O Protetor / The Equalizer

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Nota: ★☆☆☆

O Protetor, no original The Equalizer, começa muito bem. Os 30 primeiros minutos são de bom cinema. Aí degringola, e vai ficando tudo cada vez pior.

Abre com uma epígrafe de Mark Twain: “As datas mais importantes da sua vida são o dia em que você nasceu e o dia em que você descobriu por quê”. O protagonista, interpretado pelo monumento Denzel Washington, é um leitor voraz de boa literatura. Aí, aos 30 minutos, o diretor Antoine Fuqua grita Shazam e diz ao que veio: sai Mark Twain, sai O Velho e o Mar, e entra a filosofia Rambo.

Mas não dá para o consumidor reclamar de propaganda enganosa, dizer que o filme vendeu gato por lebre: Antoine Fuqua jamais teve a intenção de esconder que é diretor de filmes de ação, cheios de tiros, pancadaria, violência extrema, mortes a granel. São dele, só para dar alguns exemplos, os nada tai-chi-chuan Assassinos Substitutos, Dias de Treinamento (com o mesmo Denzel Washington), Atirador, Invasão a Casa Branca, Nocaute, Atraídos pelo Crime.

Portanto, se alguém tem direito a reclamar é o espectador que adora filmes de ação, cheios de tiros, pancadaria, violência extrema, mortes a granel, e que passa os primeiros 30 minutos à míngua, coitado.

Eu, que sou muito mais da linha tai-ch-chuan, estava zapeando num fim de madrugada quando passei por The Equalizer ainda em sua meia-hora inicial, quando o personagem de Denzel Washington conversava sobre livros com a jovem prostituta. O filme me fisgou – e, mesmo tendo visto, naquela zapeada, a transformação do protagonista em Rambo, resolvi ver o filme inteiro. Não posso reclamar, portanto.

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Um homem de hábitos modestos, mas que tem um passado misterioso

O danado do realizador demonstra, nessa meia hora inicial, que sabe fazer bom cinema.

Ele nos apresenta, em sequências longas, calmas, bem elaboradas, o dia-a-dia desse Robert McCall, o personagem de Denzel Washington. Mora sozinho – a ação se passa em Boston, a metrópole que é o símbolo da Nova Inglaterra –, em um apartamento num bairro classe média baixa, que mantém absolutamente limpo, organizado, imaculado. Trabalha na Home Mart, uma dessas lojas gigantescas de material de construção, tipo Leroy Merlin, Telha Norte, onde é respeitado pelos companheiros. Alguns mais novos ficam intrigados, querendo saber o que aquele Robert McCall fez na vida antes de vir trabalhar ali.

Um de seus amigos no trabalho é Ralphie (Johnny Skourtis), um rapaz gordo, imenso, que sonha em virar segurança da loja, mas para isso terá que emagrecer e fazer muita ginástica. Robert serve como incentivador do rapaz na hora das refeições, como treinador na hora de ele se exercitar.

Não consegue dormir, tem insônia permanentemente – mas não combate esse problema com uma gota sequer de álcool. Ao contrário. Lá pelas 2 da madrugada, sem sono algum, pega cuidadosamente um sachê de chá, põe no bolso e vai para a lanchonete 24 horas ali pertinho; freguês assíduo, nem precisa pedir, e Jack, o homem do bar, já traz para ele uma xícara com água quente, para que ele saboreie, durante horas, seu chá.

Sempre leva um livro para ler na lanchonete.

O espectador percebe perfeitamente que aquele homem de hábitos tão absolutamente morigerados, tão metódico, aquele bom samaritano, tem um passado misterioso que esconde tão cuidadosamente quanto guarda dentro do guardanapo o sachê de chá.

Teri (Chloë Grace Moretz, na foto acima) é outra frequentadora assídua da lanchonete 24 horas de Jack. De vez em quando se cumprimentam, o senhor de meia-idade de passado misterioso e a bela jovem prostituta, ele sentado a uma mesa, ela no balcão.

Uma noite o celular dela toca e o espectador pode ver que quem chama é Slavi (David Meunier). Ela argumenta que não quer ir, que aquele cliente é porco, é sujo – mas não tem como lutar, e então sai do bar. O espectador, assim como Robert, observa através dos vidros da frente da lanchonete que ela atravessa a calçada e entra numa limousine preta, onde, no banco de trás, há um ricaço gordo.

Numa outra noite, Teri aparece com equimoses feias no rosto. Ela e Robert trocam algumas frases, a garota se levanta do banco do balcão, se aproxima da mesa dele – mas aí pára, diz que é contra o protocolo. Robert insiste para que ela se sente.

Começam a conversar. O nome verdadeiro dela é Alina, e ela diz que gosta de ouvir a voz tranquila de Robert.

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Ela apresenta para ele um CD gravado em casa, explica que é apenas um demo, mas que gostaria de ter a opinião dele.

– “Uau! Alina, a cantora!”

Close-up do rosto dela, close-up do rosto dele, durante todo o diálogo.

– “Nós sabemos o que eu sou de verdade.”

– “Eu acho que você pode ser o que você quiser.”

– “Talvez no seu mundo, Robert. Não no meu.”

– “Mude seu mundo.”

Teri-Alina desiste daquele tema, muda de assunto.

Saem caminhando pelas ruas praticamente desertas. Um carrão negro se aproxima, Slavi sai dele, chamando por Teri. Um outro sujeito mal encarado observa Robert. A moça diz para Robert não se aproximar, está tudo bem – e leva uma porrada de Slavi no rosto. Robert se esforça para não intervir.

Slavi vai até ele, oferece um cartão – “Acompanhantes russas”.

