982 exatamente em Belfast – onde se passa toda a ação da primeira temporada – e que interpretou Christian Grey em Cinquenta Tons de Cinza (2015).

Gillian Anderson é bela, e a câmara evidencia a beleza dela a todo momento. Jamie Dornan tem fina estampa, corpo sarado, que deve seguramente ser atraente para quem gosta de corpo de homem, e a câmara evidencia a beleza do rosto e do corpo dele a todo momento.

O tema fundamental são as ações da detetive-superintendente Stella Gibson e do serial killer Paul Spector. A caçadora de criminosos e o caçador de vítimas. No entanto – em mais uma prova de como é competente, fascinante, esta série –, fala-se também de vários outros temas. Fala-se de machismo, do mundo em que ainda hoje domina um jeito machista de ver a vida. Fala-se, é claro, da violência das gangues da Irlanda do Norte.

E, obviamente, fala-se também, embora este não seja o assunto principal, das velhas questões ainda não inteiramente resolvidas da praticamente guerra civil entre Irlanda do Norte e Inglaterra nos anos 70 e 80.

Os autores poderiam ter evitado esse tema indigesto. Poderiam perfeitamente ter botado a ação acontecendo numa cidade da Inglaterra. Ou da Escócia. Ou do País de Gales.

Seria mais simples.

Mas não, eles não queriam simplicidade. Eles queriam discutir vários temas ao mesmo tempo. E então a ação se passa em Belfast, Irlanda do Norte, onde as feridas da guerra civil ainda não estão cicatrizadas.

Para boa parte dos habitantes da Irlanda do Norte, os ingleses são invasores, imperialistas filhos da mãe que ocupam o país como os nazistas ocuparam boa parte da Europa nos anos 1940, à força, sem legalidade, sem direito.

Uma mulher, e inglesa, para chefiar policiais homens, e homens irlandeses

Quando começa o primeiro episódio da primeira temporada, a detetive-superintendente Stella Gibson, da Metropolitan Police de Londres, está indo para Belfast para fazer a revisão do trabalho da Polícia da Irlanda do Norte no caso do assassinato de uma jovem, bela mulher, Alice Monroe. É quase como uma ação de corregedoria.

Ninguém no mundo gosta de corregedor, fiscal, gente que vem investigar se houve erros, falhas, abusos. Mesmo as pessoas mais corretas, mais escorreitas, não têm simpatia por alguém que vem examinar, julgar o jeito de elas trabalharem.

Imagine-se então o corpo policial de Belfast, diante da chegada de uma policial de altíssima patente – uma mulher, uma inglesa, que vem para examinar se eles fizemos alguma besteira, se erraram em algum momento e por isso não conseguiram pegar o assassino daquela mulher.

Seria de se esperar que Stella Gibson fosse mal recebida pelos policiais irlandeses. Mas ela não encontra grandes resistências – até porque é superior hierarquicamente a quase todos eles, e, mesmo que tivessem má vontade, os policiais não poderiam agir contra ela sob risco de colocarem sua carreira em perigo.

E pesará a favor dela, claro, o fato de que é extremamente competente.

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“Aquele papo de que ‘meu Jesus é melhor que o seu'”

Ao chegar a Belfast, Stella é recebida pelo segundo homem da hierarquia da Polícia da Irlanda do Norte, Jim Burns (John Lynch, na foto acima) – e superior a ela na carreira. Fica evidente, no primeiro diálogo entre os dois, no belo carro em que ele a espera para levá-la ao centro da cidade, que no passado os dois tinham tido um caso. Ela nota, com ironia, que o carro que ele usa é blindado, e ele responde com um “Bem-vindo a Belfast” que quer dizer “isto aqui até há pouco era uma zona de guerra”.

Ele pede que ela aja com cuidado para não prejudicar a investigação do assassinato da vítima – Alice Monroe, veremos, além de jovem e bela, era uma mulher ativa, uma arquiteta – e ainda por cima tinha sido casada com o filho de um político importante, Morgan Monroe (Ian McElhinney).

– “Já revisei outros casos antes (uma longa pausa), Senhor”, ela diz, enfatizando com a palavra Sir que ela reconhece o lugar dele na hierarquia.

– “Não aqui. As coisas são diferentes aqui.”

– “Por causa daquele papo de que ‘meu Jesus é melhor que o seu’?

– Aqui é tudo política, Stella.”

