Spotlight: Segredos Revelados / Spotlight

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Nota: ★★★★

Filmaço, obra-prima, cinema grande, Spotlight, do diretor Tom McCarthy, trata de dois temas fundamentais – embora, para a imensa maior parte dos espectadores, um deles seja tão importante que acaba eclipsando o outro.

O tema que salta aos olhos, à consciência, ao fígado, ao estômago, ao coração, à alma, é o absurdo, inominável crime do abuso sexual de menores de idade praticado por padres.

Abuso sexual de menores é crime hediondo, dos piores que pode haver, dos piores que a humanidade foi capaz de inventar.

Quando é praticado por padres, torna-se ainda mais abjeto, ainda mais horrendo – e o filme realça bastante isso. É dito mais de uma vez que os meninos abusados sempre tiveram, até o momento do crime, respeito imenso pelos padres, os representantes de Deus na terra.

Spotlight reconstitui, ao que tudo indica com cuidado, com absoluto respeito aos fatos, como foi que o jornal Boston Globe investigou em 2001 e 2002 e denunciou ao mundo o absurdo de que cerca de 90 padres da arquidiocese de Boston abusaram sexualmente de crianças e/ou adolescentes ao longo de uns 30 anos.

E eis aí o segundo dos dois temas que o filme trata, e que pode acabar sendo eclipsado.

O primeiro é o crime em si – os padres pedófilos.

O segundo tema é a investigação feita pelo jornal.

Ao longo dos 128 minutos de grande cinema, vemos os dois temas misturados, intrincados entre si – o crime e a investigação do crime.

É absolutamente natural que Spotlight tenha impressionado o mundo pelo crime hediondo que mostra.

Mas me parece que os criadores do filme queriam mostrar, além do crime hediondo em si, a outra face: o fato de que o crime só veio a ser descoberto por causa da existência do bom jornalismo praticado por um grande jornal.

(A foto abaixo, com os atores que fazem os papéis principais, é um still de publicidade. As demais fotos são de cenas do filme. Da esquerda para a direita, Michael Keaton, Liev Schreiber, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, John Slattery e Brian d’Arcy James.)

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Os jornais livres são tão fundamentais para os seres humanos quanto respirar

O filme disseca, radiografa o cuidadoso trabalho da equipe de repórteres do Boston Globe que passou meses e meses e meses investigando o assunto, levantando informações, entrevistando pessoas, lutando para ter acesso a documentos considerados segredo de Justiça, antes de finalmente publicar a primeira matéria.

Quando, enfim, a primeira matéria sobre o assunto é publicada – num domingo, bem no início do ano de 2002 –, o filme não se preocupa em mostrar com destaque a primeira página do jornal. Tive que recuar, depois avançar, depois parar a imagem para ver a primeira página, com a manchete “Church allowed abuse by priests for years” – a Igreja permitiu abuso de padres durante anos.

É bem no final do filme – e, aqui, não importa falar do final do filme, porque é uma história real, e todos sabem, ou deveriam saber do que se trata.

Quando, bem no final do filme, os editores do Boston Globe resolvem que já têm informações suficientes, que podem finalmente publicar a primeira matéria dizendo que a Igreja permitiu o abuso de padres durante anos, vemos pela primeira vez cenas da gráfica.

Boa parte do filme se passa na redação do jornalão.

Só no final, no finalzinho, quando enfim está sendo impressa a edição que abre a série de reportagens mostrando que cerca de 90 padres da região de Boston haviam abusado sexualmente de crianças, é que vemos, pela primeira vez, tomadas que mostram o jornal sendo impresso, dobrado, apertado e colocado nos caminhões para circular.

O diretor Tom McCarthy faz questão de mostrar os caminhões do Boston Globe saindo para levar o jornal para as bancas da grande metrópole, a capital da Nova Inglaterra, a cidade mais católica dos Estados Unidos.

