Quiz Show – A Verdade dos Bastidores / Quiz Show

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Nota: ★★★★

Quiz Show, de 1994, o quarto filme dirigido por Robert Redford, é uma obra-prima. Daquele tipo em que tudo é perfeito, cada pequeno detalhe é preciso, justo, nada sobra, nada falta.

Conta uma história real – e discute uma ampla gama de temas importantes. Ética, honestidade, mentira, farsa, fraude. O papel dos veículos de comunicação de massa. O poder de manipulação em uma sociedade de massas. Preconceitos raciais e sociais, desigualdade social, educação, consumismo.

A ação se passa no final dos anos 1950, e a base da história é um programa de perguntas e respostas, o “Twenty One”, que era apresentado pela NBC, uma das três grandes redes da televisão americana, e chegou a ter 50 milhões de espectadores.

O filme não foi um grande sucesso de público – é sério demais para agradar a multidões –, mas teve amplo reconhecimento da crítica. Teve quatro indicações ao Oscar, nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor ator coadjuvante para o inglês Paul Scofield e melhor roteiro adaptado para Paul Attanasio. Foi indicado para o Globo de Ouro como melhor filme, melhor diretor, melhor ator coadjuvante para John Turturro e melhor roteiro, e também ao Bafta como melhor filme, melhor roteiro e melhor ator para Paul Scofield.

O projeto todo tinha tanto reconhecimento, respeito, no meio cinematográfico americano, que os diretores Martin Scorsese e Barry Levinson aceitaram fazer participações especiais, assim como os atores  Illeana Douglas, Ethan Hawke, Calista Flockhart e Griffin Dunne toparam aparecer como extras em algumas pouquíssimas cenas. Apenas pelo orgulho de fazer parte do filme.

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Uma bem encenada mentira transmitida ao vivo toda semana

Robert Redford abre e fecha seu filme ao som de “Mack the Knife”, a canção que Kurt Weill e Bertold Brecht escreveram para sua peça A Ópera dos Três Vinténs, e que descreve os diversos crimes cometidos pelo anti-herói MacHeath. A versão que encerra o filme, enquanto vão rolando os créditos finais, é a gravação de Bobby Darin de 1959, que fez um tremendo sucesso na época. Bobby Darin fez uma versão bastante diferente de todas as várias outras (a canção foi gravada por Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, só para citar alguns pouquíssimos nomes): mexeu no andamento, tornando-o bem mais lento, o que acaba realçando a força absurda da letra.

Ya know when that shark bites with his teeth, babe

Scarlet billows start to spread

Fancy gloves, oh, wears old MacHeath, babe

So there’s never, never a trace of red

A rigor, a rigor, a canção não abre o filme. Ela é ouvida nos créditos iniciais, mas, antes deles, há assim uma espécie de intróito, que dura uns 2 minutos e pouco: um rapaz de terno, chegando aos 30 anos, fumando um charuto, está numa concessionária de automóveis, sendo apresentado a um novíssimo modelo da Chrysler por um vendedor que vai enaltecendo cada pequeno detalhe técnico da maravilha.

Há muitos close-ups – de detalhes do carro, do rosto do rapaz.

O vendedor pergunta se ele mora ali mesmo em Washington, e ele diz que sim, que se formou em Direito em Harvard e está agora trabalhando para o governo federal.

O vendedor dirige-se a ele como “Mr. Goodman” – e ele corrige, é Goodwin. Nesse momento, a câmara mostra o rosto do vendedor, que faz uma careta de desprezo. Se o espectador estiver bem atento, notará que o vendedor está fazendo pouco caso daquele freguês judeu, e a careta que ele faz significa algo como “Goodman, Goodwin, é tudo a mesma coisa, seus filhos da mãe”.

Dick Goodwin (o papel de Rob Morrow, excelente) está sentado ao volante do carro, e o vendedor sugere que ele ligue o rádio. Ele liga, e a câmara faz um close-up da antena que automaticamente sobe. Ouvimos um som repetitivo, um bip, bip, bip, e um locutor diz, com aquela voz empostada dos locutores de rádio de antigamente: – “Os russos nos venceram no espaço sideral. Você está ouvindo o som do Sputnik, um satélite lançado por um foguete hoje de manhã, que está em órbita agora mesmo, diretamente em cima de nossas cabeças.”

