Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte / Gemma Bovery

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Nota: ★★★☆

Como o próprio título original indica, e os exibidores brasileiros  tornaram mais óbvio ainda, Gemma Bovery se remete a Emma Bovary, a protagonista da obra de Gustave Flaubert de 1857, um dos mais incensados romances jamais escritos na língua de Molière, Voltaire, Balzac, Dumas pai e Dumas filho, Hugo, Sartre, Camus.

Os franceses adoram Madame Bovary. A história da mulher infiel de um médico de província já foi transformada em filme em 1934, 1937, 1947, 1949, 1968, 1974, 1991, 2000, 2014.

Este Gemma Bovery é um belo filme. Uma suave, delicada, mansamente triste homenagem à obra de Flaubert. Uma homenagem e também, por que não?, uma brincadeira com ela. Gemma Bovery reencena a história de Emma no mesmo local em que ela se deu, já lá se vão mais de 150 anos – e os personagens de hoje, em especial o principal protagonista da história, um senhor idoso, amante da arte de Flaubert, sabem muito bem que a vida está, sim, imitando a arte, ali, diante dos olhos deles, os personagens, e dos nossos, os espectadores.

A diretora Anne Fontaine é autora de várias das histórias que já filmou – e sua filmografia tem diversas boas obras. Em geral divide a autoria de seus roteiros originais com amigos, companheiros; foi assim em A Garota de Mônaco (2008) e Uma Nova Chance (2006), por exemplo.

GEMMA BOVERYRéalisé par Anne Fontaine

Aqui, assina o roteiro, a adaptação e os diálogos (como os franceses gostam de explicitar nos créditos) juntamente com Pascal Bonitzer – mas a trama, a história original não é deles. É de Posy Simmonds, uma escritora e cartunista inglesa que parece ser uma figura interessantíssima. Gemma Bovery primeiro foi publicado como história em quadrinhos – ou novela gráfica, como agora se diz -, em 2000, e depois transformado em livro. De livro, virou filme nesta co-produção França-Inglaterra de 2014.

É uma obra em tudo por tudo francesa e inglesa, esses dois países divididos pelo Canal da Mancha, por um histórico de guerras (a Guerra dos Cem Anos é citada no filme) entre eles e outras em que estiveram do mesmo lado, e unidos agora por um túnel e por uma milenar relação de amor e ódio, de ironia e admiração.

Uma escritora inglesa que homenageia um romance francês. Homenageia e ao mesmo tempo brinca com ele. Personagens ingleses vivendo na França – mais exatamente na Normandia, bem diante do Canal da Mancha. Ingleses que estão aprendendo a falar francês, franceses que sabem ou não sabem muito bem falar francês.

Lá pelas tantas, há até uma discussão em que um inglês acusa os franceses de serem todos socialistas, e um francês, o protagonista da história, acusa os ingleses de serem rudes materialistas cujo ideal de vida é a libra esterlina.

“Como tantos outros parisienses idiotas”, Martin procurou paz no interior

  O protagonista se chama Martin Joubert, é interpretado – maravilhosamente – por Fabrice Luchini, e se apresenta aos espectadores já na primeira sequência do filme:

Tomadas em close-up mostram mãos trabalhando a massa de pão.

– “Joubert, sou eu. Martin Joubert. Há sete anos voltei para a Normandia, para retomar a padaria de meu pai, depois de 12 anos de stress numa editora, redigindo notas sobre teses universitárias que ninguém leria.”

As primeiras frases são ditas em off, enquanto vemos Fabrice Luchini-Martin Joubert trabalhando na padaria normanda que herdou do pai. As últimas frases dessa sua introdução, no entanto, Martin falará para nós, olhando para a câmara:

– “Pensei, como tantos outros parisienses tão bobos quanto eu, que encontraria aqui o equilíbrio e a tranquilidade. O equilíbrio e a tranquilidade uma ova!”

Outros parisienses “aussi con que moi”. A legenda do filme usa “bobo”. Mas “con” é uma palavra muito mais forte que bobo. Além de ser uma das muitas palavras que designam vagina, significa imbecil, idiota, segundo Le Robert de Poche.

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Como tantos outros parisienses idiotas como ele, Martin, então, havia trocado a vida apressada da metrópole pela quietude de um pequeno vilarejo normando, não muito longe de Rouen. Tinha o conforto de morar em uma bela casa, próxima da padaria em que trabalhava ao lado da mulher, Valérie (Isabelle Candelier).

