Minha Querida Dama / My Old Lady

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Nota: ★★½☆

Kevin Kline, que andava meio sumido. Maggie Smith e Kristin Scott Thomas, que, felizmente, não andavam. Três excelentes, maravilhosos atores. Muita tomada de Paris, coisa de encher os olhos, o coração, a alma.

Um começo bem interessante: americano sem dinheiro, duro, durango de tudo, chega a Paris vindo de Nova York para conhecer o imenso apartamento térreo no Marais, que tem até mesmo um grande jardim – milionário, portanto – que o pai recém falecido deixou de herança para ele.

O americano, Mathias Gold, é interpretado por Kevin Kline, voltando a Paris quase 20 anos depois de ter interpretado um francês no delicioso Surpresas do Coração/French Kiss (1995), de seu amigo Lawrence Kasdan.

Acontece que (Mathias não tinha a menor idéia disso, é claro) mora no apartamento uma velha senhora, Madame Mathilde Girard, e, pela legislação francesa, que criou a figura do “viager”, “viagère”, ela tem o direito de ocupar o imóvel até morrer. (A expressão significa exatamente vitalício, pessoa que tem direitos vitalícios.) E o proprietário do apartamento tem a obrigação de pagar a ela uma pensão mensal, que no momento é de 2.400 euros.

Quem pagava os 2.400 euros mensais até então era o pai de Mathias. A partir de agora passa a ser responsabilidade dele o pagamento – ele, o nova-iorquino que não tem nada no bolso, que chegou a Paris na esperança de vender de imediato aquele imóvel milionário!

A velhinha explica essa situação para ele com a maior simpatia do mundo. A velhinha, claro, é o papel de Maggie Smith, que, aos 80 aninhos em 2014, o ano de lançamento do filme, achou tempo para fazer este filme, entre um episódio e outro de Downton Abbey, entre o primeiro O Exótico Hotel Maringold e o segundo, entre O Quarteto, de 2012, e A Senhora da Van, de 2015.

E a velhinha ainda se mostra muito condoída ao ouvir dele que ele é pobre de marré deci, após três divórcios.

– “Você chegou a esta idade, e não possui nada na vida?”, ela pergunta, mostrando genuíno espanto.

E insiste: mas seu pai não deixou nenhum outro bem para você? Ele conta que recebeu de herança o apartamento e mais uma coleção de livros de autores clássicos em francês – embora ele, de francês, como quase todo bom americano, só saiba umas cinco palavras.

Madame Girard pergunta mais uma vez: mas e os outros bens do seu pai?

Foram todos para a caridade, ele conta.

Para ele, além dos inúteis livros dos clássicos em francês, só o apartamento milionário – milionário em tese, mas que na prática exigirá dele o desembolso mensal de 2.400 euros, pequena fortuna que ele de forma alguma possui.

Daí a pouco, numa situação constrangedora – no único banheiro do apartamento mastodôntico, porém francês, e portanto de um banheiro só –, esse infeliz americano nada tranquilo em Paris conhecerá Chloe, a filha única de Madame Girard.

Chloe, que vem na pele linda de Kristin Scott Thomas, a mais francesa das atrizes das Ilhas Britânicas, terá pelo americano uma antipatia tão imediata quanto violenta.

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O filme tem duas partes bem distintas. No começo, é comédia – e aí vira drama pesado

Pois então: três atores maravilhosos, dos melhores que há – e todos em desempenhos impecáveis, fantásticos, emocionantes.

Paris – muitas tomadas das ruas da mais esplendorosa cidade do mundo.

Um início de trama saboroso, engraçado, inteligente.

No entanto, este My Old Lady, no Brasil Minha Querida Dama, não me pareceu um bom filme. Tem qualidades, é claro, é óbvio. Tem bons momentos, tem na verdade ótimos momentos. Não é um filme ruim, de forma alguma. Mas também não chega a ser bom. Na minha opinião, é claro, e é sempre bom lembrar que a minha opinião vale no máximo uns três guaranis paraguaios furados.

My Old Lady foi escrito e dirigido por Israel Horovitz, um veterano escritor que como diretor de cinema é quase neófito. Americano de Massachusetts nascido em 1939, é um nome absolutamente consagrado como dramaturgo. Já escreveu mais de 50 peças de teatro, várias delas traduzidas para mais de 30 línguas.

