Retorno a Ítaca / Retour à Ithaque

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Nota: ★★★★

Em sua segunda incursão a Cuba, após ter realizado um dos episódios de 7 Dias em Havana (2012), o diretor francês Laurent Cantet fez uma obra-prima, um filmaço. Retorno a Ítaca é um filme apaixonado, apaixonante, arrebatado, arrebatador, um tour-de-force, uma espetacular combinação de talentos de grandes atores.

É um filme sobre amizade, solidariedade, lembranças, sonhos, ideais, amores, a paixão pela pátria mãe, a distância, o exílio, a saudade – e el tiempo, el implacable, el que pasó.

“El tiempo, el implacable” – exatamente como diz a canção linda do cubano Pablo Milanés – é citado por um dos cinco protagonistas da história, lá pelas tantas.

Retorno a Ítaca exibe, em 95 minutos de grande cinema, trechos do encontro de cinco amigos, ao longo de quase um dia inteiro – quando a narrativa começa, quatro deles já estão reunidos, na cobertura-terraço de um prédio muito simples, comido pelo tempo, num bairro de Havana de prédios iguais àquele, pobres, mas perto do mar.

Dali de onde estão, no meio de uma tarde de céu limpo – provavelmente de um sábado –, podem ver, e o espectador também, é claro, o mar belíssimo do Caribe logo ali adiante. O ambiente é pobre, a vista é deslumbrantemente rica.

Os amigos ficarão reunidos ali – e ainda de tarde chega o quinto deles – ao longo de toda a noite, e toda a madrugada. Quando a narrativa termina, o mar de azul estupendo já começa a ser novamente visível, com os primeiros raios do sol.

Ao longo da tarde e da noite inteira, os cinco camaradas, quatro homens e uma mulher – todos aí na faixa dos 50 e tantos anos – cantam velhas canções, ensaiam passos de dança, lembram-se de episódios engraçados da juventude, riem de antigas piadas e recordações, das loucuras que fizeram, como sempre acontece quando se reencontram velhos amigos.

Mas não ficam só na alegria do reencontro e das boas lembranças. Bem ao contrário. Lembram-se de coisas amargas, pesadas, duras. Cobram-se uns dos outros por erros cometidos, por caminhos errados escolhidos. Em vários momentos, o clima fica extremamente tenso – o enfrentamento entre eles chega a momentos de paroxismo de rancor e amargura.

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Não há mais sonho algum para sonhar, e a vida na ilha é um pesadelo

Como mostra um reencontro de velhos amigos, que rememoraram o passado e falam de velhos sonhos e ideais, muitos deles desfeitos por el tiempo, el implacable, el que pasó, Retorno a Ítaca faz lembrar outros filmes, vários deles belos, emocionantes. Para o Resto de Nossas Vidas/Peter’s Friends (1992), de Kenneth Branagh. O Reencontro/The Big Chill (1983), de Lawrence Kasdan. O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas/St. Elmo’s Fire (1985), de Joel Schumacher. Sobre Ontem à Noite/About Last Night (1986), de Edward Zwick. Até a Eternidade/Les Petits Mouchoirs (2010), de Guillaume Canet. Juventude (2008), de Domingos Oliveira.

Como é sobre um reencontro de velhos amigos e o tema sonhos, ideais, revolução, mundo melhor, novo homem, socialismo, comunismo, fiquei pensando, depois que o filme terminou, em Nós Que Nos Amávamos Tanto/C’eravamo Tanto Amati, a obra-prima de Ettore Scola de 1974. Lá, três grandes amigos, que lutaram juntos contra os fascistas na Segunda Guerra, e eram todos bravos lutadores pelo triunfo do socialismo nos anos 60, e todos apaixonados pela mesma mulher, a doce e linda Luciana interpretada por Stefania Sandrelli, se separavam nas estradas da vida. E um deles – que crime! que pecado! – trocava o ideal de mudar o mundo e criar uma sociedade mais justa pelo simples amor ao dinheiro, ao vil metal.

Mas eram ainda os anos 70, e os dois amigos que continuaram nobres e pobres, mais a doce e linda Luciana, perseveravam na luta por um mundo sem iniquidade, via socialismo.

Nos anos 70, nós todos amávamos tanto a revolução, e perseguíamos o sonho da sociedade justa e solidária.

Os cinco cubanos reunidos no alto do pequeno, decrépito prédio em Havana, tinham tido, todos, os mesmos sonhos, quando eram jovens, quando muita gente, no mundo todo, olhava para a ilha como um farol, o pequeno país que havia feito a revolução para implantar a sociedade igualitária – o único do Ocidente a conseguir tal façanha.