E o filme também faz questão de mostrar Michael Keaton, que faz o papel do editor do Spotlight, o núcleo investigativo do jornalão, observando os caminhões saindo da gráfica.

Senti uma pontada na espinha, quando vi a cena de Michael Keaton observando os jornais saindo para espalhar para o mundo o que eles haviam, durante muitos meses, investigado profundamente – a comprovação não só de que havia dezenas de casos de abusos praticados pelos padres, mas, sobretudo, de que o cardeal de Boston, o cardeal Law, sabia de tudo e tinha trabalhado arduamente para esconder os crimes inomináveis.

Para um jornalista, é especialmente emocionante ver aquelas cenas no final deste belíssimo filme.

Os jornais livres, fortes, grandes, independentes são tão fundamentais para os seres humanos quanto respirar.

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Bom jornalismo custa caro, e por isso é preciso haver jornais fortes, ricos

A imprensa livre é tão absolutamente básica para que haja democracia quanto o funcionamento independente do sistema judiciário e do Parlamento de representantes eleitos pelo povo.

Não é à toa que a imprensa costuma ser chamada de o quarto poder, logo após o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.

Para ser livre, independente, um jornal precisa ser grande, forte, por que jornalismo é tarefa cara, extremamente cara.

Spotlight mostra bem isso. No caso específico, o Boston Globe, o maior jornal do rico Estado de Massachusetts e um dos mais importantes dos Estados Unidos, tem uma equipe formada por quatro jornalistas – chamada exatamente de Spotlight – dedicada apenas a investigar casos mais complexos, emaranhados, difíceis. Às vezes a equipe – um editor e três repórteres – levava um mês, às vezes dois meses para concluir uma reportagem, ou uma série de reportagem.

Isso é caríssimo.

Só uma empresa forte, rica, tem condições de ter uma grande redação, dezenas e dezenas de repórteres, e mais correspondentes em outras cidades fundamentais. Só um jornalão poderoso poderia se dar ao luxo de ter quatro jornalistas bem pagos trabalhando às vezes dois meses para levantar todas as informações para uma matéria.

No caso dos padres pedófilos, os quatro jornalistas do Spotlight se dedicaram exclusivamente ao assunto desde julho de 2001 até o início de 2002 (tendo no meio existido os atentados terroristas do 11 de setembro), quando foi publicada a primeira de uma longa série de reportagens – seriam quase 600, no total.

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Só há um tipo de gente que é contra o jornalismo livre, independente, forte

De novo: o jornalismo livre, independente, forte, é a maior – e, a rigor, a única – garantia para o cidadão, para a sociedade, de que nenhum órgão, nenhuma organização esconderá do público segredos, podres, crimes – sejam gigantescas corporações como a British Petroleum, a Microsoft, a Petrobrás, seja um órgão estatal, seja um partido político, seja um governo inteiro – ou a Santa Madre, a Igreja Católica Apostólica Romana, a mais longeva monarquia da face da Terra, com seus 2 mil anos e tanto.

Foi a imprensa livre – é sempre bom lembrar – que levou à renúncia o homem mais poderoso do mundo, o então presidente americano Richard Nixon.

O escândalo Watergate – que o cinema contou tintim por tintim em outro filme importante como este aqui, Todos os Homens do Presidente (1976) – provavelmente não teria sido revelado se não fosse por uma dupla de jovens repórteres do Washington Post, Carl Bernstein e Bob Woodward, que foram cobrir o que parecia um caso simples, comum, de assalto ao QG da campanha do Partido Democrata à eleição presidencial. O caso simples de assalto acabou se revelando a ponta de um iceberg de mentira e corrupção cujo líder máximo era o ocupante do principal cargo do país.

O caso Watergate tem, sim, paralelo com o dos padres pedófilos de Chicago, e os dois filmes que contam como a imprensa investigou e desvendou os escândalos são dos mais importantes de um grupo excelso de obras em que o cinema demonstrou a importância do jornalismo livre, forte e independente.

