O Fim de Semana / Das Wochenende

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Nota: ★★★☆

Belo, denso, triste drama familiar passado no interior da Alemanha de hoje. A diretora Nina Grosse é experiente – este é seu 16º título como realizadora – e também assina o roteiro, baseado em novela de Bernhard Schlink, o autor de O Leitor, que teve belíssima adaptação para cinema pelo inglês Stephen Daldry.

O roteiro de Nina Grosse se estrutura de tal forma que o espectador vai sendo informado sobre os personagens e a situação em que eles se encontram lentamente, bem aos poucos. Assim, este é o tipo de filme sobre o qual é muito difícil falar sem revelar fatos que demoram para ser revelados. A rigor, qualquer pequena sinopse de O Fim de Semana pode trazer spoilers.

A sinopse divulgada no canal Max e também a do IMDb trazem uma informação fundamental – mas que só é revelada quando o filme está chegando perto dos 25 minutos.

A rigor, uma sinopse cuidadosa seria assim: Jens (o papel de Sebastian Koch, de A Vida dos Outros e tantos outros bons filmes alemães, na foto abaixo) sai da prisão após longo período. Nos primeiros dias de liberdade, ao longo de um final de semana, revê antigos amigos.

Jens está sendo solto da prisão. A irmã vai buscá-lo

O filme abre com uma mulher que está numa livraria, num evento – uma autora está lendo parte de seu novo livro –, quando recebe um telefonema. Chama-se, veremos logo em seguida, Inga (o papel de Katja Riemann, na foto abaixo). A livraria está barulhenta, e então Inga sai para a rua para ouvir melhor. Estava com ar bastante alegre, mas fecha imediatamente a cara com a notícia que recebe; o espectador não ouve a voz que estava ao telefone, não fica sabendo que notícia é.

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Inga – é bastante óbvio – subitamente perdeu a vontade de continuar no evento. Volta para casa. O marido, Ulrich (Tobias Moretti), está trabalhando num delicado prato na cozinha – veremos depois que é dono de uma pequena cadeia de rotisserias, e um apaixonado por culinária. Inga não comenta com ele sobre o telefonema que recebeu e que mudou seu humor.

No dia seguinte, ela levanta mais tarde do que ele. Quando ela está tomando o café da manhã, Ulrich conta que Tina (Barbara Auer, na foto abaixo) havia ligando para ele, dizendo que Jens (o papel de Sebatian Kock) será libertado naquele dia, e convidando o casal para ir ver os dois na casa dela em Zerlow. E acrescenta que ele aceitou o convite.

Tina reage com grande irritação, diz que Ulrich não deveria ter aceitado o convite sem consultá-la, que eles haviam combinado de ir no fim de semana a Rügen – e que para ela aquele assunto estava encerrado, e ela não queria mais ouvir falar em Jens.

E em seguida vemos Jens no momento em que está sendo libertado do presídio. (Muito mais tarde, saberemos que ele ficou preso por 18 anos.) Um funcionário devolve os pertences que ele tinha ao ser preso: algumas revistas, uma calça jeans, uma carteira com alguns marcos.

Tina está esperando por ele na porta do presídio. Abraçam-se longamente. O espectador ainda não sabe, mas Tina é irmã de Jens. Ela pergunta o que ele quer fazer – e em seguida vemos que Jens está dirigindo o carro de Tina em uma estrada, velozmente, costurando os outros carros, como se para ele aquilo fosse a sensação de liberdade, afinal.

Chegam à noite a um grande casarão no meio do campo, afastado da cidade mais próxima. É uma herança dos pais, e ela vem, aos poucos, reformando e melhorando a ampla, espaçosíssima casa.

Quando estamos com uns 15 minutos de filme, vemos que Jens havia guardado, dentro do seu velho toca-discos, um revólver.

Depreende-se que Jens foi solto numa sexta-feira. No dia seguinte – o sábado – cedo, Ulrich e Inga chegam ao casarão de Tina. O desconforto de Inga e Jens é óbvio, e é espesso, pegajoso, pesado. Dá perfeitamente para o espectador deduzir que haviam sido casados no passado.

Chega mais um visitante, Henner (Sylvester Groth). É bastante claro que ele e Jens haviam sido grandes amigos, amigos chegadíssimos.

Atenção: spoiler. Quem não viu o filme não deve ler a partir daqui

zzfim4aRelatar mais do que isso, a rigor, seria spoiler. Vai então o aviso: quem não viu o filme não deveria ler a partir daqui.

Até uns 20 minutos de filme, o espectador que não tiver lido as sinopses não tem idéia de por que Jens foi preso.