A expressão farol, aplicada a Cuba, é usada por um deles.

Só que, agora, no momento em que se encontram ali, na segunda década do século XXI, diante do mar estupidamente belo do Caribe, não há mais sonho algum para sonhar, a vida na ilha é um absoluto pesadelo – e uma onda de indignação, de revolta, de tristeza, passa por quatro deles quando o quinto, o que havia se exilado por 16 anos na Espanha, e estava agora de volta, anuncia que sua intenção é de ficar ali para sempre, porque ali é o seu país, é o lugar que ele ama.

Todos os quatro usarão os mais diversos argumentos para tentar convencer o outro de que é uma loucura arrematada ele, que já vive lá fora, renunciar a tudo que há lá, para enfrentar a barra pesada, a absoluta penúria, a falta completa de perspectivas da vida na ilha.

Retorno a Ítaca é assim uma espécie de Nós Que Nos Amávamos Tanto versão pós fim do sonho socialista.

Ou, para usar uma expressão citada no verbete da Wikipedia em inglês sobre o escritor cubano Leonardo Padura – autor do romance em que o filme se baseia e co-autor do roteiro, ao lado do cineasta Laurent Cantet –, Retorno a Ítaca é uma forma de expressar artisticamente aquela triste verdade de que “utopias revolucionárias se transformam em distopias totalitárias”.

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De farol da utopia mundial a triste realidade da distopia totalitária

Confesso que não sabia o significado do nome Ítaca – ou então, se algum dia já soube, não me lembrava, o que dá no mesmo que não saber. Ítaca é a ilha grega onde, segundo Homero narra na Odisséia, nasceu e viveu Odisseu, que os romanos chamariam de Ulisses. Foi como rei de Ítaca que Odisseu entrou na Guerra de Tróia – e foi para Ítaca que ele tentou por vários e vários anos retornar, enfrentando todo tipo de problema que o afastava do momento em que enfim reencontraria sua Penélope.

Na história desenvolvida por Leonardo Padura e Laurent Cantet, o Odisseu, o Ulisses que retorna à sua Ítaca caribenha é Amadeo (o papel de Néstor Jiménez), após 16 anos de auto-exílio em Madri. Em Havana um intelectual, formado em universidade, escritor, textos publicados, em Madri Amadeo – como tantos milhões de imigrantes no mundo inteiro – teve que recomeçar a vida nos trabalhos mais humildes, pesados, manuais. Passou frio e fome, mas finalmente conseguiu um emprego como professor, melhorou de vida.

O conforto material na capital européia, no entanto, veio acompanhado de uma absoluta secura criativa. Não conseguia escrever mais nada que prestasse, que passasse pelo crivo de sua própria autocrítica.

Voltou para rever seu país, sua cidade, seus amigos. Todos os exilados do mundo sabem muito bem que as aves que no exílio gorjeiam não gorjeiam como na nossa terra, e os verdes campos de qualquer ilha do Norte sempre farão um exilado brasileiro se lembrar do mar do Nordeste, como diriam o maranhense Antônio Gonçalves Dias e o baiano Gilberto Passos Gil Moreira.

Será só lá pelo meio da noite e da narrativa que virá a revelação de por que, afinal, Amadeo quer trocar em definitivo, permanentemente, a liberdade de ação, de movimentos, de expressão, e mais o acesso amplo aos bens de consumo mais necessários de que desfruta na Espanha pela dureza – em todos os sentidos literais e fugurativos – da vida na ilha de Alcatraz dos Castro, a que já foi um farol da utopia mundial e hoje é apenas a triste realidade da distopia totalitária.

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De todos os cinco amigos, apenas um ainda guarda um pouquinho de esperança

Assim como Amadeo, Rafa (Fernando Hechavarria) havia sido abandonado pelas musas. Antes um pintor de talento reconhecido, uma grande promessa, tinha enfrentado problemas com as autoridades – era um falastrão, um boquirroto, num regime pouquíssimo afeito a falatrões, boquirrotos. E então tinha passado um período perdido no fundo das garrafas de rum ou de qualquer outra coisa que aparecesse. Dessa viagem pavorosa havia conseguido escapar – mas não conseguira recobrar o dom de criar. Afundara-se num abstracionismo que ele próprio desprezava – embora lhe garantisse a sobrevivência.