Aí então é que corta, Bobby Darin começa a cantar “Mack the Knife” e vão rolando os créditos iniciais, enquanto vamos vendo imagens de guardas uniformizados entrando no cofre forte de um banco e depois saindo de lá carregando um envelope, que é levado até o estúdio de uma emissora de televisão. No auditório lotado, o envelope será entregue ao apresentador do programa “Twenty One”, Jack Barry (Christopher McDonald).

O envelope com as questões que Jack Barry vai fazer aos participantes do programa de perguntas e respostas sai sob estreita vigilância de guardas diretamente do cofre forte de um banco para as mãos do apresentador. Sigilo absoluto, honestidade total – ninguém sabe que perguntas serão feitas, portanto não há possibilidade de fraude.

Em menos de 20 minutos, o espectador saberá que tudo aquilo é encenação, é balela, é bobagem para enganar trouxa. Tudo, absolutamente tudo é manipulado, é jogo de cartas marcadas, de dados viciados: os candidatos recebem as perguntas com antecedência, ensaiam com o produtor do programa e seu assistente a forma de responder.

É tudo uma gigantesca fraude, uma bem encenada mentira transmitida ao vivo toda semana para os lares de 50 milhões de americanos.

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O patrocinador está cansado daquele judeu feio, antipático

Nos créditos iniciais – uma sequência brilhante, fantástica, irretocável – se informa que o filme se baseia no livro Remembering America: A Voice from the Sixties, de autoria de Richard N. Goodwin. Dick Goodwin, que, como já foi dito, é interpretado por Rob Morrow, aparece naquele intróito na concessionária de automóveis e depois some por um bom tempo. O espectador pode até se esquecer dele, porque, a partir do final dos créditos iniciais, a história se concentra em outros personagens.

Um rapaz chamado Herbie Stempel (uma interpretação maravilhosa de John Turturro) é o campeão do programa de perguntas e respostas no momento em que a narrativa começa. Herbie, ex-fuzileiro naval agora cursando faculdade, é judeu, mora em Queens, é classe média média, tem um defeito nos dentes da frente – não é propriamente uma figura bela, encantadora. Tem uma memória prodigiosa e uma cultura geral de fazer inveja a uma enciclopédia – mas fala muito, fala sem parar, com voz alta e desagradável. Além de não ser uma figura bela, não é uma pessoa simpática.

Quando o apresentador Jack Barrow inicia o programa, tendo dos dois lados os dois concorrentes daquela noite, Herbie Stempel o interrompe algumas vezes, tentando ser simpático, elogiando Geritol, o remédio produzido pela indústria farmacêutica que patrocina o “Twenty One”.

Herbie havia vencido os oito programas anteriores, e com isso faturado uma fortuna que chegava perto de US$ 100 mil

A montagem do filme é extraordinária. Tomadas curtas de diversos ambientes vão se intercalando à narrativa básica – o programa que está sendo apresentado ao vivo naquela noite, no auditório da NBC, em Manhattan. A partir dos créditos iniciais, vemos diversas tomadas rápidas de gente indo para suas casas ou para bares para estar diante do aparelho de TV no momento em que a NBC começar a transmitir o “Twenty One”.

As pessoas adoravam o show. Famílias inteiras assistiam ao show, deslumbradas.

O programa está acontecendo naquele momento, Jack Barry está na tela da TV, Herbie e seu oponente vão cada um para sua cabine à prova de som – e vemos Martin Scorsese na tela, ligando para um empregado, interpretado por Griffin Dunne (os dois haviam trabalhado juntos em After Hours, de 1985).

O personagem interpretado por Scorsese é Martin Rittenhome, o dono da indústria farmacêutica que patrocina o programa. Ao telefone, ele diz que está cansado desse Herbie Stempel. Não aguenta mais ver a cara dele.

