Escola de Sereias / Bathing Beauty

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Nota: ★☆☆☆

Escola de Sereias, no original Bathing Beauty, é um horror, um pavor. É, seguramente, um dos filmes mais bobos, mais bocós de toda a História. Mas, como peça de museu, é uma absoluta preciosidade.

Fiquei pensando, enquanto via o filme: que Gilda, que nada! Nunca houve foi mulher como Esther Williams.

Esther Williams não chega a ser propriamente muito bonita. Verdade que tem belas pernas, embora não sejam absolutamente especiais, como as de Cyd Charisse ou Marlene Dietrich. Não era boa atriz, não tinha propriamente talento dramático – ou cômico. No entanto, foi uma estrela de primeiríssima grandeza, teve um sucesso monumental – e, por causa dela, apenas e tão somente por causa dela, Hollywood inventou um subgênero de filmes, que os americanos chamaram de aqua musical, o musical aquático.

Os coreógrafos tinham que inventar bailados dentro da piscina, com algumas dezenas de mulheres em nado sincronizado, em torno dela, a estrela, a atração principal.

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Esther Jane Williams (1921-2013), America’s Mermaid, a Sereia da América, começou a nadar bem cedo, e já na adolescência era um fenômeno do esporte. Foi campeã nacional de natação por três vezes. Trabalhava nos shows do grupo San Francisco Aquacade quando foi vista por um caçador de talentos da MGM. Fez seu primeiro filme, A Dupla Vida de Andy Hardy, ao lado de Mickey Rooney, em 1942. Este Escola de Sereias foi seu terceiro filme, o primeiro em que ela nadava

Era para ser um veículo para o comediante Red Skelton, então no auge da fama. Quando as filmagens começaram, o título do filme era Mr. CoEd. (CoEd, de coeducational, é termo usado para designar estudante mulher de colégios que normalmente não aceitam alunos dos dois sexos.) Mas os executivos da Metro ficaram tão impressionados com Esther Williams que mandaram ampliar o papel dela, e mudaram o título para Bathing Beauty, beleza banhista.

Quando a moda dos musicais aquáticos passou, tornou-se mulher de negócios

Ao longo dos 11 anos seguintes, Esther Williams nadaria em 18 filmes. Muitos dos títulos brasileiros são bastante óbvios: Ziegfeld Follies (1945), Numa Ilha com Você (1948), A Filha de Netuno (1949), A Bela Ditadora (1949), este com Frank Sinatra e Gene Kelly, A Sereia e o Sabido (1951), A Rainha do Mar (1952), Eva na Marinha (1952), Salve a Campeã (1953), A Favorita de Júpiter (1955).

O primeiro dos filmes de 1952, A Rainha do Mar, no original é Million Dollar Mermaid. Foi um dos epítetos pelos quais a estrela ficou conhecida – A Sereia de um Milhão de Dólares. É o título das páginas dedicadas a ela no belo livro Leading Ladies – The 50 Most Unforgettable Actresses of the Studio Era.

A MGM construiu especialmente para ela uma grande piscina, totalmente equipada, no estúdio 30. Desde este primeiro filme aqui, e ao longo de todos os 18, os diretores de fotografia tiveram que usar câmaras especiais, anfíbias, que, assim como a grande estrela, volta e meia mergulhavam nas águas da piscina.

Mas toda moda passa, e a moda de filmes com bailados aquáticos passou. Esther Williams até que tentou papéis dramáticos, como, por exemplo, em Na Voragem de uma Paixão (1956) e Diabos do Circo (1961), mas, a seco, não deu muito certo. Teve a sabedoria de, em vez de ficar dando murro em ponta de faca, se retirar de cena, e se retirou, em meados dos anos 60. Teria uma participação especial na coletânea de musicais da Metro That’s Entertainment! III, lançado em 1994, e apareceria em alguns especiais de TV, falando sobre o subgênero criado para ela e no qual não teve sucessora.

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Abandonou o cinema depois de La Fuente Mágica (1963), dirigida por seu então marido Fernando Lamas (o terceiro de quatro), mas não se aposentou. Como Joan Crawford, que se tornou executiva da Coca-Cola, Esther Williams virou mulher de negócios – e para este papel teve grande talento, tendo lançado diversas coleções de maiôs com sua própria grife.

