Serena

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Nota: ★★½☆

A trama de Serena tem conflitos, dramas, paixões, sofrimentos que dariam perfeitamente para encher uns cinco filmes, mais umas três novelas de TV e outras tantas minisséries. É um exagero, um excesso, um absurdo.

Tem paixão à primeira vista, amor de perdição, amor louco. Tem ambição, ambição, ambição – e traição, traição, traição e mais traição. Complô. Assassinato. Vingança. Mais assassinato. Filho bastardo. O desejo louco por um filho de sangue. Desonestidade, suborno, corrupção. Ciúme desesperador, raiva, ódio, angústia. Até luta pela preservação do meio ambiente tem também. Momentos de terror: assassino macabro perseguindo mulher e bebê indefesos – tem também.

Anos atrás reuni uma série de canções folk e dei ao conjunto delas o nome de “Folk. Ou: mais tragédias que na Bíblia e em Shakespeare”.

Serena tem mais tragédias que na Bíblia, em Shakespeare e em toda a coleção de canções folk.

É um filme extremamente bem realizado, em cada um dos quesitos.

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É estrelado pela dupla Bradley Cooper-Jennifer Lawrence, esses dois belos, talentosos atores que já haviam se dado muitíssimo bem em um filme badaladíssimo, O Lado Bom da Vida/Silver Linings Playbook (2012), e voltariam a fazer mais filmes juntos, como Trapaça/American Hustle (2013).

Ao contrário dos dois filmes citados logo acima, no entanto, e também ao contrário do que escrevi aqui originalmente, o resultado nas bilheterias americanas foi péssimo. Custou cerca de US$ 30 milhões, e, lançado em março de 2015 nos Estados Unidos, rendeu lá ínfimos, ridículos US$ 176 mil (e não milhões, como, equivocadamente, eu havia escrito aqui, até ser corrigido pelo atento Alex Melo). Mundo afora, segundo o Box Office Mojo, rendeu pouco menos que US$ 5 milhões – um fracasso comercial, portanto.

Mas o que de fato me intrigou foi por que raios a dinamarquesa Susanne Bier se dedicou a esse filme. Por que resolveu usar seu grande talento de contadora de histórias importantes, sérias, profundas, sobre relações humanas e sociais, para fazer um filme que qualquer Antoine Fuqua poderia fazer.

Uma mulher forte, determinada, muito à frente de seu tempo

 Com imensa preguiça de relatar um pouco sobre a trama, fui atrás de quem já tivesse feito isso. No AllMovie, o filme ainda não mereceu a crítica, a review, mas tem uma apresentação geral escrita por Jason Buchanan:

“Adaptada da novela de Ron Rash, o drama romântico de época Serena da diretora Susanne Bier detalha a relação que vai se deteriorando do magnata madeireiro George Pemberton (Bradley Cooper) na Carolina do Norte (em 1929 e nos anos seguintes, com os Estados Unidos afundados até o pescoço na Grande Depressão) com sua esposa Serena (Jennifer Lawrence), mulher furiosamente independente e empreendedora após um (acho que o que ele revela aqui é spoiler, e então excluo o palavra). Uma mulher que não tem medo de dizer o que pensa e domina o trabalho manual na floresta (pois era filha de madeireiros), a enigmática Serena será intensamente tomada pelo ciúme da mulher que antes havia dado um filho a seu marido.”

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Ahnn… Não vi nada de enigmático em Serena. Serena é uma jovem forte, de personalidade firme. Sim, é absolutamente independente, muito à frente de seu tempo. Primogênita de uma família numerosa que tinha uma grande madeireira no Arizona, foi a única sobrevivente de um incêndio que matou pai, mãe e todas as irmãs. Conhece o ofício de madeireiro mais até que o próprio marido, e mete a mão na massa.

Isso, o fato de ela meter a mão na massa, e de ter a autorização plena do marido para chefiar os empregados, suas atitudes independentes, tudo choca a comunidade da Carolina do Norte.

Acima de tudo, Serena é ambiciosa. É o protótipo do empreendedor capitalista pré-revolução da informação, quando mais do que propriamente cérebro era necessário ter força, persistência, coragem, determinação, capacidade de liderança.

