O Garoto Selvagem / L’Enfant Sauvage

l'enfant sauvage 1970 RŽal. : Franois Truffaut Collection Christophel

Nota: ★★★☆

Em seus parcos, exíguos 52 anos de vida, François Truffaut só teve tempo de fazer 24 filmes – 3 curtas e 21 longa-metragens. Poucos, mas, claro, o suficiente para assegurar seu lugar entre os maiores realizadores do primeiro século do cinema. Quatro deles foram sobre crianças, e três sobre crianças de alguma forma mal tratadas – pela vida, pela sociedade, pelos pais.

O primeiro deles é o mais leve, o mais alegre: Les Mistons, curta-metragem de 1957, mostra as brincadeiras de um grupo de moleques de uma cidade do interior – e a fascinação deles por uma bela moça que, quando passeia de bicicleta, deixa à vista as pernas lindas.

No seu primeiro longa, Os Incompreendidos/Les Quatre-Cents Coups (1959), ele nos apresenta Antoine Doinel, que depois iria aparecer em mais quatro filmes, sempre na pele do mesmo ator, Jean-Pierre Léaud. Antoine é um alter-ego de Truffaut: diversas circunstâncias da vida dele aconteceram na vida do cineasta – o fato de não ter conhecido o pai e ter sido criado pelo padrasto e sem o afeto de uma mãe inteiramente distante, o flerte com a marginalidade, a ida para uma instituição correcional, a decisão de servir o exército na falta de outra opção na juventude.

Em 1976, faria Idade da Inocência/L’Argent de Poche, em que os personagens são um grande grupo de crianças da cidade de Thiers. Chega à escola em que os meninos estudam um novo garoto, estranho, diferente, fechado – bem mais tarde, vai se revelar que ele é vítima constante de maus tratos dos pais.

Este O Garoto Selvagem, de 1970, Truffaut dedicou a Jean-Pierre Léaud, o ator que, quando bem jovem, aos 15 anos de idade, interpretou aquele adolescente tão parecido com o próprio cineasta.

O filme se baseia numa história real – mas é uma história tão estranha que parece mais ficção que aquela em que os bombeiros não existem para apagar incêndios, e sim para queimar livros, que Truffaut contou em Fahrenheit 451 (1966).

zzgaroto2-720

A atuação do garoto Jean-Pierre Cargol no papel principal é extraordinária

É um caso que foi bem registrado, documentado: em 1798, foi encontrado num bosque do interior da França, na região de Aveyron, um garoto de uns 11, 12 anos, que aparentemente nunca havia tido contato com a civilização, não falava uma palavra, parecia surdo, andava usando as mãos como patas dianteiras. Foi levado para uma instituição para garotos surdos-mudos, deu-se muito mal lá. Um dos cientistas da instituição, Jean Itard (o papel do próprio Truffaut), tomou para si a tarefa de cuidar do menino: levou-o para sua casa, nos arredores de Paris, e, com o auxílio inestimável de sua governanta, Madame Guérin (Françoise Seigner), cuidou de tentar ensinar ao quase animal noções de como se comportar, como entender as palavras, como reconhecer as coisas, como lidar com as memórias, como compreender um sistema de valores morais.

O dr. Jean Itard ia registrando no papel toda a sua experiência com o garoto, a quem deu o nome de Victor. Consta que Truffaut e seu co-roteirista Jean Gruault foram bastante fiéis ao relato do médico e cientista.

O filme é um relato que parece propositadamente seco, objetivo, quase um documentário sobre uma experiência científica. Ajuda bastante a criar esse clima a brilhante fotografia em preto-e-branco do genial Néstor Almendros, nascido na Espanha, criado em Cuba e que trabalhou com grandes cineastas na Europa e nos Estados Unidos. Foi a primeira das colaborações entre Truffaut e Almendros; depois deste L’Enfant Sauvage, fariam juntos outros oito filmes.

Outro grande destaque do filme, além da fotografia, é a extraordinária atuação do garoto Jean-Pierre Cargol no papel principal. É impressionante, é difícil de acreditar como esse menino conseguiu aquela atuação. Ele parece mesmo um pequeno animal, um macaco, movendo-se com uma rapidez impressionante com quatro patas – e é de babar como ele vai passando por todas as mudanças ao longo dos sete meses de convívio com o médico e sua governanta.