De fato, nunca houve mulher como Esther Williams.

14 ou 16 mãos trabalharam para criar a história – e mal conseguiram

Argumento e roteiro de Escola de Sereias/Bathing Beauty levam a assinatura nada menos de sete pessoas, algo que não é nada comum no cinema de Hollywood. A história é creditada a Kenneth Earl& M.M. Musselman    e Curtis Kenyon. Joseph Schrank fez a adaptação. E o roteiro é assinado por Dorothy Kingsley & Allen Boretz e Frank Waldman. Segundo o IMDb, um oitavo escritor, George Oppenheimer, também trabalhou no roteiro, embora seu nome não conste nos créditos.

Sete ou oito cérebros, 14 ou 16 mãos – e o que saiu dali dificilmente pode ser considerado uma história, uma trama. É apenas um fiapinho de história – terrivelmente boba, sonsa – que mal e mal serve para juntar os diversos esquetes, quadros, de que é feito o filme.

É isso: o filme é uma junção de esquetes, quadros, pequenos episódios – sendo que vários deles são números musicais. O filme tem Harry James e sua orquestra em vários (e ótimos) números musicais, o ótimo Xavier Cugat e sua orquestra, o barítono venezuelano Carlos Ramirez – todos eles são personagens da história, interpretando a si mesmos. Há ainda uma tecladista que devia certamente ser famosa na época, Ethel Smith, interpretando uma tecladista e professora de música chamada exatamente Ethel Smith.

zzesther5Uma das muitas delícias desta fantástica peça de museu é o fato de apresentar diversas músicas latino-americanas. Impressionante como, naquela época, meados dos anos 40, faziam sucesso nos Estados Unidos os ritmos latino-americanos. Assim, temos, por exemplo:

* “Te quiero dijiste”, com Carlos Ramírez e a orquestra de Xavier Cugat;

* “Bim, Bam, Bum”, com Lina Romay e a orquestra de Xavier Cugat;

* “Alma llanera”, com Lina Romay e a orquestra de Xavier Cugat;

* “Mucho Mucho Mucho”, com Luís Mariano;

E, lá pelas tantas, a tecladista Ethel Smith ataca de “Tico-tico no fubá”, de Zequinha de Abreu!

É uma absoluta delícia ver aquele bando de americanas se divertindo ao tocar e ouvir a melodia brasileiríssima.

Aliás, bem na abertura do filme surge uma cantora – acompanhada por Xavier Cugat – fazendo o que me pareceu uma imitação de Carmen Miranda. Em 1944, Carmen já havia feito vários filmes em Hollywood, era um grande sucesso.

Mocinho e mocinha vão se casar – mas uma mentira estraga tudo

Red Skelton (1913-1997) faz o papel de Steve Elliot, um compositor famoso, requisitadíssimo, autor de sucessos nos musicais da Broadway. Seu grande amigo, o produtor de teatro George Adams, encomenda a ele as músicas para um novo espetáculo, mas Steve viaja para a ensolarada Califórnia, e lá encontra Caroline Brooks (o papel de Esther Williams) – e apaixona-se perdidamente por ela.

Caroline é professora de natação em um grande colégio para moças de New Jersey; passava férias na Califórnia. Corresponde à paixão de Steve, e marcam o casamento.

Mas George Adams, o produtor, está convencido de que, casando-se com a bela e atlética Caroline, Steve negligenciará seus deveres de compositor. Por isso, resolve interferir: contrata uma aspirante a cantora e atriz, Maria Dorango (Jacqueline Dalya), para irromper na cerimônia de casamento com três garotinhos ruivos como Steve, dizendo que são filhos dele.

zzesther6Caroline acredita na história boba e frouxa, promete a si mesma que anulará o casamento e volta para a rígida escola de moças.

Isso acontece nos primeiros 10, 15 minutos de filme. Ao longo de todo o resto, Steve tentará entrar para o colégio de moças e reconquistar o coração de Caroline.

Esther Williams nada e dança na piscina no inicinho e na longa sequência final. Entre uma piscina e outra, temos diversos esquetes – a maior parte deles musicais, mas outros apenas de piadas um tanto bocós, com Red Skelton no centro da ação.

