Madame Bovary

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Nota: ★★★☆

Os franceses têm adoração por Madame Bovary. A obra de Gustave Flaubert de 1857 é um dos mais incensados romances jamais escritos na língua de Molière, Voltaire, Balzac, Dumas pai e Dumas filho, Hugo, Sartre, Camus.

E o cinema também adora Madame Bovary. A história da mulher infiel de um médico de província foi transformada em filme em 1934, 1937, 1947, 1949, 1968, 1974, 1991, 2000, 2014, segundo rápida pesquisa no IMDb, que pode, perfeitamente, ser falha. Deve haver outras versões além dessas.

A primeira delas, a de 1934, é de autoria de Jean Renoir, que fez, ele próprio, a adaptação do romance e escreveu o roteiro. Foi lançada no Brasil pela ótima Versátil, tendo, como extras, duas longas e excelentes exposições de Samuel Titan Jr, jovem e competente professor de Teoria Literária da USP.

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Flaubert filmado por Renoir é coisa mestre por mestre, artista grande por artista grande.

François Truffaut escreveu que desde o início foi seduzido pela obra de Jean Renoir, “toda ela voltada para a compreensão”. Só depois seduziu-se pela obra de Alfred Hitchcock, “toda ela voltada para o medo” – e a partir dos filmes desses dois mestres sentiu-se pronto “para receber as idéias e as imagens de Jean Vigo, Jean Cocteau, Sacha Guitry, Orson Welles, Marcel Pagnol, Lubitsch, Charles Chaplin”.

Truffaut se lembra também de que o primeiro artigo que escreveu na vida – publicado em 1950 no Boletim do Cineclube do Quartier Latin – foi sobre A Regra do Jogo (1939), uma das maiores obras-primas de Jean Renoir, ao lado do extraordinário A Grande Ilusão (1937).

“Isto não é o resultado de uma sondagem, é um sentimento pessoal: Jean Renoir é o maior cineasta do mundo”, escreveu esse cineasta maior, um dos maiores que já houve, em 1967, entre as realizações de Fahrenheit 451 e A Noiva Estava de Preto. “Esse sentimento pessoal é compartilhado por muitos cineastas e, por sinal, não é Jean Renoir o cineasta dos sentimentos pessoais? A habitual divisão de filmes entre dramas e comédias não tem sentido algum se pensarmos nos de Jean Renoir, todos eles comédias dramáticas.”

O Charles Bovary dos irmãos Renoir é basicamente um homem bom

Hum… Todos eles comédias dramáticas? Talvez Truffaut tenha caído no perigo da generalização. Bem, eu, pelo menos, não vi momento engraçado algum no Madame Bovary do mestre Renoir. Madame Bovary versão Renoir me pareceu todo, absolutamente todo, inteiramente triste. Triste, desesperançado, sem saída.

Não conheço muitos atores do cinema francês anteriores à Segunda Guerra Mundial. Claro, há os gigantes, os maiores: Jean Gabin, Gérard Philipe, Jean Marais, Danielle Darrieux, Arletty, Jean-Louis Barrault, Maurice Chevalier, Charles Boyeur, e alguns outros poucos. Mas, tirando esses nomes óbvios, de fato não conheço os atores que estavam na ativa nos anos 30.

zzbovary5Não me lembrava sequer de Pierre Renoir, o primogênito dos filhos do genial pintor Pierre-Auguste, nascido em 1885, e que começou a carreira no cinema ainda em 1911. Segundo filho do gênio do impressionismo, Jean Renoir, nascido quase uma década depois do mais velho, em 1894, primeiro se dedicou à cerâmica. Foi só depois de ter participado da Primeira Guerra como piloto (experiência que deve ter sido fundamental para que ele criasse A Regra do Jogo) que Jean Renoir iniciou-se no cinema, realizando seu primeiro filme, La Fille de l’Eau, em 1924, 13 anos, portanto, depois de o irmão ter começado a carreira.

