Terra e Liberdade / Land and Freedom


Nota: ★★★★

Obra-prima. Brilhante, emocionante, de fazer pensar e chorar. Desses filmes que fazem a vida valer a pena.

Tem aquela estrutura de flashback que tanto irrita o crítico Roger Ebert, e que o Clint Eastwood usou muito bem, por exemplo, em As Pontes de Madison. Começa nos dias de hoje, em Liverpool; um velho está morrendo do coração, chega a ambulância, o velho morre no caminho do hospital, para desespero de sua neta, Kim (Suzanne Maddock). De volta em casa, Kim pega uma mala velha em cima do guarda-roupa, e começa a examinar o conteúdo, que vai revelando para ela e para o espectador o episódio mais marcante da vida do morto – sua participação na Guerra Civil Espanhola. São recortes de jornais (especialmente o jornal do Partido Comunista Britânico), cartas dele para sua então namorada, fotos, um lenço vermelho com um punhado de terra.

Quando se volta no tempo, no primeiro flashback, lá está o agora morto, o então jovem David (Ian Hart), comunista, desempregado, e sua namorada, Kitty (Angela Clarke), num sindicato, ouvindo uma palestra de um espanhol, que mostra didaticamente (para as duas platéias, a da ação e a do filme de Ken Loach) trechos de filmes sobre o início da Guerra Civil, e pede o apoio de todos para que juntos combatam os fascistas – os comunistas, os republicanos, os anarquistas, brigadas formadas por estrangeiros das mais diversas nacionalidades. Ao final da palestra, o jovem David está decidido a ir se engajar. E vai.

Com mais 20 minutos de filme, já tendo visto sinceras e emocionantes demonstrações de solidariedade entre os que lutam contra o fascismo, sinceras e emocionantes loas ao espírito de companheirismo dos que lutam pela causa justa, eu cheguei a me perguntar onde o Loach estava querendo chegar. Estaria ele, em pleno 1995, quase cinco anos após a derrocada da União Soviética e do fim do comunismo no Leste Europeu, fazendo uma simples – embora sincera e emocionante – elegia da velha luta que não existe mais, o bem contra o mal, o povo contra os poderosos e ricos, os desorganizados mas puros e bons e certos contra os organizados e fortes e maus? Estaria ele, depois de tantas obras-primas do cinema contra o militarismo, a guerra, a violência, de Stanley Kubrick a Francis Ford Copola, fazendo a elegia da guerra certa, a última guerra romântica da esquerda contra a direita?

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Momentos belíssimos, brilhantes. Mas há também simplificações

Mais uns 20 minutos de filme, e estamos em um pequeno vilarejo que os brigadistas internacionais e espanhóis acabam de tomar dos fascistas, tendo fuzilado um padre que dedurou jovens anarquistas para o exército de Francisco Franco. Organiza-se um debate sobre o que os camponeses vão fazer dali para a frente. Os camponeses discutem, cercados pelos brigadistas que os libertaram. A maior parte quer a coletivização das terras. Mas há quem, embora igualmente antifacista, defenda a existência de terras coletivas e também de terras privadas. O líder comunitário diz que os brigadistas também podem se expressar, podem dar sua contribuição, cada um tendo a experiência de sua terra natal. E então falam vários – ingleses, alemães, franceses, italianos.

A seqüência é de um brilho de arrepiar, de emocionar. Coisa de gênio.

E aí então se percebe (pelo menos aí então eu percebi) que, não, senhor, o Loach não ficou doido. Ele quer discutir a pluralidade dentro da luta antifacista. Ele quer discutir como é multifacetada a esquerda, e como é difícil a convivência entre as várias faces. Sobretudo, ele quer mostrar como o stalinismo – centralista, imperialista, negociador, expansionista, torturador, antidemocrático – conseguiu condenar à morte a maior tentativa de se chegar ao socialismo que a história já registrou.

