Terceira Pessoa / Third Person

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Nota: ★☆☆☆

Terceira Pessoa/Third Person é, na minha opinião, a prova de que um grande autor e realizador pode pisar no tomate, fazer uma obra fraca. Paul Haggis já fez roteiros maravilhosos, já dirigiu belíssimos filmes. Aqui, errou a mão. 

E desperdiçou um bando de bons atores: Liam Neeson, Kim Basinger, Maria Bello, Adrien Brody, mais as jovens Milan Kunis, Olivia Wilde e a bem menos conhecida Moran Atias.

Para lembrar: Paul Haggis é o único sujeito que escreveu os roteiros de duas produções que ganharam o Oscar de melhor filme em dois anos consecutivos. Na premiação de 2005, o melhor filme foi Menina de Ouro/Million Dollar Baby, de Clint Eastwood – roteiro de Paul Haggis, a partir de histórias de F. X. Toole. Na cerimônia de 2006, o melhor filme foi Crash: no Limite, dirigido por Paul Haggis, com roteiro de Paul Haggis e Robert Moresco, baseado em história criada por Paul Haggis.

Crash é um grande filme – um pesado drama sobre diversas pessoas que vivem em Los Angeles e têm suas vidas de alguma maneira interligadas. O filme teve 6 indicações ao Oscar – filme, roteiro original, montagem, ator coadjuvante para Matt Dillon, canção. Levou os três primeiros.

Em 2006, voltou a colaborar com Clint Eastwood, no díptico que ele realizou sobre as batalhas no Pacífico entre americanos e japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima – um com a visão dos japoneses, o outro com a dos americanos. Haggis escreveu a versão final do roteiro do primeiro e criou a história do segundo, juntamente com Iris Yamashita.

Em 2007, dirigiu uma obra-prima, um filme em tudo por tudo brilhante, sobre as marcas deixadas nos Estados Unidos pela participação de jovens na guerra do Iraque, No Vale das Sombras/In the Valley of Elah. Foi o autor da história original, juntamente com Mark Boal, e escreveu o roteiro brilhante do filme, que teve um elenco soberbo – Tommy Lee Jones e Susan Sarandon, como os pais de um rapaz que volta do Iraque e desaparece da base em que servia, e Charlize Theron como a detetive da polícia da cidade em que fica a base.

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Uma história acontecendo em Paris, outra em Roma, outra em Nova York

Em Terceira Pessoa, produção de 2013, com roteiro original dele mesmo, Paul Haggis quis repetir o esquema de contar histórias de diferentes personagens, como em Crash.

O espectador é apresentado de cara a três histórias, três grupos de pessoas, em sequências que vão se intercalando. Cada história se passa em uma cidade diferente, e, para deixar isso bem claro, são mostradas paisagens que não deixam dúvida de quais são: Paris, Roma, Nova York.

Como em Crash – histórias de diferentes personagens. Como em Babel (2006), de Alejandro González Iñárritu, ou 360 (2011), de Fernando Meirelles – histórias de diferentes personagens em diversos lugares deste mundo vasto mundo.

* Em Paris, Michael, um romancista (Liam Neeson), está escrevendo seu novo livro. Veremos ao longo da narrativa que ele é famoso, rico – ganhou um Prêmio Pulitzer pelo primeiro livro. Mas os seguintes foram ficando mais fracos, e agora ele parece padecer de falta de inspiração, quase um bloqueio. Está hospedado numa suíte gigantesca num hotel carésimo, com vista para a Torre Eiffel, que é uma forma de lembrar ao espectador o tempo todo que ele está em Paris.

Chega para visitá-lo, para passar uns dias com ele, sua jovem amante, Anna (Olivia Wilde), uma jornalista de Nova York que tem algum nome, e agora está se aventurando na literatura, escrevendo seu primeiro romance, que leva para Michael ler e dar sua apreciação.

Michael e Olivia são dados a jogos, brincadeirinhas. Ela gosta de interpretar personagens. Gosta de se bancar difícil. Ele também entra nessas brincadeiras. Numa sequência lá pelas tantas, ela bate na porta da suíte dele (ao contrário do que ele esperava, ela reservou para si mesma um outro apartamento no mesmo hotel), vestindo o roupão dele; diz que veio devolver. Conversam no umbral da porta, ele dentro da suíte, ela no corredor do hotel. Ele pede que ela então entregue o roupão para ele – ela tira o roupão, está nuazinha de tudo. Ele então pega o roupão, dá um passo para trás e tranca a porta!