O funcionário a quem ele diz isso liga para Robert Kintner (Allan Rich), que vem a ser o presidente da rede NBC, e dá o recado.

Robert Kintner liga para o produtor do programa, Dan Enright (David Paymer, à direita na foto abaixo).

O destino de Herbie Stempel foi traçado, definido, selado.

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E então surge Charlie Van Doren, rico, fino, chique, bonito, elegante

Num prodígio de concisão, precisão, maestria, enquanto tudo isso está rolando, e o apresentador Jack Barry está fazendo a Herbie perguntas idiotas sobre o cavalo de Paul Revere, o espectador é apresentado a outro personagem central da trama, Charlie Van Doren – o papel de um jovem e belo Ralph Fiennes (no centro na foto acima), que acabava de se tornar conhecido das audiências do mundo todo com A Lista de Schindler, lançado um ano antes deste Quiz Show, em 1993.

Charlie Van Doren é uma daquelas provas de que a vida não é justa, de que Deus e o destino não são socialistas, e concentram riqueza e sorte em uns poucos escolhidos. Ele é o oposto de Herbie. É rico, fino, chique, bonito, elegante. O tio era um grande empresário milionário. O pai, Mark Van Doren (o papel de Paul Scofield), é poeta laureado, vencedor do Pulitzer, professor de literatura. A mãe, Dorothy (Elizabeth Wilson), também é escritora.

Quem puxa aos seus não degenera, e então Charlie também faz carreira na academia: é escritor e dá aulas de literatura na Columbia University.

Tinha, assim como o pobre Herbie, gosto por conhecimentos gerais, lembrar de nomes, datas, fatos.

A primeira vez que ele aparece em cena, numa festa literária, o lançamento de um livro ou coisa parecida, Mark Van Doren, o pai, autografava um de seus livros, e Charlie se refugiara numa sala em que havia uma TV, para dar uma olhada no “Twenty One”, exatamente no momento em que Herbie respondia sobre a égua na qual Paul Revere havia cavalgado num dado episódio nas batalhas contra os ingleses pela independência americana.

Os homens de TV oferecem a vitória. Charlie quer ganhar, mas honestamente

Dias mais tarde, Charlie vai aos estúdios da NBC, se inscrever para participar do programa. É entrevistado por Albert Freedman (Hank Azaria, à esquerda na foto acima), o assistente de Dan Enright, o produtor do “Twenty One”. Freedman percebe de cara que acabou de encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris. Estava ali a Grande Esperança Branca, o herói Wasp (de branco, anglo-saxônico e protestante), uma espécie assim de Charles Lindbergh redivivo, o Joe DiMaggio intelectual que aumentaria incrivelmente a audiência já imensa do programa.

A expressão “grande esperança branca” (que aliás foi o título de um filme de Martin Ritt de 1970) é usada por Albert Freedman no filme. Enright fala em Joe DiMaggio intelectual quando o assistente leva Charlie Van Doren para que os dois se conheçam.

Depois de algum tempo de conversa a três, Dan Enright pergunta: – “E se quiséssemos colocar você no programa e perguntássemos coisas que você respondeu corretamente no teste de hoje?”

O rosto de Charlie mostra espanto. Ele diz, bem devagar – “Não estou entendendo.”

Dan Enright: – “Só estou pensando alto.”

Charlie: – “Pensei que as perguntas ficassem num cofre.”

Dan Enright: – “De uma certa forma elas ficam.”

Al Freedman: – “Você quer ganhar, não quer?”

Charlie, devagar, como se estivesse pisando em ovos, testando o terreno: – “Bem, eu acho que gostaria de ganhar dele honestamente.”

Dan Enright, de bate-pronto: – “O que é desonestidade?”

Al Freedman, de bate-pronto: – “Quando Gregory Peck pousa de pára-quedas atrás das linhas inimigas, você acha que é realmente o Gregory Peck?”

Dan Enright: – “O livro de Eisenhower foi escrito por um ghost-writer. Ninguém se importa.”

Al Freedman: – “Não estaríamos lhe dando as respostas.

Charlie, tateando: – “Só estou tentando imaginar o que Kant pensaria disso.”

