Ontem, Hoje e Amanhã/Ieri Oggi Domani

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Nota: ★★½☆

Antes de mais nada: Ontem, Hoje e Amanhã, no original Ieri Oggi Domani, tem uma sequência antológica, maravilhosa, belíssima, encantadora, deliciosa.

Sophia Loren começa um strip-tease.

Ela é Mara, uma prostituta um tanto chique de Roma. Sentado em sua cama está Augusto, um de seus fregueses mais assíduos, regulares, interpretado por Marcello Mastroianni.

Os dois estão alegres, bem humorados.

Mara tira a meia preta da perna direita. Bem lentamente. Depois tira a da perna esquerda. A meia se enrosca durante alguns segundos no pé daquela mulher esplendorosa. Quando ela tira a meia e a lança em direção a Augusto, ele uiva de felicidade, prazer, tesão.

Ela tira uma espécie de cinto que envolvia o corpete.

E tira o próprio corpete.

Augusto vê – e o venturoso, feliz espectador também – a parte superior dos seios fartos prestes a sair debaixo do corpete e do sutiã.

Mara agora está apenas com o sutiã (que felizmente é pequeno, menor que os seios abundantes), e com a calcinha, mas esta o espectador não vê. A câmara mostra Mara exatamente da cintura para cima – e ela dança, faz mover as cadeiras.

Augusto passa um lenço de papel na testa, meio brincalhão, meio a sério.

E então o monumento se vira de costas, para que Alfredo – e o espectador! – possa admirar a majestosa derrière.

Mas aí subitamente Mara pára.

Lembrou-se de que não pode.

Põe sobre o corpo magnífico a blusa preta que estava usando.

– “Não podemos.”

Augusto-Marcello Mastroianni faz a cara de decepção mais decepcionada da história do cinema.

– “Temos que esperar uma semana”, ela explica.

– “Cosa?” Vale por um “o quê?”, um “como assim?”

– “Me perdõe. Não posso fazer nada.”

– “Como assim?”, ele pergunta de novo, com aquela cara de quem acabou de ter a maior reversão de expectativa que já houve no mundo.

– “Não faça essa cara. Tente entender. Fiz uma promessa.”

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Três histórias diferentes – um arranjo perfeito para Marcello e Sophia brilharem

Marcello Mastroianni e Sophia Loren, os maiores astros do cinema italiano dos anos 60 e 70, trabalharam juntos num total de sete filmes. Três deles foram dirigidos pelo grande Vittorio De Sica. Este Ontem, Hoje e Amanhã, de 1963, foi o primeiro deles; logo depois, em 1964, veio Matrimônio à Italiana. Em 1970, fizeram o único drama dos três, Os Girassóis da Rússia.

Todos os três filmes da dupla dirigidos por De Sica foram imensos sucessos de público e também de crítica. Ontem, Hoje e Amanhã ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro e mais oito prêmios. Matrimônio à Italiana conseguiu a proeza de ser indicado a Oscars em dois anos diferentes: em 1965, Sophia Loren foi indicada ao prêmio de melhor atriz, e, em 1966, o filme teve indicação ao de melhor filme estrangeiro.

Como o próprio nome sugere, Ontem, Hoje e Amanhã é um filme que tem três episódios. São histórias totalmente independentes uma das outras, de autores diferentes, de roteiristas diferentes. Têm em comum apenas o diretor e a presença dos mesmos atores – uma oportunidade perfeita para Marcello e Sophia mostrarem sua versatilidade, sua capacidade de interpretar tipos bem diferentes uns dos outros.

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No primeiro episódio, são pobres; no segundo ela é milionária e no terceiro, puta

No primeiro episódio, “Adelina”, passado em Nápoles, eles interpretam um casal pobre – ele, sempre desempregado, ela, vivendo de vender cigarros estrangeiros contrabandeados, e, portanto, sempre procurada pela polícia. Adelina é multada por vender contrabando – mas o casal descobre que mulher grávida não pode ser presa, e assim passam a ter um filho depois do outro.

O roteiro é de Eduardo De Filippo & Isabella Quarantotti, baseado em história do primeiro.