Tania (Isabel Santos), a única mulher do grupo, tinha, como todos os demais, estudado, feito faculdade. Era oftalmologista, mas o salário, desde o “período especial” – os anos 90, logo após o esfacelamento do Império Soviético e o fim da ajuda da URSS ao regime cubano –, mal dava para a sobrevivência mínima, e ela tinha que aceitar todo tipo de trabalho adicional para pagar as contas. Depois da separação do marido, não tinha conseguido impedir que os filhos seguissem o pai na única saída que tantos cubanos encontram – a fuga da ilha, o auto-exílio.

Aldo (Pedro Julio Díaz Ferran) é o dono do modesto apartamento do último andar do prédio próximo ao Malecón, com direito a usar o andar de cima, a cobertura-terraço. Estudou engenharia química; nos dias que correm, sobrevive usando seus conhecimentos na fabricação e conserto de baterias, usando produtos que deixam queimaduras em suas mãos.

De todo o grupo – aquelas pessoas que já nasceram pós-revolução de 1959 e na juventude, quando estudantes, foram cortar cana nos campos, naquilo que era uma das etapas da formação del hombre nuevo –, Aldo é o que mais guarda algo que poderia se chamar de esperança em dias melhores. É o único que ainda tem um pequeno estoque de crença em que não foi inteiramente perdido tudo aquilo por que sua geração passou.

Até porque, afinal de contas, consegue sobreviver ali no seu apartamento que dá direito ao uso de uma cobertura-terraço diante da água pura do Caribe. Vive com sua velha mãe, Fela (Carmen Solar), que naquele dia festivo ficou preparando um lauto jantar – com feijão preto, que os cubanos adoram mas que, como tanta coisa hoje na ilha, não é facilmente encontrável.

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O quadro que o filme traça da juventude cubana é hoje é desolador

É absolutamente fantástico como os filmes de e/ou sobre Cuba mostram que aquilo ali é idêntico ao Brasil. A ginga, a safadeza, a sacanagem, as comidas, os deuses, é tudo igualzinho aqui, igualinho que nem. O que não é de surpreender: Cuba recebeu populações africanas vindas dos mesmos lugares de onde também saíram escravos para o Brasil. Somos resultados dos mesmos cruzamentos culturais, Iemenjá e Oxóssi que o digam. A Havana mostrada nos filmes recentes é idêntica à região do Pelourinho no final dos anos 60, quando os casarões estavam abandonados, decadentes, caindo aos pedaços.

Fela, a dona da casa, não se senta à mesa com os mais jovens. Tendo preparado todo o jantar, deixa que o filho Aldo e os quatro velhos amigos dele se sentem à mesa, e vai para seu quarto descansar.

E aí eis que chega Yeonis (Rone Luís Reinoso), o filho de Aldo, com sua namoradinha, Leidianna (Andrea Doimeadios). O rapagão tem aí uns 18 anos; não trabalha nem estuda – tem absoluta certeza de que trabalho ou estudo não poderão dar a ele boa condição de vida. Chegando de fora da ilha, Amadeo trouxe uma camiseta de grife de presente para o garotão. Eddy dirá a Amadeo que, naquela mesma noite, o rapaz vai vender a camisa para ganhar um dinheirinho.

Quanto à garota, Leidianna, é uma pusteminha que não sabe conversar. Fala baixinho no ouvido do namorado – e come e bebe em quantidades industriais e a velocidades olímpicas.

O quadro da juventude cubana nestes meados da segunda década do século XXI não é propriamente alvissareiro.

Pelo que mostra o filme de Laurent Cantet, com roteiro dele e do cubano Leonardo Padura, nascido em 1955, 4 anos de idade quando Fidel Castro adentrou La Habana, Cuba, para libertar o país da horrorosa, assassina ditadura de Fulgêncio Batista, e criar el hombre nuevo, os homens novos de La Habana, Cuba, não estudam, não trabalham, não crêem em nada – são criaturas mais perdidas que cego no meio de tiroteio.

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Os amigos falam de música, de Serrat, Beatles, Stones, Mamas and Papas…

Na primeira tomada deste filme maravilhoso, os quatro amigos – Amadeo, Rafa, Tania e Aldo – estão cantando uma canção alegre, “Eva Maria”. Logo em seguida, Amadeo põe para rodar no toca-discos (sim, um toca-discos) um LP de Joan Manoel Serrat – ouvimos “Aquellas pequenas cosas”.

Eu, aqui no meu cantinho, que nasci uns 15 anos antes daqueles cubanos boas pessoas, boa gente, reconheci de cara a voz do ídolo deles, que é também meu ídolo, e fiquei feliz porque aqueles personagens, além de terem sonhado uma utopia boa como eu e todos os meus amigos sonhamos, têm também bom gosto musical.