Logo depois que o vemos se apresentar, Martin sai de sua casa e entra no jardim da casa bem diante da sua. Seu vizinho, Charlie (Jason Flemyng), está queimando coisas em uma fogueira. Comenta com Martin que não quer mais conviver com aquelas coisas. Menciona que Gemma deixou um diário, mas que ele não tem coragem de ler – e pergunta se Martin quer uma bebida. Martin aceita o convite, é claro. Charlie entra na casa para pegar a bebida para o vizinho, e Martin aproveita para roubar o diário de Gemma e escondê-lo sob o casaco.

Logo o vemos em sua casa, à noite, começando a ler o diário de Gemma Bovery – e passamos a ver a própria Gemma, no passado recente que ela descreve em seu diário.

Ela é interpretada por Gemma Arterton, a jovem atriz inglesa linda, gostosa, sensualíssima.

A narrativa do filme será toda assim: nos dias de hoje, Martin lendo o diário de Gemma, e a tela mostrando o que havia acontecido algum tempo atrás. O espectador sabe que Gemma não está mais ali, mas, naturalmente, não tem idéia do que teria acontecido a ela.
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“Com um pequeno gesto, lá se foram dez anos de tranquilidade sexual”

Os ingleses Gemma e Charlie haviam chegado àquele vilarejo da Normandia alguns meses antes, talvez uns dois anos – não há necessidade de se explicar isso, e o filme não explicita. Martin assistiu a tudo de camarote – pôde ver a chegada dos novos vizinhos, foi apresentar-se a eles. Depois os via sempre em sua padaria, na casa deles diante da sua, nos passeios pelos campos nos arredores.

É fantástica a coincidência de uma mulher chamada Gemma e seu marido – bem mais velho que ela – chamado Charles Bovery terem se mudado para o campo normando, exatamente o lugar que Gustave Flaubert escolheu para colocar seus personagens Charles e Emma Bovary!

Martin fica impressionadíssimo com isso, é claro. Quem não ficaria?

Estamos aí com menos de 15 minutos de filme, e um dia Martin está passeando com seu cachorro, Gus, no campo, vizinho à aldeiazinha, e passa por Gemma, que está passeando com sua cadelinha. Trocam três frases triviais, cada um vai para seu lado. Depois de caminhar alguns poucos metros, Gemma se volta para trás e faz um gestozinho de tchau para Martin.

E então Fabrice Luchini-Martin Joubert exclama para o espectador, como num suspiro tristonho, mas que inclui também até uma certa excitação que já não esperava mais acontecer em sua vida:

– “Em um segundo, com esse pequeno gesto insignificante, lá se foram dez anos de tranquilidade sexual.”

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A vida fica ali imitando a arte como se Martin fosse um diretor de cinema

Gemma Bovery é um filme cheio de coincidências. A história criada pela inglesa Posy Simmonds já é toda calcada naquelas coincidências: um Charles Bovery casado com uma Gemma, na Normandia – ora, é fatal que a vida vá imitar a arte.

De seu camarote, de onde observa tudo o que se passa ao redor da jovem Gemma, Martin vê – e através dele nós também vemos – a chegada à história de um jovem rico e belo. Chama-se Hervé de Bressigny (Niels Schneider), tem cabelos louros e encaracolados como um anjinho barroco, o “de” do nome evidencia riqueza de berço. Veio de Paris para estudar para as provas da Faculdade de Direito na quietude do gigantesco palácio da família, hoje administrado por sua mãe – Madame de Bressigny é interpretada por Edith Scob, uma senhorinha feia que nem a fome, maneira de o filme se vingar dos muitos ricos.

A sequência em que, da soleira da porta de sua padaria, Martin observa a rua à sua frente, na qual estão de um lado a jovem e bela Gemma e do outro lado o jovem e belo Hervé é escandalosamente bem costurada, bem armada, bem encenada.

Ele se sente um diretor, um metteur en scène – e diz isso para os espectadores. Ele sabe que os dois jovens vão se ver, um vai se aproximar do outro. Sabe até o que cada um vai dizer – e tudo o que Martin canta que será executado é de fato executado ali, diante dos olhos dele e dos nossos.

Está armado o cenário para a traição, a infidelidade, a vida imitando a arte, a Gemma inglesa de hoje fazendo com seu Charles exatamente o que a Emma do romance fez com o Charles dela.

