Os Corruptos / The Big Heat

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Nota: ★★★½

The Big Heat, de 1953, no Brasil Os Corruptos, é um grande filme, uma obra-prima. É um dos melhores filmes da fase americana do alemão Fritz Lang, um dos maiores realizadores do primeiro século do cinema.

É tido como um dos grandes do filme noir, esse gênero endeusado por 11 de cada 10 cinéfilos. Da essência do noir, tem, na forma, o visual extremamente bem cuidado, com ênfase no jogo de luz e sombra, o chiaroscuro, herança do expressionismo alemão dos anos 1920 que Lang conheceu tão bem, porque foi um de seus expoentes. E, no conteúdo, a atmosfera de dissolução moral, da falta de valores morais, de corrupção que se alastra e parece atingir quase todo o tecido social – herança, por sua vez, da sua época, os anos seguintes ao final da Segunda Guerra Mundial, o conflito cuja barbárie destruiu os sonhos, as ilusões de gerações.

Ao contrário, no entanto, de muitos dos mais tradicionais filmes noir, como os baseados nas histórias dos detetives particulares durões criadas por Dashiell Hammett e Raymond Chandler, em especial, não tem uma trama complexa, cheia de idas e vindas, pontos obscuros. Bem ao contrário: a história criada por William P. McGivern e publicada como série no Saturday Evening Post, e roteirizada por Sydney Boehm, é simples, direta: ao investigar o suicídio de um colega policial, o sargento da Divisão de Homicídios de uma cidade qualquer enfrenta um imenso esquema de corrupção.

É um filme poderoso, impressionante, marcante. Produção da Columbia Pictures, foi lançado no Brasil em DVD na caixa Filme Noir 2, da ótima Versátil, que incluiu como atrações especiais um depoimento de Martin Scorsese e outro de Michael Mann sobre a obra. São fascinantes os depoimentos.

Creio que existem duas seqüências que se destacam como as mais violentas de todas as dos filmes noir dos anos 40 e 50. São sequências famosas, antológicas, inesquecíveis pela brutalidade, crueza. Uma delas está em O Beijo da Morte/Kiss of Death (1947), de Henry Hathaway, em que um gângster, interpretado por Richard Widmark, empurra escadaria abaixo uma mulher paraplégica, em uma cadeira de rodas – e, ao cometer o ato insano, dá uma gargalhada.

A outra sequência mais violenta da história do filme noir está neste The Big Heat, e envolve os personagens interpretados por Lee Marvin e Gloria Grahame. Mas é melhor falar dessa cena mais tarde.

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Um começo brilhante: um homem se mata; a reação de sua mulher é gélida

O filme começa de forma brilhante. Close-up de um revólver sobre uma mesa de trabalho. Mão pega o revólver, câmara se mantém onde estava – ouve-se um tiro. Corta, nova tomada: homem morto, cabeça sobre a mesa, mão ainda segurando o revólver.

Nova tomada: close-up de envelope sobre a mesa endereçado ao procurador de Justiça.

A mulher do suicida desce as escadas da casa, chega até a sala, vê o marido morto. Não demonstra emoção alguma – nenhum sinal de espanto, de tristeza. Aproxima-se da mesa, pega o envelope, abre, dá uma olhada rápida nas diversas folhas de papel com anotações feitas à mão pelo marido que ainda está quente, assim como o revólver sobre a mesa.

Pega o telefone, disca, pede para falar com o sr. Lagana. A voz é dura, firme: – “Eu sei que é tarde. Acorde-o. Diga que a viúva de Duncan”.

Bertha Duncan, a mulher que acaba de ficar viúva e, em vez de telefonar para polícia, liga para um milionário, é interpretada por Jeanette Nolan. Mulher feia, sem qualquer charme – ótima atriz.

Saberemos que Lagana (o papel de Alexander Scourby, na foto acima) é um milionário logo na tomada seguinte, quando ele é acordado por um serviçal para atender ao telefone.

O espectador não ouve tudo o que é dito entre Lagana e Bertha Duncan.

Ao final do telefonema, Lagana sugere à viúva que agora ligue para a polícia, para avisar que seu marido se matou.

O sargento que é enviado à casa dos Duncan chama-se Dave Bannion, e ele vem na pele de Glenn Ford, um dos atores de Hollywood mais admirados e respeitáveis na época do filme.

