Marcas do Passado / Aloft

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Nota: ★★½☆

O terceiro longa-metragem da premiada, incensada roteirista e diretora peruana Claudia Llosa é uma co-produção Espanha-Canadá-França; a ação se passa na gelada província canadense de Manibota.

Para fazer esse drama familiar pesado, duro, passado em duas épocas diferentes, separadas por 20 anos, contou com um elenco de primeiríssima, três atores de imenso talento e beleza: a americana Jennifer Connolly, a francesa Mélanie Laurent e o irlandês Cillian Murphy. O elenco tem ainda uma Chaplin: Oona Chaplin, neta de Charlie e sua última mulher, Oona. Essa jovem que herdou o nome da avó e o sobrenome do avô é filha da grande Geraldine.

Na trama que a diretora criou (ela assina sozinha os roteiros originais de seus três filmes), tem imensa importância um elemento controvertido, polêmico, que causa arrepios à ciência oficial e a boa parte das pessoas: a cura de doenças por via não convencional, espiritual, ou seja lá que nome isso tenha.

Há quem chame de charlatanismo; há muita gente que busca socorro nela.

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Uma multidão numa estrada gelada, rumo ao local em que um curador atende

O filme abre numa paisagem gelada – bem, a rigor, todo o filme se passa em meio a paisagens geladas. Uma jovem mulher carrega o filho caçula no colo – ele deve estar aí com uns 6 anos. Atrás dela vem o primogênito, de uns 10 anos, segurando na mão um belo falcão. Veremos que ela se chama Nana Kunning – o papel da belíssima Jennifer Connelly. O mais velho, Ivan, é interpretado por Zen McGrath; o caçula, Gully, por Winta McGrath.

Nana e os filhos chegam até um caminhão; ela fala com o motorista em nome de um conhecido de ambos, pede uma carona. Ela vai na boléia, Ivan e seu falcão vão atrás.

O caminhão está cheio de gente. Pela estrada, há dezenas e dezenas de carros, caminhonetes, caminhões, levando dezenas e dezenas de pessoas em uma determinada direção.

Propositadamente, o filme leva um tempinho até permitir que o espectador entenda o que está acontecendo.

Cheguei a pensar que parecia uma fuga de pessoas após um ataque terrorista, uma bomba nuclear.

Só depois de um bom tempinho se mostra que aquelas pessoas todas estão indo para o lugar em que um curador está atendendo. O curador se chama Newman (William Shimell), e atende os doentes dentro de uma elaborada estrutura feita de pequenos galhos de árvores.

Veremos, depois, através de informações esparsas que vão sendo apresentadas, que Gully, o caçula de Nana, tem uma doença grave, fatal; os médicos haviam desistido de tentar operá-lo, e então, no desespero, Nana havia decidido procurar aquele curador.

Nestes primeiros minutos do filme, quando Nana e seus filhos estão ali junto da pequena multidão que espera atendimento, acontece um fato surpreendente, envolvendo a estrutura arquitetada pelo curador e o falcão de Ivan. Creio que relatar isso seria um spoiler, embora estejamos bem no começo do filme.

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Uma jovem repórter de TV vai até o lugar ermo em que vive Ivan, o falconeiro

Aí então há um corte, surge um letreiro que diz que estamos 20 anos depois. Vemos Mélanie Laurent dirigindo seu carro em uma estrada no meio de um imenso campo tomado pela neve. Ela conversa pelo celular com alguém.

A fantástica (e belíssima) atriz francesa que teve ascensão meteórica nos últimos anos, e já até dirigiu dois longa-metragens, interpreta Jannia Ressmore, uma canadense de fala francesa, jornalista de TV, que está indo à procura de Ivan, agora um falconeiro conhecido em todo o Canadá por quem se interessa por essa grande ave.

A palavra falconeiro não existe no dicionário que mais uso, o Unesp do Português Contemporâneo, talvez porque não haja falcões em Portugal e no Brasil. O Dictionary of English Language and Culture da Longman registra falconer como a pessoa que cria, treina e caça falcões.

Ivan (agora, adulto, interpretado por Cillian Murphy) não caça – cria e treina falcões. Jannia diz que ele é o maior expert em falcões híbridos do Canadá. Está casado com Alice (o papel de Oona Chaplin, a neta do gênio), e eles têm um filhinho bebê; vivem um tanto isolados do mundo, num sítio no meio do nada, um imenso nada gelado em Manitoba. É uma espécie de ermitão. A bela repórter vai encontrá-lo na edícula próxima à sua casa, em que cria os falcões, conversa com eles, faz carinho neles. Ela havia marcado uma entrevista, num telefonema dado alguns dias antes, mas ele já não se lembrava do compromisso.