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Dificilmente haveria outra atriz para fazer essa lolitinha quase balzaquiana

Então já temos coincidências demais. Seria mesmo necessário que o papel de Gemma fosse interpretado por Gemma?

Seria. Mas Gemma Arterton nasceu para interpretar essa Gemma Bovery. Tem o physique du rôle perfeito. É, como já disse, uma mulher linda, e gostosa, e sensualíssima. Na contracorrente da esqualidez biafrenta, anoréxica das modelos de hoje, Gemma Arterton tem carne – carne nas coxas, na bunda, no colo.

Poderiam parar por aí as coincidências, que já são demais – mas, não, elas não param.

Gemma Arterton interpretou a principal personagem feminina de outro filme gostoso, O Retorno de Tamara, no original só o nome da personagem, Tamara Drewe, dirigido por Stephen Frears e lançado em 2010. É a história de uma garota que era feiosa, nariguda, e de repente reaparece linda, gostosérrima, deixando absolutamente tontos, zonzos, diversos adultos numa cidadezinha do interior inglês.

Pois bem: Tamara Drewe, o filme do grande Frears, se baseou numa novela gráfica, mais tarde transformada em romance, de autoria de Posy Simmonds, a mesma autora de Gemma Bovery!

É necessário registrar que essa moça Gemma Arterton – nascida no interior inglês em 1986 – tem, nos últimos anos, sido requisitada para um bando de aventuras juvenis e filmes de ação, como João e Maria: Caçadores de Bruxas, Fúria de Titâs, Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo, até mesmo o elogiadíssimo 007 – Quantum of Solace. Não sei se está prosa, a moça, mas sem dúvida está com tudo. Parece, infelizmente, estar indo com sede demais ao pote. Em novembro de 2015, o IMDb registrava nada menos que sete filmes dela em pós-produção ou em projeto. Seria bom, talvez, um agente, alguém dar um toque para ele não trabalhar tanto, e, de preferência, evitar tanta aventura juvenil e filme de ação.

Aliás há alguma diferença entre esses dois gêneros?

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Mas o que importa mesmo é que dificilmente haveria outra Gemma Bovery melhor que essa outra Gemma, a Arterton. Ela tem uma sensualidade explícita e ao mesmo tempo misturada com um ar angelical de garotinha inocente que é uma delícia. E Fabrice Luchini está maravilhoso como esse senhor idoso que fica completamente sem jeito, que perde inteiramente a calma e a compostura diante daquela lolitinha quase balzaquiana.

Pode parecer um oximoro, uma impossibilidade, mas Gemma Arterton consegue ser uma lolitinha, mesmo que estivesse, no ano do lançamento do filme, a apenas dois anos de completar 30.

A sequência em que ela pede a ele o favor de escrever uma carta para o advogado da milionária Madame de Bressigny, por exemplo, é uma delícia. Ela está perto dele, a câmara focaliza o rosto dele e o vestido dela na altura do seio, e ele olha para os seios dela (absolutamente cobertos, é claro!) e não consegue juntar uma palavra com outra, coitado. E ela, como no samba de Ataulfo, finge que não sabe o feitiço que tem.

Gemma Aterton leu um diálogo, e a diretora viu que ali tinha uma bomba atômica

Algumas informações sobre a produção do filme, tiradas dos “segredos das filmagens” do AlloCiné, o correspondente à página de Trivia do IMDb:

Anne Fontaine explicou assim, em entrevista, por que decidiu adaptar a história da inglesa Posy Simmonds: “O jogo de palavras sobre um arquétipo literário feminino me pareceu promissor e lúdico. Quando li o romance, os personagens de deixaram intrigada e tocada: senti seu potencial cômico e sua profundidade humana, e fiquei seduzida pelo tom da autora, entre a comédia feroz e a formidável ironia. Emma Bovary e Gemma Bovery. Esse lado fetichista me pareceu extremamente sedutor.”

A diretora disse também que a escolha de Fabrice Luchini para o papel era um tanto óbvia. Os dois já haviam trabalhado juntos em A Garota do Mônaco. Diz ela: “Quando li a novela gráfica, imediatamente pensei em Fabrice Luchini, não apenas como intérprete, mas como um ser que tem Flaubert no sangue. Eu tinha ouvido ele falar tanto de Madame Bovary que tive a sensação de que o papel esperava por ele. Então escrevi o roteiro me dizendo que havia uma probabilidade forte de que o personagem o deixasse interessado.”