Dave Bannion será mostrado ao espectador como um bom homem, um policial firme, honestíssimo, incorruptível, um pai e marido amantíssimo – o exemplo perfeito, acabado, do bom caráter. Dá-se muitíssimo bem com a mulher, Katie (Jocelyn Brando, na foto abaixo), e a filhinha, Joyce (Linda Bennett), um anjinho aí de uns oito, nove anos.

O legista já havia feito os primeiros exames do morto, os técnicos já haviam feito as fotos. Não há dúvida alguma de que Duncan se matou.

Dave conhecia Duncan, mas só de vista. Não trabalhavam juntos. Duncan era chefe do serviço de registros.

E então o policial perfeito vai conversar com a viúva, fazer as perguntas que são obrigatórias para que se façam todos os relatórios, sem falhas.

E aí Jeanette Nolan demonstra a boa atriz que é. O espectador já podia até prever, e o previsível acontece: diante do policial que vem fazer as perguntas de rotina, Bertha Duncan, a mulher que não demonstrou qualquer emoção ao ver o marido morto, debulha-se em lágrimas.

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O roteiro é um exemplo de concisão e perfeição. Expõe tudo logo de cara

Depois de receber o telefonema de Bertha Duncan, Mike Lagana liga para Vince Stone (o papel do jovem Lee Marvin, ainda em começo de carreira, iniciada em 1950, três anos antes do lançamento deste filme).

Quem atende é a namorada de Vince, Debby (o papel de Gloria Grahame, belíssima, talentosa atriz, na foto abaixo). Vince estava naquele momento jogando cartas e bebendo, numa sala ao lado, junto com um grupo de amigos. Debby o chama ao telefone e faz um gesto gozativo com as mãos e uma reverência de cabeça – tipo “Sua Majestade, o patrão, está chamando!”

O roteiro de Sydney Boehm, um exemplo de concisão e perfeição, demonstra todos os fatos para o espectador nos primeiros 10, 15 minutos do filme. Duncan era um policial corrupto, estava na folha de pagamento de Mike Lagana. Por algum motivo, a consciência pesou, ele se arrependeu, e escreveu ao procurador de Justiça um roteiro dos crimes do milionário – empresário e gângster que domina com mão de ferro toda a cidade, inclusive altos postos na polícia.

Sua mulher, Bertha, que sempre soube da corrupção do marido, ficou com a carta denúncia para si mesma, e passou a exigir para si um pagamento mensal, em troca do silêncio.

Vince é o secretário especial de Mike Lagana para assuntos sujos.

Debby, sua namorada, é muito bela, muito jovem, e debocha do servilismo dele mesmo diante dos amigos. É, portanto, uma bomba-relógio.

Não vai demorar nada para que Dave Bannion, o homem bom, o tira incorruptível, vá descobrindo o fio da meada e a meada inteira.

A forma tão absolutamente perfeita, rósea, com que o filme mostra a vida familiar do sargento Dave Bannion, é um indicativo forte de que virá problema.

Só não dá para prever o tamanho, a violência do problema que virá.

É extremamente chocante, quando vem.

E, bem mais tarde, há novo choque. É a tal sequência que é uma das duas mais violentas de todo o universo do filme noir. Ela envolve, como já disse lá acima, os personagens de Lee Marvin e Glora Grahame. Por mais conhecida que ela seja, por mais que seja antológica, vou evitar descrevê-la. Não é necessário – e seria um spoiler feio para quem ainda não viu o filme e não conhece a trama.

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Fritz Lang fez 23 filmes em seu período em Hollywood

Fritz Lang realizou filmes importantíssimos na sua Alemanha natal, no período entre as duas guerras mundiais, a partir exatamente de 1919, o primeiro ano após o fim da Primeira Guerra. Dr. Mabuse é de 1922. Metrópolis, de 1927, uma ficção científica, uma distopia, influenciaria diversas gerações de cineastas; parte do visual de Blade Runner se deve a essa obra-prima. M., O Vampiro de Dusseldorf, de 1931, é outra obra-prima que influenciou meio mundo.

O livro … ismos – Para entender o cinema, de Ronald Bergan, lembra que, para muitos críticos, filmes sombrios como Dr. Mabuse e M., O Vampiro de Dusseldorf, exemplos perfeitos do expressionismo alemão, “profetizaram o Terceiro Reich, através de seus personagens sádicos e suas paisagens de pesadelo”.

