Frankie & Alice

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Nota: ★★☆☆

Chagas produzidas pelo racismo, pela injustiça social. Uma jovem e bela mulher negra com múltiplas personalidades – uma das quais é uma mulher branca mais velha e racista, e outra é uma criança que parece viver no mundo do mágico de Oz. Um médico competente, obstinado, determinado a cuidar da paciente contra tudo e todos, inclusive ela mesma.

Com o detalhe de que a história se baseia – como o espectador é informado por um letreiro bem no início do filme – em eventos reais.

Convenhamos: é muita coisa de que trata esse Frankie & Alice, uma produção canadense de 2010 com Halle Berry e Stellan Skarsgård nos papéis principais, dirigida por Geoffrey Sachs, 35 títulos no currículo como diretor, boa parte deles séries de TV, nenhum filme conhecido ou marcante.

É muita areia para o caminhãozinho de qualquer realizador.

O resultado não chega a ser propriamente um filme ruim. Não, não é um filme ruim, na minha opinião. É só fraco.

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Frankie é uma belíssima jovem que trabalha como dançarina num night club

A narrativa começa com um letreiro que informa o onde e o quando: “Savannah, Georgia, 1957”. Ou seja: Sul Profundo, quando ainda estavam em vigor as leis segregacionistas, tão segregacionistas quanto a do apartheid da África do Sul – que proibiam que brancos e negros frequentassem os mesmos banheiros, quanto mais o casamento inter-racial.

É de noite. As tomadas são rápidas, é preciso o espectador fazer algum esforço para entender o que está na tela: uma menina de uns 15, 16 anos, sentada na poltrona do carona de um carro parado no meio de uma estrada, parecendo em estado de choque. Policiais se aproximam, perguntam se ela está bem. O espectador vê que ela não está bem: está em absoluto choque.

Corta, e temos novo letreiro: “Los Angeles, Califórnia, 1973”. A maior metrópoles da Costa Oeste, em plena era dos hippies, da contracultura, das drogas, do sexo farto e sem culpas. Estamos em uma boate, um clube noturno. Uma dançarina belíssima, provocante, sensual, é a atração.

Vem na pele de Halle Berry. Se fosse brasileira, nós a chamaríamos de mulata – ela é filha de auxiliar de enfermagem negro e uma enfermeira branca descendente de ingleses e alemães. Como nos Estados Unidos considera-se que uma pessoa é negra se tiver um único negro entre seus tataravós, lá é tida como negra, e então sobre Halle Berry se diz que é “a primeira miss americana negra a disputar o título de Miss World” e “primeira atriz negra a ganhar um Oscar na categoria de melhor atriz” (por A Última Ceia/Monster’s Ball, 2001).

Frankie – este é o apelido da personagem central da história, forma carinhosa de abreviar Francine, o nome de batismo – parece ser uma das principais atrações da casa noturna. Ao sair de cena, aplaudidíssima, e chegar ao camarim, acende um cigarro de maconha, que fumará ao mesmo tempo em que bebe uns goles de uísque – mas não aceitará convite das colegas para um pozinho. Mais tarde, dirá, taxativamente, que não cheira nem injeta.

A uma colega mais jovem, menos à vontade na profissão de ganhar a vida exibindo o corpo e requebrando para a homarada babante, aconselha: finja que não é você que está ali. Finja que você está na platéia, vendo aquela outra pessoa dançar.

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Levada para um hospital, Frankie é atendida por um médico abnegado

Depois do trabalho, Frankie Murdoch sai de carro com umas quatro amigas – vão a outro bar, agora para elas mesmas se divertirem.

Em pouco tempo, estará aos amassos com um frequentador do bar, aparentemente um velho conhecido dela.

Vão para a casa dele, começam a tirar a roupa.

Mas acontece de Frankie pisar numa boneca de pano – e aí ela vira outra pessoa. Parece não reconhecer mais o companheiro de bar, com quem já estava envolvida nas preliminares.

Começa a falar como se estivesse recitando trechos bíblicos que condenam o sexo como algo sujo, pecaminoso.

Dá um golpe violento na cabeça do rapaz – e foge para a rua, seminua, tonta. A rua é movimentadíssima, carros passam por ela tirando casquinha. Ela se deixa cair no chão, bem no meio de um cruzamento. Chega a polícia, a recolhe, leva para um hospital.