O segundo episódio, “Anna”, é em tudo o oposto do primeiro. Em vez de no Sul mais pobre, passa-se em Milão, no Norte desenvolvido, industrializado, rico. Anna, a segunda personagem de Sophia no filme, é uma milionária chata e entediada, como em geral eram todos os personagens “burgueses” de todos os filmes italianos (e também os franceses) dos anos 50 a 80. Renzo, o personagem de Mastroianni, é um escritor, um intelectual, por quem Anna teve uma certa fascinação, e com quem, numa manhã qualquer, a milionária passeia em seu Rolls-Royce. Para ser bem exato, um Rolls-Royce Silver Cloud III Convertible ano 1963.

O roteiro tem a assinatura Cesare Zavattini, um dos principais nomes do neo-realismo italiano dos anos 40 e 50, tradicional colaborador de De Sica, mais Bella Billa & Lorenza Zanuso. Os três escreveram o roteiro com base em novela de outro monstro-sagrado das artes italianas do século XX, Alberto Moravia.

Cesare Zavattini assina sozinho o argumento e o roteiro do terceiro episódio, “Mara”, aquele em Sophia interpreta a prostituta cara que, quase ao final da narrativa, faz aquele espetacular, sensacional, inesquecível início de strip-tease para Augusto, o cliente fiel, costumeiro, apaixonado.

O episódio todo escrito por Zavattini passa-se não no Sul nem no Norte, mas na região mais central da bota – mais especificamente em Roma. E, se no primeiro episódio os personagens eram pobres e no segundo ela era milionária, aqui eles são classe média. Augusto é assessor de um parlamentar, ou algo parecido – não fica absolutamente claro. E ela ganha bastante bem na profissão.

A questão é que, bem ao lado do apartamento de Mara, vive um casal de velhinhos, interpretados por Tina Pica e Gennaro Di Gregorio, e seu neto, Umberto (Gianni Ridolfi), um rapaz de 18 anos que era até então sério, estudioso, católico devoto, e estava para ser enviado a um seminário. A visão daquela mulher monumental, porém, sacode todas as crenças do garoto. Mara, puta, mas de coração gigantesco, acaba se compadecendo da pobre nonna, e faz a promessa de passar uma semana sem sexo se conseguir ajudar Umberto a retomar o caminho do seminário.

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Cesare Zavattini, uma figura fundamental do cinema

Cesare Zavattini (1902-1989) é uma figura de fundamental importância na História do Cinema. Foi o principal teórico que propôs as bases do neo-realismo italiano, o movimento mais influente que já houve no cinema mundial – filmar o máximo possível em exteriores reais, e não em estúdio, aproveitar a luz natural, usar sempre que possível atores não profissionais, ter como tema central as classes trabalhadoras, os pobres, os desvalidos.

Juntos, Cesare Zavattini e Vittorio De Sica fizeram cerca de 20 filmes, entre eles algumas das obras-primas do neo-realismo, do cinema italiano e do cinema como um todo – Vítimas da Tormenta (1946), Ladrões de Bicicleta (1948), Milagre em Milão (1951), Umberto D. (1952), Duas Mulheres (1960).

A lista dos diretores para quem Zavattini escreveu roteiros é um quem é quem do melhor cinema italiano dos anos em que o cinema italiano foi indiscutivelmente o melhor do mundo. A lista inclui, em ordem alfabética do sobrenome, Michelangelo Antonioni, Mauro Bolognini, Federico Fellini, Pietro Germi, Alberto Lattuada, Mario Monicelli, Elio Petri, Dino Risi, Roberto Rossellini, Paolo and Vittorio Taviani e Luchino Visconti.

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Os filmes de vários episódios eram extrameamente comuns naquela época

Acho necessário lembrar que os filmes em episódios eram extremamente comuns, em especial nos anos 60, tanto no cinema italiano quanto no francês.

E aqui há que se lembrar também que, dos anos 60 aos 80, por aí, raros eram os filmes apenas franceses ou apenas italianos. A grande maioria dos franceses era de co-produções França-Itália, e vice-versa: os italianos eram co-produções Itália-França. Como este Ontem, Hoje e Amanhã e também Matrimônio à Italiana.

O mais comum eram os filmes em que cada episódio era obra de um realizador, como, só para dar alguns exemplos que pulam na cabeça sem fazer qualquer pesquisa, Boccaccio 70, Histórias Extraordinárias, Os Sete Pecados Capitais, As Bruxas, O Amor aos 20 Anos, As Bonecas.

Entre os diretores que assinavam episódios desses filmes aí estavam Fellini, Visconti, Godard, Truffaut, De Sica, Rossi, Pasolini, Bolognini, de Broca, Demy. A nata da nata, le crème de la crème.