Anna-Olivia Wilde sai correndo pelos corredores do hotel chique peladinha, peladinha, para a delícia dos funcionários na recepção, que vêem a cena pelas câmaras de segurança.

O IMDb conta que uma tomada fundamental dessa sequência teve que ser feita 57 vezes, porque o irlandesão Liam Neeson, diante daquela Olivia Wilde toda pelada na sua frente, não conseguia se concentrar.

Seguramente isso deve ser invenção do povo de marketing das produtoras, mas é uma piada boazinha.

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Um americano que detesta Roma conhece bela mulher

* Em Roma está um americano que detesta Roma, o calor de Roma, não fala uma palavra de italiano, não faz o menor esforço para tentar. Chama-se Scott, usa um terno impecável e é interpretado por Adrien Brody. O espectador não fica sabendo o que ele está fazendo em Roma, mas ele entra num lugar chamado Bar Americano, e, em inglês, pede um hambúrguer e uma Budweiser. O sujeito atrás do balcão – interpretado, se não estou enganado, por Riccardo Scamarcio, bom, experiente e belo ator do cinema italiano – é extremamente mal-humorado, e, por sua vez, não faz o menor esforço para se entender com o gringo: “No English”, diz, de maus bofes.

Chega uma moça muito atraente, bonita, de uma beleza exótica, e senta-se no balcão, perto de Scott. Chama-se, veremos depois, Monika (é interpretada por Moran Atias, uma jovem atriz nascida em 1981 em Haifa, Israel).

Scott fica encarando a moça.

* Em Nova York, uma jovem ex-atriz, Julia (o papel de Mila Kunis), foi acusada de, por negligência, ter colocado em risco a vida do filho, que quase morreu asfixiado por sacos plásticos. Com isso, perdeu a guarda do filho, que agora vivia com o pai, Rick, um pintor de sucesso (James Franco) e sua nova mulher, Sam (Loan Chabanol). Nem mesmo visitas periódicas ao garoto era permitido que ela fizesse.

Julia estava tentando na Justiça reverter essa proibição, com a ajuda de uma advogada, Theresa (Maria Bello). Mas as coisas todas pareciam conspirar contra ela: não conseguia se firmar em emprego algum, estava dura, sem um tostão. Como ter um emprego era condição fundamental para ser reconhecida como pessoa capaz, responsável, pelo serviço social e pela Justiça, teve que se contentar com o trabalho como camareira em um hotel elegante, oferecido por um amigo.

Uma das primeiras tomadas que vemos é de Maria Bello em sua casa, diante de uma piscina imensa. Ela fica junto da piscina, pronta para pular – mas não consegue. Demonstra na expressão que algo a impede de pular n’água, e entra para a cozinha da casa.

O espectador ainda não sabe quem é ela. Só um pouco mais tarde é que verá que ela é a advogada da jovem Julia. Como é que Julia, duranga daquele tanto, consegue pagar uma advogada que mora numa coisa com aquela baita piscina é só um pequenino furo da história.

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As histórias não avançam. Ficam empacadas, que nem carro atolado

O roteiro de Paul Haggis insiste muito, desde o inicinho, em embaralhar as três histórias – Paris, Roma e Nova York. Ficamos uns três minutos em Paris, saltamos para Roma, ficamos ali três minutos, saltamos para Nova York.

Para ligar uma história a outra, Haggis recorre a todo tipo de pequeno expediente. Anna entra num táxi em Paris, corta e vemos um táxi em Nova York. Anna veste uma blusa em Paris, Julia veste uma blusa em Nova York. Esse tipo de coisa. O tempo todo. Muitas vezes. Fica cansativo, chato.

Mas o pior não é isso. O pior é que nenhuma das três histórias avança. Nenhuma delas parece se sustentar, todas parecem falsas, esquisitas, forçadas. E nada avança. Voltamos umas cinco vezes ao Bar Americano de Roma, e nada de novo acontece – o americano Scott consegue estabelecer um início de conversação com a bela Monika, que sabe falar inglês.

Em Paris, Anna faz mais uma brincadeira de oferece-e-retrai com o faminto Michael.

As três histórias parecem carros atolados: as rodas giram, giram, giram, mas nada sai do lugar.

Lá pelas tantas, a história de Roma parece que conseguiu desatolar – só que anda e cai num precipício de implausibilidades, de barra forçada demais. Monika diz que tem uma filha de oito anos que está em poder de um sujeito malvado, Carlo (Vinicio Marchioni), que exige 5 mil euros. Ela tinha 5 mil euros numa sacola, mas deixa a sacola no bar, perto de Scott, e sai correndo. Scott se oferece para dar a ela os 5 mil euros. O sujeito malvado que diz estar com a filha de Monika, ao ver que ela agora tem um amigo americano de terno bonito, exige 10 mil.