E aí, por um desses milagres que de fato acontecem na vida – embora aconteçam com mais frequência em filmes de roteiristas não muito talentosos –, Frankie é atendida pelo melhor médico que poderia haver por ali, no plantão da madrugada exatamente daquele hospital.

O dr. Oswald é o papel desse bom ator, sempre regular, nunca tendo uma atuação ruim, seja em que tipo de filme for, Stellan Skarsgård.

Em vez de cuidar rapidamente daquela mulher e a despachar de volta para a rua, o dr. Oswald a examina detidamente. Interessa-se pelo caso de maneira profunda, irrevogável.

Ao levantar os registros médicos de Frankie em suas passagens anteriores por hospitais, o dr. Oswald vai se deparar com dados conflitantes, loucos. Uma vez ela foi determinada como destra, outra como canhota, outra como ambidestra. A cada passagem por um hospital, tinha um tipo de pressão sanguínea, cada uma diferente da outra.

Ele vai sacar: dentro da cabeça de Frankie, há diferentes pessoas, diferentes personalidades, criadas muito provavelmente a partir de um grande trauma de infância.

E vai descobrir qual foi o trauma.

E desde Freud a gente ouve esse papo, certo?, de que, identificada a origem do trauma, dá para avançar, melhorar, tratar, etc e tal, larari, larará.

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Um filme ambicioso, que trata de temas complexos. O roteiro foi reescrito várias vezes

É um filme ambicioso, ao querer tratar desses temas tão complexos. A sensação que tive foi de que os realizadores tiveram que simplificar, retirar nuances, detalhes, para tornar a história mais inteligível, mais palatável às audiências – e, com isso, o filme ficou simplista, facilitado, beirando o ingênuo. Esquemático.

Psiquiatria para iniciantes, em tom de filme de ação, de thriller.

Foi o que me pareceu.

Há um fato real que corrobora com minha tese de que foi uma história difícil de ser compactada para um filme de 101 minutos de duração. De que o filme no final padece desse sério problema, de ter um roteiro que começa ambicioso, amplo geral e irrestrito, e acaba beirando o esquemático.

O roteiro é assinado desta forma: Cheryl Edwards e Marko King & Mary King & Jonathan Watters e Joe Shrapnel & Anna Waterhouse.

Isso significa que primeiro Cheryl Edwards escreveu um roteiro. Que, em seguida, foi reescrito pelo trio Marko King & Mary King & Jonathan Watters. O símbolo & é usado pelo Sindicato de Roteiristas, o Writers Guild of Americano, para indicar trabalho associado, de duas ou mais pessoas trabalhando juntas. A preposição and, e, indica o contrário – indica que alguém ou outro grupo retomou o trabalho do roteirista anterior.

Então o trio Marko King & Mary King & Jonathan Watters reescreveu o que Cheryl Edwards havia escrito, e os produtores não consideraram que estava pronto.

E aí uma nova equipe, uma dupla, Joe Shrapnel & Anna Waterhouse, reescreveu tudo de novo. Fez um terceiro roteiro, que é o que foi filmado pelo diretor Geoffrey Sax. Isso é o os símbolos adotados pela Writers Guild indicam que aconteceu.

Além de muito bela, Halle Berry é sem dúvida uma boa atriz. Achei que ela está bem na maior parte das sequências do filme – em outras, no entanto, parece um tanto perdida, um tanto atônita.

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“Bem intencionado mas antiquado mistério médico”, diz Maltin

Nunca gosto de falar mal de um filme sozinho. Para elogiar, tudo bom, posso ser o único. O contrário não acho que seja bom. Transcrevo então o que diz Leonard Maltin em seu Movie Guide de 2015, o último que sairá em forma de livro:

“Confundida como uma drogada ferida, uma stripper na Los Angeles de 1973 vai atrás das raízes de seus alter egos escondidos com a ajuda de um psiquiatra (Skarsgard) que não se importa em ir contra algumas regras. Bem intencionado mas antiquado mistério médico que reescreve The Three Faces of Eve com uma surpreendente reviravolta racional enquanto desenterra um daqueles traumas que fraturam as psiquês. Fazendo os dois papéis do título e mais alguns, Halle está bem, mas este estudo da repressão baseado em fatos reais se transforma num manifesto de várias temas (oito roteiristas e nove produtores, Berry entre estes).”

Maltin deu 2 estrelas em 4, mas seu texto – maior e mais denso do que o normal – indica que ele deu importância ao filme.

