Laços Humanos / A Tree Grows in Brooklyn

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Nota: ★★★☆

A Tree Grows in Brooklyn, no Brasil Laços Humanos, de 1945, foi o primeiro filme dirigido por Elia Kazan, que chegou a Hollywood depois de se firmar como um dos grandes diretores do teatro americano. Nos anos seguintes, Kazan (1909-2003) se firmou como um dos maiores diretores de Hollywood. Seus oito primeiros filmes, realizados entre 1945 e 1952, tiveram 32 indicações ao Oscar e venceram em 10 delas.

Já neste seu filme de estréia, foram duas indicações ao Oscar – o roteiro, de Frank Davis e Tess Slesinger, e a atuação de James Dunn. O ator, que faz o pai da família retratada na história, levou a estatueta de melhor coadjuvante.

É um drama pesado, sério, denso, sobre uma família bem pobre, à beira da miséria, no Brooklyn do começo do século XX. A história é contada através da visão da filha mais velha do casal, Francie, uma garotinha aí de uns 12 anos. Peggy Ann Garner, a atriz que interpreta a menina, estava com 13 anos em 1945, o ano de lançamento do filme, e tinha já oito títulos no currículo.

A atuação da pequena atriz é nada menos que magistral. A Academia a premiou com um Oscar especial, específico para ela, de Excepcional Atriz Infantil – Special Academy Award for Outstanding Child Actress.

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A garotinha devora livro após livro da biblioteca pública

O pai, Johnny Nolan (o papel do premiado James Dunn), é um sujeito de bom coração, alegre, brincalhão, apaixonado pela família – mas um desastre na vida prática. Bebe demais, e é incapaz de se manter em qualquer emprego. Faz bicos como garçom e cantor em festas, quando aparecem oportunidades – mas as oportunidades são poucas.

Quem sustenta a casa é a mãe, Katie (o papel de Dorothy McGuire), que se esfalfa, se desgasta como faxineira. Mal paga, é obrigada a controlar com rigidez extrema cada centavo. Com o tempo, foi perdendo a alegria, a capacidade de gostar do marido sonhador mas irresponsável, de manifestar afeto pela filha Francie e pelo filho Neelie (Ted Donaldson). Endurecida, briga até com a irmã, Sissy (Joan Blondell, ótima), uma mulher cheia de alegria de viver, que está sempre saindo de um casamento e entrando em outro.

Francie encontra na leitura a válvula de escape para a vida duríssima, apertada. É uma leitora voraz, devora livro após livro da biblioteca pública.

E é absolutamente fascinada pelo pai, pelas músicas que ele canta, pelas histórias que ele conta, pelas promessas dele de dias melhores.

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A fotografia é uma maravilha, e impressionam os cuidados da direção de arte

É um tipo de drama pesado que poderá parecer, para os mais jovens, um melodramão chato. Não é – é cinema de primeira qualidade.

Todas as atuações são impecáveis. Kazan é, sem dúvida, um dos melhores diretores de atores que o cinema já teve. Homem do teatro, foi um dos fundadores do Actors’ Studio, que adotava o famoso método de interpretação do polonês Konstantin Stanislavski. O Actors Studio formou várias gerações de atores, como Paul Newman, Marlon Brando, James Dean e Al Pacino.

Nada menos de 21 atores tiveram indicações ao Oscar por suas atuações em filmes dirigidos por ele. Nove deles ganharam o prêmio: James Dunn, o Johnny Nolan deste A Tree Grows in Brooklyn, Celeste Olm, Karl Malden, Vivien Leigh, Kim Hunter, Anthony Quinn, Marlon Brando, Eva Marie Saint e Jo Van Fleet.

A trilha sonora, ótima, é do grande Alfred Newman. A fotografia de Leon Shamroy é uma maravilha, e impressionam os cuidados da direção de arte, tanto nas sequências internas, no pobre apartamento da família Nolan, quanto nas muitas externas, nas ruas pobres daquele pedaço bem pobre do Brooklyn.

A fotografia do filme é tão fascinante que os executivos da Fox, após verem as primeiras sequências filmadas, quiserem que tudo fosse refeito em Technicolor. Kazan se recusou. Ainda bem. É um filme que tinha mesmo que ser em preto-e-branco, o glorioso preto-e-branco dele.

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O filme se baseia em um romance autobiográfico de Betty Smith

O filme se baseia num romance que havia sido lançado dois anos anos, em 1943. A Tree Grows in Brooklyn, da escritora Betty Smith (1896-1972), foi um extraordinário sucesso assim que chegou às livrarias. É um cartapácio de quase 500 páginas, dividido em cinco partes, que relata a história das Nolan através de várias décadas, desde que Johnny e Katie se conhecem, os dois de famílias de imigrantes, ele descendente de irlandeses, ela de austríacos.