É na seqüência brilhante sobre o microcosmo do pequeno vilarejo que ele mostra onde ele quer ir. E em seguida vai amplificando isso, na discussão sobre os rumos da própria frente ampla antifacista. Aos brigadistas independentes não se fornecem armas e munição adequadas. Há um racha entre eles próprios sobre o que é melhor. David, o operário desempregado de Liverpool, vota pela preservação das brigadas, contra sua absorção pelo Exército Comunista. Mas a precariedade das armas e os argumentos de gente que ele ouve em Barcelona, para onde foi, ferido por uma espingarda velha que explodiu em seus braços, o levam a se inscrever no exército republicano regular.

O espectador fica sabendo que ele fez essa opção junto com Blanca (Rosana Pastor), uma brigadista de seu regimento, que vai a Barcelona dormir com ele, e, tendo já dormido, descobre a farda em sua bolsa, na manhã seguinte, e o abandona imediatamente, depois de xingá-lo de stalinista. Pouco depois, em um bar, ouvindo asneiras ditas por soldados do exército republicano, e pior, enfrentando do lado regular os igualmente antifacistas brigadistas e anarquistas, ele faz a opção, rasga a carteira do Partido Comunista e volta para o antigo regimento.

Há duas cenas em que Loach parte para a baixaria do primarismo, sem qualquer pudor. Estão os republicanos lutando entre si em prédios diferentes de Barcelona, e David descobre que do outro lado está outro inglês. Eles conversam aos berros. Você é de onde? De Manchester. E eu sou de Liverpool; o que você está fazendo aí? Mais ainda: no meio dessa mesma luta entre irmãos, uma mulher do povo grita para os dois lados: Parem de se matar uns aos outros e vão matar fascistas, porra!

Antes, na tomada pelos brigadistas do vilarejo então dominado pelos fascistas, morre um companheiro de David, um irlandês corajoso até a loucura, que era o amante de Blanca. No enterro do irlandês e das demais vítimas, Blanca faz um discurso brilhante, antes que todos cantem – apoiados por uma brilhante, emocionante, inesperada entrada de bateria – a Internacional.

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Se você não viu o filme, melhor pular para o PS abaixo

Depois que David volta para seu regimento de brigadistas, onde reencontra Blanca, chega o exército republicano regular, exigindo que os brigadistas deponham as armas. A cena é, novamente, baixaria, primarismo, sem pudor. O coronel que chefia as tropas tem a cara feia, infeliz, brutal, idêntica à de um fascista puro e simples.

Blanca é morta nessa cena, em um momento em que Loach se permite, à la Sam Peckinpah, à la Arthur Penn em Pequeno Grande Homem, uma seqüência em câmara lenta, a violência bestial mostrada a menos do 24 quadros por segundo – para ver se a porra do espectador se coça, para ver se a besta do espectador pensa alguma coisa, ou, pelo menos, sente alguma coisa.

Na cena do enterro de Blanca, em seu povoado onde as terras haviam sido coletivizadas (mas seriam descoletivizadas um ano depois, pelo exército stalinista), ouvimos de novo o mesmo discurso que Blanca havia feito tempos atrás, no outro enterro, sobre a necessidade de ter forças para lutar.

É no povoado de Blanca que David ganha o lenço vermelho que tinha sido dela. E, no momento do enterro dela, embrulha um pouco da terra coletivizada. Esse punhado de terra será devolvido (do pó ao pó, tu és pó e ao pó retornarás) à terra em Liverpool, nos dias de hoje, pela neta de David, sobre seu caixão. É impossível deixar de chorar.

Quem tiver vontade, pode pensar, é claro. O stalinismo, parece que é o que Loach pensa, foi o germe que levou à derrota do socialismo nos anos 80. A direita, como bem sabemos, e Loach nos relembra, sempre foi coesa (la derecha a todo lo envilece, como se dizia no Chile em 1973), enquanto a esquerda sempre se dividiu em 432 facções diferentes.