O histórico de suas peças teatrais é um absurdo, uma coisa impressionante. The Indian Wants The Bronx introduziu no teatro americano um jovem chamado Al Pacino. A peça It’s Called The Sugar Plum introduziu Marsha Mason e Jill Clayburgh. Quando estreou em Nova York, The Primary English Class tinha Diane Keaton no palco.

Não foram muitas, no entanto, as adaptações de suas peças para o cinema. Uma das poucas foi Autor em Família/Author! Author! (1982), que Arthur Hiller dirigiu, com Al Pacino, Dyan Cannon e a sempre fascinante Tuesday Weld.

Este My Old Lady é o primeiro longa-metragem que o próprio Israel Horovitz se meteu a dirigir, em cima do roteiro escrito por ele mesmo com base em sua peça teatral. E não se deu mal na direção, não, de forma alguma. Demonstra muita firmeza, segurança.

Não sei como era no teatro, mas, no cinema, My Old Lady é claramente uma narrativa dividida em dois atos, em duas partes distintas – e até distantes.

A primeira parte é engraçada, divertida. É uma comédia – o começo, a chegada de Mathias Gold ao apartamento, a descoberta da situação esdrúxula, esquisita, suas primeiras reações, os primeiros contatos com Madame Girard, a viagère, os primeiros embates com a enraivecida Chloe, a ida até o corretor Auguste Lefebvre (o papel do lelouchiano e jeunetiano Dominique Pinon), o conhecimento de que o apartamento valeria em torno de 12 milhões de francos, a ida à médica de Madame Girard e a confirmação de que ela tem saúde para viver mais umas três décadas…

É tudo muito saboroso, uma gostosa comédia.

Aí…

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Atenção: a partir do intertítulo seguinte, spoiler!

Aí vem o segundo ato, e muda tudo. Vira um pesado drama – e o  eventual leitor que ainda não viu o filme deveria parar de ler por aqui. Adiantar o que vem no segundo ato – ainda que um pouco, sem revelar muito sobre os fatos em si – é spoiler. Estraga o prazer de ver o filme.

Mesmo sem revelar muito sobre os fatos em si, o que vem a seguir é spoiler

O espectador poderá com toda certeza perceber, desde o início – ou, no mínimo, desconfiar -, que teria que ter havido algo no passado entre o pai de Mathias Gold e a agora idosa Madame Mathilde Girard. (Idosa, claro: ela diz para Mathias que tem 90; Chloe conta que na verdade ela está com 92.)

Assim que se conhecem, Madame Girard conta para Mathias que aquele apartamento era uma propriedade dela e de seu já falecido marido. O pai de Mathias havia decidido comprá-lo dela como um investimento – e com ela na condição de viagère, de detentora do direito de usufruto do imóvel até a sua própria morte, segundo a legislação francesa.

E ainda pagando uma mensalidade para ela.

Portanto, a revelação que Madame Girard faz a Mathias, quando o filme está com, sei lá, talvez uns 40 minutos, de que ela e o pai dele haviam sido amantes, não chega a ser surpreendente para o espectador.

No entanto, a confissão surpreende de maneira brutal o nosso herói.

O espectador já sabia bem, a essa altura, que Mathias é um alcoólatra em período de abstinência, “limpo” há algum tempo, conforme a terminologia dos Alcoólatras Anônimos: no primeiro jantar dele com Madame Girard, ela o convidara para dividir uma garrafa de vinho finíssimo, e ele havia se restringo a copos d’água.

Ao ficar sabendo que o pai teve uma amante desde sempre, desde a época em que ele era bem criança, Mathias Gold, 57 anos de idade, quase 58, quase 60, toma um porre como se fosse um adolescente.

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É, aliás, um belo momento de cinema. Mathias – com a atuação estupenda de Kevin Kline – enche a cara com uma garrafa de vinho, tomada no gogó, no glut-glut, à beirinha do Sena, num entardecer de luz esplendorosamente linda. E então, por uma sacada belíssima de alguém, sei lá se de Mark Orton, que assina a trilha sonora, sei lá se do próprio Israel Horovitz, provavelmente dele mesmo, o espectador ouve Paul Simon cantando “Peace like a river”, aquela pequena obra-prima do álbum de 1972, seu primeiro disco solo após o rompimento do duo Simon & Garfunkel.