Pierre Renoir era, em 1934, ano da realização de Madame Bovary, um homem grandalhão, rotundo, obeso, já com grandes entradas no alto do rosto. Tinha o tipo físico perfeito para interpretar Charles Bovary, esse médico de província um tanto rude, um tanto simplório, não especialmente inteligente, sem grandes ambições. Interpreta o papel como se tivesse nascido para isso.

O jovem e talentoso professor uspiano usa adjetivos duros para definir Charles Bovary, em seu ótimo e esclarecedor depoimento sobre a obra de Flaubert que está no DVD da Versátil: medíocre é o mais suave deles. Diz mesmo que o personagem é um tanto bovino, como sugere o próprio sobrenome que Flaubert escolheu para ele.

Pierre Renoir, dirigido pelo irmão mais novo, compõe um Charles Bovary que é, na minha opinião, sobretudo um bom caráter. Uma pessoa boa, de índole boa, de alma boa. De fato, não é um homem especialmente inteligente. Sim, não é ambicioso. Está bem com o que tem, não exige da vida muito mais do que a vida lhe deu.

A vida até que lhe deu mais do que ele poderia esperar. Filho de pais pobres, gente da terra, lavradores, pôde estudar – verdade que não em boas escolas, verdade que não com ótimas notas –, e tornou-se médico. Para ele, isso já estava bom demais.

Já a Emma Bovary do filme é uma mulher que só pensa em luxo e riqueza

Jean Renoir leva pouquíssimo tempo para apresentar ao espectador a primeira Madame Bovavy – e para fazê-la passar desta para melhor.

A primeira Madame Bovary mostrada por Renoir foi um golpe do baú que deu errado. Não um golpe do baú dado por Charles, coitado, mas pela mãe dele, uma mulher asquerosa, nojenta (interpretada por Alice Tissot), que viu na moça uma pessoa de posses, e então armou a teia. Revelou-se, no entanto, que as posses da moça ou eram ficção ou estavam comprometidas com dívidas, hipotecas. E então mamãe Bovary despreza e detesta a nora – que, doente de algo que o filme sequer se preocupa em especificar, morre logo.

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A Emma de Renoir é mostrada pela primeira vez como uma mulher de família não mais que remediada de área rural que acha que o casamento com um médico é ascensão social – e então é ela que lança a rede para prender o pobre Charles.

Não há cena alguma do namoro ou do casamento de Emma com Charles Bovary – de repente, o filme ainda não tem 15 minutos e já estão casados. O homem simples, bom caráter, e a mulher que sonha com ascensão e luxo e riqueza.

A Emma Bovary de Jean Renoir faz lembrar, de fato, a personagem da canção “Ai, que saudades da Amélia” – não a Amélia, claro, mas a mulher para quem o narrador se dirige. A Emma Bovary de Jean Renoir, mais que qualquer outra coisa, é uma mulher que só pensa em luxo e riqueza.

Não é amor que ela procura nos dois amantes que virão em sua vida, Hippolyte (Pierre Larquey) e Leon (Daniel Lecourtois). Nem é principalmente satisfação sexual – embora o filme mostre, sem as explicitudes que ainda não eram permitidas, nem mesmo no cinema francês, muito mais liberal que o americano, que ela teve mais satisfação sexual com os amantes do que com o marido.

O que a Emma Bovary de Jean Renoir queria na vida, e buscou com os amantes, ambos de nível social bem mais alto, era luxo e riqueza.

Valentine Tessier não é bela, e sua interpretação é exagerada, quase circense

A atriz que fez o papel central é Valentine Tessier. Não creio que tenha visto algum outro filme com ela. Nasceu em 1892, morreu em 1981; fez 33 filmes, entre 1912 e 1979.

Emma Bovary já foi interpretada por um monte de atrizes – de Pola Negri, em 1937, e Jennifer Jones, em 1949, até Isabelle Huppert, na versão de Claude Chabrol de 1991. Chabrol, que havia feito La Femme Infidèle em 1969, é claro que teria que filmar Madame Bovary – e o fez com sua atriz fetiche. É uma das mais conhecidas versões cinematográficas do romance; foi lançado em DVD pela excelente mk2 francesa, que a Versátil reproduziu no Brasil; foi incluído na Coleção Folha Cine Europeu.