Nesse grupo estão, só para citar uns poucos, O Informante/The Insider (1999), de Michael Mann, Alto Risco/When the Sky Falls (2000), de John Mackenzie, Faces da Verdade/Nothing but the Truth (2008), de Rod Lurie, Frost/Nixon (2008), de Ron Howard, Intrigas de Estado/State of Play (2009), de Kevin Macdonald.

Só há um tipo de gente que é contra os grandes jornais, a grande imprensa, “a mídia”, como se diz agora – e a existência dessa laia é mais uma comprovação de como é vital a imprensa forte, rica, livre. São os que não querem a democracia, os que preferem algum tipo de totalitarismo, seja de esquerda, seja de direita. No totalitarismo, eles podem manter em segredo os seus podres, os seus desmandos, as suas falcatruas, a sua roubalheira.

Totalitarismo não combina com nada livre. Não pode haver imprensa livre em regime totalitário.

Não é nada complexo. É claro como água pura de uma nascente.

É simples assim.

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Um novo chefe está chegando à redação do Boston Globe

Spotlight tem um rápido intróito. Um letreiro informa o fundamental – “Baseado em eventos reais” – e situa o onde e o quando – Boston, MA – 1976. Em um distrito policial, dois policiais conversam. Chega um assistente da promotoria, um dos policiais diz que só passou por ali o repórter de um jornal menor, já tinha sido mandado embora.

Uma família está sendo ouvida.

Nada é explicitado – mas o espectador compreenderá depois que ali foi feito um acordo.

Um prelado de alto grau na hierarquia da Igreja deixa o distrito em um carro luxuoso.

Surge na tela o nome do filme, Spotlight.

Corta, e novo letreiro diz: “Redação do Boston Globe – Julho de 2001”.

O editor-chefe Jim Sullivan (Jamey Sheridan) está deixando o jornal, após algumas décadas trabalhando ali.

A redação está toda reunida para a despedida. Há dois discursos brincalhões, cheios de gozação, como costuma ser nas redações. Um deles é do segundo homem na hierarquia do jornal, Ben Bradlee Jr. (o papel de John Slattery, que sempre vai nos fazer lembrar de seu personagem Roger Sterling em Mad Men). O outro é de Walter Robinson, que todos chamam de Robby – o papel de Michael Keaton. Robby está no jornal também há mais de duas décadas, e fazia tempo era o editor do Spotlight, a equipe investigativa.

Aquela despedida acontece numa sexta-feira. Na segunda pela manhã chegaria o substituto de Jim Sullivan na chefia da redação. A diretoria do jornal estava trazendo para o cargo um jornalista de fora da casa, de fora da cidade e de fora do meio católico que impera ali, Marty Baron (o papel de Liev Schreiber), que havia tido uma passagem pelo New York Times e por um grande jornal de Miami.

Tinha fama de ser chefe que corta pessoal para fazer economia, para enfrentar a crise em que todos os jornais do mundo mergulharam, alguns mais, alguns um pouco menos, após o advento da internet e o oferecimento de graça de informação – essa mercadoria cara, que custa muito dinheiro para se obter.

Vamos conhecer rapidamente, em seguida, os três repórteres do Spotlight, que trabalham, sob a chefia de Robby, num conjunto de duas salas um andar abaixo do da redação – com independência até mesmo física da redação. São dois homens, Michael Rezendes e Matty Carroll (interpretados respectivamente por Mark Ruffalo e Brian d’Arcy James) e uma mulher, Sacha Pfeiffer (o papel de Rachel McAdams).

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Perplexidade, estupefação na reunião de pauta: – “Você quer processar a Igreja?”

O espectador atento perceberá, por um diálogo rápido entre Ben Bradlee Jr. e Robby, na segunda-feira pela manhã, que este último não costumava frequentar as reuniões de pauta do jornal. Mas, como ele é – “tecnicamente”, como os dois amigos enfatizam – um editor, e portanto tem o direito de participar da reunião, está indo para lá.