Só mesmo François Truffaut para obter aquela interpretação. Truffaut é um dos maiores, se não o maior diretor de crianças que já houve.

zzgaroto3-720

Foi o primeiro dos seus três filmes em que Truffaut trabalhou como ator

Este aqui foi o primeiro filme em que ele, Truffaut, trabalhou como ator. Voltaria a atuar em papéis importantes em mais dois filmes seus, A Noite Americana (1973), em que interpreta praticamente a si mesmo, no papel de um diretor de cinema chamado Ferrand, e O Quarto Verde (1978), a mais lúgubre, funérea, de todas as suas obras.

A infância, a morte, as mulheres e a arte (a literatura, o teatro, o próprio cinema) são os principais temas que ele abordou em seus filmes maravilhosos.

Fora essas três experiências em papéis importantes, teve participações pequenas em diversos de seus outros filmes, um tanto à la Hitchcock – bem no início de O Homem Que Amava as Mulheres (1977), por exemplo, aparece rapidamente como um motorista que passa perto do cemitério em que está sendo enterrado o personagem principal.

E, além disso, fez o papel de um cientista francês, Claude Lacombe, em Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), de Steve Spielberg.

Escritor incansável, crítico de cinema, memorialista, o próprio Truffaut narrou como foi sua experiência de trabalhar como ator numa superprodução do wonderkid que surpreendia o mundo com um sucesso de bilheteria atrás do outro. Já o outro lado, o por que Spielberg resolveu convidar exatamente Truffaut para trabalhar como ator em seu filme, aprendi com Geraldo Mayrink, um dos mais fascinantes críticos de cinema que já houve. Mayrink escreveu na revista Afinal – quando eu era editor de Cultura lá – que Spielberg convidou Truffaut porque queria aprender com ele como dirigir crianças.

Era – escrevia o Geraldo Mayrink –uma coisa assim meio vampiresca. Spielberg queria roubar de Truffaut o talento que o francês sempre teve para dirigir crianças, desde que tinha 25 e dirigiu o curta Les Mistons, Os Pivetes.

Não há como negar que Geraldo Mayrink tinha pelo menos alguma razão. De fato, depois de Contatos Imediatos, Spielberg iria dirigir e/ou produzir vários filmes com crianças, o mais óbvio deles E.T., de 1982, em que dirigiu os infantes Drew Barrymore e Henry Thomas – e obteve deles maravilhosas atuações.

zzgaroto4-720

Truffaut interpreta o cientista como se ele não demonstrasse emoções

O fantástico é que a interpretação do garoto Jean-Pierre Cargol como o menino que é encontrado como um animal do mato e vai sendo domesticado, educado, é muitíssimo mais impressionante do que a do próprio François Truffaut como o cientista responsável pela transformação da criança.

Em seu livro François Truffaut, os autores Robert Ingram e Paul Duncan criticam a atuação do cineasta: “Truffaut não convence como Itard: a sua interpretação é desajeitada e com falta de nuance. O tema está muitas vezes demasiado perto da mecânica da pedagogia; é técnico e desprovido de humor e de incidentes dramáticos”.

Interessante: o que os autores do livro sobre a obra do cineasta acham que é defeito, entendo como qualidade. Como já havia dito mais atrás, o filme tem mesmo esse tom próximo do documentário – e é evidentemente proposital, estudado.

Também creio que foi proposital a forma com que Truffaut decidiu atuar. Ele faz um dr. Jean Itard rígido, polido, educado, firme – que se mantém sempre com a mesma expressão, o tempo todo. Como se um cientista em seu trabalho não devesse demonstrar emoções. Fala de maneira monocórdica – e fala muito, e rapidamente. Reparei bastante nisso: o dr. Jean Itard interpretado por ele fala depressa demais, 200 palavras por minutos, exatamente como diversos outros personagens de filmes de François Truffaut, a começar de Jean-Pierre Léaud em seus cinco filmes como Antoine Doinel, mas também como Oskar Werner e Henri Serre em Jules et Jim, ou Charles Denner em O Homem Que Amava as Mulheres.

O médico e cientista que ele retrata está diante do garoto Victor como se ele fosse um objeto de estudo, e não mais que isso. Premia o garoto com um copo d’água quando ele consegue fazer o que foi pedido, pune o garoto botando-o num quarto escuro quando ele se nega a fazer o exercício requerido. Se Victor perde a paciência e passa a se jogar no chão, se contorcer, o dr. Itard chama a governanta. Ele clama “Madame Guerin!” mais de 15 vezes neste filme bem curtinho, de apenas 83 minutos.

