O Purgatório / Purgatory

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Nota: ★★½☆

O Purgatório (1999) começa como um western normal, típico. A partir dos 20 minutos de narrativa, surgem fatos estranhos, que vão deixando o espectador intrigado. Só depois da metade de seus 94 minutos o filme deixa claro o que está acontecendo.

Não é, de forma alguma, um western normal, típico.   

Todas as sinopses sobre o filme com certeza entregam o que o filme leva pelo menos 40 minutos para apresentar para o espectador. A do IMDb, por exemplo, tem apenas uma frase – e entrega.

Não há muito como falar do filme sem contar do que, afinal, se trata – mas é preciso avisar que é spoiler. Se isso não for feito, é de fato um estraga prazer.

Tenho procurado ser bem cuidadoso com essa questão, e assim vou relatar o que acontece bem no começo da narrativa e aí avisar que virá o spoiler – assim o eventual leitor que tenha vontade de ver o filme não terá seu prazer estragado.

E é um bom filme, que vale a pena ver. Estava passando num canal na madrugadona, passei por ele, me interessei, não consegui parar de ver. Nos dias seguintes fui atrás para ver o início que tinha perdido.

É uma produção feita para a TNT, a Turner Network Television – mas isso não o diminui em nada. Deve ter tido um orçamento razoável, tem produção caprichada, bons atores, belas sequências com tomadas panorâmicas daquelas planícies amplas, sem fim. Para dirigir o filme, os americanos importaram o alemão Uli Edel, que em 2008 faria O Grupo Baader-Meinhoff/Der Baader-Meinhof Komplex, uma reconstituição germanicamente cuidadosa, acurada, de toda a história do grupo terrorista que agiu durante uma década inteira na então Alemanha Ocidental, do final dos anos 60 até o final dos 70.

Argumento e roteiro são de Gordon T. Dawson, um produtor e roteirista que parece especialista em westerns. Escreveu o roteiro de um episódio da série Bonanza, em 1971, e o de Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974), de Sam Peckinpah. Nos anos 80, foi o criador e um dos roteiristas da série de TV Bret Maverick, em que James Garner interpretava o jogador almofadinha.

O cara entende de Velho Oeste.

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Um bando assalta um banco, e foge com a Cavalaria em seu encalço

O filme começa com planos gerais majestosos mostrando um grande bando, de uns 20 homens, avançando a cavalo no meio de uma planície que parece não acabar nunca. É o bando – veremos logo – de um tal Blackjack Britton (o papel de Eric Roberts, à esquerda na foto acima), um sujeito que é a personificação do mal em si, e ele vai assaltar o banco de uma cidadezinha.

Um rapaz, o sujeito mais jovem do bando, fica tomando conta dos cavalos, enquanto uns oito homens entram no banco. Veremos que se chama Sonny (Brad Rowe, na foto abaixo), é sobrinho do braço direito de Blackjack, e está sendo levado pelo tio para a bandidagem.

Passa por ela uma moça bonita (interpretada por Shannon Kenny),

e Sonny não se contém: pergunta se ela é Dolly Sloan. Ela fica surpresa, tenta negar – mas o rapaz vai até uma bolsa carregada por seu cavalo e mostra para ela folhetins, um deles com o nome dela na capa, junto com um desenho do seu rosto – “Dolly Sloan – Harlot with a Heart”. A meretriz com coração.

Nesse exato momento, entra na rua um grupo de homens da Cavalaria. Dolly se despede do garoto para se aproximar do pelotão, enquanto Sonny fica atordoado, sem saber o que fazer, como avisar o tio e os outros do bando sobre a chegada inesperada dos homens de uniforme azul.

Os assaltantes conseguem sair do banco carregados de dinheiro, com diversas bolsas de couro lotadas de notas, mas há um tiroteio cerrado.

Uma bala perdida acerta Dolly. Sonny corre para tentar ajudar, segura a moça, vê bem de perto seu rosto. A meretriz com coração morre nos braços do rapaz que está sendo levado para a bandidagem.

Uns cinco ou seis homens do bando – Sonny inclusive – levam tiros, a maioria sem gravidade. Um deles, no entanto, foi baleado no estômago. Sonny, atingido na perna, quase de raspão, coloca o ferido na garupa.

O bando consegue fugir e garantir uma ampla distância do grupo de soldados que irá persegui-lo.

Dão uma rápida parada para se organizarem. Blackjack manda que concentrem todas as bolsas com o dinheiro num dos cavalos, e avisa que deixará para trás quem não tiver condições de cavalgar a toda. A idéia é fugirem para o México.

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Na cidadezinha em que o bando vai parar, o xerife não usa arma

O homem ferido gravemente cai do cavalo. Sonny quer ajudá-lo, mas Blackjack, gelado em sua maldade infinita, diz que é para deixá-lo ali e continuar a fuga. O homem pede para que Blackjack acabe com seu sofrimento, e o bandido diz que não quer gastar bala à toa.