“Aquele papo de que ‘meu Jesus é melhor que o seu’”. Com essa pequena frase, o roteirista Allan Cubitt resume a questão religiosa que esteve no centro da guerra civil dos anos 70 e 80 – o fato de que boa parte da população da Irlanda, tanto a da República da Irlanda quanto o da Irlanda do Norte, é católica, e não anglicana como a imensa maior parte da Inglaterra, Escócia e País de Gales.

A questão política, o fato de o ex-sogro de uma das vítimas ser um político importante, estará bastante presente na série.

Vemos, de cara, no inicinho, a super policial, o serial killer e sua vítima

Essa sequência do primeiro diálogo da detetive-superintendente Stella Gibson em solo irlandês vem quando o primeiro episódio está com uns 15 minutos, apenas.

As sequências anteriores, as que abrem a série, no entanto, são tão marcantes que merecem ser relatadas aqui.

Todos os 11 episódios das primeiras temporadas seguem aquele esquema de apresentar uma ou duas sequências iniciais, que duram uns poucos minutos, antes de haver os créditos iniciais. Um prólogo.

Neste iniciozinho de série, vemos três ações paralelas, que vão sendo apresentadas simultaneamente. Vemos uma mulher, em sua casa, se aprontando para uma viagem – ainda não sabemos o nome nem o cargo da detetive Stella. Vemos um homem entrando através de uma janela em um apartamento que está vazio – ele entra encapuzado, mas retira o capuz, faz selfies, perambula pela casa, examina as roupas íntimas da dona da casa, cheira uma ou duas calcinhas. É, obviamente, o assassino, visitando a casa da vítima antes do ataque final.

E, num bar, uma bela mulher jovem, aí dos seus 30 anos, conversa com um colega – e ele está, obviamente, interessado em que sejam mais que amigos.

zzfall5 - menorA moça é, claro, a próxima vítima do serial killer Paul Spector. Chama-se, veremos, Sarah Kay (Laura Donnelly), é advogada numa grande firma – a mesma profissão do rapaz que a está paquerando no bar, Kevin McSwain (Gerard McCarthy).

Sarah toma só dois cálices de vinho no bar. Recebe um telefonema de alguém do escritório, a respeito de um caso de guarda de criança, e diz ao amigo Kevin que precisa ir para casa, já que no dia seguinte tem que acordar cedo para trabalhar.

Sobre a cama dela, bem no meio da cama, Paul Spector havia deixado uma calcinha, um sutiã e um vibrador, retirados das prateleiras.

Sarah chama a polícia. Uma dupla chega logo, examina tudo, faz todo tipo de pergunta. Não poderia ter sido brincadeira de algum amigo, um ex-namorado? Quem mais tem as chaves da casa? O fato de que Sarah havia bebido é notado pela dupla, é claro. Não encontram nada revirado, nem sinal de que alguma porta havia sido forçada. O espectador percebe que os policiais não estão levando muito a sério o episódio.

A jovem policial, Danielle (Niamh McGrady), terá papel importante na trama.

Paul Spector voltará à casa de Sarah, para o encontro final, ainda no primeiro episódio da primeira temporada.

Já tinha havido Alice Monroe, jovem, bela, arquiteta, na faixa dos 30 e tantos anos. Então há Sarah Kay, jovem, bela, advogada, na faixa dos 30 e tantos anos.

A super detetive que veio de Londres, ao revisar as anotações dos policiais que investigam a morte de Alice Monroe, vai ficar sabendo de um caso acontecido três meses antes, e vai perceber o que a Polícia da Irlanda do Norte ainda não havia percebido: aquele caso anterior tem ligação, sim, com os dois outros.

A primeira morta se chamava Fiona Gallagher, era jovem, bela, professora universitária, na faixa dos 30 e tantos.

Mais para o fim da primeira temporada, o espectador conhecerá Annie Brawley (Karen Hassan), outra bela mulher jovem, profissional com formação universitária, na faixa dos 30 e tantos – será a quarta vítima de Paul.

Uma profissional competentíssima, segura de si, solitária, que come os homens

O espectador fica conhecendo muito bem os dois personagens centrais, os dois caçadores, como bem definiu o leitor do IMDb.

A detetive-superintendente Stella Gibson é extremamente competente no que faz. Sabe muito bem disso, e é exageradamente segura de si. Está sempre com um ar, um tom de superioridade – e Gillian Anderson exibe isso com maestria. Segundo consta, ela disse que Stella Gibson foi a personagem que mais gostou de interpretar – mais do que a Dana Scully que lhe deu fama mundial.