Afeto, carinho, atenção, cuidados na hora do chilique, do ataque – tudo isso é de responsabilidade de Madame Guerin.

zzgaroto9-720

O cientista exige demais do garoto, e ele muitas vezes fica exausto

É até mesmo um tanto irritante ver o quanto o dr. Jean Itard exige do garoto. Ele colocou para si mesmo metas ambiciosas demais: exigia que, num período de poucos meses, sete, nove meses, uma criança que vivia como um animal selvagem aprendesse a ter bons modos à mesa, e até mesmo aprender a ler! É um absurdo, uma loucura – e Madame Guerin teve que intervir algumas vezes, mostrando o cansaço extremo do garoto.

É impossível, ao se ver ou rever este L’Enfant Sauvage, não lembrar de dois grandes filmes: O Milagre de Anne Sullivan/The Miracle Worker (1962) e O Enigma de Kasper Hauser (1974).

Kasper Hauser viria quatro anos depois, mas o tema do filme de Werner Herzog é muito parecido – a descoberta de um homem que vivia longe do mundo, totalmente distante de qualquer contato com outros seres humanos.

O trabalho de transformar um garoto que vivia como um animal selvagem em um ser humano, empreendido por esse dr. Jean Itard em 1798 e mostrado aqui por Truffaut, é muito semelhante à tarefa desempenhada por Annie Sullivan junto à pequena Helen Keller, que Arthur Penn mostrou em seu filme brilhante. Helen Keller, como o menino a quem foi dado o nome de Victor, não sabia falar – porque era cega e surda. Era praticamente um animal – e a tarefa de transformá-la em ser humano foi absolutamente hercúlea.

Fiquei com a sensação de que Truffaut viu e reviu o filme de Arthur Penn antes de realizar este L’Enfant Sauvage.

Em 1994, os americanos fizeram um filme sobre o encontro de uma moça que, como o Victor de L’Enfant Sauvage, cresceu sem contato qualquer com outros seres humanos: Nell, com Jodie Foster. Consta que, para se preparar para o papel, Jodie Foster leu os mesmos livros que Truffaut havia lido ao se preparar para fazer este seu filme.

zzgaroto5-720

Maus tratos a crianças é um dos temas preferidos do realizador

O Menino Selvagem é talvez o filme a que Truffaut mais se entregou”, escrevem os autores do livro François Truffaut, na tradução portuguesa, que é a edição que ganhei de presente da minha filha. (Em Portugal, o título do filme usa menino, e não garoto.) Transcrevo:

“Poucas causas levaram Truffaut a assumir uma acção directa: no entanto, a proteção das crianças era uma delas. Na sua concentração exclusiva em Victor, possui um forte aspecto de documentário, acentuado pelo regresso do realizador ao preto e branco e à textura granulosa da fotografia de Almendros. Embora Truffaut se sentisse atraído pelo estilo literário – mesmo poético – de Itard, o filme não é realmente uma ficção; segue fielmente acontecimentos e personagens reais. Estes factores combinam-se para tornar O Menino Selvagem um filme polémico, no qual o seu realizador procura despertar a consciência e estimular o debate em torno do tema do abuso das crianças. (…) A criança é perseguida por caçadores  muito mais bárbaros do que ela própria, é importunada por camponeses que gozam com a sua aparência e atitude animalesca, é vista como um animal de feira que os parisienses ricos pagam para ver. (…) Assim, não é surpreendente que a cena mais convincente seja aquela em que Itard castiga injustamente Victor para determinar se ele desenvolveu ou não o sentido do certo e errado.”

E logo adiante: “O filme é dedicado a Léaud e, embora o papel da criança seja desempenhado por outro Jean-Pierre, não há dúvida de que esta criança era, na realidade, a estrela turbulenta de Os 400 Golpes, e, assim, o próprio Truffaut.”

(Os 400 Golpes, tradução literal do original francês, é o título em Portugal de Os Incompreendidos.)

A mim parece absolutamente incompreensível como esse “outro Jean-Pierre”, Jean-Pierre Cargol, não tenha tido uma bela carreira como ator. Não teve. Depois deste filme aqui, fez apenas mais um, quatro anos depois, Caravan to Vaccares, e mais nada.

Totalmente incompreensível, porque aqui demonstra um imenso talento.