“Peace like a river ran through the city / Long past the midnight curfew / We sat starry-eyed / We were satisfied / And I remember / Misinformation followed us like a plague / Nobody knew from time to time / If the plans were changed.”

E vemos Mathias dormindo bêbado junto do Sena. Um pivete olha aquela figura, corta, e na cena seguinte é claro que o pobre americano está não só de ressaca moral e física e cívica como também desprovido de sua carteira com os poucos euros que ainda tinha e de seu celular, que já não funcionava mais como telefone, por falta de pagamento da conta, mas ainda era uma preciosa máquina fotográfica.

A sequência é de fato lindíssima, um belo momento de cinema. O que vem a partir daí, no entanto, me deixou desapontado.

Segundo o filme, ter uma amante significa necessariamente ser um pai ruim

A partir daí, vem muita falação, muito queixume, muita choramingação sobre Mathias ter sido sempre um fracassado na vida por causa do pai ausente.

Mathias estava agora acabando de compreender que o pai era ausente porque se dedicava não à mulher e ao filhinho, mas sim à amante!

Quase 60 anos de idade, e o camarada ainda culpava o pai por ter sido infeliz a vida inteira.

E agora ainda fica mais triste, infeliz, e se entrega de novo ao vício porque veio a descobrir o motivo pelo qual o pai não ligava para ele, não ligava para sua mãe.

Acho esse papo um pavor.

Acho essa visão da vida uma coisa abjeta.

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OK: ausência de afeto paterno e/ou materno traumatiza, sim. Isso é óbvio, não dá para discutir. Neguinho tem todo o direito de ser tremendamente infeliz aos 20, 25 anos, pela falta de afeto dos pais.

Agora, chegar quase aos 60 com a mesma infelicidade… Passar a vida inteira sem tratar desse problema com boas sessões de análise… Não consigo entender isso.

E muito pior ainda: o filme insiste na coisa de que a falta de carinho dos pais (e aí há outros exemplos, não mais apenas o do falecido pai de Mathias) se deve ao fato de eles terem amantes.

Ora, isso é piegas, infantil, bobo e excessivamente moralista, de um moralismo que já era retrógado mais de meio século atrás, quando divórcio ainda não era algo tão absolutamente comum.

Ter uma relação extra-conjugal, ou deixar de morar com o marido/a mulher e o filho para ir viver uma nova relação não implica, de forma alguma, em passar a ser pai e/ou mãe ausente. Em deixar de ter amor, carinho, cuidado com o filho.

Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra.

E, no entanto, na história do filme, as duas coisas são umbilicalmente ligadas: a existência de um outro amor significa que o pai/a mãe deixou de dar qualquer tipo de atenção ao filho, virou ausente, distante.

O filme insiste demais nessa tecla, nessa canoa furada. É a história de Mathias, é a história de Chloe e – pior ainda – seria assim também necessariamente com o amante de Chloe.

Se a vida fosse como o filme quer mostrar que ela é, atualmente – quando os casais que se mantêm unidos a vida inteira são minoria – a imensa maioria das pessoas teria profundo trauma.

Então é isso: este filme que começa divertido, gostoso, vira uma coisa, repito, piegas, infantil, bobo, excessivamente moralista, de um moralismo que fede a naftalina.

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Anotação em julho de 2016

Minha Querida Dama/My Old Lady

De Israel Horovitz, EUA-Inglaterra-França, 2014

Com Kevin Kline (Mathias Gold), Maggie Smith (Mathilde Girard), Kristin Scott Thomas (Chloe)

e Dominique Pinon (Auguste Lefebvre), Noémie Lvovsky (Dra. Florence Horowitz), Stéphane De Groodt (Philippe)

Roteiro Israel Horovitz, baseado em sua peça teatral

Fotografia Michel Amathieu

Música Mark Orton

Montagem Stephanie Ahn e Jacob Craycroft

Produção BBC Films, Cohen Media Group, Deux Chevaux Films, FullDawa Films, Le Premier Productions.

Cor, 107 min.

**1/2

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