Os Olhos Amarelos dos Crocodilos / Les Yeux Jaunes des Crocodiles

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Nota: ★★½☆

Neste seu terceiro longa-metragem, a talentosa Cécile Telerman leva menos de dois minutos para nos definir boa parte do caráter, da personalidade das duas irmãs que são as protagonistas da história. Antes mesmo dos créditos iniciais, a primeira sequência de Os Olhos Amarelos dos Crocodilos mostra duas meninas brincando na praia.

O pai chega com uma filmadora. A menina mais velha posa para a câmara, se exibe. A mais nova vira-se de costas, e, apesar dos apelos do pai, não quer aparecer. Logo em seguida veremos que, adultas, aí na faixa dos 40 e tantos anos, elas são exatamente assim.

Iris (o papel de Emmanuelle Béart) é bela e sabe muito bem disso, gosta de ser admirada, é segura de si. Casada com um advogado que ficou muito rico, Philippe (Patrick Bruel), é extremamente vaidosa, umbigo do mundo, e não dá a mínima para o filho, um garoto aí de uns dez anos.

Joséphine, Jo (o papel de Julie Depardieu), é extremamente tímida, insegura. Até sua postura física indica isso. A filha mais velha, de 15 anos, Hortense (Alice Isaaz), uma aborrescente irritante, pentelha, despreza a mãe, faz críticas violentas a ela, e idolatra o pai, Antoine (Samuel Le Bihan), que foi chefe de segurança de uma empresa e, quando a ação começa, está há muitos meses desempregado, bebe muito e trai a mulher com uma manicure – fato conhecido amplamente por todos, inclusive por Hortense, menos pela própria Jo.

Mas ela já não está mais aguentando o marido e, na primeira sequência em que os dois aparecem, no apartamento classe média média de bairro de subúrbio parisiense, ele confessa que come, sim, a manicure, e Jo o expulsa de casa.

Les yeux jaunes des crocodiles

Os personagens ou são bons demais ou são inteiramente imprestáveis

Se de um lado é fascinante como a diretora Cécile Telerman consegue tão rapidamente informar o espectador sobre as principais características das duas irmãs protagonistas da história, de outro essa coisa de desenhar personagens tão díspares, tão antípodas, indica uma simplificação, um certo esquematismo que beira o maniqueísmo puro e simples.

Veremos que Iris é dada a se aproveitar dos outros, enquanto Jo se acostumou a ser explorada pelos outros – o marido, e depois a própria irmã.

O marido de Iris é trabalhador e rico e boa pessoa, o de Jo é preguiçoso e incompetente e não tem dinheiro nem caráter.

No passado, Iris tentou carreira no cinema, estudou cinema em Nova York, mas agora é uma dondoca que não faz coisa alguma na vida.

Jo trabalha feito uma moura para pagar as contas da casa, criar as duas filhas. Ralou, estudou, fez pós, o escambau – trabalha numa tese sobre mulheres no século XII, mas complementa o salário de pesquisadora com traduções arranjadas para ela por Philippe, o cunhado bom caráter.

A mãe das duas irmãs, Henriette (Edith Scob) – um ser absolutamente repugnante, exatamente como a neta Hortense –, sempre demonstrou predileção por Iris. Acha que a mais velha deu certo na vida, enquanto Jo nunca fez nada direito. Quando a narrativa está bem adiantada, um flashback mostrará uma atitude da mãe em relação às duas filhas, quando elas eram crianças, que é nada menos que criminosa. (Relatar o fato seria um spoiler.)

O antagonismo, o jogo de preto retinto versus branco claríssimo está presente em muitas situações. Se Henriette, a mãe, é aquele horror de pessoa, o pai, morto cedo demais, era uma alma boa. Se Hortense, a filha mais velha de Jo, é aquela aborrescente pustema, a mais nova, Zoé (Apollonia Luisetti), é boa gente.

A melhor amiga de Iris é falsa – a própria Iris vai flagrá-la falando mal dela para uma outra conhecida. A melhor amiga de Jo, Shirley (Nancy Tate), é gente finíssima, de lealdade a toda prova.

Hortense é aborrescente detestável? Pois Gary, o filho de Shirley (Mathieu Spinosi), da mesma idade da outra, e que até arrasta uma asinha por ela, só tem qualidades.