Eles conversam sobre um show que Serrat deu quando eles eram bem jovens. É uma delícia – cada história faz lembrar outra, e mais outra, e todos os quatro amigos vão tirando histórias da memória, e rindo delas, das loucuras que faziam quando eram jovens.

Falarão mais sobre música, ao longo do filme. Mostrarão que gostar de Beatles e Rolling Stones não era permitido, no regime que começava a criar el hombre nuevo do socialismo. Falarão que deixar o cabelo comprido, naquela época em que todos os jovens do Ocidente deixavam o cabelo comprido, não era bem-vindo, no único país ocidental que fizera a revolução.

Bem mais tarde, alguém vai botar no toca-discos “California Dreamin’”, de e com The Mamas and the Papas – subversivíssimo conjunto de música alienada e alienante, divulgador dos valores mais abjetos da decadente sociedade capitalista.

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Eddy é interpretado por Jorge Perugorría, o ator que é sinônimo de cinema cubano

Faltou falar sobre Eddy, exatamente o amigo que demora um pouco a chegar para o reencontro.

Antes de Eddy chegar, os quatro amigos falam sobre ele, lembram histórias dele. Era um rebelde, uma figura. Mais que todos os outros, insistia naquela coisa perigosa de ter cabelos longos, de demonstrar gostar de rock.

Eddy aparece quando o filme está aí com uns 15 minutos. O ex-cabeludo rebelde chega absolutamente careca, com um paletó que parece caro, e carregando uma garrafa de uísque escocês e uma garrafona gigante de Coca-Cola.

Vem na pele de Jorge Perugorría, o ator de que, creio eu, podemos dizer que está para o cinema cubano assim como Ricardo Darín está para o argentino. Jorge Perugorria não é apenas um grande ator – é um ator que esteve em muitos dos filmes mais importantes que foram feitos na ilha, e nos demais países do continente, nas últimas décadas. Tipo Morango e Chocolate (1993), Guantanamera (1995), Estorvo (2000).

Esteve em 7 Dias em Havana, mas não no episódio dirigido por Laurent Cantet, “La Fuente”, e sim naquele de Juan Carlos Tabío, “Dulce Amargo”.

É um ator extraordinário, e extremamemente experiente, Jorge Perugorría – mas enfrentam-no de igual para igual os quatro atores menos conhecidos, todos cubanos, escolhidos para interpretar Amadeo, Rafa, Tania e Aldo.

Se Jorge Perugorría é mais experiente que os colegas, o personagem que ele interpreta é também ainda mais complexo, ainda mais multifacetado que os demais.

O roteiro de Retorno a Ítaca é absolutamente brilhante. Como nas grandes tragédias do teatro clássico, a ação é comprimida em um único espaço e em um pequeno período de horas. Há poucos personagens – além dos cinco amigos, só há a mãe, o filho e a quase futura nora de Aldo em cena, fora as pessoas que eles vêem de muito longe, daquele terraço de vista privilegiada que ocupam.

Os diálogos são extraordinariamente bem escritos e bem interpretados.

Os personagens são bem desenhados, críveis, sólidos.

No entanto, muita coisa não é dita explicitamente. Evitam-se os explicitismos, por desnecessários. Não é preciso alguém dizer algo tipo “filhos da puta dos Castros”. Todo espectador sabe disso, ou percebe isso ao longo do filme, sem que seja necessária a explicitude.

E Eddy-Jorge Perugorría é de longe o personagem mais complexo, mais difícil de se entender.

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Mostra-se que ele está bem com o regime. Tem mais dinheiro, tem mais acesso a bens do que todos os demais personagens. Imagine, um cubano que consome uísque escocês, algo raríssimo no último e único parque jurássico onde se brinca de comunismo no Ocidente.

Ele mesmo, que quando jovem foi rebelde, contestador, afirmará, com todas as letras, que lá pelas tantas resolveu dizer sim. Vence na vida quem diz sim, conforme sintetizava com a maestria de sempre Chico Buarque, nos tempos em que o governo não era apoiado por ele.

Em algum momento, Eddy passou a dizer sim ao governo – e então  se deu bem. Ele diz isso com todas as letras: “optei por viver bem”.

Que tipo de sapo ele topou engolir, de quantos ideais ele topou abrir mão, isso o filme não especifica claramente. Não é necessário.

Uma das mais belas elegias que o cinema já fez à amizade

Em entrevista ao jornal L’Huminaté, Laurent Cantet disse:

– “O ‘período especial’, que se seguiu à queda da União Soviética, o bloqueio americano, isso teve consequências políticas e econômicas das quais eu não imaginava a amplitude. Houve episódios de fome generalizada e uma fossilização do poder. Esses artistas, intelectuais, médicos e engenheiros, foram levados à pobreza. Compreendi melhor a noção do medo.”