À menção do filósofo Emmanuel Kant, o autor de A Metafísica das Morais, os dois homens de TV se entreolham.

Dan Enright: – “Pese no que isso significaria para a causa da educação: 40 milhões de pessoas veriam você no ‘Twenty One’. Ninguém precisa saber – só nós três.”

Charlie, depois de uma longa pausa: – “É que não me parece correto. Eu terei que dizer não.”

Dan Enright, de bate-pronto e cara limpa: – “Foi só uma idéia.”

Charlie olha para ele, olha para Al Freedman. Aí ocorre a ele que aqueles dois executivos de TV estiveram brincando com ele. Sorri e pergunta: – “Isso fazia parte do teste?”

Dan e Al se entreolham, começam a rir. Charlie ri também.

Ah, era só uma brincadeira, um teste para ver se o candidato a participar do programa era honesto ou não. Todos riem.

Corta, e os dois estão levando Charlie até o elevador.

Charlie quer que tudo fique esclarecido: – “Vai ser limpo. Certo?”

E Dan Enright garante que sim.

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A partir daqui são revelados fatos que são spoiler para quem não viu o filme

Charlie Van Doren vai participar do seu primeiro programa de TV concorrendo com o até ali invencível Herbie Stempel. E vai de boa fé, acreditando na lisura dos produtores.

No meio do programa, no entanto, o apresentador Jack Barry faz a ele uma das perguntas que Al Freedman havia feito na primeira visita dele à emissora, durante o teste que havia sido aplicado nele. Um pergunta da qual ele soube a resposta.

Ele percebe ali, claramente, que há armação, sim. Poderia cair fora, saltar da canoa.

Mas é muito dinheiro em jogo. Charlie nasceu em berço de ouro, a família é respeitadíssima, mas, como professor, ele mesmo ganha muito pouco dinheiro.

Ele não cai fora do jogo viciado.

E aí o espectador volta a ver Dick Goodwin (uma ótima atuação, repito, de Rob Morrow, na foto abaixo).

Dick Goodwin não tinha apenas se formado em Direito em Harvard, uma das melhores universidades do mundo – ele havia sido o primeiro de sua turma. Poderia escolher a firma que quisesse em Wall Street – qualquer uma delas estaria disposta a pagar a ele um belo salário. Ele cita isso, em uma hora qualquer do filme. Mas, idealista, cheio de sonhos e esperança, preferiu adiar um pouco a hora de ficar rico em Wall Street, e foi trabalhar para o governo.

Trabalhava num subcomitê do Senado Federal, o subcomitê que fiscalizava a ação das agências reguladoras – inclusive, é claro, a agência que regulamenta as ações das emissoras de rádio e televisão. Era casado com uma bela e inteligente mulher, Sandra, o papel da gracinha da Mira Sorvino.

Como todo mundo já fazia, passou a prestar atenção ao programa “Twenty One”, que estava na crista da onda, a imprensa toda dando matérias sobre o jovem professor Charles Van Doren que era o novo campeão do show de perguntas e respostas – até a revista Time deu capa com ele.

E começou a desconfiar que ali poderia haver mutreta, mentira, falsidade, fraude.

Foi graças ao empenho, à dedicação de Dick Goodwin que o Congresso americano resolveu ouvir em audiência pública todos os envolvidos no programa – Herbie Stempel, o produtor Dan Enright, o seu assistente Al Freedman, o dono do laboratório que patrocinava o show, o presidente da NBC Robert Kintner. E, claro, Charles Van Doren.

E foi graças ao relato de toda a história feita pelo próprio Dick Goodwin no seu livro Remembering America: A Voice from the Sixties que Robert Redford pôde fazer seu filme, e denunciar para as novas gerações, e lembrar as mais velhas, aquele crime cometido por uma das três grandes redes de TV do país da Justiça e da Liberdade.

E os que perpetraram o crime foram judiciosamente condenados e pagaram pesado por seus erros – certo?

Ahn… Não foi bem assim.

Nem sempre os bandidos se ferram e os mocinhos se dão bem.

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O produtor diz que todos ganham, e ninguém sai ferido. Qual é o crime, então?