THE WILD CHILD, (aka L'ENFANT SAUVAGE), Jean-Pierre Cargol, Francoise Seigner, 1970

Todas as músicas ouvidas ao longo do filme são de Vivaldi

Algumas informações esparsas:

* Para situar: L’Enfant Sauvage veio entre A Sereia do Mississipi (1969) e Domicílio Conjugal (1970).

* O filme mostra os acontecimentos ao longo de quase um ano. Na realidade, o dr. Itard cuidou de Victor por cinco anos. Em 1806, o garoto se mudou para a casa de Madame Guerin, e ficou lá pelo resto da sua vida, com o governo francês pagando à antiga governanta do médico uma pensão.

* Um dos textos escritos pelo dr. Itard que serviram de base ao roteiro do filme é um documento escrito para o governo francês, intitulado “Rapport fait à son excellence le Ministre de l’intérieur sur les nouveaux développemens et état actuel du sauvage de l’Aveyron” – relatório à sua excelência o ministro do Interior acerca dos novos desenvolvimentos e o estado atual do selvagem do Aveyron”.

* Na época em que se passa a ação, o dr. Itard era, na vida real, médico-chefe do Instituto Nacional para Surdos e Mudos. Por seu trabalho com Victor, ele foi homenageado pela Academia Francesa de Ciências; ele é também reconhecido em seu país como um dos precursores do método Montessori.

* Truffaut trabalhou, ao longo de sua carreira, com quatro compositores. Trabalhou com Bernard Herrmann, que musicou vários filmes de Alfred Hitchcock, um dos maiores ídolos do realizador francês,  com Maurice Jaubert e com Antoine Duhamel. Mas Georges Delerue foi sem dúvida seu compositor preferido: trabalharam juntos diversas vezes. Qualquer um dos três franceses citados aí poderia perfeitamente ter criado uma trilha sonora para este L’Enfant Sauvage, mas no fim foi decidido: todas as músicas que se ouvem no filme são composições de Vivaldi.

zzgaroto7

Ao escrever sobre o filme, Truffaut realçou a importância fundamental da educação

Em um texto bem longo publicado na revista L’Avant Scène du Cinéma, em outubro de 1970, sob o título “Como rodei L’Enfant Sauvage”, Truffaut diz lá pelas tantas o seguinte:

“O assunto do filme correspondia a temas que me interessam, e percebo agora que L’Enfant Sauvage tem um quê de Les Quatre-Cents Coups e de Fahrenheit 451. Em Les Quatre-Cents Coups eu mostrei uma criança a quem falta o amor, que cresceu sem carinho; em Fahrenheit 451, é um homem a quem faltam os livros, ou seja, a cultura. A Victor do Aveyron, a ‘falta’ é ainda mais radical, é a linguagem. Esses três filmes são portanto construídos a partir de uma frustração grande. Mesmo em meus outros filmes, eu procurei descrever personagens que estão fora da sociedade; eles não recusam a sociedade; a sociedade é que os recusa.”

Mais adiante, nesse texto, ele fala longamente sobre a questão da escolha do ator para interpretar o dr. Jean Itard, e por que acabou ele mesmo assumindo o papel. E, sobre essa questão, conclui: “Não sei se eu tinha razão ou não de fazer o papel, não sei se sou um bom ator ou um ator ruim, mas não me arrependo da decisão. (…) Dessa experiência, eu não retiro a impressão de ter interpretado um papel, mas simplesmente de ter dirigido o filme ‘diante’ da câmara e não ‘atrás’, como habitualmente.”

O garoto Jean-Pierre Cargol foi visto por uma assistente de Truffaut numa rua de Montpellier – que é uma das cidades grandes próximas ao departamento do Aveyron. Ela fez fotos do garoto, e levou para o cineasta. Escreve ele:

“Jean-Pierre, o pequeno cigano que eu finalmente escolhi para o papel, é um garoto muito bonito, mas eu creio que ele tem mesmo um ar de quem saiu dos bosques. O papel de Victor é um papel que pode parecer penoso para uma criança. Para dirigir Jean-Pierre, procurei o tempo todo fazer comparações. Para os olhares, eu dizia a ele: ‘como um cavalo’. (…) Mas os risos nervosos e os risos doentios eram muito difíceis para ele, porque é uma criança muito doce, muito feliz e muito equilibrado.”