Não há nada menos enigmático do que isso.

O amor de Serena e George é apaixonado, fortíssimo. A mistura de amor desmesurado e ambição pega fogo quando a moça passa a ser consumida pelo ciúme – não da empregada que o marido comia, mas do filho que ela pariu.

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Uma diretora dessa categoria não teria por que se enfiar neste novelão

No IMDb, acho um texto furibundo assinado por Nicole of ArchonCinemaReviews.com. Nicole estava brava:

“Se um filme tem atores indicados ao prêmio da Academia, é baseado num best-seller do New York Times, mesmo assim ele pode ser um filme de merda. Eis um exemplo: Serena. Serena é um punhado de nonsense melodramático mascarado como um bom filme de Hollywood – quando na verdade é apenas uma novela de TV de orçamento grande que se passa num período histórico.”

E em seguida ela arrasa com tudo – o roteiro, a direção, os atores, tudo, tudo, tudo.

Acho que essa Nicole exagera. O filme não é tão porcaria assim, na minha opinião.

Só acho – repito – que Susanne Bier poderia ocupar seu tempo e seu imenso talento com histórias mais interessantes, mais densas, mais sensíveis, mais humanas. Uma mulher que fez Depois do Casamento (2006) e Em Um Mundo Melhor (2010), filmes excepcionais, e também os ótimos Coisas que Perdemos pelo Caminho (2007) e O Amor é Tudo que Você Precisa (2012) realmente não tinha por que se enfiar neste novelão de exageros.

Anotação em novembro de 2015

Serena

De Susanne Bier, EUA-França-República Checa, 2014

Com Jennifer Lawrence (Serena), Bradley Cooper (Pemberton)

e Sean Harris (Campbell), Blake Ritson (Lowenstein), Toby Jones (xerife McDowell), Rhys Ifans (Galloway), Ana Ularu (Rachel), David Dencik (Buchanan), Michael Ryan (Coldfield), Hilton McRae (Doctor)

Roteiro Christopher Kyle

Baseado em livro de Ron Rash

Fotografia Morten Søborg

Música Johan Söderqvist

Casting Jina Jay

Cor, 109 min

Produção 2929 Productions, Chockstone Pictures, Nick Wechsler Productions, StudioCanal.

**1/2

3 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 3 março 2016 às 8:48 pm | Permalink

    Esse eu vou passar. Que preguiça dessa história, que preguiça dessa Jennifer Lawrence. Todas as pessoas de bom senso criticaram o fato de ela ter sido indicada novamente ao Oscar deste ano. Quero só ver ela conseguir se manter no topo, com tanta estrada ainda pela frente.
    Bradley Cooper também não me causa a menor comoção.

    Uma pena Susanne Bier ter ido por esse caminho, e claramente ter apelado para uma coisa tão comercial (vide os protagonistas, que obviamente cavaram o sucesso nas bilheterias); vi os outros quatro filmes dela que você citou, e apesar de “O Amor é Tudo que Você Precisa” ter uma pegada mais clichê no estilo ‘cinemão americano’, ainda conseguiu manter o nível.

    “Até luta pela preservação do meio ambiente tem também. Momentos de terror: assassino macabro perseguindo mulher e bebê indefesos – tem também.” Eu ri!

  2. Alex Melo
    Postado em 8 novembro 2016 às 12:04 pm | Permalink

    Olá,
    Estava fazendo uma rápida pesquisa deste filme, para ver se valia a pena e já desisti, especialmente depois do seu texto rs

    Mas estou escrevendo porque pelo Box Mojo o filme fez 176 mil dólares, não milhões. Foi um horror a bilheteria do filme…

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 8 novembro 2016 às 1:28 pm | Permalink

    Muitíssimo obrigado pela correção, Alex!
    Que erro absurdo eu cometi.
    Vou mexer em seguida no texto.
    De novo, e é para repetir mesmo, muitíssimo obrigado.
    Sérgio

Um Trackback

  1. […] uma beleza de filme este Segunda Chance, que a dinamarquesa Susanne Bier lançou em 2014. É uma mistura de drama familiar – uma especialidade da talentoso realizadora […]

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