E havia, em número bem menor, os filmes de episódios dirigidos todos pelo mesmo diretor. Julien Duvivier dirigiu todos os dez episódios de O Diabo e os Dez Mandamentos (1962), assim como De Sica realizou os três deste Ontem, Hoje e Amanhã.

De Sica parece ter se divertido muito com essa coisa de os mesmos atores fazerem papéis bem diversos, diferentes, nos vários episódios de um mesmo filme. Quatro anos mais tarde, em 1967, ele faria Sete Vezes Mulher/Sette Volte Donna, em que Shirley MacLaine – belíssima, versatilíssima, maravilhosa – interpretava, como indica o título, sete mulheres diferentes, em sete histórias boladas e roteirizadas por Cesare Zavattini.

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Grande estrela do cinema italiano, depois uma das maiores do cinema mundial

Permito-me citar a mim mesmo, em alguns parágrafos sobre Sophia Loren:

Sofia Villani Scicolone (assim, com f, e não ph) cresceu criança pobre nas ruas de Nápoles. A mãe percebeu logo que a beleza da menina poderia tirar a família da miséria, e a colocou para participar de concursos de beleza. Entre 1950 e 1954, ou seja, dos 16 aos 20 anos, a garota participou de 12 filmes, começando como extra até chegar a protagonista. Teve duas sortes grandes na vida, fora a de ter sido aquinhoada com a beleza extraordinária: foi descoberta, bem nesse começo de carreira, pelo produtor Carlo Ponti, sujeito 22 anos mais velho que ela e que se tornaria seu agente, seu protetor, seu produtor, seu marido e pai de seus dois filhos. E, em 1954, teve a felicidade de encontrar Vittorio De Sica, que a transformou em estrela a partir de O Ouro de Nápoles (1954).

Depois desse, fariam outros seis filmes juntos – comédias escancaradas como Ontem, Hoje e Amanhã (1963) e Matrimônio à Italiana (1964), ambas ao lado de Marcello Mastroianni, até dramas pesados como Duas Mulheres/La Ciociara (1960) e O Condenado de Altona/I Sequestrati di Altona.

Hollywood a transformaria de grande estrela do cinema italiano em uma das maiores estrelas do cinema mundial.

Escrevi os três parágrafos acima quando fiz minha anotação sobre Começou em Nápoles/It Started on Naples (1960), um dos filmes da fase americana da carreira de Sophia (que teve também duas incursões pela Inglaterra), entre 1957 e 1961. No texto sobre o filme, incluí uma tabela com todos os filmes daquela fase.

Aproveito para fazer aqui uma tabela sobre os filmes de Sophia ao lado de Marcello Mastroianni:

 

Filme Diretor, ano
Ontem, Hoje e Amanhã/Ieri Oggi Domani Vittorio de Sica, Itália-França, 1963
Matrimônio à Italiana/Matrimonio all’italiana Vittorio de Sica, Itália-França, 1964
Os Girassóis da Rússia/I Girasoli Vittorio de Sica, Itália-França-URSS, 1970
A Mulher do Padre/La Moglie del Prete Dino Risi, Itália-França, 1971
A Garota do Gângster/La Pupa del Gangster Giorgio Capitani, Itália-França, 1975
Um Dia Muito Especial/Una Giornata Particolare Ettore Scola, Itália-Canadá, 1977
Prêt-à-Porter Robert Altman, EUA, 1994

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Leonard Maltin dá cotação máxima, mas o guia de Jean Tulard arrasa

Leonard Maltin dá 4 estrelas, a cotação máxima, para Yesterday, Today and Tomorrow: “O vencedor do Oscar de Melhor Filme estrangeiro é um trio impecável de histórias cômicas, com Loren nunca tão bela como as mulheres italianas que usam o sexo de várias maneiras para conseguir o que desejam. O strip-tease para Marcello está entre as mais famosas cenas de sua carreira (e continua bastante vaporosa).”

Vaporosa?

Steamy. Ah, sim! Cálida. Quente.

Já o Guide des Films de Jean Tulard vai no sentido absolutamente oposto. Depois de um parágrafo de sinopse para cada um dos esquetes, o Guide fuzila, abate, destrói:

“É lamentável constatar que autores antes prestigiosos abdicaram aqui de toda veleidade artística ou social para realizar esses esquetes vulgares. Apenas os intérpretes podem salvar este filme do esquecimento.”