Não se fala explicitamente disso, mas Stella seguramente veio de uma família bem de vida. Fez não uma, mas várias faculdades. Ela conta para a policial Danielle – mulher que sabemos bem ser da classe trabalhadora – que seu primeiro dos muitos diplomas foi de Antropologia.

Como muitos workaholics, extremamente bem sucedidos na profissão, é uma pessoa solitária. Não parece ter amigos, nem namorados. Homens, ela come os que quer, quando quer. Andando de carro ao lado da jovem Danielle, vê um policial que acha bonitão. Pergunta à garota quem é ele, ela diz o nome, James Olson (Ben Peel). Então Stella vai até ele, se apresenta e diz que está no Hilton, apartamento tal. Horas mais tarde, no começo da madrugada, Olson vai comparecer ao local – afinal, a mulher é chefona, deu ordem, e é bela. Mas Olson não come Stella – Stella é que o come.

Bem mais tarde, ela usará esses termos, numa conversa dura com outro policial graduado, Matt Eastwood (Stuart Graham). “Woman fucks man”, ele diz, pausadamente. E faz a análise sintática: sujeito: mulher. Objeto: homem. “Os homens não estão acostumados com isso”, ela diz.

Na conversa com a jovem policial Danielle, em que ela fala dos seus vários diplomas, quando a primeira temporada se aproxima do fim, Stella conta à garota sobre o povo mosuo, que habitava uma região pouco acessível da China. É uma sociedade matriarcal, e lá não existe casamento. Quando uma mulher fica a fim de um homem, ela o chama para uma “noite doce”.

É fascinante, porque, quando o espectador ouve Stella contar isso, ele já ouviu falar do povo mosuo. Nos primeiros dez minutos de The Fall, Sarah Kay, no bar, conversando com o colega Kevin McSwain, conta para ele sobre as mulheres da sociedade matriarcal. Sarah Kay fala exatamente o mesmo que Stella vai depois dizer a Danielle.

Um homem de duas personalidades: bom pai de família – e assassino

Paul Spector, o serial killer interpretado pelo garotão de boa estampa Jamie Dornan, é casado, tem dois filhinhos, uma garotinha de 8 anos, Olivia (Sarah Beattie), e um garotinho de uns 4 ou 5, Liam (David Beattie). É um bom marido para Sally Ann (Bronagh Waugh, na foto abaixo), uma enfermeira que trabalha numa ala de recém-nascidos de uma maternidade, e bom pai para os garotos. É carinhoso com a mulher e os filhos, é cuidadoso com eles. Tem só um problema, para o qual a mulher chama sua atenção: tem uma preferência clara pelo garoto.

Veremos depois que teve uma infância horrorosa, foi criado em orfanatos. Mas batalhou na vida, e, quando a ação começa, está trabalhando como assistente social.

Nada da sua vida em casa indica que é um assassino em série.

É como se fosse um esquizofrênico, com duas personalidades absolutamente distintas. Dr. Jekyll e Mr. Hyde, o médico e o monstro.

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Mente para Sally Ann que trabalha em algumas noites num serviço de atendimento a pessoas solitárias, tipo CVV – e então sai de casa para estudar os hábitos da jovem mulher bela e bem sucedida que pretende fazer de vítima.

O ator Jamie Dornan contou ter visto a série Dexter para ajudar a compor seu personagem. Dexter também é um serial killer – só que, em vez de atacar inocentes, ataca bandidos, e a série mexe com a moral da gente, porque o personagem é extremamente simpático, mesmo sendo um assassino.

The Fall não desenhou um serial killer especialmente simpático, acho eu. Não creio que os espectadores ficarão torcendo por Paul Spector. De forma alguma. Mas ele não é mostrado como uma pessoa extremamente má, vil, retrato do mal em si. Não. É mostrado como um homem que de fato tem duas personalidades – uma de pai de família normal, outra de um psicopata perigoso.

Diálogos impressionantes, belíssimos, de imenso impacto

 Apesar de criada, escrita e dirigida por homens, The Fall fala muito de questões relacionadas ao machismo da sociedade, ainda, até hoje – e muitas vezes o viés é absolutamente, abertamente pró-mulheres. No episódio 3 da segunda temporada, há um diálogo fortíssimo entre Jim Burns, o segundo homem da hierarquia da polícia, e Stella Gibson – os dois colegas que haviam tido um caso no passado. Jim chega ao quarto de hotel de Stella um tanto bêbado, fragilizado, abalado – e morto de tesão por aquela mulher linda e fascinante.