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Tudo que cerca o livro assinado por Iris é absurdamente exagerado

Há ainda um outro problema, além dessa coisa que roça o esquematismo, quase o maniqueísmo. A trama contém muitos exageros. Para dar apenas um exemplo: tudo que cerca o livro assinado por Iris Dupin é exagerado.

O livro é o ponto fundamental de toda história. Tem um belo título – Une si humble reine, uma rainha tão humilde. É um romance que se passa exatamente no século XII, o tema de estudo de Jo.

Num jantar com gente importante, um editor de livros, Gaston Serrurier (Ariel Wizman), pergunta a Iris o que ela tem feito, e então Iris inventa que está escrevendo um romance passado no século XII, a Alta Idade Média, como se diz algumas vezes no filme. E então esse editor fica cobrando dela que mostre o que já escreveu, demonstra-se interessadíssimo em publicar o livro. Ora, editores não costumam ser ávidos por romances de pessoas que jamais escreveram coisa alguma – muito antes ao contrário! Bem, Iris é uma socialite, e então publicar um livro de uma figura conhecida nas colunas sociais poderia ter algum sentido, raciocinou Mary, quando estranhei o fato.

Pois bem: o romance é editado – e faz um sucesso imenso. Mas não é um sucesso, apenas. É o maior sucesso que a literatura francesa já conheceu desde… desde… Semelhante a… Ah, sei lá, Molière, Voltaire, Maupassant, Hugo, Stendhal, Balzac, Sartre, Camus…

Iris vai à TV nos melhores horários para entrevistas imensas. Vira capa de todas, mas absolutamente todas as revistas francesas.

É muito. É exagerado demais.

E há ainda um outro problema. Há momentos em que o filme beira o ridículo, com sequências, fatos, reações grotescas, caricaturais. Em especial nas sequências sobre Henriette, a mãe das duas irmãs, seu segundo marido, Marcel (Jacques Weber), e a secretária e amante dele.

Tivessem sido suprimidas quase todas as sequências desse triângulo Henriette-Marcel-secretária, o filme seria muito melhor, Mary definiu, com precisão cirúrgica.

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É um bom filme, graças aos talentos de Cécile Telerman e Julie Depardieu

Defeitos demais. É então um filme ruim?

Pois é. Tem todos esses defeitos aí sobre os quais me debrucei. No entanto, não, não é um filme ruim.

Graças, em especial, aos talentos da diretora Cécile Telerman e da atriz Julie Depardieu.

Julie está extraordinária. Impressionante. Com dez minutos de filme, eu queria me levantar e aplaudi-la de pé, como na ópera.

Cada movimento de Julie demonstra como essa mulher formidável que é Jo reage ao mundo: tímida, insegura, com déficit de autoconfiança, com excesso de bondade em relação aos outros e muita exigência em relação a si mesma.

Lá pelas tantas, Jo se interessa por um rapaz que, como ela, frequenta uma imensa, fantástica biblioteca pública, Luca (Quim Gutiérrez). Quando finalmente Luca a convida para jantar, Jo fica bebinha com dois ou três copos de vinho. A câmara de Cécile Telerman focaliza de longe os dois saindo do bar, em um plano de conjunto. Jo-Julie Depardieu, bebinha, dá uns passos inseguros. Não está realmente bêbada, não trança as pernas como uma pessoa bêbada faria, mas está levemente bebinha, então dá uns passos desajeitados. Não é algo gritante, forte – é uma coisinha pequena como a bebedeira com dois ou três copos de vinho.

Nesse momento, como em vários outros, quis parar o filme e aplaudir Julie Depardieu.

Fiquei impressionado com o fato de Julie não ter tido sequer uma indicação ao César por essa interpretação primorosa.

Julie é filha de Gérard e Elisabeth Depardieu, irmã de Guillaume, também ator, morto em 2008 aos 37 anos. Nasceu em 1973, quando o pai ainda não era um grande astro – naquele ano, ele fez um papel pequeno em Dois Homens Contra uma Cidade/Deux Hommes dans la Ville, belíssimo filme com duas estrelas gigantescas do cinema francês, de gerações diferentes, Jean Gabin e Alain Delon.

Julie Depardieu já tem mais de 70 títulos de filmes e/ou séries de TV em seu currículo; ganhou o César de revelação (melhor jovem esperança) em 2004 por A Pequena Lili/La Petit Lili e o César de melhor atriz coadjuvante em 2008 por Um Segredo de Família/Um Secret.