Red Skelton foi um nome gigantesco no show business americano. Entre 1951 e 1971, seu The Red Skelton Show foi um grande sucesso na TV americana, primeiro na NBC, depois na CBS. Eu, pessoalmente, não acho muita graça nele – mas há uma sequência bem interessante, em que ele se veste de mulher.

Era, repito, 1944, 15 anos antes de Billy Wilder botar Tony Curtis e Jack Lemmon travestidos de mulher na obra-prima Quanto Mais Quente Melhor/Some Like it Hot, de 1959.

Não que Red Skelton tenha sido o primeiro ator americano a aparecer vestido de mulher. Se não estou enganado, e posso perfeitamente estar, esse título cabe a Cary Grant, que aparece com um roupão feminino, cheio de babados, em Levada da Breca/Bringing Up Baby, a comédia mais doida que já foi feita, perpetrada por Howard Hawks em 1938.

Mas, mesmo sem ter sido o primeiro ator a aparecer travestido, Red Skelton se mostra um sujeito corajoso. E a sequência – é preciso admitir – é engraçada.

Deixei para mencionar depois o nome do ator que faz o papel de George Adams, o produtor musical que, ao atrapalhar o casamento da dupla principal, dá o mote para que a história exista – se é que se pode dizer que isso é uma história.

É Basil Rathbone (1892-1967), o ator nascido na África do Sul que, entre 1939 e 1946, interpretou Sherlock Holmes em uma série de 14 filmes. Para muita gente, ele foi o melhor, mais perfeito, mais marcante Sherlock Holmes do cinema. Ao ver este Escola de Sereias, me peguei algumas vezes perguntando para mim mesmo o que é que, afinal de contas, Sherlock Holmes estava fazendo ali no meio do primeiro musical aquático da História.

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“Roteiro bobo, mas com um final aquático espetacular”

Leonard Maltin deu ao filme 2.5 estrelas em 5: “Primeiro filme de Esther como estrela dá o centro do palco para Skelton e astros da música convidados na maior parte do tempo, mas tem um final aquático espetacular. Roteiro bobo, papel sem importância para Rathbone.”

Pô: concordo com tudo o que Maltin disse. Excelente resumo da obra.

Pauline Kael diz que Esther Williams, que parecia mais garotinha até mesmo do que Doris Day, tinha uma contribuição a dar aos filmes – seu maravilhoso corpo atlético –, e por dez anos a MGM fez tudo por ele, mostrando-a de maiô e esperando que a audiência sentisse arrepios. “Esta primeira extravaganza estrelada por ela é simples comparada a seus mergulhos posteriores: tem Red Skelton e uma trama boba sobre um homem num colégio de moças.”

Até que pegou leve dessa vez, a dona Kael.

Este Escola de Sereias estava disponível no Now da Net em novembro de 2015, assim como A Filha de Netuno, que também tem no elenco Red Skelton e Xavier Cugat. Soube disso porque, ao nos visitar por alguns dias, Dona Lúcia, a mãe de Mary, disse que tinha vontade de ver algum filme de Esther Williams, e imaginou que talvez eu tivesse algum na minha coleção de DVDs. Como entre meus muitos DVDs de filmes antigos não há nenhum com a atriz, fomos checar – e lá estavam esses dois. Achei que seria uma excelente oportunidade de ter aqui no 50 Anos de Filmes uma peça de museu com a sereia. Agora aí está, graças à Dona Lúcia.

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Anotação em novembro de 2015

Escola de Sereias/Bathing Beauty

De George Sidney, EUA, 1944

Com Red Skelton (Steve Elliot), Esther Williams (Caroline Brooks)

e Basil Rathbone (George Adams), Xavier Cugat (ele mesmo), Harry James (ele mesmo), Carlos Ramirez (ele mesmo), Ethel Smith (ela mesma, a tecladista e professora de música), Bill Goodwin (Professor Willis Evans), Jean Porter (Jean Allenwood), Nana Bryant (reitora Clinton), Lina Romay (ela mesma), Helen Forrest (ela mesma), Donald Meek (Chester Klazenfrantz), Jacqueline Dalya (Maria Dorango), Francis Pierlot (Professor Hendricks), Ann Codee (Mme. Zarka), Margaret Dumont (Mrs. Allenwood)

Roteiro Dorothy Kingsley & Allen Boretz         e Frank Waldman

Baseado em história de Kenneth Earl & M.M. Musselman e Curtis Kenyon

Adaptação Joseph Schrank

Fotografia Harry Stradling

Música Daniele Amfitheatrof e Johnnny Green

Montagem Blanche Sewell

Produção Jack Cummings, Metro-Goldwyn-Mayer.