A informação só vem quando a narrativa de aproxima dos 25 minutos, como já foi dito lá em cima: Henner dá de presente para Jens uma camiseta de fundo vermelho com a palavra “terrorismo” bem grande, em preto, e, abaixo dela, umas seis fotos tipo 3 x 4 de várias pessoas – terroristas, é claro. Presume-se que Jens seja um dos retratados ali. (O cartaz do filme, reproduzido no alto deste texto, imita o visual dos cartazes de procurados usados pela Polícia.)

Henner conta, rindo, que achou a camiseta num mercado de pulgas, e ela custava bem caro.

Henner é o único que tenta trazer algum humor para aquela reunião. Mas sua tentativa cai no vazio. O clima é péssimo, e só vai piorar, e muito, daí para a frente.

Jens continua tão esquerdista radical quanto no seu tempo da Fração do Exército Vermelho, Rote Armee Fraktion ou RAF, mais conhecida como Grupo Baader-Meinhof.

Tem profundo desprezo por todos os que não querem o fim imediato do capitalismo – e uma imensa e eterna vontade de saber quem entregou o endereço do flat que ele usava em Hannover, onde a Polícia o encontrou.

Os conflitos entre Jens e aquelas pessoas por causa da diferença ideológica, e da desconfiança dele de que um dos amigos próximos o dedurou, delatou, já são pesadíssimos, e a barra vai ficando mais pesada a cada momento que passa. Mas a esses problemas – em si já gigantescos – virão se somar conflitos pessoais, afetivos, familiares: quando Jens foi preso, Inga estava grávida. O filho, Gregor (Robert Gwisdek), tem profundo ódio do pai biológico – e vai irromper de repente no casarão, fazendo a tensão chegar ao paroxismo.

O cinema alemão tem encarado de frente episódios tristes do passado

É interessante ver que, em seus romances, Bernhard Schlink vai fundo em episódios da história alemã – a colaboração com o nazismo, em O Leitor, e aqui o terrorismo de extrema esquerda dos anos 70 e 80.

O cinema alemão vem encarando com coragem admirável seu passado recente. Depois de décadas sem tocar muito no assunto, mais recentemente diversos belos filmes foram feitos sobre o nazismo – A Queda! As Últimas Horas de Hitler (2004), Uma Mulher Contra Hitler (2005), Minha Quase Verdadeira História (2007), Os Falsários (2007), Jud Süss: Ascensão e Queda (2010), Lore (2012), só para lembrar de alguns que já estão neste site.

Os anos em que o comunismo dominou a metade oriental da Alemanha têm sido mostrados em grandes filmes – Adeus, Lênin (2003),  A Vida dos Outros (2006), Barbara (2012). A divisão do país em dois, entre o fim da Segunda Guerra e o fim do Império Soviético, foi retratada em Asas do Desejo (1987) e, com graça, leveza, em Querido Muro de Berlim (2009).

E a lembrança da mancha dolorosa dos tempos do nazismo está, por exemplo, em Quatro Minutos (2006) e A Onda (2008).

A onda de assaltos a banco nos anos 70 e 80 é o tema de Ladra de Banco/Banklady (2013).

«Das Wochenende» beschäftigt sich mit dem Generationenkonflikt rund um den RAF-Terror auseinander. Foto: Stephan Rabold/Universum Film

E a absoluta loucura que é assaltar bancos, explodir prédios e matar pessoas em uma democracia plena, sob a desculpa de se estar lutando para estabelecer o sonho do comunismo, já havia sido o tema de O Grupo Baader-Meinhof, belo filme de 2008.

Na verdade, todos esses filmes que citei aí são de excelente qualidade. Faz-se um grande cinema, na Alemanha de hoje. E este O Fim de Semana aqui é mais uma prova disso.

É fascinante como a realizadora Nina Grosse parece não tomar partido algum, ao mostrar as discussões ideológicas entre Jens, de um lado, e os demais personagens. Ela apresenta os pontos de vista do esquerdista radical – e não assina embaixo nem vai contra eles. Apenas os apresenta.

E é muito impressionante como Nina Grosse constrói uma narrativa sóbria, tranquila, que muitos críticos chamariam, empínando os narizinhos, de “acadêmica”, palavra para eles sinônimo do porcaria. A câmara de Nina Grosse é tranquila: não treme, não entorta, não parece jamais à beira de um ataque de nervos.

Uma maravilha.

Anotação em setembro de 2015

O Fim de Semana/Das Wochenende

De Nina Grosse, Alemanha, 2012

Com Sebastian Koch (Jens Kessler), Katja Riemann (Inga Lansky), Barbara Auer (Tina Kessler), Tobias Moretti (Ulrich Lansky), Sylvester Groth (Henner Borchard), Robert Gwisdek (Gregor Lansky), Elisa Schlott (Doro Lansky)

Roteiro Nina Grosse

Baseado no livro de Bernhard Schlink

Fotografia Benedict Neuenfels

Música Stefan Will

Produção UFA Cinema.

Cor, 98 min

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