No filme, Jo é uns dois ou três anos mais nova que sua irmã Iris. Na vida real, a diferença de idade entre Julie Depardieu e Emmanuelle Béart é maior – são dez anos.

Emmanuelle Béart é uma mulher de beleza fulgurante, especial. É uma das mais belas atrizes do cinema francês. Me pareceu, no entanto, bem menos bela do que já foi. A impressão que dá é de alguma plástica mal feita. Mas isso é apenas um detalhe sem importância. La Béart está muito bem no seu papel, assim como Patrick Bruel, esse sujeito que consegue – à la Yves Montand – ser tão bom ator quanto cantor.

Ter grandes nomes no elenco e ser ótima diretora de atores é uma das características de Cécile Telerman.

Tournage Les yeux jaunes des crocodiles

Em dois de seus três filmes, a diretora aborda o relacionamento pais-filhos

Cécile Telerman tem uma trajetória de vida fascinante. Belga de Bruxelas, onde nasceu em 1965, filha de médicos, estudou Direito; trabalhou no departamento jurídico da Sociedade dos Autores do CNC, o centro nacional da cinematografia da França.

Mais tarde, tornou-se diretora administrativa da Sagittaire Films, uma empresa distribuidora de filmes de arte, e depois foi co-fundadora, com um amigo de infância, de uma produtora especializada em documentários.

Só em 2005, aos 40 anos de idade, co-escreveu e dirigiu seu primeiro longa-metragem, Tudo por Prazer/Tout Pour Plaire, um belo, sensível filme sobre os afetos, as desilusões, os problemas, as alegrias de três mulheres na faixa dos 35 anos em Paris, hoje – interpretadas por Mathilde Seigner, Anne Parillaud e Judith Godrèche.

Em 2009, lançou seu segundo filme, Algo que Você Precisa Saber/Quelque Chose à te Dire, um filme excelente, um drama familiar que, inesperadamente, lá pela metade da narrativa tem uma grande reviravolta e se transforma quase num thriller – ou polar, como dizem os franceses. Com ótimo elenco – Mathilde Seigner, Olivier Marchal, Pascal Elbe, Charlotte Rampling, Patrick Chesnais –, Quelque Chose à te Dire, exatamente como Tout Pour Plaire, foi escrito e roteirizado por Cécile Telerman e Jérôme Soubeyrand. Fiquei extremamente impressionado com a riqueza da trama criada pela dupla.

Uma questão tem grande importância na história daquele belo filme: a paternidade/maternidade, a imensa responsabilidade que é ter um filho, a necessidade imperiosa que todos os pais deveriam ter de estar próximos dos filhos, de cuidar bem deles, de fazer tudo o possível para dar a eles amor, afeto, carinho.

Esse tema tem presença fortíssima neste seu terceiro filme.

Os Olhos Amarelos dos Crocodilos é o primeiro dos três filmes da realizadora que não é uma história original criada por ela e um colega. O roteiro, assinado por ela e Charlotte De Champfleury, se baseia no romance homônimo de autoria de outra mulher, Katherine Pancol, uma francesa nascida em Casablanca, no Marrocos, em 1961.

O romance foi publicado em 2006 e tornou-se um best-seller, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos.

Katherine Pancol já escreveu 17 livros. Parece ter uma imaginação prodigiosa. Pela trama deste Les Yeux Jaunes des Crocodiles, parece ter sido leitora e espectadora de melodramas. Fiquei pensando que ela deve ter lido muitos livros de Fannie Hurst e visto muitos filmes de John M. Stahl e Douglas Sirk, tipo Amar foi Minha Ruína, Esquina do Pecado, Imitação da Vida.

Eu, por mim, fico à espera de um novo filme de Cécile Telerman baseado em história de Cécile Telerman.

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O produtor comprou os direitos de três romances de Katherine Pancol

Algumas informações saborosas:

* A diretora resolveu fazer uma ponta como atriz no filme. Ela aparece rapidamente, em uma sequência apenas, quando Iris reencontra o grande amor da sua vida, o hoje consagrado diretor de cinema Gabor Minar (feito pelo cineasta romeno Radu Mihaileanu, autor de Trem da Vida, O Concerto, A Fonte das Mulheres). Ela interpreta a mulher de Minar, e diz uma frase.