Tudo vai capengando – mas a história do americano Scott e da cigana Monika é para apertar o botão de stop e ir fazer qualquer outra coisa. Só não fiz porque afinal de contas é um filme de Paul Haggis, e eu queria ver onde a coisa ia dar.

Lá pela metade do filme, Mary sacou onde a coisa ia dar. Eu ainda não tinha sacado.

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O roteiro vai espalhando pistas para o espectador sobre o que, afinal, está havendo

Há pistas que Paul Haggis vai espalhando para o espectador. O IMDb – que, evidentemente, eu só fui consultar depois de ver o filme – diz que “há um número de ‘itens’ fora do lugar no filme”. Misplaced items: equivocados, perdidos, inapropriados, extraviados, descabidos. Fora de lugar. E cita que Anna, o personagem de Olivia Wilde, que está visitando o amante Michael em Paris, pode ser vista rapidamente no banco traseiro de um carro que passa diante do Bar Americano em Roma. Um dos quadros pintados pelo personagem de James Franco, o americano de Nova York, está em exibição em Roma.

Confesso que não notei esses itens fora do lugar.

Mas até mesmo o espectador mais absolutamente desatento poderia notar a questão do hotel em que Julia, a personagem de Mila Kunis, trabalha.

Julia vive em Nova York.

Lá pela metade da narrativa, trabalhando na limpeza de um dos quartos do hotel, Julia recebe um telefonema da advogada Theresa, dizendo que ela teria que estar às tantas horas no escritório de uma mulher do serviço social, para uma entrevista que seria fundamental no pedido de direito de visitação ao filho. Julia pega um papelzinho em cima de uma mesa e anota o endereço. Mas, nervosa, deixa cair alguma coisa no chão; vai cuidar de limpar aquilo, e esquece de pegar o papelzinho. Aí o hóspede daquele quarto chega, ela pede desculpas, diz que voltará para terminar a limpeza mais tarde.

Entram no quarto Michael e Anna. Toca o telefone, Michael atende – é Elaine, sua mulher (o papel de Kim Basinger). Elaine diz que perdeu o celular anterior, mudou de número – e pede para que Michael anote. Ele anota no mesmo papelzinho em que Julia havia anotado o endereço da assistente social. E então vai para outro aposento da suíte, para falar com a esposa um pouco mais longe da jovem amante. A qual aproveita que ele não está olhando e pega o papelzinho onde estão anotados o endereço da assistente social e também o novo número de telefone de Elaine. E guarda o papelzinho – que terá importância na narrativa mais tarde.

Epa! Como assim? Julia trabalha num hotel em Nova York! E aí? Entra num túnel do tempo, numa outra dimensão, e vai parar num hotel em Paris? Viaja mais depressa do que na época do Concorde, em que o personagem de Woody Allen dizia, em Todos Dizem Eu Te Amo, que iria tomar o Concorde em Nova York para suicidar-se mais depressa em Paris?

E há ainda a misteriosa voz de criança que diz: – “Olhe para mim!”

Aparece aqui e ali, fantasmagórica, do além.

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A sacada que une as três histórias é engenhosa. Mas as histórias são fracas

Claro, não há furo aí, nem naqueles itens fora de lugar citados mais acima. A sacada – que só se revela explicitamente bem no fim – é engenhosa.

A questão, na minha opinião, o que faz o filme não funcionar, é que todas as três histórias que vão acontecendo paralelamente, concomitantemente, não são boas. Elas parecem de fato empacadas, atoladas num areal sem fim – o motor se esforça, range, mas não adianta, as rodas rodam em falso, vão se enfiando cada vez mais na areia.

A imaginação de Paul Haggis, ao escrever esta narrativa em Terceira Pessoa, estava fraquejando exatamente como a de sua criatura, o escritor Michael.

Detesto falar sozinho quando não gosto de um filme – em especial de um sujeito de talento, de filmografia rica, como Paul Haggis, e então aí vai o que diz o belo site AllMovie. O site traz apenas uma longa sinopse do filme – não foi feita crítica, avaliação.

