Ela Queria Riquezas / Rings on Her Fingers

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Nota: ★½☆☆

O diretor, Rouben Mamoulian, é respeitável. No elenco estão o impecável Henry Fonda, a fantástica, apaixonantemente bela Gene Tierney, aos 22 aninhos de idade, mais a simpatia de Spring Byington, num papel diferente do que era o seu padrão. Produção da Fox em 1942, Hollywood da época dourada.

Pois é. E, no entanto, este Rings on Her Fingers, no Brasil Ela Queria Riquezas, é uma imensa bobagem. A trama não se segura de pé, e tem mais furos que um queijo suíço ou que Bonnie e Clyde após serem fuzilados milhares de vezes no final do grande filme de Arthur Penn.

A rigor, a rigor, não é um filme que defenda idéias, princípios ruins. Ao contrário. A moral da história é muito boa – é aquela grande verdade básica de que o dinheiro não é e não deve ser a meta na vida, e o bom mesmo é a felicidade, o amor.

O problema é que, para chegar até essa moral, a fábula percorre caminhos perigosos. E tropeça, e falha, e cai umas trocentas vezes.

Um homem e uma mulher que parecem ser milionários – mas são golpistas

A narrativa começa numa loja extremamente chique de roupas para mulheres ricas, extremamente ricas, em Manhattan, o umbigo do mundo capitalista naquele ano de 1942 em que o filme foi feito assim como hoje, muito mais de meio século depois.

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Susan Miller (o personagem de Gene Tierney) é uma das vendedoras da loja – e ela, assim como a mulher que veio depois de Amélia na vida do narrador do velho samba, só pensa em luxo e riqueza. Conversando com a colega, entre o atendimento a uma cliente e outra, consegue sintetizar em uma frase a frustração que sente na vida:

– “Acho que nascemos do lado errado do balcão.”

Mas logo chegam à loja um homem e uma mulher de meia idade, com todo jeitão de milionários. Chamam-se Warren (Laird Cregar) e Maybelle Worthington (a simpática Spring Byington, que em geral fazia o papel de mãe de família simpática, trabalhadora, esforçada, perfeita). Os dois ficam de imediato fascinados com a beleza de Susan.

Estavam ali para comprar roupas para Lilian – que dizem ser sua sobrinha – usar na festa daquela noite. Mas Warren acabou de ser informado de que Lilian havia abandonado a dupla, se casado e dado no pé.

E então resolvem convidar a linda vendedora para ir à festa com as roupas finas compradas na loja, no lugar de Lilian.

zzrings3 - 500Há então um corte no tempo. Não se mostra a festa – pula-se para o dia seguinte. Um mensageiro entrega a Susan um envelope enviado por Warren e May, contendo uma nota de US$ 100, algo que a garota jamais havia visto na vida. Susan vai até a casa dos dois, a princípio querendo devolver o presente. Dá-se então o seguinte diálogo:

Susan: – “Me digam, vocês são mesmo milionários?”

Warren (depois de ele e May caírem na gargalhada): – “Por quê?”

Susan: – “Bem, parece que está faltando alguma coisa.”

May: – “Só os milhões – uma questão de tecnicalidade.”

Warren: – “Sabe, a natureza brincou conosco: nós deveríamos ter nascido com sangue azul, e então devotamos nossa vida a corrigir esse erro biológico.”

Susan: – “O que vocês fazem? Se não são milionários, o que vocês são?”

May: – “Bem, somos uma espécie de excesso de taxa de juros. Criticar-nos seria uma atitude anti-americana.”

Warren: – “Somos meras abelhas que pegam um pouco de néctar das flores que têm tanto. E você também pode ter um pouco.”

O golpista consegue vender para o protagonista um iate que não era dele

Em suma: Warren e May são bandidos, golpistas. Posam de milionários para andar entre milionários e dar neles golpes, usando como atrativo, como isca, uma jovem extremamente bela, como era Lilian, e como agora propõem que seja Susan.

Exatamente de que forma aplicam os golpes, isso o filme não explicita. Mostra-se que procuram arranjar para a moça linda um casamento milionário – mas se, enquanto o casório não acontece, eles cafetinam a moça em troca de muita grana, isso a gente não fica sabendo. Nem ficaria mesmo sabendo, numa produção hollywoodiana de 1942, com o Código Hays de autocensura dos estúdios ainda em pleno vigor.