Sonny vai executar o pobre sujeito – mas tem que lutar muito para conseguir dar o tiro. Antes de apertar o gatilho, ele conta para o homem, e para o espectador, que nunca na vida havia atirado em alguém.

A patrulha que persegue os bandidos consegue chegar perto deles. Começam a atirar, e um tiro atinge exatamente o cavalo que carregava as várias bolsas cheias de dinheiro. Os bandidos ficam sem seu butim, mas os homens que os perseguiam, ao recuperar o dinheiro roubado, desistem de continuar a caçada.

E então, quando o filme está com 20 minutos, o bando chega a uma cidade que à primeira vista parece com todas as outras do Velho Oeste, todas as outras mostradas nos westerns – mas que vai se revelar muito, muito, muito estranha.

O xerife Forrest (o papel do grande Sam Shepard, na foto abaixo), que recebe o bando e tem ali na rua principal uma primeira conversa com Blackjack, não usa armas.

Blackjack diz que se chama Smith e inventa uma história; conta que ele e seus homens são vaqueiros, vinham trazendo gado até um lugar por ali quando foram atacados por índios, que roubaram todo o gado e ainda feriram alguns do grupo.

O xerife Forrest diz que a cidade – que se chama exatamente Refuge, refúgio – é extremamente hospitaleira com os pouquíssimos forasteiros que passam por ali. Que o sr. Smith e seus homens fiquem à vontade, que se hospedem no hotel, que vão ao saloon se quiserem; os feridos serão levados ao médico da cidade, Doc Woods (Randy Quaid).

O xerife Forrest só pede uma coisa ao sr. Smith: que ele e seus homens evitem praguejar, falar palavrões. Falar palavrões, só dentro do saloon.

Folhetins – parecidos com os livrinhos de cordel – criavam as lendas no Oeste

É fundamental, na construção da trama, o fato de o garoto Sonny ser um ávido leitor dos folhetins.

Os folhetins do Velho Oeste, segundo mostra este O Purgatório, eram muitíssimo semelhantes aos livrinhos de cordel do Nordeste. Até no tamanho, no tipo de desenho.

Eram esses folhetins que divulgavam para todo o país os feitos de gente como Wyatt Earp, Doc Holliday, Billy the Kid, Jesse James, Wild Bill Hickock – e os transformaram figuras lendárias.

A partir daqui, spoilers. Quem não viu o filme deve parar por aqui

zzpurga2E a partir daqui virão os spoilers. O eventual leitor que tiver interesse em ver o filme não deve ler o que vem em seguida.

O bandidão Blackjack fica achando que já viu um homem parecido com o xerife Forrest.

O garoto Sonny pega alguns de seus folhetins, folheia, e vê que o desenho que representa o rosto do famosíssimo pistoleiro Wild Bill Hickock é muito parecido com o do xerife. Ao entrar no armazém da cidade, Sonny acha que o dono, Brooks (John David Souther), se parece muito com o Jesse James dos desenhos dos folhetins.

Os líderes da cidade – o xerife, seu auxilar Glen (Donnie Wahlberg), o médico Doc Woods, o comerciante Brooks – se reúnem. Doc mostra as balas que extraiu dos corpos dos bandidos: fica evidentemente que a história do ataque de índios é mentira.

O auxiliar do xerife é nervoso, quer uma ação rápida contra os homens que eles agora têm certeza de que são bandidos. O xerife, ao contrário, prega que tenham paciência, quem sabe o bando vai embora logo e não os aborrece mais.

Quando o filme está com uns 40 minutos, alguns dos bandidos passam a se divertir atirando facas na porta de madeira da igreja. O xerife Forrest vai até eles, pede educadamente para que eles parem com aquilo. Os bandidos dizem que não vão parar. O xerife se põe junto da porta da igreja. Um bandido joga uma faca, que fica enfiada na madeira a menos de um centímetro do rosto do xerife. Joga outra, que fica do outro lado.

É dia pleno, mas o céu vai rapidamente se escurecendo, nuvens negras baixam sobre a cidade. No momento em que o bandido vai jogar uma terceira faca na direção do delegado, um raio cai sobre a faca e eletrocuta o filho da mãe.

Vemos um índio muito, muito velho, com um jeito de quem fala com o além.

Os indícios vão se somando.

Uma diligência chega mais tarde à cidade, e dela desce, entre outras pessoas, Dolly Sloan. Os recém-chegados são recebidos pelos habitantes reunidos na igreja. No dia seguinte, Sonny vai até ela, a confronta – ela diz que se chama Ivy, e que outras pessoas já haviam dito que ela se parecia com Dolly Sloan.

Mas Sonny viu Dolly Sloan bem de perto, ela morreu em seus braços. E o espectador também viu.

Lá pela metade, O Purgatório se revela um western gospel!

