Paixão Selvagem / Canyon Passage

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Nota: ★★★☆

É um bom western, este Canyon Passage, no Brasil Paixão Selvagem, que o francês Jacques Tourner fez em Hollywood para a Universal, em 1946.

E é mais que apenas um western: é também um romance, uma história de um quadrado amoroso; e é daquele tipo de western que se concentra muito na saga dos pioneiros, dos desbravadores, dos homens e das famílias que se instalaram nas vastidões do Oeste americano onde antes havia apenas tribos indígenas e a natureza selvagem.

Há índios. E há gente ruim e gente boa, mas não necessariamente bandidos e mocinhos. Não é uma história de grupo de malfeitores enfrentando quem tentava estabelecer um pouco de lei nos novos territórios. É a história da chegada do capitalismo ao mais distante Noroeste do país. O personagem central é um homem de negócios, um empreendedor.

Chama-se Logan Stuart, e vem na pele de Dana Andrews (1912-1992), que estava com tudo, mas absolutamente tudo, na época em que o filme foi lançado, logo depois do final da Segunda Guerra. Nos anos 40, Dana Andrews estrelou uma penca de filmes importantes e/ou de bons diretores, entre eles Bola de Fogo/Ball of Fire (1941), Laura (1944), Anjo ou Demônio?/Fallen Angel (1945), Os Melhores Anos de Nossas Vidas (1946), Êxtase de Amor/Daisy Kenyon (1947), O Justiceiro/Boomerang! (1947), Passos na Noite/Where the Sidewalk Ends (1950).

Quando a ação começa, Logan Stuart está chegando a Portland, Oregon, em 1856, conforme nos informa um grande letreiro ao fim dos créditos iniciais. Veremos que está estabelecido em uma pequena cidade bem ao Sul de Portland; Jacksonville, o lugar em que vive, havia sido fundada após a descoberta de ouro na região, em 1851.

O filme mostra que Logan é daquele tipo de empreendedor irrequieto, incansável, que nunca está contente com o que tem, que sempre quer fazer mais e mais. Não repousa sobre o que já conseguiu – está sempre perseguindo novas conquistas. Possui o maior armazém de Jacksonville, mas acha pouco; está sempre disposto a aceitar novas empreitadas, cuidar do transporte de cargas de outros comerciantes de um lugar para outro naquela imensidão de terra onde ainda não havia sequer diligências, quanto mais estradas de ferro – tudo tinha que ser conduzido no lombo de cavalos ou mulas.

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Bons diálogos, num gênero basicamente de poucas palavras

Na primeira sequência do filme, sob uma chuvarada incessante, logo depois de deixar seu cavalo num estábulo, Logan vai a uma loja de guarda-valores – ainda nem era propriamente um banco. Fica claro que ele e o funcionário do lugar, um tal Cornelius, se conhecem faz tempo.

Logan entrega a Cornelius uma pequena bolsa com ouro recém retirado dos veios da região de Jacksonville, e explica que quer trocar por dinheiro, papel moeda, meio circulante – coisa de que ele anda um tanto em falta, ainda acrescenta.

Cornelius examina o bocado de ouro e se mostra espantado: “Deve ter cerca de 7 mil dólares aqui. Não é bugiganga para ficar num quarto de hotel.”

Logan: – “Ouro é apenas cascalho amarelo, Cornelius.”

Cornelius: – “Sim, mas a cor amarela faz toda a diferença.”

Logan: – “A manteiga também é amarela, e você pode espalhá-la no pão. Já tentou fazer isso com ouro?”

Cornelius: – “Para um homem de negócios, você tem idéias estranhas. Se eu fosse um banqueiro – e ainda serei, algum dia –, diria que você é pouco confiável, e não emprestaria nada a você.”

Logan, finalizando, já saindo porta afora: – “Cada homem pode escolher seus deuses, Cornelius”.

Uau! O western de 1946 do francês Jacques Tourneur ainda não tem nem cinco minutos e já tivemos um diálogo brilhante, que ao mesmo tempo define bem o caráter de Logan Stuart, seu jeito de ver a vida, como também já estabelece a dissociação entre duas faces do capitalismo americano – de um lado, o empreendedor, o que faz, o comércio, a indústria, a Main Street, e, de outro lado, o capital financeiro, os bancos, os que vivem do lucro do próprio dinheiro, Wall Street.

O western é um gênero basicamente de poucas palavras, mas os bons westerns costumam ter diálogos belos, bem escritos.

Ao longo deste Canyon Passage, virão outros belos diálogos.