Cor, 101 min

*

 

5 Comentários

  1. Miguel
    Postado em 7 Março 2016 às 4:28 pm | Permalink

    Boa resenha e sem dúvida que concordo com o que o Sérgio disse, embora eu goste do filme. Não se pode pensar que Bathing Beauty é uma grande obra em termos de argumento. A história é boba e é terrivelmente interrompida pelos números musicais horrorosos. De qualquer forma, o filme é um marco importante na história do cinema or dar inicio aos aqua musicais. Esther Williams não tinha grande talento (ela iria melhorar com o passar dos naos: em million Dollar Mermaid está bem melhor) nem uma beleza avassaladora (se bem que tem u sorriso lindíssimo), mas como resistir à cena de abertura com ela de rosa nadando na água azul? Um filme divertido, bom para ver nas férias de verão e com um número final espetacular ao som de Strauss. Uma das minhas estrelas preferidas que disse coisas suculentas na sua autobiografia que ainda n tive a sorte de ler

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 7 Março 2016 às 4:41 pm | Permalink

    Muito bom comentário, como sempre, caro Miguel! Obrigado!
    Sérgio

  3. Senhorita
    Postado em 7 Março 2016 às 4:56 pm | Permalink

    Esther era maravilhosa, formava um lindo casal com Ricardo Montalban e um excelente trio com Tom e Jerry 🙂

  4. Lucia
    Postado em 8 Março 2016 às 3:57 pm | Permalink

    O melhor de tudo foi (re) assistir o filme acompanhada por dois queridos, né Sérgio?Adorei. Bjs.

  5. Jussara
    Postado em 2 Maio 2016 às 9:01 pm | Permalink

    Pelo seu texto o filme parece mesmo uma peça de museu. Com Esther Williams só vi “Take Me Out to the Ball Game”, por um motivo óbvio chamado Gene Kelly. E o pouco que sei sobre ela diz respeito a esse filme. Tá, não vou me delongar. Hum, quer dizer, não muito. Contam que ela era insuportável, e que nem Kelly nem Sinatra se deram bem com ela durante as filmagens, muito menos Stanley Donen, que a detestou ainda mais (na época de TMOTTBG, ele ainda era assistente de coreografia de Gene).
    Parece que ela envelheceu e se tornou uma pessoa amarga, pois falou mal de todo mundo na sua autobiografia, e também não poupou Gene Kelly, but who cares? Quem leu o livro disse que sobre Kelly ela falou que ele era inconveniente, sarcástico e convencido, “um tirano por trás das câmeras”. E que sua vida durante as filmagens foi de “pure misery”, alegando que Kelly e Donen a tratavam com desdém e não perdiam a chance de fazer piadas sobre ela. Sério, se isso é tudo o que ela tem a dizer sobre os dois, apenas me faz rir (dizem que os apontamentos dela sobre eles são hilários, mas que é preciso ter estômago pra ler). Só sei que ela teve que se retratar pelo o que escreveu sobre Jeff Chandler.
    Quem viu suas entrevistas conta que ela nunca tinha nada de bom a dizer sobre ninguém, e era uma pessoa desagradável.
    Pelo menos concordamos que ela não era boa atriz, se é que pode ser considerada uma, e eu também não vejo beleza ali (dentes feios, curtos na frente). Hollywood sempre soube levar quem bem quis ao estrelato, ainda que a pessoa fosse desprovida de talento.
    Last but not least: li que Stanley Donen deu uma entrevista anos atrás num canal de TV a cabo, e fez comentários sarcásticos sobre as habilidades dela, mesmo depois de transcorrido tanto tempo; e a cada comentário o público dava risada. Provavelmente ele fez isso por causa das coisas que ela escreveu no livro. Aqui se faz, aqui se paga…

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