Dias depois, Jack da lanchonete 24 horas diz para ele que a garota apanhou demais, foi levada para o hospital. Robert vai até lá – Alina está com o rosto completamente desfigurado, e há uma moça mais velha com ela. Robert espera por ela num corredor. Chama-se Mandy (Haley Bennett), usa um mini-vestido, é bela e está chorando. Conta que Alina foi trazida pela máfia russa quando era ainda criança; pensava que poderia se libertar de seus captores, fazer sua própria vida. Tinha tentado se rebelar, e por isso havia apanhado tanto. Se ela desobedecesse mais uma vez, seria morta.

O diretor é competente – mas faz o elogio da barbárie

Algum tempo depois, quando estamos aí chegando aos 30 minutos deste filme de 2 horas e 12 minutos, Robert vai ao escritório de Slavi, em cima de um elegante restaurante russo. Slavi está lá com quatro capangas, todos de caras horrorosas e muito bem armados.

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Shazam – e Robert, o homem de hábitos rígidos, de voz calma, o bom samaritano, vira Rambo, Super-Homem, Capitão Marvel, Jason Bourne, o Homem de Ferro, Hulk, ou uma mistura de todos eles, e todos os demais super-homens de todas as histórias em quadrinhos e todos os filmes de aventura que Hollywood vem fazendo às dezenas nas últimas décadas.

É preciso reconhecer: Antoine Fuqua domina o ofício. Sabe encenar as cenas de luta, assassinatos, violência explícita. É extremamente competente nisso.

O problema é que o filme defende a moral errada: ele endeusa a justiça feita com as próprias mãos. Faz o elogio da barbárie – e, portanto, vai contra a civilização.

O que é absolutamente lamentável.

Anotação em outubro de 2015

O Protetor/The Equalizer

De Antoine Fuqua, EUA, 2014

Com Denzel Washington (Robert McCall)

e Marton Csokas (Teddy), Chloë Grace Moretz (Teri, Alina), Haley Bennett (Mandy), David Harbour (Masters), David Meunier (Slavi), Johnny Skourtis (Ralphie), Alex Veadov (Tevi), Vladimir Kulich (Vladimir Pushkin)

e, em participações especiais, Bill Pullman (Brian Plummer) e Melissa Leo (Susan Plummer)

Roteiro Richard Wenk

Baseado na série de TV escrita por Michael Sloan e Richard Lindheim

Fotografia Mauro Fiore

Música Harry Gregson-Williams

Montagem John Refoua

Produção Columbia Pictures, LStar Capital, Village Roadshow Pictures,  Escape Artists.

Cor, 132 min

*

2 Comentários

  1. Travis Bickle
    Postado em 25 janeiro 2016 às 11:54 am | Permalink

    Bom…Antes de mais nada, tenho seu blog nos meus favoritos e sempre passo aqui para dar uma olhada. Na maioria das vezes eu gosto do que você escreve e tal, mas dessa vez…

    Você conclui seu texto lamentando que o filme “defenda a moral errada”.
    Acho tão chato isso. Essa onda de “politicamente correto” é um dos males da nossa era.
    Que disse que filmes tem que passar mensagens? Filmes são apenas filmes, e não um tratado sobre moralidade…

    Por que um filme endeusar uma moral certa?

    Os meus diretores favoritos, graças a Deus,nasceram no século passado e ainda não existia esse “policiamento moralista”
    e nomes como Buñuel, Bergman, Kubrick, Scorsese e Peckinpah puderam criar verdadeiras obras primas amorais e sensacionais.

    Desculpe-me, amigo, pelo desabafo.
    Acho que acordei de mal-humorado hoje. rsrs…
    Respeito verdadeiramente seu posicionamento, mas discordo.

    Abraço

  2. Jussara
    Postado em 5 março 2016 às 2:15 am | Permalink

    E quem é que diz que o monumento Denzel Washington já tem 60 anos, hein?! Uma pena que sendo tão bom ator, ele tenha pendido durante sua carreira mais para filmes de ação do que para filmes sérios. Antes eu até tinha paciência para ver alguns, mas hoje passo.

    “O filme me fisgou – e, mesmo tendo visto, naquela zapeada, a transformação do protagonista em Rambo, resolvi ver o filme inteiro.” Uma coisa é certa: seus textos sobre filmes ruins são hilários!

5 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Serena em 3 março 2016 às 3:17 pm

    […] se dedicou a esse filme, por que resolveu usar seu grande talento para fazer um filme que qualquer Antoine Fuqua poderia […]

  2. Por 50 Anos de Textos » Meryl defende a luz em 9 janeiro 2017 às 12:01 pm

    […] de Ouro de atriz coadjuvante por Cercas/Fences, dirigido e também interpretado pelo deus Apolo Denzel Washington, baseado numa peça do escritor August Wilson premiada com o Pulitzer quando foi […]

  3. […] Brasil se chamou, semelhantemente, Invasão a Casa Branca. É uma produção de 2013, dirigida por Antoine Fuqua, um especialista em filmes de ação e violência – que, agora em 2016, está dando o que falar […]

  4. […] a diretora indiana Mira Nair lançaria em 1991 – e acabou ganhando o papel principal, ao lado de Denzel Washington. Há quem nasça com o para a Lua – bem, claro que é o talento que define tudo, mas uma boa dose […]

  5. Por 50 Anos de Filmes » Sombras da Noite / Dark Shadows em 19 setembro 2017 às 11:51 pm

    […] que atualmente vivem ali em Collinwood seis pessoas, além dela. Há a filha dela, Carolyn (Chloë Grace Moretz), uma aborrescente das mais aborrecentes que pode haver, e que, aos 15 anos, tudo o que quer na […]

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