O impressionante, no caso deste filme esplêndido, é mostrar que, apesar de tudo, a esperança não morre. E na cena final a neta do velho operário que tinha esperança levanta o braço direito na antiga saudação dos que acreditavam. Para o velho Ken Loach, a esperança não morreu.

Anotação em 1995

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Aqui, um PS em 12/2016:

Escrevi a anotação acima na época em que Land and Freedom foi lançado no Brasil, 1995. Treze anos antes de criar o site 50 Anos de Filmes. Fiz a anotação não para de alguma forma torná-la pública, mas apenas para mim mesmo, para gravar o que havia visto, o que havia sentido ao ver. Sempre fiz comentários assim sobre os filmes que via, numa espécie de diário de cinéfilo.

Reli a anotação agora porque o extraordinário romance histórico O Homem Que Amava os Cachorros, do cubano Leonardo Padura, de 2009, que estou lendo neste dezembro de 2016, me fez lembrar demais deste filme do mestre Ken Loach.

Escritor prolífico, prolixo, Leonardo Padura é co-autor do roteiro de Retorno a Ítaca/Rethour à Ithaque (2014), juntamente com o diretor francês Laurent Cantet. São dele também os roteiros de três segmentos do filme 7 Dias em Havana/7 Dias en La Habana/7 Jours à La Havanne (2012).

O Homem Que Amava os Cachorros, um catatau de quase 600 páginas, vai contando, paralelamente, simultaneamente, três histórias distintas, que, é claro, irão depois se interpenetrar, se inter-relacionar. Uma é de Liev Davidovich Trotsky, a partir de seu exílio, a mando de Josef Stálin, em 1929. Outra é – em primeira pessoa – a de Ivan, um sujeito que, como o autor, é um intelectual cubano que vive o início da maturidade pós 20 anos de idade na década de  1970. E a terceira é a do comunista catalão Ramón Mercador, e conta detalhadamente sua participação na Guerra Civil Espanhola. Ramón Mercader – o leitor sabe o tempo todo, é fato histórico, e além disso o livro informa nas páginas iniciais – é o homem que a mando de Stálin assassinou Trotsky no México, em 1940.

Após cumprir 20 anos de prisão no México pelo crime, Ramón Mercader viveu alguns anos na União Soviética. Como prêmio por ter assassinado Trotsky, ganhou de Stálin a Ordem de Lênin – o que é uma imensa ironia, já que Stálin traiu tudo o que Lênin gostaria que fosse feito na URSS após sua morte, em 1924, e perseguiu os principais colaboradores do líder que implantou a Revolução, inclusive e principalmente Trotsky.

Mais tarde, nos anos 70, Mercader viveu em Cuba, onde viria a morrer em 1978.

Ao relatar a história de Mercader durante a Guerra Civil Espanhola, Leonardo Padura mostra exatamente o mesmo clima que Ken Loach reproduziu neste seu belíssimo filme. Ele radiografa com cuidado de historiador e prosa de excelente romancista todas as divisões existentes entre os que lutavam contra os fascistas, as diversas correntes – o exército regular republicano, os anarquistas, os sindicalistas, os brigadistas vindos dos mais diferentes países estrangeiros, e, contra todos esses, os comunistas, seguindo fielmente as ordens do grande comandante Stálin.

Padura não esconde suas simpatias, suas preferências: seu livro mostra Trotsky como o grande revolucionário, o grande idealista, um humanista que acreditava que se poderia chegar a um socialismo de face humana. E mostra Stálin como um ditador cruel, um carniceiro, “o coveiro da Revolução”. Ele cita a frase de Bukharin, o comunista de primeira hora tido o mais brilhante teórico da Revolução, e que seria perseguido por Stálin: “A principal qualidade que distingue Stálin é a preguiça; a segunda, a inveja sem limites contra todos os que sabem ou podem saber mais do que ele”.

A forma com que Padura fala do papel de Stálin na Guerra Civil Espanhola me pareceu extremamente semelhante àquela com que o eterno socialista Ken Loach aborda os fatos históricos neste seu filme.

