O que as Mulheres Querem / Sous les Jupes des Filles

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Nota: ★★★☆

Os exibidores brasileiros escolheram um título bem óbvio para esta comedinha francesa toda feita por mulheres, sobre mulheres: O Que as Mulheres Querem. O título original, no entanto, consegue ser ainda mais direto: Sous les Jupes des Filles – sob as saias das mulheres.

A primeira piada vem antes de qualquer imagem, quando ainda estão rolando os logotipos das empresas produtoras. Há um diálogo no rádio, no que parece ser um programa jornalístico, de entrevistas.

Voz de homem, dirigindo-se a uma mulher: – “Você compara as mudanças climáticas com a vida da mulher no século XXI.”

Voz de mulher: – “Exato. A mulher, como o planeta, sofre mudanças tão profundas, tão rápidas, que, no momento, está como o tempo: instável, imprevisível, caótico. Mas a mulher de hoje tem várias facetas. “

Voz do homem: – “Sabemos quem é o responsável por isso quanto ao planeta: o homem. Mas, no caso das mulheres, de quem é a culpa?”

Voz da mulher: – “É a mesma coisa (rápida pausa). Brincadeira!”

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A primeira imagem que se vê é do alegre bairro parisiense de Pigalle, o tradicionalíssimo Moulin Rouge em primeiro plano. Aí vão surgindo na tela – como tem sido comum em filmes recentes, pós Messenger, WhatsApp, as letras, as palavras de uma mensagem de texto. É uma mulher dizendo para o homem que a menstruação chegou antes da hora, impossível o encontro. Ela se assina Robert, mas veremos que na verdade seu nome é Jo.

Jo está deitada sob as cobertas em uma enorme cama e, logo após enviar a mensagem de texto, pega um tampão e vai enfiá-lo. A mão direita ressurge debaixo das cobertas em direção a um lenço de papel – e aí eu me lembrei que lá se foi o tempo em que era muito moderno, legal, liberal, o espectador ver Jane Fonda sentando-se no vaso para fazer xixi, em Adivinhe Quem Vem para Roubar/Fun with Dick and Jane, de 1977. O mundo gira, a Lusitana roda, tudo fica mais claro e explícito, sem barreiras, sem pruridos bobos e agora, em filme de 2014, vemos Jo, menstruada, no ato de fixar o tampão.

Enquanto Jo está ali no seu quarto, vão rolando os créditos iniciais, em que aparecem, um depois do outro, em ordem alfabética do sobrenome, os nomes de nada menos de 11 atrizes – de Adjani, Isabelle, a Testud, Sylvie, passando por Dana, Audrey. Dana Audrey (na foto acima) interpreta exatamente essa Jo, é a realizadora do filme e uma das autoras do argumento e roteiro do filme (com Raphaëlle Desplechin) e também dos diálogos (ao lado de Murielle Magellan).

Três mulheres escreveram a história, o roteiro e os diálogos, uma mulher dirigiu e 11 mulheres interpretam os principais papéis neste filme sobre o que há sob as saias das mulheres.

Um grande grupo de pessoas cujas vidas se entrelaçam

Várias das personagens trabalham numa empresa de design de roupas íntimas. Começo a apresentá-las a partir das ligadas a essa empresa.

* Lili (Isabelle Adjani) é a dona, la patronne. Chegando à faixa dos 60 anos, recusa-se a admitir que a menopausa esteja perto – e, tão ruim quanto, recusa-se também a admitir que a filha de 16 anos esteja chegando à época de começar a ter sexo.

* Inès (o papel da linda Marina Hands, de Lady Chatterley, Não Conte a Ninguém, à esquerda na foto abaixo), uma das funcionárias, está para fazer operação para acabar com a miopia – mas, mesmo depois da operação, continua bastante míope, ignorando as dicas que a colega Sophie lhe dá sobre o marido traidor. O marido, Jacques (Alex Lutz), faz tempo engana Inès dizendo que trabalha à noite em contato com seu colega Robert, que está na China. Robert, como já foi dito, é o apelido de guerra de Jo – e, ao descobrir isso, Inès ficará possessa e fará de tudo para ferrar a vida do marido e da amante.