As 3 Máscaras de Eva que Maltin cita é um clássico entre os dramas sobre psiquiatria/psicologia. Lançado em 1957, com roteiro e direção de Nunnally Johnson, tem a maravilhosa Joanne Woodward fazendo o papel de uma mulher vítima – como a Frankie deste filme aqui – da desordem de personalidade múltipla, como se chamava então a doença.

Como neste Frankie & Alice, The Three Faces of Eve se baseou num caso real, de uma mulher chamada Christine Costner Sizemore. A própria Christine escreveu dois livros sobre sua doença, I’m Eve, de 1977, e A Mind of My Own, de 1989. Essa Christine não deixava por menos: em I’m Eve, ela conta que dentro da sua cabeça havia 26 personalidades diferentes.

Credo em cruz.

Anotação em agosto de 2016

Frankie & Alice

De Geoffrey Sachs, Canadá, 2010

Com Halle Berry (Frankie), Stellan Skarsgård (dr. Oswald)

e Phylicia Rashad (Edna), Chandra Wilson (Maxine), Alex Diakun (Hal), Joanne Baron (enfermeira Susan Shaw), Brian Markinson (dr. Backman), Matt Frewer (Dr. Strassfield), Vanessa Morgan (Frankie aos 16 anos), Michayla McKenzie (Frankie aos 8 anos), Scott Lyster (Pete Prescott), Megan Charpentier (Paige Prescott aos 8 anos), Katharine Isabelle (Paige Prescott adulta), Rosalyn Coleman (Pearl), Sean Tyson (Rich Fat Cat), Melanie Papalia (Tina), Kira Clavell (Wanda), Joey Bothwell (Trish), Adrian Holmes (Cliff), James Kirk (Bobby)

Roteiro Cheryl Edwards e Marko King & Mary King & Jonathan Watters e Joe Shrapnel & Anna Waterhouse

Baseado em história escrita por Oscar Janiger & Philip Goldberg e Cheryl Edwards

Fotografia Newton Thomas Sigel

Música Andrew Lockington

Montagem David M. Richardson

Produção Access Motion Pictures, F & A Production Services, Reality Pictures In Motion.

Cor, 101 min

**

2 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 19 novembro 2016 às 2:37 pm | Permalink

    É, esse eu vou passar. Um roteiro escrito e depois reescrito por seis e ainda duas mãos, não poderia dar em grande coisa mesmo. Valeu a explicação da diferença em inglês entre o “e comercial” e a preposição “e”. Eu não fazia ideia.

    Lembrando que Joanne Woodward, maravilhosa mesmo, levou o Oscar de melhor atriz por “The Three Faces of Eve”.

    Se não é fácil lidar com a nossa própria cabeça mesmo tendo uma só personalidade, imagina com 26, não é mesmo? Se-nhor!

    É incrível essa coisa de nos EUA considerarem a pessoa negra se tiver um negro entre algum parente distante (ou se a pele for clara mas o cabelo cacheado, e por aí vai. É só reparar como Halle Berry usa o cabelo alisado na vida real, e no filme teve o cabelo encrespado). Eu fiquei besta de ver na última Olimpíada, as matérias americanas sobre a ginasta Laurie Hernandez (apesar de todos os louros merecidos para Simone Biles, ‘garrei amor foi na Laurie). Pois bem, mesmo ela sendo a segunda geração que nasceu já nos EUA, os jornais a chamavam de porto-riquenha, e não de descendente de porto-riquenhos, ou do mais sensato, de americana. Eu fiquei ‘abestaiada’. Se isso não é racismo, não sei o que é. Pior foi esses tempos em que fiquei sabendo que na Alemanha não basta nascer lá para ser considerado alemão; pelo menos um dos pais tem que ser alemão. Não importa se vai crescer, falar a língua, estudar, morar no país. É mole ou quer mais? E a gente ainda tem a ilusão de que o mundo evoluiu.

  2. MORY MARCIA LOBO
    Postado em 5 Março 2017 às 3:16 pm | Permalink

    Eu poderia jurar que esse filme foi baseado na pesquisa de Frntz Fanon, Pele negra mascaras brancas, para quem ja leu a obra fica evidente.No entanto de tudo que ja li sobre informaçoes do filme atė agora nenhuma linha ou qualquer menção sobre ele….. o curioso ė que as pesquisas deram se exatamente nos anos 50,
    Estranho nao??

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