Evidentemente a intenção de Robert Redford – um liberal no sentido americano do termo, um progressista, quase socialista, seguramente um eleitor de Bernie Sanders – foi denunciar a fraude, fazer com que ela seja lembrada. E, mais ainda, denunciar o fato de que os bandidos não se ferraram, de que o Sistema, o Establishment acabou protegendo e favorecendo os bandidos.

Felizmente, o filme é muito mais que um panfleto.

Quiz Show demonstra com perfeição que nada, nesse caso, é muito simples, preto x branco, good guys x bad guys.

Os dois personagens que disputaram as atenções do público no “Twenty One”, Herbie Stempel e Charlie Van Doren, ajudam a embaralhar as cores. A rigor, numa visão maniqueísta tipo Fla x Flu, Davi x Golias, Herbie seria o bonzinho – sujeito pobre, do povo, batalhador, judeu, e portanto de minoria – e Charlie seria o vilão – garotão rico, bem tratado pela vida, zelite de zôio claro, branco, anglo-saxônico, protestante.

Na realidade, Herbie é um chato de galocha, a antipatia concentrada numa pessoa só, e Charlie é um sujeito bom, legal, boa gente, que teve uma fraqueza de caráter. A mesma que Herbie teve, e, enquanto estava ganhando, Herbie não parecia mergulhado em nenhum problema moral. Charlie sempre ficou afundado em dúvidas.

Aos congressistas que o interrogam em audiência pública, o produtor do programa, Dan Elright, diz: – “Fizemos uma coisa errada: tivemos sucesso demais. O dinheiro do patrocinador veio de algum lugar. Por que você acha que os jornais e revistas estão dando tanta importância a este caso?”

Um congressista protesta: – “Você faz parecer que a vítima aqui é você.”

E Enright: – “O patrocinador ganha, a rede ganha, os concorrentes ganham somas de dinheiro que de outro modo nunca veriam durante a vida inteira, e o público ganha um entretenimento. Então, quem sai ferido?”

Title: QUIZ SHOW ¥ Pers: SCOFIELD, PAUL / FIENNES, RALPH ¥ Year: 1994 ¥ Dir: REDFORD, ROBERT ¥ Ref: QUI023BO ¥ Credit: [ HOLLYWOOD/WILDWOOD/BALTIMORE / THE KOBAL COLLECTION ]

Quem quiser ver uma idiotice como BBB, que veja, ué! Niguém tem nada a ver com isso

A coisa não é simples, não é preto x branco, Fla x Flu. A coisa é complexa demais, é cheia de nuances, é terreno pantanoso.

É verdade que muitas vezes a TV transforma notícia em entretenimento – e isso é péssimo para o jornalismo. Os jornalistas americanos costumam ser muito rígidos contra o que chamam de infotainment, esse filho bastardo do cruzamento de informação com entretenimento, essa coisa dos Datenas, dos fantásticos shows da vida. E, dentro estritamente do jornalismo, transformar notícia em show da vida para garantir audiência é de fato um crime, um pecado mortal.

Mas o que não é jornalismo…

Programa de perguntas e respostas, como tinha na TV brasileira “O Céu é o Limite”, não é jornalismo. É show. Show business – como Al Freedman diz aos congressistas. Entretenimento.

Quem foi que determinou que televisão tem necessariamente que ser  educação, verdade, pureza, vestal?

Quem não gostar de um determinado programa, que mude de canal.

Ah, o governo tem que regulamentar, criar normas específicas, já que a TV aberta é uma concessão pública.

Será? O povo precisa de um governo babá, que cuide dele em todos os momentos de sua vida, tome conta dele, regulamente o que ele pode ver na TV na hora de lazer?

Cada pessoa tem à sua disposição o controle remoto. Quem quiser ver uma sandice como BBB, só para dar um exemplo gritante, que veja, uai: o problema é só dele. O vizinho não tem nada a ver com isso. O governo muito menos.

Essa é a minha opinião.

O filme não defende isso, não quer dizer isso. O fato apresenta os fatos, e deixa que cada espectador faça seu juízo sobre os temas que apresenta.