Claro que ele perderia a primeira reunião de pauta com a presença do novo editor-chefe.

Marty Baron se mostra low profile. Nem teria sentido um sujeito que vem de fora chegar à redação que vai chefiar botando banca, se exibindo, com ares de superioridade. Nada disso. Ele fala baixo, não se alonga.

A única intervenção que faz, após os editores ou chefes de reportagem apresentarem os principais assuntos de cada área naquele dia, é uma pergunta: não estava prevista nenhuma suíte da coluna de Eileen McNamara (Maureen Keiller)?

Se o espectador estiver atento, perceberá que a colunista Eileen McNamara não costumava ser chamada para as reuniões de pauta – estava ali convocada pelo novo editor-chefe.

Quem responde é Ben Bradlee Jr, já que é o segundo homem na hierarquia. Responde com uma pergunta, que, educadamente, significa: como assim, suíte de uma coluna?

(Eles não usam a palavra suíte, que é o jargão das redações brasileiras para a continuação de um assunto, a reportagem seguinte sobre assunto que já havia sido tratada no dia anterior. Usam, se não me engano, “continuação” mesmo.)

A coluna havia mencionado o caso de um padre que havia sido denunciado como pedófilo.

E então o novo chefe da redação fala, com a voz baixa, em tom contido:

– “Bem, aparentemente esse padre molestou crianças em seis paróquias diferentes nos últimos 30 anos. E o advogado das vítimas… (ele não sabe o nome do advogado, e a colunista Eileen McNamara diz o nome, e então Marty Baron o repete), Garabedian, disse que o cardeal Law soube disso há 15 anos e não fez nada.”

Alguém comenta que o advogado Garabedian (que será interpretado pelo sempre ótimo Stanley Tucci) é um tanto excêntrico, pouco confiável.

Marty Baron prossegue: – “Ele diz ter documentos que provam o que está dizendo.”

Ben Bradlee Jr. argumenta que esses documentos são confidenciais. E pergunta o que o jornal poderia fazer. Sempre com voz baixa, sem alterar a expressão e o tom, o novo chefe diz não estar familiarizado com as leis de Massachusetts, mas, se fosse como na Flórida, o jornal poderia entrar na Justiça com uma petição pela divulgação dos documentos.

– “Você quer processar a Igreja?” – pergunta Bradlee, que se mostra perplexo, assim como os demais colegas.

A expressão “processor a Igreja” – algo absolutamente impensável para todos aqueles experientes jornalistas – será repetida algumas vezes, ao longo da narrativa.

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Uma série de circunstâncias fez com o jornal não tivesse mergulhado no assunto

Me alonguei bastante detalhando essa coisa da chegada do novo editor-chefe ao Boston Globe, mostrada nos primeiros 10, 15 minutos do filme, porque ela me parece fundamental.

Todos os demais cento e tantos minutos de filme – ele dura 2 horas e 8 minutos – serão dedicados a mostrar o trabalho dos quatro jornalistas do Spotlight, que ficarão encarregados de investigar as denúncias de abusos sexuais perpetrados por padres em Boston.

Mas esse início já deixa muito claro para o espectador o que será dito ao longo de toda a narrativa: foi a chegada de um novo editor-chefe vindo de fora – e judeu, não católico, não cristão – que de fato fez o Boston Globe passar a se dedicar ao caso dos padres pedófilos, coisa que nem ele nem nenhum outro jornal havia feito antes.

E ainda bem que foi o Boston Globe, o maior jornal do lugar, o único, certamente, com dinheiro suficiente para pagar o salário de 4 bons profissionais ao longo de mais de meio ano para se dedicar a uma única investigação. E que, além de ter o dinheiro, tinha também os meios – exatamente o Spotlight, uma editoria exclusiva, especializada em fuçar histórias emaranhadas, em pesquisar, cavar, ir atrás, investigar a fundo.