Truffaut finaliza esse longo texto falando sobre “a moral da história”: “O natural nos vem por herança, mas o cultural não pode vir por outra forma que a educação. Daí a importância dessa educação e a beleza desse tema.”

zzgaroto8

“Uma meditação sobre a importância e a beleza da cultura”

Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4: “História real de início absorvente do menino selvagem crescido sozinho nos bosques da Franças e do doutor que tenta civiliza-lo. Contado de forma simples, deliberadamente antiga na técnica; o filme perde força lá pela metade. Truffaut é ideal como o médico. Passado nos anos 1700.”

“É o filme mais representativo da personalidade de Truffaut”, afirma Le Petit Larousse des Films. “Em plena era pós-1968, em que toda a idéia de cultura era suspeita, ele entrega uma meditação sobre um tema que percorre toda a sua obra: a importância e a beleza da cultura, do gesto através do qual um ser transmite a outro aquilo que ele tem de mais precioso. Mas esta sóbria narrativa em preto e branco, de aparência quase científica, em que a emoção brota sem cessar de uma maneira inesperada, é também uma reflexão sobre o cinema. Ao encarnar ele mesmo o dr. Itard, Truffaut não manifesta apenas sua ligação com o assunto, mas lembra que toda encenação amplia a pedagogia e vice-versa.”

Que absoluta maravilha essa crítica do Larousse des Films! Que beleza! “Uma meditação sobre um tema que percorre toda a sua obra: a importância e a beleza da cultura, do gesto através do qual um ser transmite a outro aquilo que ele tem de mais precioso.”

Brilho.

E que beleza contextualizar, lembrar que o filme veio depois do terremoto social que foi maio der 1968 na França. Isso não tinha me ocorrido – mesmo sabendo que François Truffaut é um dos pouquíssimos cineastas europeus da segunda metade do século XX que nunca foi marxista, socialista, comunista.

O Guide des Films de Jean Tulard dá a L’Enfant Sauvage 4 estrelas, algo raríssimo, raríssimo:

“Reencontramos em L’Enfant Sauvage um  dos temas favoritos de François Truffaut, a educação. Deliberadamente, ele deu um tom austero a seu filme, com a utilização de uma soberba fotografia em preto e branco, e por uma encenação das mais sóbrias. Pela primeira vez, Truffaut passa à frente da câmara, desejando que Itard desapareça diante de Victor. Atrás da aparente frieza do filme se esconde uma sensibilidade à flor da pele assim como a grande paixão de Truffaut pelas crianças. É isso que faz deste filme um dos mais belos e mais emocionantes do realizador.”

É o tal negócio. A França não é apenas a pátria do cinema, a pátria em que nasceu o cinema e o país que mais adora o cinema. É também onde se faz a melhor crítica de cinema do mundo.

Anotação em julho de 2016

O Garoto Selvagem/L’Enfant Sauvage

De François Truffaut, França, 1970

Com Jean-Pierre Cargol (Victor, o garoto selvagem), François Truffaut (Dr. Jean Itard), Françoise Seigner (Madame Guerin)

e Jean Dasté (Professor Philippe Pinel), Annie Miller (Madame Lemeri), Claude Miller (Monsieur Lemeri), Paul Villé (Remy), Nathan Miller (Baby Lemeri), Mathieu Schiffman (Mathieu), Jean Gruault (visitante no Instituto), Robert Cambourakis (camponês), Gitt Magrini (camponesa), Jean-François Stévenin (camponesa), Laura Truffaut (menina na fazenda), Eva Truffaut (menina na fazenda)

Roteiro François Truffaut & Jean Gruault

Baseado nas memórias e no depoimento Victor de l’Aveyron, do dr. Jean Itard

Fotografia Nestor Almendros

Música Antonio Vivaldi

Montagem Agnès Guillemot

No DVD. Produção Les Artistes Associés, Les Films du Carrosse. DVD Versátil.

P&B, 83 min

***1/2

Título nos EUA: The Wild Child. Em Portugal: O Menino Selvagem.

2 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 6 novembro 2016 às 1:13 pm | Permalink

    Que texto maravilhoso para alegrar meu domingo!

  2. José Luís
    Postado em 9 novembro 2016 às 8:14 pm | Permalink

    Também digo Senhorita! Só que hoje que estou a ler não é domingo! É quarta-feira. Um dos meus filme favoritos de Truffaut! Voilá!

Um Trackback

  1. […] passional, apaixonado pelas mulheres e pelas paixões, François Truffaut tinha uma admiração sem fim por histórias de amor trágicas, tristíssimas, sem saída. Isso […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*