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O herói da história vai acompanhar a noiva do amigo na viagem de volta

Depois de deixar o ouro com o futuro banqueiro e encomendar aquela grande quantidade de meio circulante para dali a algumas horas, Logan Stuart passa numa loja, compra roupa nova para usar no lugar daquela com que viajou e está empapada de chuva, e vai para o hotel. Depois de banhado, barbeado e bem vestido, dirige-se ao quarto do hotel em que está hospedada Lucy Overmire, a protagonista feminina da história.

Lucy Overmire é o papel de Susan Hayward, e Susan Hayward (1917-1975), assim como Dana Andrews, estava com tudo, em meados dos anos 1940. Vinha de sucessos como Vendaval de Paixões/Reap the Wild Wind (1942), Romance dos Sete Mares/The Fighting Seabees (1944), Morte ao Amanhecer/Deadline at Dawn (1946). E se tornaria uma estrela ainda maior nos anos seguintes, com os sucessos David e Betsebá (1951), As Neves do Kilimanjaro (1952), Eu Chorarei Amanhã/I’ll Cry Tomorrow (1955) e Quero Viver!/I Want to Live (1958), que deu a ela o Oscar de melhor atriz, após quatro outras indicações ao prêmio.

Lucy estava esperando George Camrose, seu noivo, que deveria ter vindo de Jacksonville para levá-la até lá de volta. Mas não se assusta ao ver que quem bate à sua porta é Logan, o grande amigo de George. Logan explica que George teve que fazer uma viagem de última hora, para resolver problemas dos negócios dele, e havia pedido que ele acompanhasse a noiva na viagem de volta.

Combinam sair dali bem cedo, às 5 da manhã.

No meio da noite, um desconhecido invade o quarto de Logan, seguramente à procura do alforje em que ele guardava a pequena fortuna que recolhera em troca do seu ouro. Há uma luta, e o invasor acaba fugindo do quarto, pulando pela janela; estava escuro, e não deu nem para o espectador nem para Logan ver quem era o assaltante. Logan, no entanto – veremos pouco depois –, não tem dúvidas de que é seu antigo inimigo Honey Bragg (o papel do fordiano Ward Bond).

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Muito à frente do seu tempo, este western reconhece que a terra era dos índios

Depois de um dia inteiro na sela de um cavalo, Logan e a bela Lucy chegam ao rancho de seus amigos, os Dance, felizmente localizado a meio caminho entre Portland e Jacksonville. Os Dance (interpretados por Andy Devine e Dorothy Peterson, na foto acima) são o exemplo perfeito, emblemático, arquétipo dos colonizadores mostrados nos westerns clássicos. Gente boa até o último fio de cabelo. Trabalhadores dedicados, gente que dá um duro danado para ter uma vida decente naquelas paragens distantes demais de qualquer tipo de civilização.

No jantar, Asa (Tad Devine), um dos dois garotinhos Dance, pergunta a Logan – com a mesma admiração por ele que o garotinho Joey Starrett (Brandon De Wilde) tem por Shane (Alan Ladd), no clássico de George Stevens de 1953:

– “Você acha que os índios vão nos atacar?”

Logan responde que talvez, a sra. Dance faz um comentário sobre os tratados de paz não significarem nada, mas é a frase de Ben Dance que é extremamente impressionante:

– “Bem, a terra é deles, nós estamos nela, e eles não se esquecem disso. Acho que vai ficar tudo bem, a não ser que um feiticeiro os incite, ou se algum idiota branco fizer besteira.”

Essa frase é de fato muito especial. É muito à frente de seu tempo. Para a imensa maior parte dos westerns dos anos 40 e 50, mesmo os grandes, mesmo os de John Ford, índio bom era índio morto – ou, no mínimo, no mínimo, mantido quietinho nas reservas, como aliás eram os índios mostrados neste Canyon Passage.

Só em 1964 mestre John Ford faria Crepúsculo de uma Raça/Cheyenne Autumn, em que se penitencia por ter feito antes tantos filmes em que índio bom era índio morto. Pequeno Grande Homem/Little Big Man, o grande filme absolutamente pró-índios de Arthur Penn, só viria em 1970.

Reconhecer que a terra era dos índios é algo absolutamente surpreendente em um western de 1946.

“Acho que vai ficar tudo bem (entre índios e brancos), a não ser se algum idiota branco fizer besteira.”

Sim: um idiota branco vai fazer besteira, quando a narrativa começa a se aproximar do fim.