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Um retrato complexo que mostra as profundas divisões entre os legalistas

Já que vim aqui fazer este adendo, acrescento também a crítica do filme do belo, elegante, indispensável site AllMovie, escrita por Tom Wiener. Acho que ela complementa o meu texto original – ou, a rigor, dá uma visão mais lúcida, mais acurada, que a minha. Vai sem aspas para não me obrigar a ser literal.

Dado à sua filmografia que demonstra sempre uma grande consciência social, seria de se esperar que o diretor Ken Loach, com a oportunidade de fazer um filme sobre a Guerra Civil Espanhola, fosse povoá-lo com homens valentes lutando pela causa legalista, à la Por Quem os Sinos Dobram (o livro de Ernest Hemingway, baseado em sua própria experiência como brigadista, filmado em 1943 por Sam Wood, com Gary Cooper e Ingrid Bergman). Land and Freedom, no entanto, é um retrato mais complexo de um evento que inspirou poucos filmes.

O roteiro de Jim Allen faz mais do que sugerir como eram desorganizados os homens que foram para a Espanha para apoiar os legalistas, e como era comum eles serem recebidos ou com indiferença ou com hostilidade pelos cidadãos espanhóis. Dave Carr (Ian Hart) é um idealista que simplesmente assume que lutar a boa luta irá uni-lo aos seus camaradas internacionais; em vez disso, ele fica sabendo como são profundas as divisões entre os legalistas a respeito de tudo, das táticas de batalha à filosofia política. Lá pelo fim de Land and Freedom, o espectador estará mais bem equipado para compreender como os conflitos internos, tanto quando a falta de treinamento e de equipamentos, derrotaram a causa legalista, por mais elevadas que fossem suas intenções.

Outros filmes do mestre Ken Loach neste site:

Chuva de Pedras / Raining Stones (1993)

Uma Canção para Carla / Carla’s Song (1996)

Apenas um Beijo / Just a Kiss ou Ae Fond Kiss (2004)

Mundo Livre / It’s a Free World… (2007)

À Procura de Eric / Looking for Eric (2009)

Rota Irlandesa / Route Irish (2010)

A Parte dos Anjos / The Angel’s Share  (2012)

Terra e Liberdade/Land and Freedom

De Ken Loach, Inglaterra-Espanha-Alemanha-Itália, 1995.

Com Ian Hart (David Carr), Rosana Pastor (Blanca), Icíar Bollaín (Maite), Tom Gilroy (Lawrence), Marc Martínez (Juan Vidal), Frédéric Pierrot (Bernard Goujon), Suzanne Maddock (Kim, a neta de David), Angela Clarke (Kitty), Andrés Aladren (membro da milícia), Sergi Calleja (membro da milícia), Raffaele Cantatore (membro da milícia), Pascal Demolon (membro da milícia), Paul Laverty (membro da milícia), Josep Magem (membro da milícia), Eoin McCarthy (Connor), Jürgen Müller (membro da milícia), Víctor Roca (membro da milícia)

Roteiro Jim Allen

Fotografia Barry Ackroyd

Música George Fenton

Montagem Jonathan Morris

Cor, 109 min.

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  2. […] para diversos filmes importantes (Ligações Perigosas, O Pescador de Ilusões, Terra de Sombras, Terra e Liberdade), compôs a […]

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  4. Por 50 Anos de Filmes » Libertárias / Libertarias em 26 dezembro 2016 às 3:59 pm

    […] os republicanos, os antifascistas – o mesmo tema também do eterno socialista Ken Loach em seu Terra e Liberdade/Land and Freedom, feito exatamente um ano antes, 1995. Eram vários grupos, de diversos matizes ideológicos, que […]

  5. […] Terra e Liberdade/Land and Freedom; […]

  6. […] XX. Assim como diversos filmes – Ventos de Liberdade (2006) e O Salão de Jimmy (2014), ambos de Ken Loach, para dar só dois exemplos – escancararam como foi violenta, horripilantemente violenta, a […]

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