O que o filme deixa muito claro, acho eu, é que foi um grande conjunto de circunstâncias que fez com o que jornal não se aprofundasse no escândalo dos padres pedófilos desde 1976, quando já havia casos acontecendo e sendo levados à polícia, até meados de 2001, quando chegou um novo editor-chefe vindo de fora. Em parte, houve, sim, por parte de um jornalista, a intenção deliberada de não mexer naquele vespeiro – Boston, repito, é a mais católica das metrópoles americanas; a Igreja Católica tem lá uma importância grande demais, como o filme mostra várias vezes.

Mas não houve, dentro da redação, uma planejada, organizada operação de abafa, de forma alguma. Houve aqui e ali falta de faro mais aguçado para perceber indícios de que a coisa era muito séria, muito ampla. Mas nunca foi uma operação ampla, uma conspiração – de forma alguma.

Às vezes quem chega de fora enxerga melhor as coisas do que quem está muito acostumado com a rotina, o dia-a-dia.

É isso, acho, que o filme passa.

E o filme chama a atenção do espectador, em diversos diálogos, para o fato de que, afinal de contas, ao contrário da imensa maioria das pessoas da redação nascidas em Boston e criadas por pais católicos, Marty Baron é judeu. Não vinha com o viés pró-Igreja que em geral mesmo os ex-católicos (como eu mesmo) tendem a ter.

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Há obras que condenam os criminosos; outros condenam toda a instituição

Quando se denunciam crimes cometidos por religiosos cristãos, católicos em especial, as obras – livros, peças, filmes – podem focar especificamente nos criminosos, ou então, diferentemente, acusar toda a instituição, a Igreja como um todo, ou até mesmo a própria religião. Luís Buñuel, por exemplo, fazia do anticlericalismo uma das principais características de muitos de seus filmes. Um anticlericalismo amplo, geral, irrestrito – que, aliás, tantos espanhóis adotam. É católico, tem a ver a Igreja – é necessariamente ruim. É aquela velha máxima mezzo anarquista, mezzo comunista: o mundo só será melhor quando o último padre for enforcado nas tripas do último patrão – algo assim.

Prefiro os que não generalizam, e, ao contrário focam na existência de criminosos dentro da instituição. Claro, há criminosos dentro da Igreja, como há no meio de qualquer outra instituição. Um exemplo perfeito desse tipo de obra me parece ser Philomena, o belíssimo filme de Stephen Frears de 2013 que conta – como este aqui – uma história real, de uma mãe solteira irlandesa que teve seu filho vendido por um grupo de freiras a uma família americana rica.

Repito aqui um trecho do que escrevi sobre Philomena:

Muita gente que vir o filme seguramente ficará com ódio e horror da religião católica. Não acho que isso seja certo. Não é a religião que é a culpada daquele horror, são as pessoas que estavam ali representando a religião.

Como se disse num filme hoje obscuro, pouquíssimo conhecido, e que no Brasil teve o título grotesco de A História de um Homem Mau (1961): o erro pode ser do cantor, não da canção. (Aliás, o título original do filme, estrelado pelos ingleses Dirk Bogarde e John Mills, é exatamente The Singer Not the Song.) Da mesma forma com que não pode culpar o islamismo pelos atos de alguns muçulmanos, não se deve culpar a Igreja Católica pelos erros – por mais violentos que sejam – de alguns religiosos.

Posso estar enganado, é claro, mas a sensação que tive foi de que este Spotlight fica quase a meio caminho entre a acusação à instituição, a toda a Igreja Católica, e a acusação focada naquele número impressionantemente alto de maçãs podres. Quase a meio caminho. A rigor, a rigor, ele pende para um dos lados, ele tem um viés anti-Igreja.

Cada espectador sairá do filme com uma sensação, é claro. O mais normal é que quem já tenha a tendência de condenar a religião veja que o filme confirma todos os seus argumentos.