O livro tem muito de autobiográfico. Como Johnny e Katie, a própria Betty Smith, nascida Elizabeth Lillian Wehner, filha de imigrantes alemães, cresceu em Williamsburg, bairro bem pobre do Brooklyn – exatamente o bairro em que se passa a história de A Tree Grows in Brooklyn.

Vários estúdios manifestaram interesse em comprar os direitos de filmagem do livro, mas a Fox do produtor Darryl F. Zanuck conseguiu fechar negócio. Pagou pelos direitos de filmagem US$ 55 mil, uma boa soma na época.

Há aí uma fantástica, incrível coincidência: o diretor Elia Kazan e a autora Betty Smith, ambos filhos de imigrantes, foram colegas na Yale School of Drama.

O roteiro assinado por Tess Slesinger e Frank Davis teve a felicidade de se concentrar apenas no trecho do livro em que a pequena Francie está aí com uns 12 anos, sem tentar contar toda a saga da família ao longo de décadas.

Outras felicidades cercaram a produção do filme. Consta que o estúdio programou para Gene Tierney o papel de Katie Nolan. Mas a atriz ficou grávida, e o papel acabou indo para Dorothy McGuire. Ainda bem. Gene Tierney é bela demais para o papel daquela mulher endurecida, amargurada, desgastada pelo trabalho duro. Não combinaria com o personagem. Dorothy McGuire é muito mais adequada.

A história seria refilmada em 1974 para a TV americana, com bons atores no papel de Johnny e Katie Nolan – Cliff Robertson e Diane Baker.

Antes, em 1951, a história já havia virado um musical da Broadway, com música de Arthur Schwartz e coreografia do diretor de cinema Herbert Ross. O show teve 267 apresentações.

ca. 1945 --- Lloyd Nolan as Officer McShane, Joan Blondell Aunt Sissy Nolan, Dorothy McGuire as Katie Nolan, Ted Donaldson as Neeley Nolan, James Dunn as Johnny Nolan, and Peggy Ann Garner as Francie Nolan in the 1945 film A Tree Grows in Brooklyn. --- Image by © John Springer Collection/CORBIS

Leonard Maltin deu cotação máxima. O Guide de Tulard é bem severo com o filme

Leonard Maltin dá 4 estrelas, a cotação máxima: “Esplêndido, sensível filme baseado na novela de Betty Smith sobre uma garota inteligente tentando se manter de pé apesar das durezas de sua vida no início do século no Brooklyn, Nova York. Perfeito em cada detalhe. (…) Uma imponente estréia de Kazan em Hollywood.”

O Guide des Films de Jean Tulard faz uma apreciação bem mais severa: “O primeiro longa-metragem do autor de America America seguramente não é desprovido de defeitos. Como ele mesmo reconheceu, a história é um pouco magra; quanto aos cenários, ao vestuário, às maquilagens e aos cabelos, tudo é muito bonito, muito limpo, muito asséptico para parecer verdadeiro. O filme traz no entanto inegavelmente a grife de Kazan na medida em que o romance de Betty Smith dá ocasião para que ele exprima suas preocupações sociais e descreva os proletários com seus problemas de todos os dias. E se Kazan não conseguiu atingir um nível de realismo desejável, ele teve o mérito de se afastar – na medida do possível – dos artifícios hollywoodianos.”

Nesse caso aqui, concordo mais com Leonard Maltin.

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Anotação em setembro de 2016

Laços Humanos/A Tree Grows in Brooklyn

De Elia Kazan, EUA, 1945

Com Peggy Ann Garner (Francie Nolan), Dorothy McGuire (Katie Nolan), Joan Blondell (tia Sissy), James Dunn (Johnny Nolan), Ted Donaldson (Neeley Nolan), Lloyd Nolan (McShane, o policial), James Gleason (McGarrity), Ruth Nelson (Miss McDonough), John Alexander (Steve Edwards), B.S. Pully (o vendedor de árvores de Natal)

Roteiro Tess Slesinger e Frank Davis

Baseado na novela de Betty Smith

Fotografia Leon Shamroy

Música Alfred Newman

Montagem Dorothy Spencer

Produção 20th Century Fox.

P&B, 129 min.

***1/2

Título na França: Le lys de Brooklyn. Em Portugal: Laços Humanos.

Um Comentário

  1. Senhorita
    Postado em 30 dezembro 2016 às 5:15 pm | Permalink

    Texto impecável. Também concordo mais com Maltin. Sobre uma das informações… Não consigo imaginar essa história em um musical da Broadway. Fiquei curiosa!

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