O começo da conversa entre a jornalista e o falconeiro ermitão é difícil. Ela faz menção ao fato de que ele não usa o sobrenome da mãe, Kunning – e imediatamente Ivan se fecha, como um tatu bola. Alice havia chegado até a edícula, Ivan vai até ela e diz que não quer falar com aquela mulher, Alice que a mande embora.

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Muito lentamente, a conta-gotas, a narrativa vai entregando informações

A partir daí, a ação vai e volta no tempo. Vão se entremeando fatos de 20 anos antes, quando Ivan era aquele garoto ali de uns 10 anos, e sua mãe procurava de todas as formas algum tratamento para o caçula doente, com fatos de agora, quando uma repórter surge inesperadamente na vida dele fazendo-o lembrar da mãe que – o espectador ficará sabendo disso aos poucos, mais tarde – o havia abandonado 20 anos atrás, deixando-o para ser criado pelo avô paterno, Ike (Peter McRobbie).

A autora e roteirista Claudia Llosa escolhe uma forma de ir entregando as informações para o espectador bem aos poucos, em conta-gotas. Somando uma gotinha soltada ali com outras soltadas mais adiante, o espectador conseguirá somar nacos de fatos e entender que Ike também era um falconeiro, assim como seu filho, que se casou com Nana e morreu em algum momento antes daquele início da narrativa.

Ivan era, portanto, o terceiro de uma linhagem de falconeiros. Não era de se espantar que fosse tão bom de serviço, desde que era criança.

Bem aos poucos, a conta-gotas, o filme vai entregando para o espectador a informação de que a jornalista Jannia Ressmore na verdade havia procurado Ivan não para saber dele, de sua experiência com os falcões, e sim para obter informações sobre a relação dele com a mãe. Que o interesse de Jannia é mesmo a mãe do rapaz, Nana Kunning. E depois o espectador ficará sabendo também que o interesse da jornalista por Nana Kunning não é estritamente profissional – é também, ou fundamentalmente, pessoal.

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Este filme da realizadora peruana não teve tantos prêmios quanto os primeiros

A diretora Claudia Llosa adquiriu tamanha reputação, tamanho respeito com seus dois primeiros longa-metragens, Madeinusa (2006) e A Teta Assustada (2009), ambas co-produções Peru-Espanha, que este seu terceiro filme foi admitido para a competição oficial do Festival de Berlim, um dos três mais importantes do mundo (ao lado dos de Cannes e Veneza). Não obteve prêmio, mas a simples participação já é um feito imenso.

Nascida em Lima, em 1976, Claudia Llosa (sim, ela é sobrinha de Mario Vargas Llosa) estudou cinema primeiro na Universidad de Lima, depois na New York University e em Madri. Seu projeto de roteiro para o primeiro filme, Madeinusa, teve prêmio e incentivo do Sundance Institute antes mesmo de as filmagens se iniciarem.

Esse filme de estréia obteve 10 prêmios em festivais mundo afora, além de outras 4 indicações.

A Teta Assustada teve 15 prêmios e 4 indicações – inclusive uma ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Exibido no Festival de Berlim, obteve a glória máxima de levar nada menos que o Urso de Ouro, o prêmio mais importante do festival. Eu, pessoalmente, não gostei nada do filme; achei que é todinho feito para isso mesmo, para fascinar jurados de festivais – é metido, pretensioso, e chato. Mas é como eu sempre digo e repito: minha opinião pessoal vale no máximo uns três guaranis furados.

Este Aloft (literalmente lá no alto, nas alturas), no Brasil Marcas do Passado, não teve nem de longe a grande aprovação nos festivais obtida pelos dois primeiros filmes da realizadora. Talvez por ter sido uma produção internacional, com atores famosos de língua inglesa – e que portanto não desperta a mesma curiosidade que uma obra terceiro-mundista.

Me pareceu, e também à Mary, um bom filme. Correto.

Claudia Llosa é jovem demais. Ainda deverá fazer belos filmes.

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Anotação em outubro de 2015

Marcas do Passado/Aloft

De Claudia Llosa, Espanha-Canadá-França, 2014

Com Jennifer Connelly (Nana Kunning), Cillian Murphy (Ivan), Mélanie Laurent (Jannia Ressmore), Oona Chaplin (Alice, a mulher de Ivan), Peter McRobbie (Ike, o sogro de Nana), Ian Tracey (Hans), Zen McGrath (Ivan menino), Winta McGrath (Gully), William Shimell (Newman), Andy Murray (Lance)

Argumento e roteiro Claudia Llosa

Fotografia Nicolas Bolduc

Música Michael Brook

Montagem Guillermo de la Cal

Produção Wanda Visión, Arcadia Motion Pictures, Buffalo Gal Pictures, Manitoba Films AIE, Noodles Production.

Cor, 112 min

**1/2

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