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* Sophie (Audrey Fleurot, que trabalhou em Intocáveis, A Delicadeza do Amor, à direita na foto acima), é vizinha de Jo, e por isso é que sabe que Jacques trai Inès. Inès vai acusá-la de ser mal-amada, solitária, mulher que não sabe gozar. Este Sous les Jupes des Filles não tem grande preocupação em ser sutil.

* Pierre (Guillaume Gouix, de Entre os Muros da Prisão) é um raro homem no meio de tantas mulheres, um executivo da empresa de Lili. Volta e meia esquece coisas em casa e pede para que sua mulher, Ysis, vá levar para ele no trabalho.

* Ysis (Géraldine Nakache), tem apenas 26 anos e já pariu quatro filhos, quatro garotos absolutamente infernais. Num dia qualquer, ao sair da empresa em que o marido trabalha, debaixo de uma chuva forte, Ysis leva um tombo – e é socorrida na hora exatamente por uma velha amiga que não via fazia tempo, Adeline.

* Adeline (Alice Belaïdi) é uma das personagens mais interessantes deste filme de muitos personagens. De uma certa maneira, ela serve de ponto de união desse grande grupo de pessoas. É, como já foi dito, amiga de Ysis; na verdade, às escondidas dela, está organizando com Pierre uma grande festa para o aniversário de 27 anos da jovem mãe de quatro garotos. A mãe de Adeline está presa, aguardando julgamento – e é defendida por uma jovem advogada chamada Agathe. Adeline trabalha como secretária de uma executiva extremamente bem sucedida, Rose.

* Rose é interpretada por Vanessa Paradis, a atriz dos dentes da frente bem separados, de A Mulher e o Atirador de Facas, Como Arrasar um Coração, Amante a Domicílio. É talvez a personagem mais estereotipada de todas: presidente de uma grande empresa de pesquisa de opinião pública, a maior do país, workaholic total, não tem tempo para futilidades tipo amores e/ou amizades. Nem tempo nem disposição, porque sempre foi absolutamente ambiciosa, egoísta, e jamais cativou o afeto de uma única pessoa.

Três das 11 personagens têm desejo sexual eterno, furioso

* Agathe, a jovem advogada, é interpretada pela linda Laetitia Casta (de, entre tantos outros, Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres,  A Negociação, na foto abaixo). Agathe é extremamente tímida, e tem um problema sério com gases sempre que fica tensa. Como é retraída demais, tem problema sério com gases sempre, e ponto – ou ponto e vírgula, porque o problema se torna ainda mais grave quando ela se aproxima de um homem. E acontece de ela se aproximar de um homem bonitão, um advogado mais experiente (interperetado por Pascal Elbé), que ela procura para obter dicas, orientações, sobre o caso envolvendo a mãe de Adeline. Haja flatulência – e acho que já disse aqui que Sous les Jupes des Filles não prima assim propriamente pela sutileza.

Agathe tem uma grande amiga que está sempre a empurrá-la para a frente, tentando ajudá-la a vencer sua timidez, a se aproximar dos homens. A amiga é justamente Jo, que assumiu o codinome de Robert em seu caso tempestuoso com Jacques, o marido de Inès.

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* Jo, como já foi dito, é interpretada por Audrey Dana, a realizadora do filme. Ela se define para a amiga Agathe como uma mulher dividida em períodos. Quando a menstruação se aproxima, perde por completo o libido. Mas, passado esse período, tem desejo furioso, quase de uma ninfomaníaca.