O fato é que, logo depois desse diálogo que o IMDb transcreveu, e eu peguei dele, vão surgindo aquelas imagens de etiquetas de hotéis e navios que eram coladas às malas: Warren, a sra. Maybelle Worthington e sua filha Linda Worthington – o novo nome de Susan – andaram viajando por Havana, Rio de Janeiro, Hamilton nas Bermudas, Cidade do México.

zzrings6 - 500E, com dez minutos de filme, estão na praia em Palm Beach, Califórnia. May está sentada em uma cadeira de praia, debaixo de um guarda-sol, e a ex-Susan-agora-Linda está deitada, de maiô, numa toalha estendida na areia. E tenho que confessar que só por essa sequência – de resto boba como todo o filme – em que vemos a jovem Gene Tierney de maiô já vale a pena ver este Rings on Her Fingers.

May diz uma bela frase. Reclama que, dali, vendo os homens no mar, fica difícil reconhecer quem é milionário:

– “Sem roupa, todos os homens parecem bem financeiramente.”

Um funcionário do hotel, carregando um telefone, e parado exatamente ao lado de May, grita pelo sr. Wheeler. Um jovem senhor se identifica, sai do mar, vem atender ao telefone – Henry Fonda estava, na época, com 37 anos, mas parecia ter uns 30. Danado de bonito, o pai de Jane e Peter, avô de Bridget.

O sr. Wheeler atende ao telefonema de uma pessoa interessada em lhe vender um barco, um pequeno iate. O iate está ancorado no mar, bem na frente do hotel, a algumas dezenas de metros da praia. Wheeler vai fazendo perguntas sobre o barco, e olhando para ele. Só que, entre ele e o barco há um avião, perdão, há aquela Gene Tierney toda – e ela se vira para um lado, se vira para outro, deita de costas, de bruços, balança o pezinho no ar.

O vigarista Warren então bola um plano para vender para Wheeler, por US$ 15 mil, pagos em dinheiro, um iate… que, evidentemente, não pertence a ele. Assim que percebe o golpe – e percebe o golpe de imediato –, Wheeler vai à polícia, tenta descrever o homem que o roubou. Prometem que vão tentar encontrá-lo.

O trio de vigaristas sai às pressas de Palm Beach, Warren e May felizes com o golpe bem sucedido. Já Susan-Linda não está nada bem. Sente culpa, remorso – e o espectador percebe que ela tinha ficado bastante encantadinha com o homem que ajudou a roubar.

O sujeito roubado não é o milionário que parecia ser. Era um trabalhador com um salário razoável, e os US$ 15 mil que entrega ao vigarista era tudo que ele havia conseguido juntar na vida.

Gene Tierney interpreta muito bem a moça pobre que aprende bons modos

O que vem a partir daí é cada vez mais bobo, mais sem sentido, e cada vez com mais furos. Acho que não seria spoiler dizer que a mocinha que odiava o mundo por estar do lado errado do balcão, que só pensava em luxo e riqueza, e virou comparsa de uma dupla de vigaristas, rapidamente resolve voltar à vida honesta e dura, pobre, quebrada, sem grana.

É, de fato, uma trama danada de boba. Mas, ao rever o inicinho do filme para checar uns detalhes para não cometer erros nesta anotação, notei com mais clareza uma coisa que já havia percebido quando vi o filme inteiro.

zzrings7 - 500É o seguinte: é sensacional a transformação por que passa a personagem de Gene Tierney entre a sua existência como Susan, a garotinha pobre criada no Brooklyn que era ruim na escola e, vendedora em loja chique, morria de inveja dos ricos, e a moça que se passa por filha de uma milionária, e que vemos pela primeira vez na tal sequência em Palm Beach.

Susan fala gírias e expressões populares (no segundo encontro dela com May mostrado no filme, ela fala “Gee”, interjeição próxima da caramba, putz, e May diz para ela não usar aquela palavra nunca). Masca chickete abrindo bem a boca. Faz gestos estabanados. Pensando bem, como conseguiu aquele emprego numa loja muito chique de Manhattan?

Pois é. Mais um furo de um roteiro cheio de furos.

Que ela reapareça já bem diferente, no modo de falar, de andar, de gesticular não deve necessariamente ser definido como furo, porque a dupla de vigaristas pode ter, naquelas viagens deles pelas Américas e Caribe, aplicado um curso intensivo de Professor Henry Higgins em cima dessa Eliza Doolittle.