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Seria um quadrado amoroso – mas a rigor é pentágono

Nessa parada dos dois protagonistas da história no rancho dos Dance, o espectador fica conhecendo a outra bela mulher da trama. Chama-se Caroline Marsh, é inglesa, tinha chegado ao Oeste com seus pais, vindos em busca de uma vida melhor no Novo Mundo. Os pais haviam sido atacados por um grupo de índios rebeldes, e a bela moça estava agora órfã, sozinha no mundo, abrigada na casa dos Dance, amigos da sua família.

Caroline é interpretada por Patricia Roc (à direita na foto acima), nome que, nos créditos iniciais, aparece logo após a palavra “introducing”. Os produtores do filme estavam bancando aquela iniciante no papel da bela moça por quem Logan Stuart está interessado.

Patricia Roc era de fato inglesa – nasceu em Londres, em 1915, e morreria em Locarno, na Suíça, em 2003, aos 88 anos. Mas o “introduzindo” era coisa de americano que acha que os Estados Unidos são o umbigo do mundo e tudo que está fora de suas fronteiras ou não existe ou é de segunda categoria. Patricia Roc vinha de boa carreira no cinema inglês. Este Canyon Passage foi o primeiro filme hollywoodiano dela – e, aparentemente, o único. Voltou em seguida para os muitos milhares de anos de civilização do Velho Mundo.

Logan, Lucy, Caroline. Seria um triângulo amoroso, mas ainda tem George, o sujeito de quem Lucy está noiva, e é preciso falar um pouquinho sobre ele.

George (o papel de Brian Donlevy, ao centro na foto abaixo), o maior amigo de Logan, também é um homem de negócios, dono de um guarda-volumes, guarda-fortunas, uma espécie de pré-banco, em Jacksonville. Ao contrário do amigo, no entanto, não é um empreendedor, um trabalhador incansável. Pensa em sair dali e ter boa vida em uma cidade grande e desenvolvida, tipo Boston – e tem o vício da jogatina. Não consegue se afastar da mesa de pôquer – apesar de nela só perder.

Em um outro bom diálogo deste filme cheio de bons diálogos, Lucy tentará chamar George à razão, tentará dizer que ele precisa parar de perder tanto dinheiro no jogo. Ele responde: – “Este é o país do jogo! Todo mundo joga!”

Então é basicamente assim: George ama Lucy, que gosta de George mas na verdade tem uma tremenda atração por Logan, que gosta muito de Caroline mas não consegue esconder que tem uma tremenda atração por Lucy.

Seria um quadrado, mas, a rigor, a rigor, é um pentágono, porque, correndo por fora, há Vane Blazier (Victor Cutler), um jovem arrebatado que trabalha para Logan e é absolutamente apaixonado por Caroline.

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Um branco fará uma asneira, e os índios vão atacar

Há, quando estamos aí pela metade dos curtos 92 minutos do filme, uma longa e bela sequência em que os colonizadores de toda a região se reúnem para construir, em esquema de mutirão, a casa de um jovem casal que está para se casar, Gray e Liza (James Cardwell e Virginia Patton).

É uma das mais belas tradições dos colonizadores dos Estados Unidos, essa coisa do mutirão para construir um novo lar para um novo casal, e Jacques Tourneur criou uma sequência de grande beleza e emoção. Só se rivaliza com uma sequência do mesmo tipo de mutirão que o australiano Peter Weir filmou em A Testemunha/Witness (1985).

Que os admiradores do western tradicional não pensem que não há ação neste Canyon Passage. Quando o grupo de colonizadores está em festa, depois de concluir a construção da casa, chega um grupo de índios, que fica ali parado, observando. Branco construir casas – disso os índios não gostam, alguém comenta.

Um branco fará uma asneira, e os índios vão atacar.

E os brancos também vão se atacar entre eles mesmos. Há uma impressionante cena de luta entre o bom Logan e o mau Bragg, seu eterno inimigo.

Há muitas subtramas, nesta história publicada originalmente como folhetim no Saturday Evening Post, de autoria de Ernest Haycox, e que foi transformada em um belo roteiro por Ernest Pascal. Entre as várias pequenas histórias dentro da história maior está um assassinato, e um arremedo de tribunal, levado a efeito no saloon da cidade, sem a presença de juiz algum, em que um sujeitinho de maus bofes, Johnny Steele (interpretado por Lloyd Bridges, pai de Beau e Jeff Bridges), age como se fosse o promotor.