* Desejo sempiterno, furioso, será também o caso de Fanny (o papel de Julie Ferrier, de Micmacs – Um Plano Complicado, 15 Anos e Meio). Fanny é uma motorista de ônibus, casada com um sujeito não muito dado à prática do sexo. É uma mulher tímida, travada, até que um belo dia Fanny bate a cabeça com toda a força em um poste de metal; cai no chão, e é socorrida por Adeline, ela mesma, a secretária da executiva Rose que une várias pontas da trama. A batida violenta no poste cria um galo gigantesco na testa de Fanny, dá a ela uns 15 tiques faciais e um apetite sexual que ela jamais havia imaginado na vida.

* Apetite sexual insaciável é uma característica de Jo, em parte do tempo, passa a ser também o de Fanny, e aparentemente sempre foi o de Sam (o papel da atriz e agora também realizadora Sylvie Testud). Sam é médica, é irmã de Lili, a empresária, e tem o costume de pagar garotões para trepar.

E, finalmente, temos Marie, a décima–primeira personagem feminina. Marie é interpretada por Alice Taglioni, essa moça de beleza estupenda que tem feito vários filmes interessantes: Paris-Manhattan, Meia-Noite em Paris, Contratado para Amar.

Marie surge de shortinho, com as looongas e belas pernas à mostra, na casa de Ysis e Pierre, para substituir, na última hora, a babá que eles haviam contratado para cuidar dos quatro diabinhos numa noite em que iriam sair para tomar umas fora de casa. Tanto Ysis quanto Pierre quanto até mesmo os quatro pequerruchos arregalam os olhos diante daquela beldade, mas a pessoa que ficará mais perturbada não será Pierre, e sim Ysis. Antes de o casal sair de casa, Marie vai ao banheiro, e começa a falar sacanagens ao telefone – com uma mulher.

Parece uma tendência do cinema francês os filmes sobre grandes grupos

Este Sous les Jupes des Filles é mais um filme francês que reúne um grupo grande de personagens, quase um mosaico, ou estrutura multiplot, à la Short Cuts de Robert Altmann. São tantos que parece até uma tendência.

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Não é, naturalmente, algo exclusivo dos franceses: fazem-se filmes sobre grupo de vários personagens em todos os lugares. Nem é um fenômeno recente. Basta lembrar que diversos filmes do mestre Alain Resnais são assim, como, por exemplo, Amores Parisienses/On Connaît la Chanson (1997), Ervas Daninhas/Les Herbes Folles (2009), Vocês Ainda Não Viram Nada/Vou n’avez encore rien vu (2012).

Mas que os franceses têm feito vários filmes assim, como este aqui, é bem verdade. E em todos os gêneros. Eis alguns que já estão neste site:

Albergue Espanhol/L’Auberge Espagnole (2002), Bonecas Russas/Les Poupées Russes (2005) e O Enigma Chinês/Casse-Tête Chinois (2013), de Cédric Klapisch,

Casos e Casamentos/Mariages!, de Valérie Guignabodet (2004),

Paris, de Cédric Klapisch (2008),

Bancos de Praça/Bancs Publics (Versailles Rive Droite), de Bruno Podalydès (2009),

As Mulheres do 6º Andar/Les Femmes du 6ème Étage, de Philippe Le Guay (2010),

Até a Eternidade/Les Petits Mouchoirs, de Guillaume Canet (2010),

O Cruzeiro/La Croisière, de Pascale Pouzadoux (2011),

A Arte de Amar/L’Art d’Aimer, de Emmanuel Mouret (2011),

Polissia/Polisse, de Maïwenn (2011),

E Se Vivêssemos Todos Juntos?/Et Si On Vivait Tous Ensemble?, de Stéphane Robelin (2011),

A Gaiola Dourada/La Cage Dorée, de Ruben Alves (2013).

No final, uma sequência de música e dança arrebatadora, antológica

A realizadora, atriz e roteirista Audrey Dana é bem jovem: nasceu em 1977. Tem uma filmografia não muito extensa – 26 títulos como atriz, incluindo séries de TV e curta-metragens, a partir de 2006. Trabalhou sob a direção de Claude Lelouch em Crimes de Autor/Roman de Gare (2007) e Esses Amores/Ces Amours-là (2010).