Mas o que é fascinante é que, tão absolutamente jovem, aos ridículos 22 anos de idade, essa moça de beleza estonteante (e que teria uma vida mais trágica do que a de todas as suas personagens) consegue interpretar maravilhosamente a moça pobre que vira fina e chique. Claro, o fato de o diretor ser Reuben Mamoulian ajuda muito, mas a verdade é que a interpretação de Gene Tierney nesta comedinha bocó já demonstra seu talento.

Três anos mais tarde, em 1945, ela estrelaria Laura, um dos clássicos mais adorados do cinema americano. E,    vinte anos depois deste Rings on Her Fingers, em 1962, Gene Tierney e Henry Fonda voltariam a estar juntos no elenco de um filme, o ótimo drama político Tempestade Sobre Washington/Advise & Consent, realizado por Otto Preminger, o mesmo diretor de Laura. Foi um dos últimos filmes da carreira de Gene Tierney, e a sensação que sempre tive foi de que Preminger deu um papel a ela um tanto para ajudá-la.

(No meu texto sobre Laura, faço um resumo das muitas tragédias que se abateram sobre essa mulher de beleza incomparável.)

Maltin diz que o filme é uma tentativa de repetir do sucesso de The Lady Eve

zzrings9Leonard Maltin deu 2.5 estrelas em 4 ao filme, e escreveu sobre ele uma única frase: “Vigarista Tierney se apaixona por Fonda em vez de depená-lo; romance padrão com bom elenco na esperança de repetir o sucesso que Fonda teve com The Lady Eve”.

The Lady Eve no Brasil teve o título de As Três Noites de Eva, e foi lançado em 1941, um ano antes deste Rings on Her Fingers. O diretor é o grande Preston Sturges, e dele a sempre cricri Pauline Kael disse o seguinte: “Barbara Stanwyck estica sua perna sensacional, e Henry Fonda tropeça nela. Ela é uma vigarista profissional do baralho, e ele um cientista milionário que entende mais de cobras do que de mulheres; nenhum dos dois jamais esteve tão engraçado”.

Um dia preciso rever The Lady Eve. Quando vi pela primeira vez, em 2000, não entrei em sintonia com o filme, achei bobo demais.

Mas este Rings on Her Fingers não preciso rever. É, sem dúvida alguma, bobo demais. E além disso, pelo que mostram Maltin e Pauline Kael, cópia da idéia do outro filme.

Anotação em dezembro de 2015

Ela Queria Riquezas/Rings on Her Fingers

De Rouben Mamoulian, EUA, 1942

Com Gene Tierney (Susan Miller / Linda Worthington), Henry Fonda (John Wheeler),

e Spring Byington (Mrs. Maybelle Worthington), Laird Cregar (Warren), Shepperd Strudwick (Tod Fenwick). Frank Orth (Kellogg), Henry Stephenson (Coronel Harry Prentiss), Marjorie Gateson (Mrs. Fenwick), George Lessey (Fenwick Sr.), Iris Adrian (Peggy),

Roteiro Ken Englund

Baseado em história de Robert Pirosh e Joseph Schrank

Adaptação Emeric Pressburger

Fotografia George Barnes

Música Cyril J. Mockridge e Leigh Harline

Montagem Barbara McLean

Produção 20th Century Fox. DVD Colecione Clássicos.

P&B, 86 min

*1/2

Título em Portugal: Dedos Sem Anéis.

2 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 22 Abril 2016 às 9:59 am | Permalink

    Esse Henry era tão fonda quanto a frase “Mais cheio de buracos que Bonnie e Clyde no final do filme do Arthur Penn”. Frase brilhante, pena que eu não tenha com quem usar rsrsrsrs

  2. Carla
    Postado em 5 Fevereiro 2017 às 6:42 am | Permalink

    Ontem eu assisti dois filmes com Henry Fonda que nunca tinha visto, este e “Bloqueio” de 1938, onde ele contracena com Madeleine Carroll. Acredite-me, esse aqui é fichinha perto daquele; “Ela queria riquezas” é ruim, apesar da dupla bacana de atores; mas “Bloqueio” precisa melhorar muito pra ficar ruim. Argh!

2 Trackbacks

  1. […] felicidades cercaram a produção do filme. Consta que o estúdio programou para Gene Tierney o papel de Katie Nolan. Mas a atriz ficou grávida, e o papel acabou indo para Dorothy McGuire. […]

  2. […] final dos anos 60, em parceria com os colegas Henry Fonda e Robert Ryan, criou uma companhia teatral em Nova York, a Plumstead Playhouse, depois chamada […]

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