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Anne Fontaine a princípio não pensou em Gemma Arterton para o principal papel feminino por imaginar que ela não teria vontade de trabalhar em outro filme baseado em história de Posy Simmonds, depois de Tamara Drewe. E então ela chegou a pensar em alternativas e a entrevistar outras atrizes. Mas Gemma demonstrou interesse – e a diretora se deslumbrou: “A partir do momento em que ela abriu a porta e leu um pequeno texto que ela havia escrito, em francês, entendi que eu tinha nas mãos uma bomba atômica. Ela passa uma energia tal que é impossível não amá-la. Ela veio passar três meses na França, antes de começar as filmagens, para fazer uma imersão na cultura local.”

Disse, lá em cima, que o filme é uma suave, delicada, mansamente triste homenagem à obra de Flaubert. A diretora Anne Fontaine conseguiu de fato criar uma atmosfera suave, delicadamente, e mansamente triste. Mansamente: o velho Martin sente pela jovem que vem morar ao lado dele uma atração forte, fantástica, mas que ele sabe que não vai dar em nada. Não vai resultar em coisa alguma – a não ser inquietação, preocupação, palpitações, uma dorzinha na juventude que ele já perdeu faz tempo. Alegria, felicidade – nenhuma. Nada, nadica, necas de pitibiribas.

Apesar de ser mansamente triste, de ter em si até mesmo muito drama, é uma história, no entanto, contada com bom humor.

Niels Schneider and Gemma Arterton star in Anne Fontaine's film Gemma Bovery. Credit: J¾©r¾¥me Pr¾©bois.

Atenção: spoiler. Quem ainda não viu o filme, melhor parar por aqui

E aqui vai um spoiler: o aparecimento da nova vizinha – interpretada por Pascale Arbillot – é deliciosamente engraçado.

É Julien (Kacey Mottet Klein), o filho de uns 17 anos do casal Joubert, que conta para os pais: os novos vizinhos – imagine! quem diria! – são russos! E o nome da mulher parece, parece…

Ana Karenina!

Martin arregala os olhos – e sai à rua para entrevistar a nova vizinha.

É uma absoluta delícia.

François Truffaut dizia que queria chegar ao ponto de, na mesma história, contar coisas alegres e coisas tristes. Ele conseguiu fazer isso magistralmente nos dois últimos filmes das Aventuras de Antoine Doinel, por exemplo.

Essa senhora Anne Fontaine também conseguiu esse feito. Truffaut com toda certeza a aplaudiria.

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Anotação em novembro de 2015

Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte/Gemma Bovery

De Anne Fontaine, França-Inglaterra, 2014

Com Fabrice Luchini (Martin Joubert), Gemma Arterton (Gemma Bovery)

e Jason Flemyng (Charlie Bovery), Isabelle Candelier (Valérie Joubert), Niels Schneider (Hervé de Bressigny), Mel Raido (Patrick), Elsa Zylberstein (Wizzy), Pip Torrens (Rankin), Kacey Mottet Klein (Julien Joubert), Edith Scob (Madame de Bressigny), Philippe Uchan (Doutor Rivière), Pascale Arbillot (a nova vizinha),

Roteiro Pascal Bonitzer e Anne Fontaine

Baseado no romance de Posy Simmonds

Fotografia Christophe Beaucarne

Música Bruno Copulais

Montagem Annette Dutertre

Casting Andy Pryor

Produção Albertine Productions, Ciné@, Gaumont, Cinéfrance 1888, France 2 Cinéma, Canal+.

Cor, 99 min

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2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Agnus Dei / Les Innocentes em 16 Janeiro 2017 às 12:27 pm

    […] Madeleine Pauliac era recém-formada quando se integrou a uma equipe da Cruz Vermelha francesa, que, logo após o fim da guerra, foi enviada para o interior da Polônia para tratar dos franceses feridos. Ela relatou toda a experiência em seu diário íntimo. Um sobrinho dela, Philippe Maynial, guardou o diário, que chegou às mãos da diretora Anne Fontaine. […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » A Corte / L’Hermine em 2 Abril 2017 às 3:39 am

    […] o juiz que preside o julgamento e é o centro da história vem na pele e no talento imenso de Fabrice Luchini, e no júri há uma mulher de meia idade de beleza esplêndida, luminosa – interpretada pela […]

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