Como costuma acontecer nos filmes baseados em histórias reais, ao final da narrativa letreiros informam o que aconteceu depois dos fatos mostrados ali. Eis parte do que se diz ali:

“Ao longo de 2002, o grupo do Spotlight publicou quase 600 matérias sobre o escândalo; 240 padres e irmãos foram acusados publicamente de abuso sexual dentro da Arquidiocese de Boston. O número de (vítimas) sobreviventes em Boston é estimado em bem mais de mil. Em dezembro de 2002, o cardeal Law renunciou à Arquidiocese de Boston. Ele foi realocado para a Basilica di Santa Maria Maggiore em Roma, uma das principais igrejas católicas do mundo.”

E prossegue:

“Grandes escândalos de abusos também foram descobertos em…”

E então aparecem quatro longas listas de cidades, primeiro cidades americanas, em ordem alfabética, depois de outros países do mundo. São citadas as cidades brasileiras de Arapiraca, Franca, Mariana e Rio de Janeiro.

Para lembrar: em 2002, o papa era João Paulo II, o polonês Karol Wojtila, o João de Deus.

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Um realizador de poucos filmes. Já vi três deles – todos excelentes

Tom McCarthy, nascido em New Jersey em 1966, é ator, produtor, roteirista e diretor. Sua filmografia como ator beira 40 títulos; como diretor, é cuidadoso – fez apenas cinco filmes entre sua estréia, em 2003, e este Spotlight, de 2014. Seus dois primeiros filmes – obras bastante pessoais, bem típicas do cinema independente americano de hoje – são extraordinários, me deixaram admiradíssimo: O Agente da Estação, de 2003, e O Visitante, de 2007.

Spotlight teve um orçamento (estimado, não oficial) de US$ 20 milhões – pequeno, para os padrões de Hollywood. Mas permitiu que McCarthy contasse com um elenco excelente, de primeira – e todos os atores entregaram ao diretor atuações excepcionais. O IMDb traz, na página de Trivia, de informações variadas sobre a produção, que os jornalistas Walter Robinson e Michael Rezendes ficaram absolutamente impressionados com as atuações de, respectivamente, Michael Keaton e Mark Ruffalo, que os interpretaram.

Quando Keaton e Robby se encontraram pela primeira, o ator fez uma imitação do jornalista que deixou este último impressionado: “Como você sabe tudo sobre mim? Acabamos de nos conhecer!” E mais tarde, em entrevistas, o à época do escândalo editor do Spotlight afirmou: “É como se eu me olhasse no espelho, mas não tivesse controle da imagem que aparece lá”.

E o repórter Michael Rezendes – um descendente de portugueses – disse: “Ver Mark Ruffalo reencenar cinco meses de minha vida era como olhar num desses espelhos mágicos”. De onde se pode concluir que na vida real Michael Rezendes tem mesmo aquele jeito de parecer um tanto corcunda, e com uns tiques no rosto. Mark Ruffalo está de fato impressionante.

O filme teve 110 prêmios, fora outras 123 indicações. Foram 6 indicações ao Oscar; levou o prêmio principal, o de melhor filme do ano, e o de melhor roteiro original para Tom McCarthy e Josh Singer, e perdeu nas categorias de diretor, ator coadjuvante para Mark Ruffalo, atriz coadjuvante para Rachel McAdams e montagem para Tom McArdle.

Entre essa imensa quantidade de prêmios que o filme ganhou, um tem especial destaque: o de melhor atuação do conjunto do elenco, dado por quem mais entende disso, o Screen Actors Guild, o Sindicato dos Atores.

De fato, é um conjunto assombroso de maravilhosas atuações.

Um detalhinho de nada: que eu saiba, esta é a terceira vez que a jovem Rachel McAdams interpreta uma jornalista. Ela já havia sido uma repórter investigativa em Intrigas de Estado (2009) e uma produtora de TV em Manhã de Glória (2010).