O Petit Larousse des Films parece ter seguido a sugestão do Guide de Tulard: simplesmente não traz verbete sobre Hier, Aujourd’hui et Demain.

Como minha mãe costumava dizer, nem tanto ao mar, nem tanto à Terra.

Está muito, mas muito, mas muito longe de Ladrões de Bicicleta, de O Jardim dos Finzi Contini (1970). Não é impecável, como diz Maltin – mas também não é esse horror proclamado no guia de Jean Tulard.

Tem coisas boas. Tem aquela sequência do strip-tease, que, por si só, já é uma beleza. Tem a beleza e a interpretação deliciosa desses dois atores extraordinários, no auge da maturidade jovem – Sophia, de 1934, estava com 29 anos, e Marcello, de 1924, com 39.

Tem boas, divertidas piadas.

O primeiro episódio, em especial, tem maravilhosas sequências de grandes grupos de pessoas andando pelas ruas de Nápoles. A sequência em que dezenas de garotos saem pelas ruas cantando “ela está de barriga” é um encanto.

Mas, sim, o tom é vulgar, para usar o mesmo termo emprego pelo Guide des Films.

Bem ao contrário do que conseguiu em o Jardim dos Finzi Contini, aqui Vittorio De Sica dá as costas a qualquer tipo de nuance, sutileza, delicadeza, elegância, finura. É tudo vulgar, grosseiro, esquemático, rasteiro, rude.

Os pobres são bons, e solidários uns com os outros. Até mesmo os policiais são solidários com a família pobre que vive do ilícito, porque eles também, afinal de contas, são pobres, e os pobres são bons.

Já a mulher rica, ah, aquela é doente da cabeça e do pé. Egoista, só pensa nela, não vê nada além de seu umbigo.

É isso. Se o espectador não for exigente demais, se não ficar procurando pelo em ovo, poderá se divertir, dar algumas risadas – e aplaudir de pé como na ópera o quase strip-tease de Sophia. Ou uivar como um lobo, como Marcello, ao ver o espetáculo.

Anotação em agosto de 2016

Ontem, Hoje e Amanhã/Ieri Oggi Domani

De Vittorio De Sica, Itália-França, 1963.

Com Sophia Loren (Adelina / Anna / Mara)

Marcello Mastroianni (Carmine / Renzo / Augusto)

Fotografia Giuseppe Rotunno

Música Armando Trovajoli

Montagem Adriana Novelli

 

Episódio “Adelina”

Com Aldo Giuffrè (Pasquale),

Agostino Salvietti (Dr. Verace),

Lino Mattera (Amedeo Scapece),

Tecla Scarano (a irmã de Verace),

Silvia Monelli (Elivira),

Carlo Croccolo (o oficial),

Pasquale Cennamo (o chefe da polícia)

Roteiro Eduardo De Filippo & Isabella Quarantotti

Baseado em história de Eduardo De Filippo

 

Episódio “Anna”

Com Armando Trovajoli (Giorgio)

Roteiro Cesare Zavattini & Bella Billa & Lorenza Zanuso

Baseado em novela de Alberto Moravia

 

Episódio “Mara”

Com Tina Pica (a avó),           …

Gianni Ridolfi (Umberto),

Gennaro Di Gregorio (o avô)

Argumento e roteiro Cesare Zavattini

Produção Carlo Ponti, Compagnia Cinematografica Champion, Les Films Concordia. DVD Versátil, Coleção Folha.

Cor, 118 min

R, **1/2

2 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 7 dezembro 2016 às 5:54 pm | Permalink

    Acho que não sou exigente, pois rachei o bico na primeira história. Morri de rir. E AMEI o texto. A Ode à linda, viva e saudável Sophia é merecida e maravilhosa.

  2. José Luís
    Postado em 8 dezembro 2016 às 12:28 am | Permalink

    Eu gostei muito, acho que é bom filme, em especial o primeiro e o terceiro episódios, o do meio nem tanto. E, claro, adorei o strip-tease de Sophia. Que mulher!

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Casanova ’70 em 17 Fevereiro 2017 às 12:26 pm

    […] curto período entre 1963 e 1965, os gigantes Mario Monicelli e Marcello Mastroianni fizeram dois dos mais comentados filmes do total de sete em que juntaram seus talentos. Monicelli […]

  2. […] e sua equipe estão filmando a cena em que Anita Ekberg entra na Fontana di Trevi, e em seguida Marcello Mastroianni entra também para tentar tirá-la de […]

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