O diálogo de fato é fortíssimo.

Jim: – “Por que as mulheres são emocionalmente e espiritualmente maia fortes que os homens?”

Stella: – “Porque a forma humana básica é feminina. A masculinidade é uma espécie de defeito de nascença.”

Jim vai tentar beijar Stella – e leva um soco no nariz. Em seguida ela vai, cuidadosamente, limpar o sangue do rosto, da barba dele, com pano molhado.

Ela olha para ela com aquele ar de cachorro que pede afago.

Ela não tem dó: – “Você olha para mim como olha para uma garrafa de uísque. Uma mistura de medo e raiva. Não gosto disso.”

Stella anota num diário os sonhos que tem – muitos deles com o pai, aquela coisa freudiana básica. Paul Spector, que vai desenvolvendo por ela uma relação profunda de amor e ódio, de admiração e desprezo, conseguirá entrar no quarto de hotel dela, e lerá o diário.

Deixa, no próprio diário, um comentário assim: – “A doce e pequena Stella, com saudade do papai, perdida e sozinha. Sexy Stella, expressando seus temores mais profundos e sombrios. A irritadiça Stella, zangada e mal compreendidas, investindo contra o mundo dos homens.”

Policial exemplar, reta, Stella permite que seu diário intimíssimo, personalíssimo, seja levado por colegas policiais para ser periciado, já que foi manuseado pelo serial killer.

Para o ex-amante e sempre superior hierárquico Jim, fala uma frase impressionante:

– “A vida moderna é uma mistura tão profana de voyeurismo e exibicionismo. As pessoas estão sempre divulgando os assuntos particulares, pessoais. Meu diário é particular. Não foi escrito para ser divulgado.”

A Stella criada por Allan Cubitt e vivida por Gillian Anderson é uma mulher absolutamente forte, firme, liberada. Não apenas come homens, como dá em cima da bela e competente patologista Reed Smith, interpretada pela bela e sensual Archie Panjabi, da série The Good Wife e dos filmes O Traidor (2008) e Yasmin, uma Mulher, Duas Vidas (2004).

WARNING: Embargoed for publication until: 18/11/2014 - Programme Name: The Fall - TX: n/a - Episode: n/a (No. 3) - Picture Shows: ***STRICTLY EMBARGOED UNTIL 00.01 TUE 18TH NOVEMBER 2014*** Reed Smith (ARCHIE PANJABI), DSI Stella Gibson (GILLIAN ANDERSON) - (C) The Fall S2 Ltd - Photographer: Helen Sloan

Um show de maestria no manejo das ações paralelas

Esta anotação já está grande demais, mas eu ainda gostaria de registrar uma coisa formal muito importante na série.

É impressionante como o roteirista-criador Allan Cubitt e o diretor Jakob Verbruggen usam e abusam da coisa da ação paralela.

Ação paralela é uma especificidade do cinema. O cinema consegue mostrar duas ações que estão acontecendo ao mesmo tempo, simultaneamente, de uma forma com que a literatura e o teatro não conseguem. Basta montar as tomadas das duas ações lado a lado. Se quiser, o diretor pode até mostrar as duas ações ao mesmo tempo, dividindo a tela em duas – o split screen.

Cubbitt e Verbruggen não chegam a usar split screen – mas dão um show de maestria no manejo das ações paralelas.

E fazem isso ao longo de todos os cinco episódios da série.

Por exemplo: vemos a detetive-superintendente Stella Gibson traçando o perfil do serial killer que a polícia está procurando. Vai descrevendo coisas que já sabemos que batem perfeitamente com o jeito de Paul Spector agir. Ela explica que ele deve muito provavelmente ser um homem branco de cerca de 35 anos, muito inteligente, mas sem curso superior, que deve procurar mulheres bem sucedidas para poder ter o prazer de dominar pessoas socialmente acima dele.

Vemos Stella falando uma ou duas frases, corta, e vemos Paul Spector se preparando para o quarto ataque.

Vemos Stella, corta, vemos Paul, corta, vemos Stella, corta, vemos Paul.

Situações assim acontecem diversas, diversas, diversas vezes.