Dificilmente terá havido atriz menos bela a interpretar Emma Bovary que essa Valentine Tessier.

A falta de beleza da atriz, e também a interpretação dela, bastante exagerada, quase circense, ajudam o espectador a não ter qualquer tipo de simpatia por Madame Bovary.

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Não sei a Madame Bovary original, a do livro. Sobre essa, não sei nada. Tentei ler a obra-prima, com algum afinco, e não consegui. Os doutos que me perdoem, mas achei Madame Bovary um texto de uma chatura atroz, e a vida é muito curta pra gente ficar dando tantos murros em ponta de faca.

Vi a Madame Bovary do chato do Chabrol na época em que o filme foi lançado, mas não me lembro nada dele.

Não pretendo ver qualquer um dos outros diversos filmes baseados no livro. A Madame Bovary que fica para mim é a do mestre Renoir: uma pusteminha de cabeça oca deslumbrada com a possibilidade de ter luxo e riqueza.

Não é o fato de ela ser infiel que a torna uma pessoa que, na minha opinião, é absolutamente menor. Não, de forma alguma não é isso. Não sou um moralista idiota, hipócrita, pronto a lançar pedras a quem é infiel, até porque eu mesmo já fui, e bastante.

A questão é que Emma Bovary – ao menos a de Jean Renoir – tem a alma pequena, mínima, ínfima. Se é que tem alma.

É uma pessoa chata de galocha.

Mulher infiel por mulher infiel, prefiro de longe a outra a Ana, a Kariênina.

PelamordeDeus, não estou querendo comparar Flaubert a Tolstói, porque não tenho capacidade para isso: tendo lido muito (e relido) Tolstói na vida, jamais passei do terceiro capítulo de Madame Bovary, e então não poderia jamais comparar as qualidades literárias.

Agora, que Anna Kariênina é uma mulher mais densa, mais rica, mais diversificada, mais inteligente, mais fascinante do que essa chata dessa Emma Bovary, ah, lá isso é.

Até Gemma Bovery, a inglesinha cuja vida imita a arte, no romance homenagem à obra de Flaubert filmado em 2014 por Anne Fontaine, é mais interessante que a Emma mostrada pelo mestre Renoir.

Anotação em dezembro de 2015

Madame Bovary

De Jean Renoir, França, 1934

Com Valentine Tessier (Emma Bovary), Pierre Renoir (Charles Bovary),

e Max Dearly     (Homais), Robert Le Vigan (Lheureux), Alice Tissot (a mãe de Charles Bovary), Pierre Larquey (Hippolyte), Daniel Lecourtois (Leon), Monette Dinay (Félicité), Louis Florencie (o padre), Romain Bouquet (o advogado), Christiane Dor (Madame La François), Georges Cahuzac (Rouault), Héléna Manson (Héloïse Bovary), Henri Vilbert (Dr. Canivet)

Roteiro Jean Renoir

Baseado no romance de Gustave Flaubert

Fotografia Jean Bachelete e Alphonse Gibory

Música Darius Milhaud

Montagem Marguerite Renoir

Produção La Nouvelle Societé des Films. DVD Versástil.

P&B,

***

Um Comentário

  1. Senhorita
    Postado em 1 abril 2016 às 5:32 pm | Permalink

    Nunca esqueci do Pierre, pois sou devota de Simenon e ele foi um dos Maigrets que mais amei.
    Mas vim aqui para agradecer por aquecer meu coraçãozinho com todas essas truffautadas S2

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Paixão / Passion em 20 maio 2016 às 9:05 pm

    […] romances costumam ser refilmados diversas, diversas, diversas vezes. Madame Bovary, de Gustave Flaubert, por exemplo, foi filmado em 1934, 1937, 1947, 1949, 1968, 1974, 1991, 2000, […]

  2. […] Mundial e logo antes de fazer as obras-primas A Grande Ilusão (1936) e A Regra do Jogo (1939), Jean Renoir fez este pequeno Une Partie de Campagne. Uma pequenina […]

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