Fritz Lang deixou a Alemanha para fugir do nazismo que seus filmes de alguma forma já profetizavam. Como diversos outros realizadores alemães e austríacos – Ernst Lubitsch, Billy Wilder, Josef von Sternberg, Otto Preminger, Douglas Sirk, Robert Siodmak –, radicou-se nos Estados Unidos, em Hollywood. E, como diversos de seus conterrâneos, ajudou a criar o gênero noir.

Lang fez 23 filmes nos Estados Unidos, entre Fúria/Fury, de 1936, com Spencer Tracy e Sylvia Sidney, que trata de linchamento e vingança, e Suplício de uma Alma/Beyond a Reasonable Doubt, de 1936, com Dana Andrews e Joan Fontaine, que discute a pena de morte. Gostaria de já ter visto todos; dos que conheço, este aqui é o melhor, ao lado do primeiro – Fúria é também uma obra-prima.

Alguns poucos dos 23 filmes americanos já estão neste site, além do citado Suplício de uma Alma:

Os Carrascos Também Morrem/Hangmen Also Die (1943),
Um Retrato de Mulher/The Woman in the Window (1944),
Almas Perversas/Scarlet Street (1945),
A Gardênia Azul/The Blue Gardenia (1953),
No Silêncio de uma Cidade/While the City Sleeps (1956). 

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“Um film noir definitivo, com cenas perversas estonteantemente coreografadas”

“Fritz Lang voltou ao universo do film noir em The Big Heat, um melodrama sobre ‘dados, vício e corrupção’, como proclamavam os cartazes, cuja maior parte foi feita em interiores no estúdio e que mostrava um mundo de sórdida brutalidadc”, diz o livro The Columbia Story, que define o roteiro de Sidney Boehm como “firme e tenso”.

O texto realça, naturalmente, a sequência brutal que já citei duas vezes com Lee Marvin e Gloria Grahame, depois de afirmar que boa parte do sangue derramado acontece fora da tela. Isso é bem verdade: há vários episódios de violência que a câmara não mostra.

“Observar o herói e o vilão fazer o jogo de gato e rato sob a direção cheia de suspense de Lang manteve as audiências na ponta de suas cadeiras. A produção de primeira de Robert Arthur, que viria a ser uma das mais poderosas declarações sobre a criminalidade urbana do pós-guerra nos anos 50, recrutou um excelente elenco de coadjuvantes” – e o livro cita Jeanette Nolan, a atriz que faz a corrupta Bertha Duncan, diversos outros coadjuvantes e ainda Carolyn Jones.

Diabo! Não reparei em Carolyn Jones (1930-1983), a atriz de cabelos negros e gigantescos olhos azuis que me fascinou desde que, entrando na adolescência, a vi em Os Viúvos Tambem Sonham/A Hole in the Head, de Frank Capra, e Duelo de Titãs/Last Train from Gun Hill, de John Sturges, ambos de 1959.

Ah, sim: ela faz Doris, uma das moças de programa do Retreat, o bar frequentado pelos capangas do bandidão Mike Laguna. Aparece numa única sequência, em que está jogando dados ao lado de Vince Stone e sua namorada Debby; faz alguma coisa que desagrada Vince, e ele queima a mão dela com um cigarro. Revi a cena, e percebi por que não a havia reconhecido: ela está com os cabelos curtos, encaracolados e louros – e na maioria dos filmes seus cabelos são negros, lisos e compridos.

Leonard Maltin dá ao filme 3 estrelas em 4, fala da famosa cena de violência e elogia a atuação de Gloria Grahame – que, de fato, é impressionante.

Impressionante, surpreendente, incrível é o fato de que Pauline Kael, a língua mais ferina da crítica americana, elogie do filme do jeito que ela elogia. Começa assim o texto dela, na tradução de Sérgio Augusto para a edição brasileira do livro 1001 Noites no Cinema:

“O roteiro sólido e intransigente de Sidney Boehm poderia ter sido transformado num rotineiro thriller de polícia e ladrão, mas o diretor, Fritz Lang, deu-lhe um estilo formal. O filme é inteiriço; desenhado em luz e sombras, sua atmosfera de submundo brilha com as possibilidades de sadismo – um film noir definitivo, com algumas cenas perversas estonteantemente coreografadas.”