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Quem mais sofreu com todo o escândalo foi exatamente Van Doren

Como é praxe nos filmes que relatam fatos reais, no final letreiros informam o que aconteceu com aqueles personagens depois do que foi narrado ali.

As informações são interessantíssimas.

Dick Goodwin tornou-se redator de discursos para a campanha presidencial de John F. Kennedy em 1960. Com a vitória do candidato democrata, virou membro da equipe da Casa Branca. Após o assassinato de Robert Kennedy, abandonou a política, e tornou-se escritor.

Charles Van Doren passou a trabalhar para a Encyclopaedia Britannica. Nos anos 90, quando o filme foi lançado, escrevia livros e vivia na casa da família em Corwall, Connecticut. Não voltou jamais a lecionar – e essa informação nos leva à conclusão de que a pessoa mais prejudicada na vida por causa do escândalo de fraude do programa “Twenty One” foi ele.

Anotação em abril de 2016

Quiz Show – A Verdade dos Bastidores/Quiz Show

De Robert Redford, EUA, 1994

Com Ralph Fiennes (Charles Van Doren), John Turturro (Herbie Stempel)

e Rob Morrow (Dick Goodwin), Paul Scofield (Mark Van Doren), David Paymer (Dan Enright), Hank Azaria (Albert Freedman), Christopher McDonald (Jack Barry), Johann Carlo (Toby Stempel), Elizabeth Wilson (Dorothy Van Doren), Allan Rich (Robert Kintner), Mira Sorvino (Sandra Goodwin), Paul Guilfoyle (Lishman), Michael Mantell (Pennebaker)

e, em participações especiais, Martin Scorsese (Martin Rittenhome, o patrocinador), Barry Levinson (Dave Garroway), Illeana Douglas (mulher na livraria), Ethan Hawke (estudante na classe de Mark Van Doren), Calista Flockhart (moça), Griffin Dunne (contador)

Roteiro Paul Attanasio

Baseado no livro Remembering America: A Voice from the Sixties, de Richard N. Goodwin

Fotografia Michael Ballhaus

Música Mark Isham

Montagem Stu Linder

Casting Bonnie Timmermann

Produção Robert Redford, Hollywood Pictures. DVD Buena Vista

Cor, 133 min (2h13)

R, ****

2 Comentários

  1. Carla
    Postado em 15 agosto 2016 às 8:32 pm | Permalink

    Nos anos ’70, o professor Mortimer J. Adler reescreveu seu livro “A Arte de Ler” – apenas fabuloso – um verdadeiro ensino de ‘como ler bem’, tendo como assistente Charles Van Doren. Fico pensando se Adler não chamou Van Doren para ajuda-lo, tentar tirá-lo do ostracismo acadêmico em que devia estar mergulhado.
    O filme é espetacular e sou fã dele tem muitos anos. Bom ver você comentando-o.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 16 agosto 2016 às 4:36 pm | Permalink

    Nossa, Carla, que maravilha de informação essa!
    Eu, é claro, não sabia disso!
    Obrigado por nos contar!
    Um abraço!
    Sérgio

4 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Ave, César! / Hail, Caesar! em 2 janeiro 2017 às 2:32 pm

    […] sob a batuta do igualmente sofisticado e um tanto fresco diretor Laurence Laurentz (o papel de Ralph Fiennes). O dono do estúdio ordena, de Nova York, que o papel fique com o astro em ascensão Hobie Doyle […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Mothers and Daughters em 14 março 2017 às 4:05 pm

    […] (o papel de Mira Sorvino, aquela gracinha, já com sinais da idade aparecendo na bela baby face) está num momento […]

  3. […] de 2005, foi o terceiro dos até agora cinco longa-metragens dirigidos pelo sempre ótimo ator John Turturro. Ele foi também o autor da história e do […]

  4. […] no papel de Cheryl Strayed, e este Uma Caminhada na Floresta/A Walk in the Woods (2015), com Robert Redford no papel de Bill Bryson e Nick Nolte no de seu amigo e companheiro de aventuras Stephen […]

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