Desde 1994 L’Humanité não é mais o jornal oficial do Partido Comunista Francês – mas acho uma delícia que o ex-jornal do Partidão entreviste agora o diretor francês que fez este filme que não é propriamente um elogio ao regime comunista cubano.

A ditadura velha, caquética dos Castros não baniu de vez este Retorno a Ítaca. O roteiro do filme foi apresentado ao ICAI, o Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica, e aprovado. Disse o diretor Cantet, em entrevista citada no AlloCiné: “O roteiro foi aceito pelas autoridades, embora tenha trechos muitos críticos ao que aconteceu e ainda acontece em Cuba. Houve uma vontade de parte do país de nos deixar trabalhar e fazer aquilo que tínhamos vontade de fazer”.

Prometeu-se a exibição do filme no Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano de Havana, em dezembro de 2014. No último momento, no entanto, foi proibida a exibição.

No entanto, em maio de 2015, as autoridades permitiram que o filme fosse exibido em Havana. Laurent Cantet esteve presente: “Foi genial. Não fomos autorizados a debater, após a projeção, mas o público se reuniu na frente do cinema e tivemos um debate acalorado ali mesmo. Todo mundo queria falar”, contou ele a Luiz Carlos Merten, do Estadão.

zzitaca8Merten lembrou a Cantet que seus filmes – Entre os Muros da Escola, Foxfire – Confissões de uma Gangue de Garotas – tratam de um grupo de pessoas, assim como este Retorno a Ítaca. E perguntou: “Por que a sua fascinação pelo coletivo?”

Eis a resposta do cineasta: “Não falo nenhuma novidade ao dizer que nós, humanos, nascemos para viver e interagir em grupo. Se vale para a organização social, vale também para o cinema. A diferença é que, nos filmes anteriores, os grupos eram de jovens. Aqui, são adultos maduros. Fora isso, em todos os filmes e grupos, são pessoas inquietas, que não desistiram de sonhar. Por meio de suas histórias cruzadas, o filme nos permite revisitar toda a história recente de Cuba, as esperanças de toda uma geração que acreditava na revolução e que teve de acordar para a dura realidade.”

E aí Laurent Cantet fez uma bela definição para seu filme: – “Acima de tudo, o filme é minha ode à amizade, que mantém essas pessoas unidas, e isso apesar de acertos de contas que se revelam duros.”

Leonardo Padura disse, numa entrevista: “Foi um filme feito com o coração, com as tripas de todos os que trabalharam no projeto.”

Fizeram, o escritor e o cineasta, uma maravilha de filme.

O cinema já fez muitas odes à amizade. Retorno à Ítaca é um dos mais belos que já vi.

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Anotação em fevereiro de 2016

Retorno a Ítaca/Retour à Ithaque

De Laurent Cantet, França-Bélgica, 2014

Com Néstor Jiménez (Amadeo), Fernando Hechavarria (Rafa), Jorge Perugorría (Eddy), Isabel Santos (Tanía), Pedro Julio Díaz Ferran (Aldo)

e Carmen Solar (Fela, a mãe de Aldo), Rone Luis Reinoso (Yeonis, o filho de Aldo), Andrea Doimeadios (Leidianna, a namorada de Yeonis)

Roteiro Laurent Cantet e Leonardo Padura

Com a colaboração de François Crozade e Lucia Lopez Coll

Baseado no romance La novela de mi vida, de Leonardo Padura

Fotografia Diego Dussuel

Montagem Robin Campillo

Produção Full House, Orange Studio, Haut et Court, Funny Balloons, Panache Productions, La Compagnie Cinématographique, Backup Media. DVD Imovisión.

Cor, 95 min

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  1. Por 50 Anos de Filmes » Vida de Solteiro / Singles em 15 setembro 2016 às 3:19 pm

    […] o Resto de Nossas Vidas/Peter’s Friends (1992), Até a Eternidade/Les Petits Mouchoirs (2010), Retorno a Ítaca/Retour à Ithaque […]

  2. […] prolífico, prolixo, Leonardo Padura é co-autor do roteiro de Retorno a Ítaca/Rethour à Ithaque (2014), juntamente com o diretor francês Laurent Cantet. São dele também os roteiros de três […]

  3. Por 50 Anos de Textos » Imprescindível Padura em 14 janeiro 2017 às 11:52 pm

    […] Retorno a Ítaca, esplendoroso filme franco-belga de 2014 escrito a quatro mãos pelo cineasta francês Laurent […]

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