Quando o pai de Sarah Kay é levado por Stella para fazer a identificação do corpo, ele pergunta: – “Posso tocar nela?”

Um pouco depois, vemos Sally Ann, a mulher do serial killer, trabalhando na ala de recém-nascidos do hospital. Um bebê prematuro, com sérios problemas, pouca chance de sobreviver, está em uma das muitas incubadeiras da sala, e a mãe chega para vê-lo. E aí pergunta para Sally Ann: – “Posso tocar nele?”

É uma bela série de TV. Um belo filme. Feito com inteligência, talento e sensibilidade.

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Anotação em março de 2016

The Fall – A Primeira Temporada

De Allan Cubitt, criador, roteirista e produtor executivo, Inglaterra-Irlanda do Norte, 2013

Direção Jakob Verbruggen

Com Gillian Anderson (Stella Gibson), Jamie Dornan (Paul Spector)

e (na polícia) John Lynch (Jim Burns), Niamh McGrady (Danielle Ferrington), Archie Panjabi (Reed Smith, a patologista), Ben Peel (James Olson), Stuart Graham (Matt Eastwood),

(na vida do assassino) Bronagh Waugh (Sally Ann Spector), Sarah Beattie (Olivia Spector), David Beattie (Liam Spector), Aisling Franciosi (Katie Benedetto), Séainín Brennan (Liz Tyler), Brian Milligan (James Tyler),

(entre as vítimas e seus parentes e amigos) Laura Donnelly (Sarah Kay), Lisa Hogg (Marion Kay, irmã de Sarah), Gerard McCarthy (Kevin McSwain, colega de Sarah), Ian McElhinney (Morgan Monroe, o sogro de Alice), Eugene O’Hare (Aaron Monroe, o ex-marido de Alice), Karen Hassan (Annie Brawley)

Argumento e roteiro Allan Cubitt

Fotografia Ruairi O’Brien

Música Keefus Ciancia e David Holmes

Montagem Steve Singleton

Produção Artists Studio, BBC Northern Ireland.

Cor, cerca de 300 min (5h).

***1/2

3 Comentários

  1. Patrícia
    Postado em 25 julho 2016 às 9:41 am | Permalink

    Olá, Sérgio! Ouvi dizer que este ano filmarão a terceira e última temporada (tem a segunda no Globosat+, no Now). Gostei bastante das atuações dos principais (o Jamie, nesta série tããão diferente do Grey!) e, para mim que gosto de serial killers, esta série foi um prato cheio, pena que é curtinha hahahah

    Abraço
    Patrícia

  2. Celia
    Postado em 1 agosto 2016 às 7:48 pm | Permalink

    Olá Sérgio! Muito boa essa série! Ansiosa para a terceira temporada! Abraços

  3. Jussara
    Postado em 11 agosto 2016 às 10:22 pm | Permalink

    Vi a primeira temporada, gostei muito, mas acabei me esquecendo da série. Graças ao seu texto, comecei a ver a segunda no último fim de semana, mas fiquei perdida. Decidi rever o primeiro e o último episódios da primeira, para ver se me encontrava, porém não adiantou, continuei perdida, são muitos detalhes. Acabei revendo toda a temporada, e engatei na segunda.
    Fazer maratona de série tem suas vantagens, mas também tem as desvantagens. A uma certa altura eu já não aguentava ouvir a voz “cavernosa” de Gillian Anderson, sempre no mesmo tom. O sotaque fake também me incomodou. Afora isso, ela está ótima! Pena que a Europa tenha pego a péssima mania do cinema americano, e sua personagem sempre apareça com o cabelo impecavelmente penteado e escovado, mesmo que ela tenha acabado de se levantar ou de chegar da rua.

    Jamie Dornan é bonitinho mas ordinário (como ator). Que atuação terrível! Já que ele viu “Dexter” para se inspirar, devia ter tentado aprender a atuar com Michael C. Hall (notei que algumas vezes ele tenta imitar um dos muitos olhares de Dexter, pffffff). O cara é tão expressivo quanto o “cigano Igor”. Na segunda temporada achei que ele melhorou, e tem umas cenas em que engana bem, mas no geral é medíocre. O que salva é que ele foi muito bem dirigido. Os diretores tanto da primeira quanto da segunda temporada tiraram leite de pedra.

    [Tem tanta coisa que quero comentar, que volto depois, se o jogo de vôlei não demorar muito para terminar.]

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