E há ainda um comerciante que passa mais tempo tocando mandolim e cantando do que vendendo. Chama-se Hi Linnet, e lá pelas tantas diz que Logan tem uma loja muito grande e pouco tempo para viver, enquanto ele tem uma loja pequena e bastante tempo na vida. É interpretado por Hoagy Carmichael, o grande artista que trabalhou como ator em 23 filmes, mas cujo principal talento era mesmo a música. Para Canyon Passage, o super prolixo Hoagy Carmichael compôs quatro canções, que ele mesmo apresenta ao longo do filme.

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O Guide des Films define o filme como “síntese de todos os ingredientes do western”

Muitas subtramas.

“Plotty” foi o adjetivo usado por Leonard Maltin para definir o filme. Plotty, de plot, trama – algo como tramudo, cheio de tramas. “Cheio de tramas, colorido, vibrante western que mistura ação, belíssimo cenário, relações de amor acaloradas, e Hoagy Carmichael cantando ‘Ole Buttermilk Sky’. Bem feito e divertido”, sinteza Maltin, que deu ao filme 3 estrelas em 4.

O livro The Universal Story diz o seguinte:

“Embora Canyon Passage acumule um número de clichês tão grande quanto a história permitia, acaba sendo, apesar disso, um western simpático, cheio de ação e de romance, bom de se ver (em Technicolor). Passado no belo Oregon dos pioneiros, em 1856, o roteiro de Ernest Pascal, baseado na história de Ernest Haycox do Saturday Evening Post do mesmo nome, centra-se em Dana Andrews como o herói que dirige um entreposto e um armazém; Brian Donlevy como um banqueiro local com uma triste tendência a perder o ouro de seus clientes no pôquer; Ward Bond como um duro bandido e, pelo interesse feminino, Susan Hayward como a noiva de Donlevy (embora apaixonada por Andrews) e, da Grã-Bretanha, Patricia Roc, uma incongruente namorada de Andrews até que (e aqui o livro adianta um spoiler que me recuso a entregar). Subtramas eram tantas quanto os murros na excelente produção de Walter Wanger, e elas deram emprego a Hoagy Carmichael, Andy Devine (cujos dois filhos Ted e Dennis também estão lá), Roaswe Hovaert, Halliwell Hobbes, Lloyd Bridges, Stanley Ridges, Dorothy Peterson, Vic Cutler e Fay Holden. Uma climática revolta de índios foi muito bem conduzida pelo diretor Jacques Tourneur, cujo trabalho como um todo foi louvável.”

O Guide des Films de Jean Tulard resume assim: “Síntese de todos os ingredientes do western: a maionese funciona graças à vigorosa direção de Tourneur”.

Anotação em agosto de 2016

Paixão Selvagem/Canyon Passage

De Jacques Tourneur, EUA, 1946

Com Dana Andrews (Logan Stuart), Susan Hayward (Lucy Overmire), Brian Donlevy (George Camrose), Patricia Roc (Caroline Marsh), Ward Bond (Honey Bragg), Hoagy Carmichael (Hi Linnet), Fay Holden (Mrs. Overmire), Stanley Ridges (Jonas Overmire), Lloyd Bridges (Johnny Steele), Andy Devine (Ben Dance), Dorothy Peterson (Mrs. Dance), Tad Devine (Asa Dance), Denny Devine (Bushrod Dance), Victor Cutler (Vane Blazier), Rose Hobart (Marta Lestrade), Onslow Stevens (Jack Lestrade), Halliwell Hobbes (Clenchfield), James Cardwell (Gray Bartlett), Virginia Patton (Liza Stone / Bartlett), Peter Whitney (Cornelius)

Roteiro Ernest Pascal

Adaptado da novela Canyon Passage, de Ernest Haycox, publicada no Saturday Evening Post

Fotografia Edward Cronjager

Música Frank Skinner

Canções Hoagy Carmichael

Montagem Milton Carruth

Produção Walter Wanger, Universal Pictures. DVD Versátil.

Cor, 92 min

***

Título na França: Le Passage du Canyon. Na Espanha: Tierra Generosa. Em Portugal: Amor Selvagem.

Um Comentário

  1. Carla
    Postado em 2 dezembro 2016 às 6:51 pm | Permalink

    Uau, parece coisa boa. Vou ver se encontro pra ver. E com a Susan Hayward tem outro ótimo western, acompanhada de Tyrone Power (não é dos meus favoritos, mas dá pra tolerar): Correio do Inferno, de 1951, com ação, suspense, e uma personagem feminina (vivida por Susan) que mostra certa força.

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  2. […] ele tem – como diz para ele um amigo de passagem pela cidade, Pat Wheeler (o papel de Ward Bond) – apenas um bêbado e um velho […]

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