* Claude Lelouch obteve os direitos de filmagem do romance de Katherine Pancol. Porém, ocupado demais com outros projetos, o cineasta acabou desistindo de filmar a história. A produtora de Manuel Munz adquiriu então os direitos, e entregou a direção a Cécile Telerman.

* Esse produtor Manuel Munz comprou também os direitos de filmagem dos dois romances seguintes da autora, que formam uma trilogia: La Valse lente des tortues e Les Ecureuils de Central Park sont tristes le lundi.

* Charlotte De Champfleury, que divide com a realizadora belga a autoria do roteiro, é bem jovem, e estava recém-formada em uma escola de cinema em Londres quando os trabalhos começaram. Ela conhecia bem a história: é filha da escritora Katherine Pancol.

* As cenas externas foram de fato filmadas nos locais em que se passa a ação. As sequências dos crocodilos foram mesmo filmadas na África do Sul; as da praia, em Biscarosse, e as das montanhas, em Courchevel.

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Outros dois filmes franceses recentes também falaram de duas irmãs

É necessário fazer o registro: outros filmes franceses mais ou menos recentes têm abordado o tema da convivência de duas irmãs muito diferentes uma da outra.

Em 2004, a diretora Alexandra Leclère lançou Les Soeurs Fachées, no Brasil Nem Parece Minha Irmã! É o relato de uma visita de três dias que Louise, uma mulher do interior, da Provence, faz à sua irmã Martine, em Paris. Em cinco minutos, a jovem diretora estreante colocou a situação toda na tela, às claras: Louise, a interiorana, simples, às vezes com a aparência de simplória, é uma pessoa cheia de vida, de energia, de determinação, de alegria. Martine, a da capital, classe média alta, afetada, vazia, é um poço de infelicidade, amargura, inveja, mesquinhez. A primeira é interpretada por Catherine Frot e a segunda por Isabelle Huppert – e as duas estão extraordinárias, maravilhosas.

Em 2008, Philippe Claudel lançou Há Tanto Tempo que Te Amo/Il y a Longtemps que Je t’aime, uma obra-prima, uma perfeição. As atrizes Kristin Scott Thomas e Elsa Zylberstein interpretam duas irmãs que não se viam fazia bastante tempo e se reencontram quando a personagem da primeira sai da prisão, após cumprir longa pena. Ambas tiveram no filme interpretações fantásticas, de babar.

Catherine Frot e Isabelle Huppert. Kristin Scott Thomas e Elza Zylberstein. E agora Julie Depardieu e Emmanuelle Béart. Como tem belas e talentosas atrizes o cinema francês.

E que venha logo o próximo filme de Cécile Telerman.

Anotação em janeiro de 2016

Os Olhos Amarelos dos Crocodilos/Les Yeux Jaunes des Crocodiles

De Cécile Telerman, França-Espanha, 2014

Com Julie Depardieu (Joséphine Cortes), Emmanuelle Béart (Iris Dupin), Patrick Bruel (Philippe Dupin), Alice Isaaz (Hortense Cortes), Apollonia Luisetti (Zoé Cortes), Jacques Weber (Marcel Grobz), Edith Scob (Henriette Grobz), Karole Rocher (Josiane Lambert), Samuel Le Bihan (Antoine Cortes), Quim Gutiérrez (Luca Giampaoli), Jana Bittnerova (Irina), Nancy Tate (Shirley, a amiga de Jo), Alysson Paradis (Mylène), Nathalie Besançon (Bérangère), Bruno Debrandt (Bruno Chaval), Ariel Wizman (Gaston Serrurier), Clémentine Poidatz (Caroline Vibert), Mathieu Spinosi (Gary, o filho de Shirley), Wayne Lee Fong (Mister Wei), Radu Mihaileanu (Gabor Minar), Cécile Telerman (a mulher de Gabor Minar), Sidwell Weber (Iris criança), Fanie Zanini (Jo criança)

Roteiro Charlotte De Champfleury e Cécile Telerman

Baseado no romance de Katherine Pancol

Fotografia Colin Houben e Pascfal Ridao

Música Frédéric Aliotti

Casting Pascale Béraud

Produção Les Films Manuel Munz, Wild Bunch, TF1 Films Production, Vertigo, Canal+, TF1.

Cor, 118 min

**1/2

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