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Este filme aqui é seu segundo longa-metragem como diretora; antes dele, havia dirigido dois curta-metragens, La Trotteuse (2008) e 5 à 7 (2009), e o longa Des Betteraves à Noël (2001) – que, estranhissimamente, não está no IMDb.

O Allociné, o site enciclopédico sobre o cinema francês, traz frases de várias das atrizes, contando como foram procuradas por Audrey Dana para participar do filme. Um ponto comum a todos os pequenos depoimentos é o vigor, a energia, o entusiasmo que as atrizes reconheceram na colega.

Isabelle Adjani, de todas as 11 atrizes a mais famosa, a maior estrela, conta: “Meu agente me contou que Audrey Dana preparava um filme sobre as mulheres. Adoro Audrey, sua vitalidade, seu olhar trepidante sobre as coisas. Minha particularidade nessa aventura é que eu fui a última que ela contatou, para um papel que já tinha seu personagem, sua história. Nosso primeiro contato foi muito imediato, muito aberto, afetuoso e solidário. Não hesitei.”

O filme parece ter sido bem recebido pelo público francês: teve 1,3 milhão de espectadores em seu país. Nada mal.

Que Audrey Dana faça mais filmes. Com este aqui ela provou que sabe fazer. A sequência final deste Sous les Jupes des Filles – todas as personagens reunidas numa vibrante coreografia, juntamente com mais algumas dezenas de dançarinas, no Trocadéro, a Torre Eiffel ao fundo – é nada menos que brilhante, antológica. Claude Lelouch, que dirigiu a moça duas vezes e fez algumas sequências assim, como naquele mesmo local, no final de Retratos da Vida/Les Uns et les Autres, deve ter aplaudido de pé como na ópera.

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Anotação em novembro de 2015

O que as Mulheres Querem/Sous les Jupes des Filles

De Audrey Dana, França, 2014

Com Isabelle Adjani (Lili, a dona da indústria de lingerie), Alice Belaïdi (Adeline, a secretária de Rose), Laetitia Casta (Agathe, a advogada tímida), Audrey Dana (Jo, que usa o codinome Robert), Julie Ferrier (Fanny, a motorista de ônibus), Audrey Fleurot (Sophie, a ruiva vizinha de Jo/Robert), Marina Hands (Inès, a esposa traída), Géraldine Nakache (Ysis, a mãe dos 4 garotos), Vanessa Paradis (Rose, a super executiva), Alice Taglioni (Marie, a babá lésbica), Sylvie Testud (Sam, a médica, irmã de Lili),

e Pascal Elbé (o advogado), Marc Lavoine (o ginecologista), Guillaume Gouix (Pierre, o marido de Ysis), Alex Lutz (Jacques, o marido de Inès), Stanley Weber (James Gordon)

Argumento e roteiro Audrey Dana e Raphaëlle Desplechin

Diálogos Audrey Dana e Murielle Magellan

Fotografia Giovanni Fiore Coltellacci

Montagem Ismael Gopmez III e Juliean Leloup

Casting Anne Barbier

Produção Fidélité Films, Wild Bunch, M6 Films, Palatine Étoile 11. DVD Imovision

Cor, 116 min

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2 Trackbacks

  1. […] A primeira sequência mostra um grupo de uns 20 passageiros desembarcando de um grande bote, vindo do navio que havia cruzado o Atlântico. Entre eles está uma jovem aí de uns 20 e poucos anos, talvez uns 25, lindíssima – Adèle é interpretada pela deslumbrante Isabelle Adjani. […]

  2. […] a personagem de Vanessa Paradis, aparece primeiro. Numa longa seqüência em close do rosto dela, Adele vai contando seu desespero […]

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