Os indícios todos vão levando Sonny – e o espectador – a compreender o que o título do filme já sinalizava. Mas o quebra-cabeça é muito bem montado até chegar a mais da metade da narrativa. Sim, claro: Refuge, Refúgio, é o Purgatório. Ali estão conhecidos nomes do Oeste, pistoleiros, bandidos, jogadores, prostitutas, gente que pecou muito, mas que tinha alguma qualidade, e não merecia ir diretamente para o Inferno.

Estavam ali purgando seus pecados. Se conseguissem ter uma vida honesta, correta, sem ofensas às leis divinas, teriam, após um determinado tempo, o direito de entrar naquela mesma diligência conduzida por aquele velhinho simpático (R.G. Armstrong) que trouxe a ex Dolly Sloan, agora Ivy, e ir nela para o Céu.

Se cedessem às tentações, se praticassem atos violentos, aí não teria escapatória: o velho índio, guardião do portal do cemitério (Saginaw Grant), os lançaria no abismo do fogo do Inferno.

O Purgatório, que em seus primeiros 20 minutos é um faroeste padrão, típico, revela-se, então, um western gospel!

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No western cabe tudo: tragédia grega, Shakespeare, tribunal, mistério…

No western, um dos mais antigos, tradicionais gêneros do cinema, cabe tudo.

Anthony Mann, um dos grandes realizadores de westerns nos anos dourados de Hollywood, ao lado de John Ford e Howard Hawks, disse, numa entrevista: “Você pode pegar qualquer dos grandes dramas, não importa se é Shakespeare, ou uma das peças gregas. Tudo. Sempre se pode situá-los no Velho Oeste. De algum modo ganham vida, e esse tipo de paixão, esse drama, você pode ter parricídio, qualquer tipo de homicídio no Velho Oeste. E vai dar certo, porque é onde toda a ação se desenrola.”

Sabia do que estava falando. Ele mesmo fez um western que na verdade é um melodrama sobre conflitos familiares, que beira a tragédia grega, Almas em Fúria/The Furies (1950).

Martin Ritt transformou o genial clássico Rashomon (1950), de Akira Kurosawa, um realizador que me parece o Shakespeare do cinema, em um western, Quatro Confissões/The Outrage (1964).

Um realizador pouco conhecido, Gerd Oswald, fez em 1957 um interessante western sobre amor e ciúme que é também filme de tribunal, de crime, de mistério, Valerie.

Houve westerns feministas – o mais conhecido deles, é claro, é Johnny Guitar (1954). Houve westerns com clima absolutamente erótico, como O Proscrito/The Outlaw (1943) e Duelo ao Sol (1946).

Houve westerns cômicos, como Banzé no Oeste/Blazing Saddles (1974) e Dívida de Sangue/Cat Ballou (1965).

Os italianos fizeram westerns exageradíssimos, que eram quase uma gozação do próprio gênero, os western spaghetti. Um dos italianos do western spaghetti, Sergio Loene, fez um dos mais belos westerns da História, Era Uma Vez no Oeste (1968).

Os japoneses, com os filmes sobre samurais, criaram os seus próprios westerns. Se bem que, no caso, easterns.

O Brasil usou o cangaço para produzir uma safra de nordesterns – alguns muito bons, como O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto, reverenciado em Cannes.

Se o western influenciou tanta gente, se nele cabe de tudo, por que não um western gospel?

Nunca tinha ouvido falar deste filme até encontrá-lo durante uma zapeada no fim da madrugada. Leonard Maltin não o incluiu em seu guia de filmes, nem o Guide des Films de Jean Tulard, nem o Petit Larousse des Films. E o site AllMovie deu a ele só 2 estrelas em 5.

Mas ele não parece ser propriamente desconhecido, obscuro. Há várias cópias dele disponíveis na internet, dubladas e com som original, o que indica que tem muitos admiradores.

Eu achei bem interessante.

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Anotação em 7/2016

O Purgatório/Purgatory

De Uli Edel, EUA, 1999

Com Sam Shepard (Sheriff Forrest / Wild Bill Hickock), Eric Roberts (Blackjack Britton), Randy Quaid (Doc Woods / Doc Holliday), Peter Stormare (Cavin Guthrie), Brad Rowe (Sonny), Donnie Wahlberg (Glen, o assistente do xerife / Billy The Kid), John David Souther (Brooks / Jesse James), Amelia Heinle (Rose / Betty McCullough), Shannon Kenny (Dolly Sloan / Ivy), John Dennis Johnston (Lamb / ‘Lefty’ Slade), Saginaw Grant (o guardião do portal), Richard Edson (Euripides), Gregory Scott Cummins (Knox), R.G. Armstrong (o homem da diligência)

Argumento e roteiro Gordon Dawson

Fotografia William Wages

Música Brad Fiedel

Montagem Mark Conte

Casting Lisa Freiberger

Produção Rosemont Productions, TNT.

Cor, 94 min

**1/2

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