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Quem fica obcecado por vingança se torna igual às pessoas que combate

No depoimento que dá sobre o filme, com todo seu conhecimento de um cinéfilo inveterado, que já viu tudo, e mais de uma vez, Martin Scorsese chama a atenção para vários pontos importantes. Dois deles me impressionaram. O primeiro é o fato de que Glenn Ford foi muito bem escolhido para o papel porque, na época, ele vinha de vários filmes em que interpreta um bom pai de família, e essa imagem é fundamental para que a audiência simpatizasse com o personagem.

O segundo ponto é que, quando parte para a vingança, o sargento Dave Bannion, até então aquele exemplo de bom caráter, vai-se tornando tão frio, tão insensível, tão violento, quanto aqueles que pretende combater.

Se não estou enganado, essa questão já havia sido levantada por Fritz Lang na sua estréia no cinema americano, em Fúria.

A pessoa que fica obcecada pela vingança acaba se tornando igual àquelas que combate.

Essa é uma verdade que pode parecer óbvia, mas na realidade não é. Muita gente parece se esquecer disso, ou, conscientemente ou não, procura não pensar sobre isso.

É um tema sempre bem-vindo, para que a gente não caia no atrativo fácil, às vezes fascinante, do olho-por-olho, dente-por-dente, que parece tão charmoso em filmes como os da série Dirty Harry ou Desejo de Matar, ou ainda Um Dia de Fúria (1993), de Joel Schumacher, ou ainda Olho por Olho (1996), de John Schlesinger.

É um dos temas mais caros ao grande realizador francês Robert Guédiguian.

Fritz Lang soube muito bem tratá-lo aqui.

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Anotação em fevereiro de 2016

Os Corruptos/The Big Heat

De Fritz Lang, EUA, 1953

Com Glenn Ford (Dave Bannion)

e Gloria Grahame (Debby Marsh), Jocelyn Brando (Katie Bannion), Alexander Scourby (Mike Lagana), Lee Marvin (Vince Stone), Jeanette Nolan (Bertha Duncan), Peter Whitney (Tierney), Willis Bouchey (tenente Wilkes), Robert Burton (Gus Burke), Adam Williams (Larry Gordon), Howard Wendell (comissário Higgins), Chris Alcaide (George Rose), Michael Granger (Hugo), Dorothy Green (Lucy Chapman), Carolyn Jones (Doris)

Roteiro Sydney Boehm

Baseado no romance de William P. McGivern, publicado em série no Saturday Evening Post

Fotografia Charles Lang

Música Daniele Amfitheatrof

Montagem Charles Nelson

Produção Robert Arthur, Columbia Pictures. DVD Versátil.

P&B, 90 min

R, ***1/2

Título na França: Règlements de Comptes. Em Portugual: Corrupção.

2 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 9 junho 2016 às 11:01 pm | Permalink

    “Aquela” cena que acontece no quarto e você percebe o que houve em outro local é o tipo de cena que vale a pena viver para ver. E rever.
    Ah, o “Suplício de uma alma” é de 56 🙂

  2. albertino.ferreira
    Postado em 10 junho 2016 às 1:34 pm | Permalink

    Sobre “The Big Heat” (Corrupção, em Portugal)Lang disse a Peter Bogdanovich:”A história é um caso pessoal entre Glenn Ford e o crime. Ford transforma-se no público. A técnica pretendia que o público se identificasse com o personagem que via na tela e pensava como ele. Quando a mulher é assassinada, (embora a bomba no carro fosse para ele), começa a sua luta privada”. Ódio, crime e vingança atravessam, ainda que inconscientemente todos os filmes de Lang. A luta contra o destino. E a vingança, diz Lang, é o pior e o mais amargo dos frutos. O “Halliwell’s Film Guide” diz que este filme atingiu um novo patamar de violência que tem o seu cume na cena do café a ferver que desfigura a face de Gloria Grahame e que a partir daí passa a ser “a mulher sofrida”. Afirma também que introduziu uma nova forma de realismo no “film noir” onde Glenn Ford desempenha uma das melhores performances da sua carreira. Contudo, para a crítica Penélope Houston, sempre exigente, a principal impressão que resulta do filme é a violência arbitrária, mecânica, que se vai revelando aos poucos ao longo da narrativa. o “Halliwell’s dá a classificação de três estrelas num máximo de quatro.

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