Michael Keaton já havia interpretado um jornalista em O Jornal/The Paper (1994).

Um detalhe absolutamente fascinante: Ben Bradlee Jr., o segundo homem da hierarquia da redação, interpretado por John Slattery, o Roger Sterling de Mad Men, é, como indica o nome, filho de Ben Bradlee, que era o editor-chefe do Washington Post durante as investigações do escândalo Watergate que derrubaram o presidente Richard Nixon. No filme Todos os Homens do Presidente, Ben Bradlee é interpretado pelo grande Jason Robards.

Todos os Homens do Presidente, evidentemente, foi uma das obras citadas por Tom McCarthy como tendo influenciado seu trabalho neste filme sobre jornalismo. Entre outros que ele citou como influência estão Frost/Nixon (2008), Nos Bastidores da Notícia/Broadcast News (1987), Rede de Intrigas (1976), Os Gritos do Silêncio (1984), O Informante (1999), Cidadão Kane (1941), A Montanha dos Sete Abutres (1951), O Veredito (1982) e Boa Noite e Boa Sorte (2005) – neste último, o diretor trabalhou como ator, em um pequeno papel.

Me lembrei de O Veredito enquanto via este Spotlight. Ele é o único desses citados por Tom McCarthy que não tem nada a ver com jornalismo. Tem a ver com Boston, e com a Igreja Católica, a poderosa Arquidiocese de Boston. Trata de um erro médico cometido em um hospital pertencente à Arquidiocese. O caso vai à Justiça. A Arquidiocese é representada por uma firma gigantesca de advocacia, uma das mais caras e respeitadas do país; a irmã da vítima do erro médico é representada por um advogado em fim de carreira, alcoólatra, que não enfrentava um tribunal fazia tempo – uma das melhores interpretações da carreira de Paul Newman.

Depois de O Veredicto, Spotlight é a segunda obra-prima do cinema americano a tratar da Arquidiocese de Boston como parceira, de alguma forma, de um crime.

Anotação em abril de 2016

Spotlight: Segredos Revelados/Spotlight

De Tom McCarthy, EUA, 2014.

Com Michael Keaton (Walter Robinson, Robby), Mark Ruffalo (Michael Rezendes), Rachel McAdams (Sacha Pfeiffer), Brian d’Arcy James (Matty Carroll), Liev Schreiber (Marty Baron), John Slattery (Ben Bradlee Jr.), Stanley Tucci (Mitchell Garabedian), Billy Crudup (Eric MacLeish), Gene Amoroso (Steve Kurkjian), Doug Murray (Peter Canellos), Jamey Sheridan (Jim Sullivan), Neal Huff (Phil Saviano), Len Cariou (cardeal Law), Robert B. Kennedy (funcionário do fórum), Duane Murray (Hansi Kalkofen), Michael Cyril Creighton (Joe Crowley), Paul Guilfoyle (Pete Conley), Michael Countryman (Richard Gilman), Don Allison (bispo), Patty Ross (Linda), Robert Clarke (juiz Volterra), Gary Galone (Jack Dunn), David Fraser (Jon Albano), Laurie Heineman (a juíza Sweene), Maureen Keiller (Eileen McNamara)

Roteiro Josh Singer & Tom McCarthy

Fotografia Masanobu Takayanagi

Música Howard Shore

Montagem Tom McArdle

Produção Anonymous Content, First Look Media, Participant Media, Rocklin \ Faust.

Cor, 128 min

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Um Comentário

  1. Postado em 18 setembro 2016 às 7:24 pm | Permalink

    Oi Sergio! Que otima critica sobre Spotlight! Na minha eu tb falei da importância do jornalismo livre. Da uma olhada: http://osfilmesdosoutros.blogspot.com.br/2016/03/spotlight-segredos-revelados-spotlight.html

    Obs: mudei o nome de meu blog, não é mais Cineminha de Domingo. Um grande abraço!

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