“O vencedor do Oscar Paul Haggis (Crash) escreve e dirige este drama romântico que se alterna entre três histórias de intriga se desenvolvendo simultaneamente em Nova York, Paris e Roma. O autor Michael (Liam Neeson), vencedor do Prêmio Pulitzer, ainda está se recuperando da recente separação de sua mulher Elaine (Kim Basinger) quando se refugia num hotel de Paris para terminar seu mais recente romance. Enquanto Michael procura inspiração, a fogosa jornalista e aspirante a escritora Anna (Olivia Wilde) desperta nele uma profunda paixão. Enquanto isso, em Roma, o inescrupuloso negociante americano Scott (Adrien Brody) mergulha num lugar chamado Café Americano. Lá ele encontra a cativante beleza romana Monika (Moran Atias), que diz ter perdido o dinheiro com o qual pretendia pagar os seqüestradores de sua filha. Fascinado e simpático, Scott concorda em ir com ela a uma região perigosa no Sul da Itália, até perceber que ele pode ter sido vítima de um golpe intrincado. Enquanto Scott se aventura por um país desconhecido, a ex-estrela de novelas de TV Julia (Mila Kunis) luta contra seu ex-marido Rick, um pintor prolífico, pela guarda do seu filho de seis anos de idade em Nova York. Parece uma batalha perdida até que a advogada de Julia, Theresa (Maria Bello), convence a corte a dar à sua desesperada cliente uma última chance de provar que pode ser uma boa mãe.”

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Um crítico americano diz que é uma história opaca que vai ficando mais turva

Escolho a esmo uma crítica sobre o filme. É assinada por Jesse Perry no site examinar.com. Ele começa dizendo que o drama Third Person, de 2013, escrito e dirigido por Paul Haggis, é bastante similar a Crash, que usou um mosaico de personagens para falar sobre o racismo em Los Angeles. Diz que o filme também tem um grande elenco, mas desta vez as pretensões de Haggis eram bem mais esotéricas.

Apresenta, sucintamente, com bela capacidade de síntese, os personagens principais e as situações em que estão envolvidos. E então passa a opinar:

“Nada disso se apresenta tão interessante quanto pode soar. O segmento de Kunis faz o filme chegar a uma parada a cada vez que ele reaparece, com Franco numa interpretação apática. A subtrama é tão estranhamente escrita e construída que os dois atores parecem desconcertados pela história, e o final desse trecho luta loucamente por uma tragédia profunda, mas não consegue.

“Já que o personagem principal é um escritor, é possível enxergar este filme como o Oito e Meio de Haggis, uma meditação surrealista sobre suas próprias lutas artísticas. Mas a história é tão opaca, e vai ficando cada vez mais turva, que não fica claro sequer o que Haggis está querendo dizer.”

O Oito e Meio de Fellini! É uma bela lembrança essa, do crítico americano. Tinha me ocorrido isso também, esse paralelo com o grande clássico de 1963: um autor com bloqueio criativo, sem inspiração, com a lauda branca diante de si, tentando montar uma história na qual a realidade de sua vida pessoa teima em se fazer presente.

É como eu disse antes: a sacada – que só se revela explicitamente bem no fim – é engenhosa. Revelá-la aqui expressamente, explicitamente, seria um spoiler absurdo.

E nisso eu discordo desse Jesse Perry: ficar claro que o Haggis quer dizer, isso fica. Mary, que é mais esperta, percebeu o que ele queria dizer no meio dos looooongos 137 minutos de filme.

A sacada é engenhosa, o que ele quer dizer está claro – uma espécie de Oito e Meio, só que com uma dose grande de culpa do artista por um breve momento em que estragou a sua vida e a de sua mulher.

A questão é que faltou talento, verve, graça para criar as tramas. E me repito mais uma vez: a imaginação de Paul Haggis, ao escrever esta narrativa em Terceira Pessoa, estava fraquejando exatamente como a de sua criatura, o escritor Michael.

Anotação em junho de 2016

Terceira Pessoa/Third Person

De Paul Haggis, EUA-Bélgica-França-Inglaterra-Alemanha, 2013

Com Liam Neeson (Michael), Mila Kunis (Julia), Olivia Wilde (Anna), Adrien Brody (Scott), James Franco (Rick), Moran Atias (Monika), Kim Basinger (Elaine), Maria Bello (Theresa), Loan Chabanol (Sam, a mulher de Rick), David Harewood (Jake), Riccardo Scamarcio (Marco), Vinicio Marchioni (Carlo)

Argumento e roteiro Paul Haggis

Fotografia Gianfilippo Corticelli

Música Dario Marianelli

Montagem Jo Francis

Casting Elaine Grainger

Produção Corsan, Hwy61, Lailaps Pictures, Purple Papaya Films, Volten.

Cor, 137 min

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